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7 contos editados

 

-11 de Setembro 2001

 

- Não digas nada

 

- O Quarto do Lençol Branco

 

- Queres ser minha amiga?

 

- Sete anos

 

- Silêncio

 

- Vou rumo ao Sul

 

 

 

 

 

 

 

 

O quarto do lençol branco

O quarto do lençol branco

Anda, entra nesse quarto.

Fecha a porta trás de ti, devagar, sem fazeres barulho. Põe uma música se quiseres, mas baixinho, para que não abafe as palavras, mesmo aquelas que sejam ditas num sussurro.

No meio do quarto está uma cama com um lençol branco. Deita-te se quiseres. Tira a roupa, descalça-te, põe-te à vontade. No quarto há uma janela. Aproxima-te dela e olha lá para fora. Pode ser dia ou pode ser noite, o tempo está parado neste quarto.

 

Eu estou deitado na cama apenas de boxers e uma T.shirt branca. Podes apagar a luz, deixando o quarto numa penumbra mas que se vejam os rostos.

E agora fala ! Diz tudo: o que sentes, o que queres, o que pensas, o que lamentas. Diz principalmente o quê, o quando, o porquê e o quanto. Não tenhas medo de me magoar. A maior dor é não saber, a maior dor é imaginar. Fala.

Conta a história sem pressas, não saltes nenhuma página. Faz-me as perguntas que quiseres, e eu responder-te-ei com a mesma sinceridade. Neste quarto não há lugar para a mentira nem para os jogos. Sobre este lençol branco a verdade é dita e é nua e crua.

Deixa as lágrimas rolarem, elas têm direito a isso. Grita se te apetecer ou fala num murmúrio. Quando quiseres faz uma pausa. Aproxima-te da janela e olha lá para fora onde o tempo não parou. Pensa que a janela pode ser aberta e saíres a voar. E que se saíres estará sempre aberta para voltares. E que por vezes quando saímos é porque queremos ficar e que noutras ficamos mas na verdade não estamos.

Faz-me as perguntas todas. Não me interrompas deixa a conversa sair mesmo que seja sem nexo. Fala. Faz uma pausa. Se quiseres podemos fazer amor sobre as lágrimas ou apenas foder para quebrar a tensão. Deixa-te estar calada e não te limpes. Estar suja de amor é estar limpa.

Não tenhas pressa. Não me faças ter pressa. Diz mesmo aquilo que não compreendes. Eu dir-te-ei o que não entendo. Por fim falemos em conjunto.

 

E agora que já falámos tudo. Cala-te. Não agora, não neste quarto mas para sempre. Que nenhuma das frases dita neste quarto seja repetida noutra circunstância. Que se um dia entrarmos de novo neste quarto não se repitam os temas. Sai e toma um banho. Entra de novo no quarto nem que seja só para te despedires. A janela está agora aberta e sempre estará. Diz-me um até logo, um até amanhã ou um adeus.

Eu continuarei imóvel na cama. Deitado de bruços. Agora que estou só deixarei as lágrimas rolarem num rio inesgotável. E quando elas pararem vou tomar banho, sentirei a água tépida a lavar-me a alma. Olharei para a janela e ver-te-ei a voar lá fora. Então olharei nos meus braços as asas a nascerem e sem surpresa levantarei voo. Poderemos voar juntos, poderemos voar separados, ou poderemos voar por vezes juntos por vezes separados. O tempo poderá recomeçar a correr.

No quarto sobre o lençol branco restarão duas manchas e o contorno dos nossos corpos. A janela ficará aberta para sempre.

Fala.

Cala-te.

E voa … nunca mais deixes de voar …

 

Pedro Farinha 

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Vou rumo ao sul.

Vou rumo ao sul.

A madrugada adivinha-se no horizonte, mas a noite não dormida não pesa nos meus olhos. Aliás sinto-me leve, estranhamente leve. Sinto-me comose o meu velho Fiat Uno fosse uma moto, e eu fosse com o cabelo a esvoaçar ao vento.

Túnel do Grilo. Grilos falantes ecoam na minha cabeça, a verborreia de minha mãe, o mutismo de meu pai. E tu Raquel ? Tu que foste o meu amor primeiro e que juntos descobrimos o prazer quando o maor era mais importante que o sexo.

Desço para a ponte Vasco da Gama, mais devagar do que queria – merda de carro! A música na rádio é interrompida por uma voz monocordica a debitar noticias – seis da matina.

Faço zapping no rádio até apanhar a Nostalgia. Música e velhos – penso – zapping de vida acrescento.

Zap! A minha mãe a queixar-se que se sacrifica de dia e noite por mim, para me fazer feliz e eu vivo encostado às paredes a roçar o cu pelos cantos. Zap! O olhar silencioso de meu pai. Zap! Aparva da minha irmã e as suas amiguinhas aparentadas com as Barbies. Zap! E tu Raquel ? Tu a quem eu contei tudo, o meu desepero, a minha solidão também. Também tu Raquel ? Também tu deixaste de me compreender.

Entro naponte e o nevoeiro envolve-me, amavelmente, reconhecendo-me como um dos seus.

Rumo ao sul. Não tenho projectos nem dinheiro, e vou para o sul como podia ir para o norte. Como bagagem trago o meu velho blusão de gang e o bloco onde escrevo as minhas poesias.

Raquel porque desististe de mim ?

Lembro o teu cabelo negro sobre os teus seios, a tua pele morna e macia, recordo a ternura com que abraçados e de coxas entrelaçadas, dormiamos na minha pequena canadiana em fins de semana de verão.

Vejo uma tabuleta quediz Espanha e guino para lá. Não tenho dinheiro, nem destino e irei até onde a gasolina der. Não estou preocupado, estranhamente, sinto enfim paz. Sinto-me leve ... livre!

Mais uma noite de insónia Raquel, mais uma noite em que só, imaginei dialogos contigo. Falo contigo para falar comigo, como sempre fiz. Como o faço aqui e agora, neste Uno que não anda.

Música da treta. Procuro um ritmo mais alegre, mas detenho-me num blues sofrido.

O carro não passa dos130, maseu sinto-me a voar. Não quero saber das consequências, dos meus pais ou da Raquel. A verdadeira Raquel, aquela que eu amo, está sempre comigo e compreende-me por telepatia.

Falo com ela a toda a hora.

Rumo a Espanha e não penso no futuro, tenho 22 anos e o futuro é meu ... está nas minhas mãos agarradas ao volante. Nem mesmo a vaga sensação de fome me apoquenta.

Um camião aparece à minha frente, e os seus farpis são como os teus olhos Raquel. Sorrio e entrego-me, acelerando a fundo – finalmente sou um homem livre.

Pedro Farinha 

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NÃO DIGAS NADA

NÃO DIGAS NADA

Não digas nada. Não te mexas. Não estragues a beleza deste momento.

Deixa-te estar aí, estendida na cama, com os teus cabelos a brilharem na penumbra e com o teu olhar vivo e profundo.

Não sorrias sequer. Deixa-me ver-te e guardar para sempre na película da minha memória a imobilidade deste momento. Deixa-me olhar uma vez mais para as tuas pernas mal cobertas pela brancura desse lençol.

Deixa-me parar o tempo … deixa-nos ficar assim, nem que seja mais um pouco apenas, imobilizados no tempo que decorre lá fora. Deixa-me olhar-te e ver-me no fundo dos teus olhos.

Não ligues a esta lágrima que me desliza pela face, é de alegria e de comoção apenas. Sei que para ti, com a tua juventude e a tua vivacidade é difícil ficares assim imóvel … mas fá-lo, fá-lo por mim.

Quero recordar-te para sempre, neste momento inesquecível, em que mais que dois corpos que se fundiram num só, fomos, por momentos, uma única alma. Sei que não acreditas em mim e soltas uma gargalhada obscena se te falo de Deus e da alma … não me interessa … não me interessa mesmo nada. Não há maior prova de que Deus existe, do que a tua existência. Quem mais poderia gerar alguém como tu ?

E agora deixa-me sentar e repousar o meu corpo, já velho e cansado, nesta cadeira à beira da tua cama que por momentos foi minha também. Deixa-me fechar os olhos e sonhar assim acordado.

Podes sair da cama e ires tomar o duche por que tanto anseias … já nada pode estragar a beleza daquele momento que guardarei para sempre na minha memória. E com a imagem guardarei um rol de sensações, de suavidades e de ternuras.

Enquanto ouço correr a água do teu banho, abro os olhos e vejo-me num espelho que reflecte uma mentira. Eu já não sou aquele velho marcado pelas rugas do tempo, o meu coração bate com a leveza dum passarinho e tenho a alma jovem dos apaixonados.

As lágrimas escorrem-me pela cara abaixo eliminando as rugas de outrora e devolvendo ao meu rosto a candura de outros tempos. A renovação que sinto interiormente libertou-se para o exterior, mas tu entras no quarto e nada notas. Mandas-me um beijo pelo ar que sinto a pousar suavemente na minha testa e a escorregar lânguido pelo nariz até atingir ao de leve a minha boca. É um beijo que traz os aromas da natureza.

Fecho os olhos e deixo-me embalar num sono profundo … sabendo que aquele momento precioso ficou guardado para sempre e que tal como as estações do ano passarão inexoravelmente com o tempo, também outros momentos da minha vida acontecerão mas ninguém poderá roubar a magia de meu rosto sem rugas ou do meu coração rejuvenescido.

Pedro Farinha - Abril 2001

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SETE ANOS

SETE ANOS

Acordei com uma estranha sensação, estamos em data e faz exactamente sete anos que tudo aconteceu. Pensar de novo nesse dia faz-me sentir um frémito na pele, uma amalgama de sentimentos contraditórios, mas principalmente faz-me pensar, de novo, em como tudo teria sido, se esse dia não tivesse acontecido.

Já ouvi dizer que um bater de asas de uma borboleta no Japão pode provocar um tremor de terra em Nova York, foi exactamente o que me aconteceu nesse dia, lembro-me como se fosse ontem e não há sete anos e mais uma vez deixo-me embalar pelas recordações. Desde esse dia, rara foi a semana em que de uma ou outra forma, os meus pensamentos não voaram nessa direcção.

Tinha saído mais cedo do emprego e tinha ido directo para casa, à porta da entrada encontrei-a, com as mãos cheias de sacos e o rosto cheio de sorrisos. Saquei a chave e abri-lhe a porta para que entrasse, galguei as escadas e abri a porta do elevador. De cima para baixo, podia-lhe ver o cabelo negro a emoldurar o rosto e mais abaixo o inicio do seu decote. Trazia um top curto que lhe punha o umbigo de fora. Estavamos em 1994 e os umbigos ainda costumavam andar recatados sem que os obstetras se preocupassem, como agora, em pô-los o mais perfeitos possíveis, sabendo que um dia pertencerão a jovens elegantes que os trarão à mostra.

Claro que quando as meninas que nascem agora acertarem os seus passos pelos da moda vigente já outros serão os usos e costumes, mas mais não pode o homem que perspectivar o futuro ao sabor dos dias que correm.

Entrámos juntos no elevador, pousou os sacos no chão, e carregou no 5º, três andares debaixo do meu - pensei. Pouco antes de atingirmos esse piso, curvei-me para agarrar os sacos, aproveitando o impulso de paragem para os soerguer mais facilmente. Agradeceu-me com o olhar e segui-a até à porta do 5º esquerdo, o meu intuito limitava-se à boa vizinhança. Ou pelo menos conscientemente, era isso que pensava.

Mas a borboleta bateu as asas e um dos sacos rebentou-se espalhando latas de salsichas e de ervilhas pelo chão e partindo uma dúzia inteira de ovos. A minha ex-mulher costumava dizer que eu tinha um charme desastrado, se é que tal é possível, e entre envergonhado e cheio de vontade de rir, ganhou a segunda e estalei num bom par de gargalhadas no que ela me secundou. Entrei de novo no elevador ainda a rir e precipitei-me até ao meu frigorifico para lhe devolver os ovos esborrachados.

Quando lhe toquei à porta, mostrou-se admirada de me ver, e naquele curto intervalo de tempo, já tinha eliminado os vestigios dos estragos e trocado o top que trazia por uma t.shirt branca. Estendi-lhe os ovos em tom de desculpa mas não os quis aceitar, que acidentes aconteciam a qualquer um e que eu tinha sido muito prestável.

Enquanto esgrimiamos argumentos, sorrateiramente, um dos meus ovos escorregou para o chão, deixando-nos mudos, primeiro, e perdidos de riso no segundo seguinte.

Ainda hoje tenho dificuldade em perceber o que se passou a seguir, o que me deu aquele impulso. Bem gostava de poder dizer que tinha sido ela a tomar a iniciativa, mas não. Eu era um homem casado e apaixonadissimo pela minha mulher, ou pelo menos assim o julgava.

Hoje não sei se será possível amar alguém e sei nem mais nem porquê, entre duas gargalhadas agarrar com ambas as mãos num rosto moreno e beijar-lhe a boca sofregadamente ?

Os seus olhos olharam-me sem espanto, como se tudo isto fosse natural e de pé, entre beijos, tirámos a roupa num instante.

Deitámo-nos no chão, trocando caricias e gemidos. Lembro-me ainda tão bem ... e pensar nisso faz-me despertar um desejo adormecido.

Nunca tive relações como nesse dia. Falo em relações pois não posso falar em fazer amor, mas chamar ao que houve entre nós, nesse momento, apenas sexo, também não me soa bem. A pele dela era de uma suavidade extraordinária e a sua boca era ávida e morna. Lembro-me de sentir as suas mãos a percorrerem todo o meu corpo, depois a lingua e por fim deitar-se no chão como que abandonada ... mas os seus olhos falavam, oh se falavam. Os seus olhos prometiam-me as maravilhas que se seguiram.

Inventámos caricias que nunca ousara fazer com a minha mulher. Rebolámos no chão, e parámos ofegantes e rimos e começamos tudo denovo.

Para mim o tempo tinha parado. Curiosamente sentia-me excitado mas calmo. E não sentia culpa nenhuma ... essa veio depois, pouco depois.

O toque do telefone acordou-me do torpor, e foi ao vê-la levantar-se e dirigir-se ao telefone que as perguntas chegaram finalmente ao meu cerebro. Que estava a fazer ali ? Como tinha isto acontecido ? Que iria fazer ? O que iria dizer ?

As perguntas bombardeavam-me de todos os lados, deixando-me aturdido e paralizado.

Vesti-me num ápice, esbarrei numa mesa e sai porta fora. Não me despedi, não lhe pedi silêncio, não sei se ela sabia qual era o meu andar, se ela sabia que eu era casado ...

Quando meti a chave à porta e o silêncio me respondeu que ela não tinha chegado, acalmei-me um pouco. Pus água a correr, enquanto me despia, e tomei um banho tentando eliminar de todos os poros do meu corpo aquele cheiro moreno e insinuante que se me agarrara à pele.

Após muito diálogo interior e duas cervejas decidi não lhe contar nada. Mas quando ela chegou e olhou para mim, não foi preciso dizer-lhe nada, a minha cara falava por mim e entre choros, suplicas e juras de amor e de arrependimento contei-lhe o que se passara.

Aguardei a raiva, os gritos ... as lágrimas. Mas não, manteve-se na expectativa – E agora - perguntei-lhe. Agora ? – tu é que sabes – disse - eu não fiz nada que me arrependesse, tu é que sabes o que tens a fazer.

Virou costas e foi deitar-se a ler um livro, como se nada se tivesse passado.

Eu teria aguentado tudo, o ciume, a furia, roupas pelo ar ou pratos no chão, mas aquela atitude dela. Tentei mais uma vez inquiri-la e beijei-lhe as mãos. Não as retirou ... nem me olhou. Eu morrera para ela – pensei.

Vivemos ainda três meses assim. Ela em nada alterou a atitude que sempre tivera em relação a mim, eu é que não aguentei. Um dia procurei-a na cama, e em silêncio afastou-me. Foi a unica coisa que ela mudara. Ao fim de três meses, cobardemente, saí de casa.

Nunca amei tanto a minha mulher como durante esses três meses, nunca senti tanto desejo por ela e nunca a percebi também.

A minha vizinha do quinto andar, vi-a no outro dia numa esplanada, rodeada de um garotinho que poderia ser meu filho. Estavam só os dois, mas eu não me aproximei. Não sei se para ela, aquela também foi a data especial, ou se foi um dia como outro qualquer.

A minha ex-mulher ... nunca me procurou, mas por vezes, passo à sua porta, que era a nossa e não resisto a tocar a campainha. Deixa-me entrar e trata-me cordialmente, nunca me perguntou nada, nunca quis saber de nada.

E eu virei este farrapo humano, mas que ainda sente uma erecção de cada vez que pensa no que aconteceu há sete anos atrás. E se interroga e pensa, e não dorme, nem tem paz, nem sossego. Foi há sete anos, exactamente, que eu morri.

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Queres ser minha amiga ?

Queres ser minha amiga ?

A pergunta, dita nesta infantilidade deixou-a surpreendida. A mim também, talvez, fez-me recordar há uns anos valentes atrás no meu primeiro dia de escola. A minha mãe, perante a minha vergonha, ensinara-me "Quando chegares à escola, escolhes um menino e pergunta-lhe se ele quer ser teu amigo. Se ele disser que sim, então podes sentar-te ao lado dele, e aí já conheces alguém, tens um amigo e já não há razão para teres vergonha".

Hoje sentia a mesma inocência e perguntava-lhe - Queres ser minha amiga ?

Tinha arrumado a casa. Varrido dos cantos mais fundos as recordações e tinha vomitado dores, desilusões, incompreensões e álcool. Muito álcool. Muito tabaco também.

Tinha sido uma semana a esvaziar a casa e a bílis. E à medida que o lixo saía de minha casa e do meu corpo, o sol encontrava espaço para entrar. Lentamente que também não se quer pressas nestas coisas. Primeiro um chilrear de um passarinho, depois um raio de sol, mais tarde o som da água cristalina ...

A casa estava vazia mas, por incrível que pareça eu não. Vazio andava eu há anos a enganar esse vazio com as preocupações com que atafulhava a mente. Agora estava limpo. A casa estava virgem de novo.

Os olhos dela continuavam fixos nos meus enquanto eu aguardava com a serenidade recém conquistada a resposta que tardava.

- Queres ser minha amiga - inquiri de novo, mas desta feita penas com o olhar.
- Sim - respondeu-me por fim, mas apenas com o olhar porque as palavras enganam tanto e ela já não acreditava em palavras.

E eu que já tinha deixado de acreditar em tudo, a começar por mim e a acabar em mim, agora acreditava de novo. Acreditava no chilrear dos pássaros, nos raios de sol e no som da água cristalina a jorrar de uma fonte imaginária.

Eu agora era outro. O outro afogara-se entre a pilha de tralha varrida da casa e dissolvera-se em Gins bebidos tónicos primeiros e puros depois. Eu era um rapazinho. Um rapazinho que ia de novo para a escola e cuja mãe ensinara como fazer amigos.

Ela era outra. Mas ela não esquecera porque as dores do corpo deixam mais marcas que as da alma ainda que doam menos. Ela não esquecera porque bastava-lhe olhar para baixo para ver as nódoas negras nos braços e as marcas das agulhas.

- Não uses a palavra amigo - pediu-me.

Mas o pedido feito com a boca contradizia-se com o pedido feito com os olhos.  E eu sempre acreditei mais em olhos que em bocas. E disse-lhe que palavras leva-as o vento mas que as acções guarda-as o coração, e que um dia saberíamos se éramos ou não amigos.

E ela não disse mais nada porque sabia que se falasse as lágrimas poderiam romper a comporta mal erguida. E eu não chorei porque tinha secado as lágrimas e porque os rapazinhos não choram se não podem ser chamados de mariquinhas. E eu não queria ser um mariquinhas, eu queria ser forte e alto como o meu pai ou como o Corto Maltese que era quase a mesma coisa pois ambos viviam envoltos na névoa do silêncio, e a ambos admirava e temia.

E ela deu-me a mão e eu senti que não precisava de usar a palavra amigo. E eu que jurara que não daria mais a mão, apenas os olhos, gostei de sentir aquela mão na minha. E apesar de ser uma mão franzina, rugosa e marcada pelo tempo, era uma mão que tinha o poder de aquecer muito a minha. Tanto, tanto que o calor subia-me pelo braço acima e chegava aos olhos. E os olhos que estavam secos, humidificaram com o calor como uma selva tropical.

E eu retirei a mão, sorri para ela e corri para casa. E a minha casa com o soalho brilhante e as paredes nuas estava cheia de sol. E eu abri as torneiras todas e saiu uma água muito cristalina que cantou para mim.

Escrevi então uma carta à minha mãe, que me ensinara a fazer amigos, e disse-lhe que nunca lhe agradecera o suficiente. Selei a carta com uma lágrima e um beijo e atirei-a pela janela sabendo que o vento não precisa de código postal para levar sentimentos às pessoas que amamos principalmente se já morreram.


Pedro Farinha

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11 de Setembro de 2001

11 de Setembro de 2001

 

Olho nos teus olhos marejados de lágrimas secas e escuto os ecos de uma explosão permanente. Para ti não morreram cinco mil pessoas, ninguém atacou a América e o mundo não está em guerra, mas sim, eles têm razão numa coisa, nunca nada mais será como dantes.

Para ti, que me olhas sem me veres, não há retaliação que te conforte e desesperas perante o desespero que tal acção possa causar em mais pessoas como aconteceu contigo. Para ti não há guerra, mas para ti não há paz também. Ele morreu. O homem que amavas e que te amava e pai do filho que trazes no ventre e que já é órfão antes de nascer, morreu.

Não, não morreram cinco mil pessoas, morreram apenas duas: Ele e tu. Ele que morreu calcinado pelo fogo ou pela queda de um monstro metálico e tu que morreste por ele ter morrido. E é essa morte em vida que vejo nos teus olhos que me olhem mas não me vêem. Mas olho para ti e digo-te: Não. Tu não morreste porque não tens esse direito porque dentro de ti existe uma vida que não conhecerá pai mas terá que conhecer a mãe e que terá que conhecer o pai através da mãe. E essa mãe tem de estar viva ainda que marcada pela dor ....

E os teus olhos mudos, abertos de horror, ouvem-me mas não fazes um sinal, nem de concordância, nem de discordância. E pensas nele, no homem que amavas, e ainda amas, e que admiravas pela sua luta incansável contra o racismo e pela tolerância. E pensas que com ele, morreste tu e morreu a tolerância. E não desculpas ninguém, não desculpas os criminosos que cometeram o atentado, não desculpas os criminosos que preparam novos atentados e não desculpas acções de retaliação que farão sofrer mais gente e que matarão ainda mais a tolerância e os valores que Ele defendia.

Eu estou parado na tua frente e queria fazer algo, estendo-te uma mão que não pegas e que recolhe envergonhada ao bolso das calças. Olho para a proeminência da tua barriga, antes inchada de orgulho e agora de horror. De repente olhas para mim e entreabres os lábios como se quisesses falar mas as palavras não te saem facilmente da boca. Os teus olhos voltam a chorar deixando dois rios na tua face coberta do pó que cobre essa ilha.

É então que me estendes a tua mão, que agarro docemente, e me dizes: É preciso retaliar. Percebo-te mas não concordo, não compreendo como e porque mudaste de opinião, mas nada digo. Penso em argumentos, penso que sim que é preciso acabar com o terrorismo, que é preciso acabar com quem faz dele arma política, quem o financia mas que nada disso se faz numa acção de retaliação deste tipo. Olho nos teus olhos que olham para mim e vejo que tens algo mais para me dizeres, e as palavras saem firmes na tua voz:  

- É preciso retaliar, é preciso lutar e não baixar os braços, é preciso acabar com a guerra, com o crime, é preciso ensinar a tolerância, é preciso falar , é preciso dar as mãos, é precisa a poesia, é preciso o amor. É preciso combater a ignorância, é preciso respeitar os outros, é preciso não confundir indivíduos com nações, é preciso flores e velas acesas e dar apoio a quem sofre. É preciso criar um mundo melhor para o meu filho que vai nascer ...

E eu que já vi tanta coisa, tanta solidariedade, tantas preces, nunca tinha visto tamanha homenagem a um homem amado como fazer dos princípios dele, os nossos valores e abracei-te deixando as minhas lágrimas misturarem-se com as tuas e com as de todos os outros que sofrem para num rio infinito lavar a cara ao mundo e regar as flores que nascem nos recantos mais escondidos de cada nação.

Pedro Farinha

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Silêncio
Silêncio
Por  vezes o silêncio é insuportável.
É mais ensurdecedor que quaisquer gritos. Olho-te e vejo a tua boca cerrada, o
teu olhar preso na estrada. Fico sempre com vontade de te pedir desculpa mesmo
que não saiba bem de quê. Eu sou assim. Tu és assim.
Sempre que algo corre mal eu penso que a culpa é minha. Tu também: sempre que
algo corre mal pensas que a culpa é minha. O silêncio sufoca-me. Tento-me
concentrar na musica em surdina que brota do auto-rádio. Os meus dedos trémulos
agitam-se sobre a minha perna na esperança vã de marcar o ritmo. O ritmo de quê
?
O ritmo do silêncio.
A minha mão procura a tua que a sacode bruscamente. A mesma sensação de culpa, a
mesma sensação de não saber bem o que fiz. Tudo isto me faz lembrar, quando em
pequeno, a professora ralhava com toda a classe e perguntava quem tinha partido
o vidro da sala a jogar à  bola. Eu acusava-me sempre. Não aguentava aquele
silêncio que se seguia e pedia desculpa à professora, mão no ar e vermelhidão na
cara.
Eu nunca parti nenhum vidro na escola.
O meu telemóvel toca e não quero atender. Olhas para mim de soslaio como quem
diz atende ou desliga essa merda. Eu hesito e quando resolvo enfim atender já
desligaram do outro lado. Esperas que eu diga qualquer coisa para que possamos
soltar as palavras, entrar na discussão, magoarmo-nos e fazer de novo as pazes.
Eu nada digo: eu nunca parti o vidro da escola.
Vingas-te no carro que ultrapassa perigosamente os 100 quilómetros horários
dentro de uma localidade e no meio do transito semanal. Atrevo-me a subir o
volume da musica no rádio apenas para não ficar quieto. Sinto-me a sufocar com o
silêncio que supera a musica e grita-me aos ouvidos. Oiço os pneus a chiarem e
alguém a gritar. 
Depois mais nada.
Mesmo nada.
O silêncio ganhou de vez.

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