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Sistermoonshine

2 Contos editados

 

- Um Anjo na Penumbra

- O Trapezista

 

 

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Um anjo na penumbra

O poeta dobrado sobre o peso das letras que o inundam, que lhe inundam os olhos, o coração, a boca, o cérebro - cérebro? que órgão tão pouco poético! As palavras que lhe fluem pela caneta incerta, roída na ponta dos dias em que lhe não navegam com tanta firmeza. Os olhos são já feridos e distantes, que o seu olhar profuso e vasto abrange tanto mundo que há vezes em que chega a deixar-se perder no próprio peso do que vê. Tudo porque o que vê lhe toca a alma e ele se deixa embaraçar pelo que sente e cada poema é uma dor, cada dor um lamento, cada lamento um grito e cada grito uma nota musical que pinta a tela da pauta que escreve sózinho.

O poeta que é louco - sabemos todos - que a loucura sempre acompanha os que se deixam enlear pelas palavras e todos os poetas são, por isso, loucos...

Ela olhou-o. Firmou-se nos olhos porque eram olhos tristes e profundos. Não soube bem o que foi que a fez prender naquele olhar mas ficou nele presa. Mas eu, que omniscientemente domino o que escrevo, sei que foi apenas aquele leito de sentimentos que se anicham nos olhos dele, aqueles olhos de cachorro - entre o atento e o assustado - aquele olhar que lhe parecia sempre olhar mais longe e através dela, que se fixavam sem se estagnarem, aquele olhar que era como se o horizonte fosse mais longínquo do que aquela linha que ela conseguia divisar e que cindia o céu do mar. Era um olhar que se perdia..., que a perdia...Ai se ela se deixasse perder...

Tudo na vida se pressente pelo olhar. Infeliz o que não vê os olhares e mais infeliz aquele que os não pressente. Miserável o que não possui olhar...aquele que não tem olhos porque não os usa...

Era assim o professor de piano, debruçado sobre a partitura no colo, os dedos da mão direita apoiados nos joelhos escrevendo e os da mão esquerda percorrendo lentamente o teclado. Ela olhava-o, porque na força dos olhares, o dela perdia-se nele... Perdia-se a olhar-lhe as mãos acariciando o teclado, doces, enquanto sonhava a humidade dos dedos dele a percorrer-lhe o corpo como se fosse ela o piano e dela ele quisesse extrair às cordas o som desejado, inventado, que a sua ideia de poeta fez criar do nada.

Do nada não! Permitam-me a interrupção, que os sons não surgem do nada, nem as palavras vãs dos poetas, nem os traços toscos dos pintores... Não, que o acto da criação não surge do nada, vem outra vez daquela história dos olhares, os que se cruzam, os que se escondem, os que se devanecem... São fruto dos olhares porque só eles são verdade e a verdade não se diz...sente-se!

E ela sentia o seu vazio a encher-se nele, logo nele... o pobre professor de piano, a barba por fazer, o cabelo a escassear esvoaçando ao balouçar do seu corpo arquejando sobre o piano seu companheiro... Logo o professor de piano que vendia aulas sossegando o sonho de ser solista de orquestra e maestro do seu próprio destino.

Ela tão só, entre todos os alunos, os olhos fitos nas mãos do professor como quem via nele um anjo breve que a salvasse da mediocridade de não saber sonhar ou sonhar pouco de mais... Logo a ele, o pobre professor de piano que sonegava o sonho vendendo a arte ao domicilio, lhe calhou ser o arauto inesperado, o anjo saído da penumbra, o vendedor de sonhos no solfejo dos olhares...

Sister

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O Trapezista

 

Tinha corpo de atleta - o trapezista - balouçando-se no trapézio, agora numa mão, agora na outra, soltando-se, agarrando-se, voava com rede, sem rede, de arame em arame, de salto em salto. O corpo moldado pelo apertado fato de licra, mostrando o desenho dos músculos tensos, ora numa mão, ora na outra, mais uma acrobacia, uma cambalhota no ar....

Soltava-se no trapézio, agora preso num só pé, agora no outro, de cabeça para baixo, sempre sorridente, nunca perdendo a compostura.

O trapezista fazia do balanço o seu modo de ser...

No outro trapézio a sua "partenaire" que ele cingia pela cintura estreita ao trocarem de trapézios - o seu corpo de adolescente em curva e contra-curva a escorregar-lhe entre a maciez dos dedos. E os dois corpos agora juntos as costas dela contra o seu peito, as coxas contra as coxas, e nos dois o sorriso rasgado ao som de aplauso eufórico do público atento, de cabeças erguidas para os verem no ar.

"Senhoras e senhores" - grito rouco do mestre-de-cerimónias, embonecado em smoking e laço, lá no fundo, na pista, longe das cambalhotas esfuziantes do céu que o trapezista rasgava - "senhoras e senhores" - repetia - "agora o salto mortal, e sem rede, minhas senhoras e meus senhores!"

E o trapezista saltou, rodopiou no ar, sentiu-se pássaro, fez-se sonho, deixou-se voar por aquele céu de lona azul com estrelas brancas nele desenhadas, aterrou com o ângulo dos pés presos no outro trapézio, agilmente saltando de regresso aos braços da sua companheira de acrobacias aéreas, a sentir dela o toque quente, o perfume fresco, a certeza de que ainda vivia e que aquele poiso a que o seu corpo de pássaro inseguro tinha aportado era firme, já sem o risco do salto.

O sorriso no seu rosto, ao sentir de novo a adrenalina da antecipação de um novo salto..."agora mais perigoso ainda, minhas senhoras e meus senhores, triplo salto mortal com loop e sem rede, estimavel público, sem rede!"

E o atleta, de músculos firmes, corpo tenso, o sorriso nos lábios e nos olhos cor-de-amêndoa, a encher de ar o peito e a soltar-se mais uma vez, o corpo solto de pássaro esvoaçante pelo ar, uma cambalhota e outra e outra, sem mãos, sem pés, sem rede... agora o seu corpo sereno a enrolar-se para se estender depois, não como uma verdadeire ave mas como uma pena dela caída, entregue aos desvarios do vento, a agilidade das suas formas sob olhar boquiaberto do público em apneia... Fez o triplo salto, rodopiou mais uma vez e mais outra e outra ainda, deixou escapar o trapézio, sentiu-se verdadeiramente pássaro - sim, fez pássaro de si! Fez dele o sonho, catapultado na aventura, sentiu-se dono de si, o dono até do mundo! Rodopiou outra e outra vez - soltou-se de si, dos medos, do mundo, o seu corpo feito anjo desfilou na vertical, sob o olhar atento do público, do mestre de cerimónias, da trapezista, das feras, dos palhaços, dos mágicos, da mulher-barbuda, dos anões e estropiados, dos meus olhos de azul sereno...

E a voz mortiça ainda me acoa nos ouvidos "sem rede, estimável público! Sem rede..."

 

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