Índice

 

 

Sapho

10 Contos editados

 

- A Cidade do Vento

- A Estrela Cadente

- A Noite dos Espantalhos

- A Turqueza Azul

- Adormecer no esquecimento

- Nas asa da Poesia

- Natal de flores 26/05/01

- Sabor a ser

07/06/01

- O Tocador de Flauta

- Quando chega o amanhecer

 

- Página Inicial

- Contos

 

 

 

O Silêncio do Tempo

José Alves

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A Cidade Do Vento

 

O vento corria desdenhoso e violento, acometido de fúria incontida e desapego afectivo. As águas do rio enchiam-se de vagas frementes e incontroladas, dando-lhe um aspecto irreal de mar comprimido por margens. As árvores curvavam-se como se vida as tivesse derrubado com a força das amarguras, quais seres para quem a existência demorada requebrara os ossos, que o tempo descompadecido e prepotente fragilizara.

Os vidros das janelas batiam como corações descompassados deixando que o vento perpassasse as suas frestas e penetrasse nas casas, alagando-as de um frio entranhado. A atmosfera esvaziava-se de ar e enchia-se de vento, toda ela compacta como uma pepita maciça, de uma solidez consistente e incontornável.

As pessoas avançavam ligeiras, empurradas pela manigância da ventania, vacilantes e levadiças como se asas repentinas as fizessem adejar e planar em voo insuspeitado.

E o vento continuava, alheio, desenfreado, em rodopios e viravoltas, livre e solto, num mirabolante espectáculo de trapezista destemido e experiente.

Beatriz estava sentada numa pedra redonda e luzidia que elegia sempre que as suas fantasias de menina lhe invadiam a mente e a alma. Esquecida de si e de todos, enveredava por histórias lendárias que a projectavam num mundo irreal e imaginário, onde a vida era vida e o sonho tomava contornos de realidade desejada.

Dali, daquele lugar alto, qual acrópole, era dona do mundo que abarcava e guardava-o como uma pedra preciosa que, ciosamente, metia todo inteiro no seu peito. E transformava-o à sua medida, dando-lhe contornos mais límpidos, varrendo o seu interior de seres agonizantes e almas estropiadas, até ele ficar pleno de vida como um carrilhão, cujos sinos afinados despojam a sua música luxuriante numa cantata eterna.

E Beatriz escrevia no seu coração, com letras de sangue e de plenitude, o alfarrábio do mundo, que o sonho não conhece limites e se supera a si próprio quando é abarcado pelo querer.

Sentia o vento forte, imperioso, que a perpassava, e tomava-lhe o gosto, o paladar de flores e de céu que trazia consigo. Gostava do vento, percebia-lhe as intenções, entregava-se a ele.

Os seus cabelos dançavam em ritmo estonteante e batiam-lhe nos olhos, que cobriam como uma cortina de cassa, vislumbrando apenas tirinhas de mundo, como um puzzle que gostava de refazer. Estendeu os braços, abriu os dedos das suas mãos pequenas e o vento entrou neles, e fez casa no seu peito, ali aninhado como um filho no útero materno.

E Beatriz ria, e volteava, e rodopiava, companheira da dança do vento, livre e feliz, com inefável prazer. E entabulava conversas com ele, e este contava-lhe as histórias trazidas de longe, de países estranhos e mágicos, de gente de todas as raças, de povos diferentes...

Então, Beatriz encheu o regaço de histórias, entrançou-as umas nas outras para que não se escapulissem e construiu com elas uma estátua de vida. Apertou-a cuidadosamente no seu colo de criança e desceu a encosta, com passos leves de algodão macio. Foi colocá-la mesmo no centro da cidade, para que todos a pudessem ver e tocar com dedos de neve e arrancar um bocado de vida, para encherem com ela as suas próprias existências.

Agora, quando o vento chegava àquela cidade já ninguém fechava as janelas e deixava-o entrar, para que as casas ficassem também repletas dos mundos mágicos que ele trazia consigo. E as pessoas vinham para a rua e dançavam também a dança do vento, em roda larga, defronte da estátua da vida.

A vida, essa, continuou no seu intemporal e constante fluir, distribuindo-se abundantemente pelos seres que a agarravam sofregamente.E a cidade do vento, plena de existência estendeu os seus ramos largos e abraçou o mundo num enlace estreito e eterno.

Bem no centro, como um mito antigo, a estátua da vida pousava o olhar em redor e docemente sorria, deixando-se enlaçar enamorada do vento que passava e a envolvia.

Clara do Vale

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Estrela Polar

José Alves

 

 

 

A ESTRELA CADENTE

 

A estrela cadente atravessou os céus num raio de luz que deixou pontilhado o firmamento e ...caiu!

No céu ficou um buraco atro e imenso, covil dos vendilhões do templo que por aí abundam e se escondem, normalmente, em almas de aparência mansa e olhos de fel.

Na sua queda vertical, a estrela cadente mergulhou na terra e aí ficou, numa quietude atordoada, sem rumo nem norte. No local onde o seu corpo esgotado encontrou suporte, a cor sépia da terra abarcou múltiplas tonalidades, do bronze ao doirado, em reflexos feéricos de estonteante beleza.

A menina dormia num sono profundo e deixava que o sonho a embalasse em ritmada cadência, numa festa eterna de fadas e princesas encantadas, que a consciência liberta é garantia de noites sem sobressaltos.

Uma luz incandescente bateu-lhe nos olhos e o quarto ficou inundado de uma cor estranha, mágica, e todos os objectos adquiriram uma tonalidade diferente, dos peluches ao lençol da cama com nuvens alvas e ovelhinhas a pastar.

De olhos já bem abertos, a menina continuou a sonhar e a sua imaginação sobrevoou para os aléns do universo, vislumbrando fadas que com um leve roçar das suas varinhas de condão punham reluzente tudo o que era triste ,e escuro, e feio, que a imaginação não conhece limites, nem se detém encarcerada em gaiolas de ferro. Escorrega para lá do ser e aí se expande em taças cristalinas que vertem indefinidamente, sem confins nem contornos, enchendo de vida a própria vida.

A menina ergueu-se num salto de trapezista e veio à janela repleta de gotículas transparentes, e achatou o pequeno nariz no vidro frio, que ficou redondo como uma lua cheia. Os seus olhos abriram-se de espanto e o mundo entrou neles, para aí ficar todo inteiro, como um ovinho metido na sua casca protectora.

A estrela cadente sentiu-se levitar e num voo suave parou nas mãos abertas da menina que a aconchegou ao regaço, em aperto delirante, como só o fazem as mães quando estreitam nos braços os filhos que a vida lhes trouxe de presente. Afagou docemente os vértices agrestes e doloridos da estrela, que em vão tentou arredondar e moldar sem saber que há coisas, que nem a vida nem o jeito, permitem modificar.

A estrela deixou-se acarinhar num sossego doce, ávida de ser e de ter, e a plenitude desceu sobre ela, abandonando-se a esta quietude mansa, que mimos e crença não são coisas que se desperdicem ou se deitem fora como trapos velhos e usados.

E os olhos da menina encheram-se de estrelas, raios de luz fugidios, dédalos e feéricos, que caíram despojados no seu coração. E o pijama da menina com ovelhinhas a pastar, igual ao lençol da sua cama, vestiu-se de um mar de estrelas, com suaves vagas a desfazer-se numa areia imaginária. E a vida da menina transformou-se numa estrela, de esplendor radioso e brilho indelével.

Uma música de fundo de imperativo clamor abraçou o mundo e as notas uniram-se numa harmonia perfeita, como sempre que renasce um génio.

Mas como a perfeição não é dona desta vida e cada coisa tem o seu lugar por destino, a menina sentiu que a estrela cadente devia voltar à sua casa de origem, que não se pode ser feliz num mundo que nos é estranho, nem tomar posse da existência dos seres.

Levemente, docemente, pairou no ar com asas de tule , atingiu o infinito dos céus e depositou a estrela no seu lugar de eleição, com uma sensação estranha ,ora de dor ora de paz, que o amor acredita na renúncia e vê com os olhos da alma. E o buraco atro e imenso ficou de novo oculto para que os vendilhões do templo que por aí abundam e se escondem em almas de aparência mansa e olhos de fel, não se sirvam dele como refúgio, que a casa de uma estrela não lhes serve de lar.

A menina voltou à sua cama com o coraçãozinho apertado e a alma leve, mas nos seus olhos nunca mais deixou de haver estrelas que a conduziram na vida pelo caminho do sonho.

E, ainda hoje, quando o mundo lhe é pesado, ela abre a janela, ergue os olhos ao céu e a luz dos seus olhos funde-se com a luz da estrela, e ouve a música de imperativo clamor. E sorri, num sorriso que atravessa a sua essência, que se apossa do seu ser, que a abraça estreitamente e fica eternamente menina por dentro. E lá no alto a estrela sorri também e estende os seus braços de luz que caiem despojados e etéreos na existência, para lhe poder reacender e renovar o brilho e a cor.

Clara do Vale

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No fim da noite escura

José Alves

 

 

 

A NOITE DOS ESPANTALHOS

 

Um manto atro, imenso e opaco estendia-se no firmamento e abafava o fulgor da luz das estrelas e da lua, envolvendo o mundo numa campânula escura, quase sinistra, como uma morte eterna que acorrenta a vida.

O sono embalava os seres e o sonho enganava-os, perfidamente, em quimeras falaciosas de sóis luminosos e céus despidos de nuvens. Só alguns se mantinham vigilantes, aqueles que precisam da noite para ganhar o pão do dia e, outros, a quem ela abriga as suas amarguras e que deambulam anonimamente por ruas desertas e antros marginais de desperdício de vida, tentando despojar-se da dor e evitar os raios de sol, cuja claridade expõe contundentemente as suas existências áridas e ermas, a um mundo que lhes é estranho e hostil.

No meio do campo lavrado de fresco por mãos calejadas, um espantalho baloiçava tristemente os braços e o corpo inerte, abanado pela brisa que o atravessava, forçando-o a contorcer-se, como se a dor invadisse o seu corpo que todos viam sem alma, sem sangue , sem vida...Apenas um objecto que ajudava a mãe natureza na sua função de dar vida à própria vida, para que esta crescesse pujante e se desse aos seres em taça farta e oferenda permanente.

O espantalho queria esvoaçar, encher o seu corpo do ser que lhe escasseava, como os pássaros que invejava, pelo seu voo livre e entranhas quentes, e que se limitava a afugentar para que a fecundidade dos campos não fosse comprometida no seu próspero avançar, pálido defensor da vida que não tinha e carente de a sorver.

Uma rajada mais forte agitou com violência a sua cabeça de frágil suporte, que ficou virada para trás como uma flor quebrada. O seu rosto abarcou o céu na sua vastidão e negrura imensas e, subitamente, esta foi desfeita por um raio de luz, que desceu em cornucópias mirabolantes iluminando a sua fronte gélida, os seus olhos parados, a sua alma vazia de alma..

Sentiu-se sair do cruciante degredo da sua inexistência e, no peito, o coração bateu célere, levando sangue rubro e vivo a todo o seu corpo até aí inerte, e a vida entrou suculenta e farta no seu ser.

Em êxtase, os seus olhos fixaram a estrada de luz cintilante caída do céu e, nela, outros espantalhos vinham ao seu encontro, figuras esguias de braços abertos, estendidos ao sonho, ao mundo, à vida...

Esta auspiciosa antevisão parasidíaca acometeu de comoção o corpo recém-nascido do espantalho e o seu coração pulsou, provocando-lhe um ditoso aturdimento, que só a plenitude consegue criar.

À sua volta, os miosótis avivaram-se de azul, os girassóis acentuaram o amarelo quente, as ervas tingiram-se de miríades de verde, as florinhas do campo realçaram as suas cores, do anil ao violeta. E um arco-íris nasceu ali no solo, sob os seus pés. Os espantalhos sentaram-se nele que os ergueu, doce, lenta, levemente, rumo ao céu em viagem áurea, feérica e estonteante.

A alvorada foi nascendo, paulatinamente, tingindo o céu de tonalidades doiradas, que abraçaram o dia como uma redoma de cristal límpido e puro.

A vida retomou o seu ritmo natural e os seres atropelavam-se rapidamente pelas ruas, alheios ao sonho que perpassara a noite, enquanto dormiam, descansados os corpos que a vida fatigara.

Da noite mágica dos espantalhos nunca ninguém soube, mas eles voltam de quando em vez, quando um manto atro, imenso e opaco se estende no firmamento e ofusca a luz das estrelas e da lua.

E, nessas noites, o arco-íris feito de flores senta-se no chão e ilumina a sinistra escuridão para que a alvorada nasça mais cedo. E dizem que, então, de um ventre materno sai uma criança e, no doce silêncio, soa um choro, um grito superlativo de clamor, que perpetua o milagre do nascer...da vida ...do ser.

Clara do Vale

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A TURQUESA AZUL

 

O menino usava calções até ao joelho e uma camisola azul escuro,cheia de tranças, feita pela mãe,que lhe tapava o corpo e a alma.

A alma, essa,era como um sol dourado, plena de raios brilhantes, multicores, como um grande girassol amarelo a esvoaçar ao vento.E este trazia consigo cheiro de flores, de terra, de mar, de gente...

O menino gostava de sentir esta brisa cálida que lhe afagava o rosto, que lhe enchia de vida o coração e o corpo.Sobretudo quando o arome era de mar.Então, suaves vagas inundavam o seu ser e rolavam docemente para os seus olhos,que ficavam vestidos de mar,presos na infinitude da vida e do sonho.E os seus horizontes alargavam-se, e ele fazia viagens imaginárias para terras longínquas,que guardava no lado doce da memória.

Lá,só havia paz,estrelas,céu e ...mar. Ele pertencia ao mar,o mar tinha-lhe tomado conta do ser, e mergulhava nele para que os búzios lhe segredassem os seus mistérios infindos e lhe murmurassem ao ouvido as coisas doces que precisava de escutar.

Então,os seus olhos enchiam-se de uma doçura etérea e lançava o olhar a perder de vista à procura de sonhos prometidos,de horizontes imaginados...

Nessas alturas, sentia-se mais leve e esvoaçava dentro de si próprio, qual ave em pleno voo num céu azul sem nuvens, sem paragens nem abismos.E as suas asas enchiam-se de tonalidades multicores como as do arco-ìris que atravessa o céu em dias de sol e chuva.Quando batiam,irradiavam um halo de múltiplas cromias e o mundo ficava mais belo.

E sonhava, sonhava muito, olhos quietos, mente aberta às quimeras que o seu coração e a sua alma inventavam para ele.Ficava mais menino ainda,quase efémero, como só os meninos podem ser.

Um dia, passeava à beira mar, abaixando-se de quando em vez para apanhar conchinhas que cobriam a areia como uma manta de retalhos pequeninos que ele ia desfazendo sempre que guardava no bolso uma destas conchas,cada qual com a sua história.Os bolsos estavam já cheios de histórias que guardava religiosamente dentro de si, tornando-se um menino diferente de todos os outros meninos. Só que ninguém via isso porque a "gente grande" não sabe ler almas, nem sabe que as crianças são filhas do sonho...

O menino vagueava lentamente junto à linha do mar, os pés cobertos de espuma macia e branquinha, quando viu sentada numa duna uma velhinha, tão velhinha, tão enrugada que ele pensou que ela já devia existir desde que o mundo é mundo.Mas os seus olhos rodeados de preguinhas do tempo eram vivos e claros e neles estava espelhada a vida, e também o céu e o mar, de um azul tão forte que ofuscava.

Ela olhava o mar e o céu, procurando aléns fora do tempo, que se lhe escoava por entre os dedos, conforme a vida avançava...

Então, a velhinha de cara enrugada e olhos de céu e mar contou ao menino histórias de encantar e ensinou-lhe o segredo do amor.Tirou do bolso uma pedra azul turquesa que estava embrulhada ,carinhosamente, num lencinho de cambraia, e depositou-lha na mão, fechando-lhe os dedos sobre ela.

-Toma ,é para ti.Esta pedra foi-me dada por um mago que encontrei há já muito tempo, algures na minha vida.Apaixonei-me por ele,sabes?Mas ele não podia ficar comigo, tinha outros destinos a cumprir.E, contudo, amava-me, era eu então bela e jovem.Ensinou-me que o amor é como uma estrela brilhante que enche o firmamento e lá permanece para todo o sempre.Ensinou-me que o amor é algo que nos transforma por dentro, que nos dá poder e magia, que nos faz sentir mais perto do céu.Ensinou-me que o amor é beleza e sofrimento.Ensinou-me que o amor nos torna seres maiores porque nos despoja de nós mesmos..Esta pedra que te dou agora tem lá dentro uma estrela que te iluminará e te mostrará o caminho a seguir.Não a percas nunca,não a estragues nunca.Guarda-a num cantinho do teu coração e sempre que te sentires triste e só, lembra-te que tens contigo a pedra do amor.Com ela voarás acima e para além das nuvens e encontrar-te –às eternamente na festa do amor ,que é a festa da vida.

Os olhos do menino miravam fascinados a pedra azul turquesa, toda ela azul como a infinitude do céu e do mar. E tão brilhante e quente como os raios de sol em dias de Verão.Sentiu que aquecia por dentro e que não estaria mais só.Com muito jeito,fechou a mão e guardou, ciosamente, a taça de cristal deste segredo.

O menino atravessou a vida, e amou ,e sofreu,e foi ser maior, e por isso ...CRESCEU!...

Ainda hoje tem a pedra do amor,azul turquesa, cor do céu e do mar, que a velhinha um dia lhe oferecera de presente,guardada religiosamente, na mão bem fechada.

Ás vezes não a vê, mas ela está lá para todo o sempre...à espera que ele ponha as mãos em concha e a mostre ao mundo!...

Clara do Vale

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A Causa das Coisas

José Soares

 

 

 

 

O Tocador de Flauta

 

A flauta estava ali parada, ténue esboço de si mesma, esquecida na memória dos tempos, nos escombros poeirentos de um sótão que já há muito não viam luz nem gente. Sentia saudades de soltar melodias que enchessem o ar de músicas sublimes, sonatas que eternizassem a sua existência, agora penosa, inútil e decrépita.

Já só sabia. de quando em vez, libertar sons pungentes, quais lamentos vindos da alma, reveladores da angústia que a solidão lhe provocava, de forma avassaladora e sinistra.

Não tolerava mais esta existência evasiva e submersa no esquecimento, nostálgica que estava das mãos de um ser

que a agarrassem e a fizessem renascer para a vida, que esta é para ser vivida com alma e intenção. Senti-se quase volátil,

sem ser nem essência.

A criada velha, muito velha, que servira sempre aquela casa, criara como seus todos os filhos dos outros que ali nasceram, amamentara-os e embalara-os no regaço feito para isso, mãe sem o ser nas entranhas, mas na alma e na vida, que ser mãe é muito mais que ter filhos.

Subiu as escadas íngremes e rangentes que conduziam ao sótão da casa, para o esvaziar dos trastes velhos e sem serventia, como a patroa lhe ordenara, esquecida que a maioria deles tinha consigo uma história que contada esboçaria silhuetas de vida real, que esta também pertence a quem por destino nasce com a torpe designação de objecto.

Embalou tudo o que considerou não ter préstimo em caixotes de papelão pardo, a mesma cor com que os seus olhos viam o que mandava embora, porque não captavam as cores vivas e quentes abraçadas pela poeira dos tempos que encobria a beleza das coisas.

E a flauta lá foi, inquieta com o seu destino, de alma pesada, coração desolado e despojada da música de que já há muito estava sôfrega. Mas a vida não se compadece e nem todos recebem em igual fasquia os raios de sol, que quando nasce a oriente deveria aquecer toda a existência.

Aos solavancos, dolorida, asfixiava de medo e solidão, e o caixote que lhe servia de abrigo foi depositado negligentemente na rua, junto de outros de fado incerto.

Passou um mendigo, trajado de roupas que já tinham vivido dias melhores, com remendos indisfarçados e buracos por onde entrava o frio das intempéries e dos seres, e saía o gelo do desespero e da deslembrança.

Vasculhou, ansiosamente, naqueles caixotes pardos como a sua vida, na esperança de encontrar algo que lhe matasse a fome de Ser e de Ter.O seu olhar cansado e precocemente envelhecido caiu sobre a flauta e o abraço entre ambos surgiu imediato, urgente e estreito, que corações e corpos carenciados precisam de calor e de junção.

Sentou-se na beira do passeio alheio à gente que deambulava esquecida de partilhar a sua existência com os que cruzam no seu caminho.

E começou a tocar, num acesso incontrolável de invadir de música as suas entranhas arrefecidas, qual semeador de sonhos inconfessados e contidos.

A melodia soltou-se, primeiro ansiosa e impregnada de solidão e desamor, para retomar ímpetos de poder, magistralidade e plenitude. E todo o seu ser vibrava e a sua alma ganhou a dimensão do mundo na sua sede de infinito.

As pessoas paravam fascinadas ao som daquela música sublime tocada por aquele homem, qual sereia lendária que atraía os navegantes com o seu canto.

A flauta sentiu-se renascer, cumprido que estava o seu sonho mais íntimo e as suas notas desprendiam-se livremente, em harmonia perfeita, como o canto superlativo de um pássaro que em pleno voo atravessa as nuvens.

Mendigo e flauta confundiram-se num só ser de eleição e fizeram trocas de sofrimento e de paz, que a verdadeira amizade não é sentimento leve, que se despreze ou se viva de forma breve.

Mouzart, Beethoven, Bach...todos eles regressaram gloriosamente, num acto de ressurreição inesperado.

Dos buracos da roupa do indigente entrava agora vida e saía plenitude. Já não era mendigo, nunca mais o seria, que seres totais não necessitam de caridade alheia mas de partilha de sonho e de ser.

E todos os dias aquela cidade fica envolta em música, qual redoma de cristal feita de sentidos, que em halos resplandecentes emana a sonata da paz, da existência e da plenitude, esvoaçante e eterna. E Deus sorri no céu...

Clara do Vale

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SENTIR!...

Hoje
Voltei a sentir-me...
Criança
E...
Ao sentir-me criança
Voltei a sentir...
Moutinho
 

QUANDO CHEGA O AMANHECER....

 

A noite vertia e o mundo vestia-se com um traje de cetim negro, orlado de estrelas áureas e fulgentes. Por entre o pregueado da vasta saía, uma lua redonda e ridente olhava a vastidão com orgulhoso esplendor, ofuscada ela mesma pelo seu brilho gritante.

Conforme a noite se bamboleava, as pregas do seu vestido de cetim preto agitavam-se em ritmo compassado e a orla de estrelas acompanhava esta dança de luz e vaivém, numa harmoniosa oscilação, projectando raios curvilíneos de claridade luminosa que inventavam silhuetas feéricas, exuberantes e exóticas.

Encostado com abandono a um obelisco obsoleto um homem, já no crepúsculo da sua vida apátrida e errante, entabulava diálogo com a noite, companheira fiel da sua existência desgarrada e sem esquadria, eterna confidente do estigma da sua misantropia pungente, amante virtual mas constante na sua enxerga esgarçada, esquecida há muito de degustar o sabor e o saber de uma alma e de um corpo de mulher, vivo e quente.

A atmosfera estava amena e o céu espraiava, em entremelos, a luz lunar que jorrava em feixes verticais, estalactites brilhantes de insuspeitada vastidão e delicada esbelteza.

Caíam despojados e negligentes sobre o homem macilento, iluminando os sobejos de um corpo delapidado pelo ludríbio de uma vida sem vida. Só os olhos, já estiolados, retinham ainda uma réstea de brilho roubado à alma, que esta ainda se permite escarnecer das manigâncias da existência e de um tempo escasseado de ser.

A luminosidade de ambos cruzou-se e confundiram-se em troca estreita e urgente. E o olhar deste homem ficou repleto de lua e esta estendeu-se, langorosamente, neste terreno sedento e árido, acariciando com dedos de veludo o degredo do seu coração dolente, tornando cálidas as suas entranhas arrefecidas pelo desamor e desfuturo.

O silêncio da noite esboçou uma silhueta, a que o lusco-fusco não permitia definir contornos exactos. Uns passos vacilantes tocavam levemente a calçada fria e uns pés pequeninos desnudos e descorados ficaram expostos ao luar.

Suportavam um corpito frágil e franzino e um rosto de angelical doçura era aclarado por uns olhos cheios de mar, de algas e de campos férteis, estandartes gloriosos daquela face sem cor, ausente de carícias e calejada de solidão.

Ainda com o olhar pleno de lua, o homem cruzou os seus olhos com os da criança que a noite trouxera até si e viu reflectidos neles os seus, já anoitecidos pela vida. E o dia entrou neles luxuriante e claro, de uma transparência cristalina e opulenta.

As mãos encontraram-se, apertando-se em calorosa dádiva e mantiveram-se estreitadas, embrulhadas confiantemente uma na outra, confundidas, em perfeita simbiose de querer.

Permaneceram mudos, numa quietude plena, deslumbrados, ambos perdidos na vida e encontrados na noite, cada um lenitivo da solidão do outro, em oferenda mútua e partilha urgente e ali nasceu um poema de rima fácil, solto, leve, belo, que cresceu e se expandiu quente e doirado, como trigo maduro em tempo de colheita, transfigurando a noite atra em auspiciosa alvorada... um exercício de dizer palavras caladas e mágicas, que almas e vidas carentes necessitam escutar.

Caminharam juntos, lado a lado, nesta nova estrada da vida. E, na mansarda em que o homem se refugiava das intempéries e do alheamento dos seres, uma luz mais viva entrava pelo estreito postigo e transformava a enxerga num leito quente e macio, feito de plumas alvas e esvoaçantes, que o parto do amor inventara para eles, na sua pródiga e vasta fecundidade.

A existência ganhara uma nova dimensão, que a partilha dissipa vazios e preenche-os de dádiva e entrega, útero prenhe de vida que nasce para o mundo e se espraia nele, como as vagas do mar escorrendo espuma nas areias tépidas e macias.

A noite ficara submersa no esquecimento recôndito da memória, na deslembrança da inexistência, desvastado o desfuturo da solidão. E o renascimento surgiu imperioso como sempre acontece quando brota o alvorecer do amor, quando ...chega o amanhecer!...

Clara do Vale

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Nas Asas Da Poesia...

 

Nas Asas Da Poesia...

 

O mar escorria preguiçosamente as suas vagas delirantes pela areia deixando-se encastoar nela, sussurrante e ditoso. Revelava-lhe os segredos da sua vastidão imensa, da sua vida preenchida, que ficavam cinzelados no extenso areal, gravando imagens indeléveis de odisseias oníricas.

Ela escutava-o com inefável prazer, voluptuosa e prometedora, esfuziante e apaixonada. E deixavam-se envolver mutuamente, degustando-se um ao outro, em promessas de amor eterno ao som de liras e alaúdes celestiais. Então, uma luminosidade recrudescia, pináculo policromático que se erguia imponente e vitorioso, em ablução permanente.

João estava sentado na areia macia e quente e as ondas vinham ter consigo, enrolando-se suavemente nos seus pés e no seu coração. Sentia o mundo de forma diferente dos outros e guardava-o todo inteiro no seu peito de menino asceta e sensível.

Espraiava os seus olhos nas vagas inquietas que partiam do horizonte e enchia-as de estrelas do mar e de sereias lendárias, que entoavam hinos tocados por carrilhões acontecidos.

Transformava as nuvens, que toldavam o azul inebriante do céu, em nenúfares brancos com cisnes alvos que projectavam silhuetas esvoaçantes.

Esculpia nas montanhas alcantiladas esmeraldas da cor da esperança, ametistas púrpuras como corações, safiras de céu e mar, rubis feitos do seu próprio sangue.

E o mundo surgia magnífico, com campos sazonados de suculenta fecundidade, repletos de flores odoríferas e multicores, de céus desnudados de nuvens agoirentas, de seres com almas e corações reinventados, numa ária laudatória com mote de vida renascida.

E João ficava quieto, num suave mutismo, eremita de solidão intencional, adormecido no esquecimento da fereza da existência. E os seus olhos estelares rutilavam em cornucópias de luz fasciculada, que caiam displicentes no seu coração palpitante, iluminavam a sua alma crédula e enchiam as suas entranhas despertas.

Uma onda fremente elevou-se de espuma translúcida e depositou na areia quente e brilhante um pequeno búzio sedoso, eivado de laivos quase etéreos de insuspeitada e inefável beleza.

João deixou escorregar os seus dedos alongados, acariciando levemente a superfície polida deste objecto que fascinara os seus olhos e se alojara no seu coração. Ergueu-o com vagarosa suavidade e encostou-o docemente ao ouvido, deliciando-se com os murmúrios que o mar, todo contido no búzio, lhe segredava, preenchendo-lhe a alma de palavras caladas, e encheu com elas todo o seu corpo desta sintaxe renascida.

Sentiu-se crescer por dentro, como um balão pleno de sons que formavam palavras mirabolantes, irreverentes, esfuziantes, sinuosas, agrestes, irónicas, plangentes, doces, dolentes, exóticas, sapientes...

Soltavam-se dentro de si, emaranhavam-se em ritmo alucinante e vertiginoso, alagavam a alma e o coração do menino, que as vertia pelos olhos, derramava pela boca, soltava pelos dedos, transbordava pelos poros.

João, ausente de si mesmo, brincava com elas. Fazia, desfazia, refazia, construía, baralhava, inventava, entrelaçava...num jogo de prazer intenso de conteúdo, luz e cor, desvendando-lhe os segredos, desfazendo-lhe a inviolabilidade, oferecendo-lhe simetria, em plena euforia dos sentidos.

E nesta imparável invocação concebida, soltou-se das amarras cativas do real e ergueu-se num voo superlativo, pendente no acúleo da inspiração, cantando "cantos de encanto", "um livro aberto de pétalas ao vento, ao sabor do sentimento"...

Planou leve, docemente, reinventado e renascido no seu destino anunciado e um poema belo, doce, solto, quente... envolveu o mundo prenhe de fria nudez, vestindo-o de ricos tecidos feitos de palavras concebidas em teares de amor, sensibilidade e inspiração.

A vida prosseguiu na vida, que o tempo é descompadecido e fugaz. João cresceu, mas num cantinho da sua alma ficou para sempre guardado o seu ser de menino. Um menino sentado na areia macia e quente, com as ondas do mar enrolando-se-lhe suavemente nos pés e no coração, de olhos estelares, com um búzio sedoso eivado de laivos quase etéreos, de insuspeitada e inefável beleza, murmurando-lhe segredos adivinhados, feitos de palavras caladas.

E esvoaça, planando livre e inteiro, nascido para poemar, transportado em pássaro de sonho incontido, vertendo contornos de luz projectada no mundo, pousado nas feéricas, inventivas e renascidas ASAS DA POESIA!...

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Adormecer No Esquecimento

Adormecer No Esquecimento

 

Caminhava penosamente sobre alegrias mortas e pedras de frio, alheio ao calafrio da própria pele. Perseguia a sua sombra sem carne, espelhada no chão, companheira da sua desvairada solidão, único estandarte da sua vida esquecida, escora do corpo afilado, sem carne em comum com o mundo dos seres.

Pudesse chorar e expulsar no sal das lágrimas a frieza da realidade nua, descarnada, de asas negras e voo desditoso, de sentir na boca sufocada e ressequida a vontade da própria sede...Pudesse arrancar à vida o calor dum sonho breve, o sabor do céu estrelado, a magia de um corpo vivo a seu lado...e, então, a sua existência deixaria a lividez agarrada e espraiar-se-ia em janelas abertas de horizontes infindos e edénicos.

Os sonhos matizados que vislumbrara quando menino tomavam a cor do ébano, descoloridos e mudos, sobrepondo-se impiedosamente a realidade nua, sem as ninfas ilusórias do outro lado da magia, tornando-se mais compacta a terra sobre a infância, agora apenas uma imagem mate, enevoada na alma e distante no tempo.

Na sua pele entranhavam-se pináculos gélidos, entretecidos de titubeantes amarguras, teias de sal e dor, longo manto esgarçado de desamor e abulia.

Das suas mãos tristes soltavam-se, sem parcimónia, elegias raiadas de luz indecisa, resquícios leves de fontes de águas límpidas, há muito perdidas no tempo e na vida.

O pó branco que um dia lhe entrara nas veias, lançando-o em abismos de enganosas alegrias e fictícias sensações de embriaguez e plenitude, assoberbara-lhe o ser, urdira-lhe uma armadilha inviolável, gaiola de grades de ferro invisíveis, mas de incontornável solidez, que o aprisionara e lhe cortara as asas doiradas do voo da existência.

O pássaro que antes voara livremente na sua alma, ficara preso no acúleo mais agreste da árvore da vida e ali ficara, agonizante, de asas paradas, em dolente mutismo, impedido o embarque para uma navegação de curto ou longo curso, ausentado o mundo da evasão para o sonho e para a cor.

Sentada na relva, Leonor entrelaçava malmequeres amarelos e dos seus dedos nasciam tiaras doiradas com que enfeitava a alma e os cabelos brilhantes como raios de sol. O seu vestido decorado com luas brancas e ridentes, estava repleto de flores arrancadas à terra que, displicentemente, lhe caíam pelo regaço pequeno, em nuvens radiosas e escorregadias.

Ergueu os olhos límpidos ,de um azul que roubara ao céu, e viu a silhueta macilenta que estava diante de si. O seu olhar acentuou a luminosidade e num ímpeto que não soube explicar nem reprimir, ofereceu-lhe uma mão com sulcos de luas e de malmequeres.

Ele estendeu o seu corpo exausto na relva macia e abandonou a cabeça no regaço florido da menina, afundando-se num mar de flores, com vagas lunares, que perpassaram todo o seu ser, libertando-se das amarras da realidade vivida, sentindo-se abençoadamente em comunhão com o devir do universo, numa liberdade interior sem limites e sem paragens, que a vida é uma reconquista permanente do nosso próprio âmago.

De olhos fechados, deixou-se levar pelos caminhos do sonho e da magia, sentado docemente numa lua que saltara do vestido da menina, suspensa do céu por feixes de luz, embalado em ritmo compassado e harmonioso.

O tempo foi rodopiando, lentamente, inscrevendo-se no mais íntimo do seu ser reconciliado, de forma intensa e arrebatadora, transportando-o para um mundo intemporal, menos tangível e mais incorpóreo, em viagem fantástica para além de si mesmo, abrindo-se à novidade e ao júbilo...adormecendo no esquecimento!...

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NATAL DE FLORES...

NATAL DE FLORES...

O rio espreguiçava-se languidamente comprimido entre as suas margens descompadecidas, serpenteando por entre montanhas e vales, atordoado pelos íngremes declives, sem pressa de chegar à foz, ao encontro prometido com o mar, cuja intrepidez das ondas sempre o inibira, por contraste com a timidez das suas águas pacíficas.

Achava-as prepotentes e avassaladoras, embora lhes reconhecesse a beleza das vagas a desfazerem-se na areia em espuma etérea e fulgente, e lhe invejasse a melodia compassada e rítmica que entoavam, qual ave canora em pleno voo arrebatador que atravessa os céus em jeito de arco-íris, deixando-o pontilhado de alegrias multicores.

Ia desfazendo a solidão em conversas com a vida que existia em si e mergulhava nas próprias águas para encher a alma com a sua limpidez cristalina, transformada então numa campânula de segredos que guardava cioso, não fosse fugir-lhe da alma a própria alma.

Da janela do quarto, estreita fresta de luminosidade doentia, projectavam-se sombras que transportavam para o domínio da aventura, da imaginação, em que nada existe ..e tudo se inventa! Que imaginar é uma forma de renascer, de sobreviver, de sonhar, que descativa da tirania do hábito e remete o ser para outros mundos... e faz da vida aguarelas de sentido, forma e cor, panaceia eficaz do preto e branco de muitas existências desencontradas, verdadeiras mansardas de vida com enxergas sem sabor a ser.

Isabel espraiava o olhar anoitecido através da exígua janela do seu quarto de menina e nele renasciam ardores de vida apetecida ainda por viver. Mas sonhava...mas sentia...e desenhava na sua mente figuras ilusórias de magia perturbante, que tomavam contornos bem definidos do seu querer consistente, ainda que irreal e ilusório.

Avistava o rio, no confim finito do seu horizonte... impresso no horizonte infinito do seu ser. Mergulhava a alma nas suas águas límpidas e fios cristalinos escorriam pelas suas entranhas, lavando-a das impurezas da mediocridade da existência, em ascese permanente, encontrada assim a sua alquimia. Deixava-se esvoaçar, livre da manigância das grilhetas da vida e pairava sobrevoando mundos desconhecidos que lhe ofereciam rajadas luxuriantes e auspiciosas de intensidade lunar, como ventos de luz que roçavam a sua alma, penetrando-a em calidez aturdida e suculenta.

E a sua existência assumia tonalidades amarantinas, entrelaçadas em grinaldas entretecidas de sonho e utopia, rubis inexistentes com que enfeitava o olhar e o ser.

De olhos cerrados, estendeu o braço em imaginária ponte e mergulhou, suave, vagarosamente, os dedos de pétalas nas águas do rio, formando nele um canteiro de flores acontecidas no seu olhar.

As águas do rio mantiveram-se quietas, e o mundo parou naquele centro florido, nascido em parto mágico das mãos férteis de sonho de Isabel.

Uma fragrância esfuziante e exótica espalhou-se, perfumando o ar de forma quase palpável , um mar de aromas que inundou o vale de vagas de espuma etérea e olorosa, abarcando os aléns do vale, despojando-se no outro lado do mundo.

Isabel cerrou os olhos , deixou-se envolver por este perfume exótico que se entranhou em todos os seus poros e lhe escorreu pelo corpo como as águas do rio pelos vales . Uma estação de mil flores, de mil cores, de mil odores...tomou conta do seu ser , que pairava extasiado em vagas suspensas, de marés prometidas de vários matizes, transportando-a para aléns mágicos, para lá do tempo e do espaço, em que tudo é incorpóreo e intangível, numa viagem eterna perpassada por um sonho de beleza, promessa de felicidade e paz superlativas.

Dizem que foi assim que nasceu a ...Primavera!...

 

Clara do Vale

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SABOR A SER...

SABOR A SER...

 

A cómoda antiga contava histórias de várias gerações, testemunha viva de tantos segredos de mil vidas vividas que, ciosamente, escondera na alma que não tinha.

Dentro de si, nas suas entranhas, guardava relíquias esquecidas, abandonadas displicentemente nas gavetas cor do ébano e de noites de céus sem estrelas.

Protegia-as delicadamente como um útero envolvente grávido de amor e de posse, temerosa de que mãos menos ciosas lhas furtassem, para as votarem a destino incerto.

E acarinhava, ternamente, os pequenos lenços de cambraia, esgarçados pelo tempo e pelo uso, com que ancestrais avós enxugaram lágrimas silenciosas, solitárias e ocultas.

As cartas seculares permaneciam apertadas em fitas de veludo azul, não fossem soltar-se as palavras que corações haviam marcado com tinta feita de sangue e alma, reminiscências de amores vividos, de almas expostas, de alegrias sentidas e de penas afogadas, e evolarem-se no ar levando consigo o ser de muitos seres, feixes de sonhos, teias várias...

Chapéus decorados com flores ressequidas, mendigas de sol e luz, conservavam ainda etéreas redes de tule, que resguardaram do mundo olhos velados de amor ou pranto, sorrisos doces, esgares de dor.

Vários frasquinhos, de diferentes feitios, acumulavam-se deixando evolar ainda as fragrâncias que em tempos tinham contido, numa profusão de aromas subtis e exóticos, que invadiam o interior da cómoda e se exalavam para o exterior.

Vestidos antigos, que haviam marcado épocas e modas, embrulhavam-se nas suas rendas e cetins, saudosos dos corpos jovens e insinuantes que tinham adornado e cingido, talvez despertado amores ardentes e calados, respirando ainda um ar de mistério e cumplicidade...

E, havia caixas, caixinhas pequenas, repletas de objectos de proveniência incerta, como que aguardando, ao longo dos tempos, uma ocasião de utilidade efectiva.

Mariana atravessou, lépida, o quarto e num ímpeto dirigiu-se à cómoda que sempre conhecera e nunca abrira, que sempre olhara mas nunca vira, inconsciente e alheia aos segredos e enredos que ela guardava, dum tempo que não era o seu, de pessoas de quem só vagamente ouvira falar. Um tempo tão remoto que não cabia no seu tempo, ainda jovem de vida.

Foi abrindo as gavetas uma a uma, desvendando-lhe os segredos, e o seu imaginário inventava histórias que escorriam pelos seus dedos e se escapavam da sua alma.

Escolheu um vestido de entre muitos, de tecido acetinado e ornado de rendas, de tom malva, salpicado de florinhas ciclames como miosótis do campo acabados de colher.

Colocou na cabeça um chapéu da mesma cor, cuja rede de tule lhe encobriu os olhos, velando-lhe o mundo e o tempo. E, este retrocedeu e Mariana sentiu-se transportada para aléns nunca vividos, rodopiando em passos fáceis e leves uma valsa de Strauss, levada como uma pluma nos braços de um amor tão imaginário como desejado.

Após este momento único que a acompanharia por toda a vida, no lado recôndito e doce da memória, sentou-se no chão que encoberto pela largura farta da vasta saia do vestido cor de malva, salpicado de florinhas ciclames, se transformou num canteiro ali nascido, como que por magia.

É que esta não tem espaço nem tempo, limites ou contornos, e espraia-se num imaginário sempre eterno, em que a vida é vida e o sonho é sonho, transformando a existência breve numa aventura enigmática, profunda e inacabada...

Mariana abriu a última gaveta da cómoda e o seu olhar dirigiu-se, em atracção súbita e irreprimível, para uma caixinha de madeira e marfim. Abriu-a, com urgência, e uma música suave, quase etérea, invadiu o quarto e o seu ser, ao mesmo tempo que uma bailarina vestida de tule bailava em pontas num rodopio constante sem, contudo, sair do mesmo sítio, aprisionados os pés à base da caixinha de marfim.

Só o seu corpo dançava! Os olhos, esses, mantinham uma expressão fixa e nostálgica, como os de quem é ausente da vida...

Mariana pousou o seu olhar vivo neste olhar inexpressivo e sentiu que o seu coração se comprimia e ficava pequenino, tão pequenino que a bailarina ficou lá dentro bem apertadinha em laços de sangue e de luz. Ela era demasiado exígua para encher os dedos mas enchia um coração. O seu, que nunca pulsara, era um coração entrelaçado em lágrimas de desesperança e desfuturo, um não-ser escondido dentro da sua própria vontade de ser.

Com muito cuidado, Mariana libertou os pés agrilhoados da bailarina e esta, qual borboleta saída da crisálida, esvoaçou leve e harmoniosamente em pontas de pés no soalho encerado e deslizante, num bailado sublime de neve, com sabor a liberdade.

Mariana olhava este espectáculo ímpar, extasiada, com o fascínio espelhado nos seus olhos espantados de cor e brilho.

E a bailarina pousou ,docemente, no seu ombro e dançou sobre o seu corpo, transformando-o num palco imenso iluminado pelas luzes da ribalta e impregnando-lhe a alma de música celestial.

As horas foram-se escoando, num ápice, e esgotada de tanto bailar, liberta das grilhetas de uma prisão imposta, já remotas agora na sua memória, a pequenina bailarina deitou-se no canteiro que era o vestido da Mariana, pousou a sua minúscula cabeça numa florinha ciclame e adormeceu, docemente, num sono profundo de êxtase e paz, com a alma trémula de esperança e crença, unidas em acto de fé as suas mãos de flor.

E o mundo subiu as escadas do mistério e do deslumbramento, e o dia esqueceu-se de anoitecer...

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