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| Sonho
Sonho Tento não esquecer. Quase 24 horas a tentar não esquecer. Queria ter acordado e agarrado um papel qualquer, um guardanapo, um computador e escrever, escrever as imagens todas que povoaram a minha noite, escrever o espanto e a maravilha. Escrever as cores, os contrastes, as emoções, as sensações físicas. Mesmo as indizíveis eu queria escrever. Tudo. Mas não consegui. Um dia particularmente pontuado por reuniões imbricadas umas nas outras interpôs-se entre mim e o meu sonho. Assim, mantive-me quase 24 horas a lutar por manter a recordação precariamente equilibrada no limbo da memória, entre a luz e a escuridão, com imagens, frases, sons e emoções a imiscuirem-se subrepticiamente na minha mente nas alturas mais impróprias, fazendo-me vacilar a meio de uma frase, hesitar no mais complexo de uma negociação, perder o fio à conversa, subitamente, durante um telefonema. Titubeando dia fora, sempre com esta pedrinha onírica a roçar na realidade. Creio que a noite de ontem marca o regresso a uma outra era épica de sonhos com realizador e director de fotografia. Houve tempos em que as minhas noites eram povoadas por imagens e enredos dignos, senão de Hollywood, pelo menos de uma escola de cinema alternativo de qualidade. Foi uma época estranha, coroada pela estranheza maior de todas: cheguei ao extremo de sonhar sonhos com legendas, embora ainda hoje ignore que estranho idioma escolheu o meu subconsciente que tal exigia. Mas subitamente, tudo isso parou e morreu, há muitos e compridos anos, deixando-me essa morte apenas com pedaços de sonhos truncados, senão mesmo longos períodos em que deles nem sequer guardava a mais leve memória. Foi por isso com surpresa que acordei presa das mais diversas sensações: uma espécie de alegria pelo regresso dos meus maravilhosos "filmes" pessoais, que me revelavam, a dormir, uma cineasta / guionista / directora de fotografia clarividente, anos-luz à frente de qualquer coisa que saiba como fazer acordada; um espanto recém-nascido, uma espécie de manhã por estrear, uma alma nova, lavada e fresca; e um misto de vergonha confusa. O sonho acordou-me cedo, antes das 6 da manhã. A lembrança mais clara é o movimento de abrir os olhos e o espanto com a escuridão. Queria abri-los para a claridade da imagem anterior, interior (que no entanto, e estranhamente, era também de total escuridão). Sentia claramente, como a vibração de um tambor, o bater do coração sediado na garganta, embora ressoando no corpo todo e tão forte que me fazia engolir em seco; tão pausado, com intervalos de uma regularidade tão absolutamente conhecida, que senti o sangue afluir-me às maçãs do rosto quase imediatamente. Voltei a fechá-los, de súbito, não sei se naquele movimento involuntário e automático de tentar regressar ao sonho, se por um reflexo envergonhado, como se, fechando os olhos, me escondesse inutilmente de um mundo inteiro que, para além de estar a dormir, estava perfeitamente alheio à minha vergonha solitária. Fiquei uns minutos assim, de olhos fechados e embalada pelo bater sonoro do coração na noite cerrada, os membros lassos, o corpo a fugir da consciência e imagens soltas a tentarem regressar a um fio condutor, a uma ordem sequencial, a uma arrumação ordenada, a uma matemática da lógica que desesperadamente tentamos aplicar à nossa existência inteira, como se o caos não coubesse no nosso mundo naturalmente caótico. Ainda agora, após um dia em que lutei contra o esquecimento, não sobra uma história, um argumento - que eu sei ter existido algures - mas apenas várias sequências de lugares, de paisagens, de conversas, de emoções e pensamentos. Não sei como é que a "montagem" onírica resolveu estas mudanças de plano, mas a escolha de cada um deles foi soberba. Num momento estava num lugar, no seguinte estava já noutro, radicalmente diferente, à distância de um passo, tendo por fio condutor uma conversa interminável contigo, omnipresente em cada um deles. Um chá no deserto, subindo a montanha, uma escarpa sobre o imenso azul, uma floresta azul no nevoeiro - de árvores ancestrais a irromperem de uma terra de planura absoluta -águas de arco-íris, prados de verde ofuscante e uma caverna no umbigo da terra. Não recordo todos da mesma forma, alguns diluem-se apenas numa imagem, numa percepção que ficou a pairar. De uns ficou mais marcante o envolvimento, a paisagem; de outros, as conversas ou as tuas palavras; de outros ainda, as minhas reflexões. Por isso, talvez não consiga reproduzi-los como uma sequência com lógica entre si, com a lógica que o sonho tinha, não sei. Entre os primeiros e o último - o mais marcante por miríades razões - um contraste violento entre luz e escuridão. A escuridão que tinha acabado de abandonar, acordando. "No escuro, os traços do teu rosto diluem-se quase no impalpável. Não consigo avaliar a extensão fisica do lugar onde estamos. Para cima é o negro absoluto, uma abóboda celeste deserta de estrelas que nos devolve cada som como fantasmas de palavras truncadas que caem sobre nós como um manto de gotas minusculas de nevoeiro e que nos obriga a falar quase em surdina. A toda a minha volta, tudo o que me envolve é escuridão uterina. Só em frente, uma mancha trémula de luz me prova que tudo isto é rocha, pedra, minério, terra. Estou nas entranhas da terra, no seu âmago mais denso. E ali à minha frente, sentado no pó lívido, estás tu, encostado numa reentrância da parede rugosa, joelhos dobrados e cabeça baixa, pendendo como um fruto maduro tende para a terra, uma mão afaga distraidamente o pó e as pedras espalhadas pelo chão irregular; a outra pousa sobre o joelho, imóvel, como se dela te tivesses esquecido. Enternece-me essa imagem. É, de todo o sonho, a que mais forte impactou a prata da minha película onírica. Estás vestido a rigor, um arnês sobre calças de montanha, botas cardadas de ar feroz e uma camisola polar sem cor definida. Está frio. Está tanto frio! Posso ver o frio que tens. É palpável. Eu tenho frio. Uma lanterna jaz morta na sua própria escuridão ali ao lado, atirada para cima de um rolo de cabo grosso e de uma mochila aberta. Apenas um coto de vela, quase toda derramada sobre a saliência rochosa onde assenta, espalha uma luz insegurissíma num perímetro dramaticamente reduzido. Eu não me vejo. Sou eu a narradora, cabe-me o papel de observar. Mas sou eu que falo contigo, sou eu que estou ali. Sou eu e estou presa das mais contraditórias emoções, a tremer num extertor interior imparável. Não sei se é medo, não sei se é frio. Não sei...não sei o que é... Pode ser isso e muito mais. Enquanto te olho, na tua imobilidade estática, passam no meu espírito momentos anteriores do sonho, e o coração dispara adrenalina nas minhas veias: um sol nascente no deserto, a brilhar no fundo dos teus olhos, o calor da tua mão a puxar-me para o alto da montanha, um silêncio longo e súbito à beira de uma falésia agreste num imenso azul, uma caricia confusa numa floresta azul de nevoeiro, e a voz. Lembro-me de pensar como a tua voz mudou, do resto do sonho para agora. Falas com uma voz lenta e cansada, pautada por longas pausas e silêncios. Mas o calor dessa voz desafia a profundidade da gruta, agressiva nos seus contrastes violentos, nas reentrâncias agrestes, no jogo de sombras aguçadas produzido pela insignificância da luz. Os teus olhos parecem estar profundamente recolhidos no rosto, escondidos lá no fundo de fundas olheiras azuladas. Mas eu sei que é apenas um engano. Conforme falas e o teu corpo oscila imperceptívelmente, um brilho conhecido faísca na escuridão. Suspiro de alívio. Penso, suspensa no próprio espanto produzido por esse pensamento repentino que, por esse brilho, iria até ao fim do mundo. O ar vibra de novo, perceptivelmente, ao som - lento como uma valsa lenta - da tua voz: " Quanto mais profunda a escuridão, mais brilhante é a luz". A vela estremeceu mais sensivelmente e apagou-se. "Agora, eu, tu e a escuridão somos uma coisa só." - disse eu. Um chá no deserto Estou sentada na beira de uma duna imponente, na saliência afiada e repentina provocada pelo incessante roçar do vento. Encho um púcaro de esmalte azul pedrado - que contrasta violentamente com tudo o que nos rodeia - com um liquído ocre e transparente, que fumega no ar frio da manhã. O aroma do jasmin atinge-me o cérebro, despoletando uma miríade de recordações. Passo-te um recipiente e encho um idêntico para mim. Fecho o termus comprido de um padrão naif de xadrez vermelho, também ele improvável ali, quase ridículo. Rio-me interiormente daqueles utensílios obsoletos, os primeiros mais próprios da velha cozinha da minha bisa, o último parecendo saído da minha lancheira de infância. Só o aroma do jasmim parece fazer parte integrante da paisagem parada, suspensa no ar. Puxo os joelhos contra o peito, envolvo-os nos braços, as mãos rodeando o púcaro a escaldar, o queixo pousado na reentrência provocada pela junção dos joelhos. Respiro fundo e, ao expirar, a nuvem provocada pela condensação da minha respiração junta-se ao vapor do chá, envolvendo o horizonte numa coisa enevoada, só cor numa paleta. Estás semi deitado ao meu lado, o corpo esticado ao longo do rebordo aguçado, um cotovelo fincado na areia avermelhada. Uma mão sustém a cabeça, a outra, displicente, brinca com o pequeno púcaro azul fumegante pousado na areia à tua frente. Estás todo virado ao sol que pinta o horizonte, repousas num halo alaranjado, quente, suave. O sol é só uma fatia ainda, fina como uma folha de papel, um risco vermelho no anil do céu, que já se desdobra num degradé de rosa, violeta azulado, até ao negro profundo nas nossas costas. Conversamos. As vozes vibram como cristal no ar puríssimo do deserto, no silêncio puríssimo do deserto. Nem mais um som quebra a melodia sincopada das nossas palavras. Não sei se estamos ali há muito, mas o sol está a nascer e espalha pela extensão que se desenrola à nossa frente uma visão luminosa. Um padrão de luz e sombra revela-se a pouco e pouco: ondas, semi-círculos, súbitas inflexões numa direcção inusitada, compondo uma imagem sinuosa e imbricada, num movimento quase imperceptível, mas inexorável. Falamos sobre universos, os ínfímos universos, os universos incomensuráveis. "Tudo depende do ponto de vista" reforças tu, com um tom quase crispado na voz, "que à força de avaliarmos tudo à insignificante escala humana, finita, reduzimos os nossos horizontes". Lembro-me de rir e dizer-te que o meu horizonte, embora humano, naquele momento, me satisfaz plenamente. "E ela ri-se! Como as crianças...ela ri-se!" Respirei o ar do deserto até que o sol nascente entrasse dentro de mim e emudeci, embalada pelas tuas palavras, que falavam de pedras e universos, da criação primordial, de fins e princípios. "Como é que uma coisa vazia pode ser tão bela?" pergunto-te, presa de uma sensação estranha. Para mim, o vazio era como a morte. Sempre tentei encher os meus vazios aterradores com movimento, presa do pânico da solidão. Com coisas: escrita, gente imaginária, gente imaginária que se tornou real (ao ponto de já não saber separar a verdade da imaginação), livros, imagens. Essa premência acabou por se voltar contra mim e, quando mais tarde, quis encontrar o vazio absoluto já não havia espaço - estava tudo preenchido, cheio, transbordante, pavorosamente ocupado com eternidades de coisas, criadas pela minha mente para me distraír da solidão. Por detrás das minhas pálpebras fechadas, as imagens reproduziam-se à velocidade do som, à velocidade da náusea. Á força do hábito de povoar tudo, virei-me contra mim própria. Mas só soube disso muito mais tarde, quando era tarde demais. "O vazio é como uma folha em branco, não te limita." - disseste, com os olhos presos no horizonte, imóvel. Mergulhei num silêncio absoluto, a engolir em seco, subitamente comovida com qualquer coisa no mais denso de mim. Os olhos encheram-se-me de lágrimas quentes, ardentes como vinagre ou sal ou fel. Abri-os muito, como que para espalhar a água por eles e assim evitar que abandonasse a superfície vítrea; evitar a vergonha de lágrimas a rolarem pela cara, com pânico que as ouvisses cair na areia, o seu impacto seco engrandecido pelo silêncio. Na minha imaginação formou-se a imagem, muito ampliada e em câmara lenta, de uma lágrima imensa a cair na areia. Vi o seu percurso lento, a rolar pela face deixando atrás de si um rasto húmido; o momento em que se soltava subitamente do meu queixo e vibrava no ar; a superficie redonda a ondular e a deformar-se em atrito com a atmosfera, a rolar sobre si própria, como que possuída de vida própria; e finalmente o impacto na areia seca; a concavidade criada na superfície da areia pelo seu peso, quase imponderável, mas enorme à sua dimensão; os grãos de areia a saltar em volta como um nevoeiro leve e a coroa de água formada no impacto, milhares de ínfimas gotas a subir no ar. E o som. Um som cavo, profundo, vibrante. Um gongo a chamar a atenção para aquela lágrima imensa a cair na areia. Talvez tenha sido o meu silêncio que afinal chamou a atenção para mim. Ouvi-te antes que percebesse o movimento. A tua mão abandonou a cabeça e pousou na areia a meu lado, levantaste os olhos para mim, amarelos de sol, com dois sóis em miniatura lá no fundo, a brilhar. "Chora", disseste. E eu chorei. Subindo a montanha Respirei fundo. Subitamente era só o som do vento que se ouvia, omnipresente, a modular por entre penedos e agulhas afiadas. Para mim, mais presente ainda, só o silvo da minha própria respiração, um assobio, um extertor. Sinto o peito a pressionar para fora, os músculos das pernas a latejar, as fontes a latejar ao ritmo do coração, os olhos marejados de lágrimas. As lágrimas do deserto? Não sei. Não sei como cheguei aqui. O deserto era tão confortável. Anseio pelo aroma do jasmin. Faço mais um esforço. Um pé avança, tacteando o ponto seguro no chão à minha frente. Levanto os olhos e encontro a tua mão estendida à espera da minha, para me puxares para cima. "É só mais um bocadinho", dizes, fresco como se não estivéssemos há horas - há dias? - a subir, subir, subir sempre, por entre pedras a perder de vista, agulhas como dedos espetados para o céu. Aceito a ajuda e estendo cinco dedos gelados para o calor morno da tua mão. Toda a montanha, tudo à minha volta, congela por um décimo de segundo, com esse contacto. Suspiro em silêncio e tu, num impulso, iças-me para um degrau mais acima, apenas um pouco mais acima. "Cansada?" Cerro os maxilares com força e abano a cabeça, que não. Engulo a minha própria fraqueza, num soluço seco, silencioso, só meu. Voltas a olhar para trás, para mim. Sorris. E continuamos a subir aquele trilho penoso e agreste. Interrogo-me como chegou até mim esta vontade de desistir, quando se processou esta lenta mas perceptível mudança, quando foi que perdi a vontade férrea de nunca me deixar vencer pelos obstáculos, pelas dificuldades, pelas contrariedades. Parece ter ficado muito longe, não passa de uma imagem difusa de um tempo perdido e hoje - por entre o nevoeiro dessas recordações perdidas de alguém quase invencível, que nada podia parar, nem vivo nem morto, real ou imaginário - quero acreditar que posso voltar a ser e a sentir assim. São os anos, penso, supreendida comigo mesma. Sempre acreditei que os anos não são mais que uma sucessão de dias e os dias, 24 horas a somar às anteriores 24. Quase nada, uma insignificância. Mas a verdade é que essa soma é inflexível e imparável e eu, provavelmente, terei de acreditar que são os anos, são os dias que me gastam, que me tiram a força, tão pouco de cada vez que nem o sinto, mas inexoravelmente. E um dia - hoje, porque não hoje? - encontro-me comigo mesma e com as minhas próprias incapacidades e cansaços, delapidada por todas as subidas de todas as montanhas, por todas as ausências, por todas as lutas. Pela aceitação incondicional de todas as lutas e todas as ausências. Olho um pouco acima e vejo-te vencer cada pedra, cada escarpa com decisão e certeza, as botas encontrando a segurança da terra a cada passo, sempre em frente. A espaços, reconhecendo as dificuladades do caminho e as minhas fragilidades, voltas-te e esticas um braço. Uma mão aberta à espera da minha, oferece-me a tua força, sem nada esperar. "É só mais um bocadinho", sorris tu, sem palavras. Sim, é como os dias, é só mais um bocadinho, um pedacinho de cada vez a somar minutos, dias, anos. E é assim que se vencem as dificuldades. Só mais um bocadinho, um pedacinho de cada vez, seja como for, mas com os olhos postos lá em cima, sempre para cima, sem nunca olhar para trás, sem nunca olhar para baixo, sem nos deixarmos prender pela força da vertigem, pelo peso dos anos acumulados, das oportunidades perdidas, pela cegueira da desistência. Só mais um bocadinho, um bocadinho mais e um dia ainda me rirei disto, não é? Um dia, daqui a uma hora, no minuto seguinte - porque o tempo só se conta pelo intervalo que medeia os obstáculos. O tempo só é eterno enquanto passa, e muito rápido quando já passou, surpreendemo-nos nós. Só o sentimos enquanto tentamos alcançar, nunca quando alcançámos. Por isso, quando chegarmos lá acima e a minha respiração acalmar, os pulmões voltarem ao lugar e os músculos das pernas deixarem de latejar; quando fizeres uma fogueira e estivermos os dois a conversar nesse confortável halo de luz; aí vou pensar como o tempo passou depressa e angustiar-me porque ele se evapora suavemente, sem darmos conta, não é? Não sabemos aproveitar o momento. Não! Os nossos olhos estão sempre postos à frente, em expectativa, o que ainda não chegou é que será bom. E afinal é essa a nossa motivação para seguir em frente. Mas é também ela que nos consome os dias e as forças. E valerá a pena? Voltas-te de repente para trás, como respondendo à minha pergunta muda, às dúvidas silenciosas que arrasto atrás de mim, montanha acima. Voltas a esticar o teu braço em direcção a mim, sorris abertamente, um sorriso completo, com tudo lá dentro. Aceito essa mão esticada, morna, cinco dedos de dádiva na minha direcção e voo, voo na direcção do céu, contigo ao leme. Sustenho a respiração a meio de uma inspiração, até a terra me falta debaixo dos pés, a cabeça anda à roda, como um carrossel tonto, uma criança embriagada de manhã. Á minha frente estende-se o mundo como ele devia ser. Tu sorris. Sei-o. Sinto-o. Mas sou incapaz de me mover, de mover os olhos na tua direcção, presa que estou da visão avassaladora que se desenrola à minha frente. Sob uma abóboda de céu de azul absoluto, uma cordilheira de montanhas estende-se a perder de vista, de um lilás doce ao fundo, a esbater-se contra o azul. Estamos suspensos à beira do abismo, um passo em falta e seria o fim. Mas sei que estou em segurança, longe da vertigem e do medo. Só quero respirar aquilo como se fosse uma golfada de ar primordial e integrá-lo em mim, no meu corpo e na minha realidade. Tudo o que o meu olhar abarca é beleza. Beleza pura, bruta, agreste, primeva. De repente, lembro-me que nada daquilo pode ser verdade. Devo estar a sonhar. Nada daquilo existe à mão da minha realidade. Estou a sonhar! Pensava estar...em Sintra? No Gerês? Adaptava o sonho à minha realidade possível... Mas aquilo? Acredito que há uma parte de nós que sabe que sonhamos, mesmo quando o sonho é dolorosamente real. Uma parte de nós que está sempre no limiar da vigília. Fechei os olhos com força. Queria manter-me no sonho. "Ainda achas que não vale a pena?" A tua voz sobressaltou-me. Fiquei presa, uma eternidade, nos teus olhos que olhavam para mim a direito, para o fundo de mim, a brilhar. De repente percebi que estava a percorrer uma espécie de caminho iniciático e que de ti não podia esconder qualquer um dos meus pensamentos mais recônditos. E não o queria. "Não". Fechei os olhos e estendi a mão para o teu rosto afogueado, mas já não me lembro se lhe cheguei a tocar Escarpa sobre o imenso azul Senti o extertor pesado a bater no fundo do peito, como uma a extensão do ribombar poderoso que ouvia, vindo de baixo. Lutava por abrir os olhos, mas tinha medo. Tinha medo e não sabia de quê. Fechava-os cada vez com mais força, até tudo dentro da minha cabeça explodir em milhões de sóis brilhantes a afastarem-se rapidamente para os confins de um universo interior. Não percebia porque não podia abrir os olhos, mas estava possuída daquele pânico - uma voz interior, aguda e histérica, que gritava "Não, não, não". Apertei a cabeça com as mãos, com força, com raiva. Era imperioso que abrisse os olhos e encarasse o demónio, fosse ele qual fosse. Havia sol. Aquecia-me a cara. Os cabelos batiam-me nos olhos como pequenos chicotes ao vento. Abri-os, esperando confusamente ver ainda a cordilheira violeta, mas à minha frente estendia-se apenas o imenso azul, até à linha fina e esbranquiçada do horizonte, que marcava a separação do mar com o céu, ele também, azul, todo azul. Fiquei pregada ao chão. Agora compreendia. Estava no pesqueiro da Biscaia. O som chegou-me de longe. O som e as palavras mais inverossímeis, associadas àquele lugar de sonho e de pesadelo. "À la glace, à la glace ! Boissons fraiches!" Podia ver a sua cabeça molhada, seguida do corpo muito esguio, a emergir da água, já longe da praia e parodiar o grito dos vendedores de gelados que se passeavam eternamente - do nascer ao pôr do sol - pela estreita faixa de areia escura da praia de Saintes Maries de la Mer: "À la glace, à la glace ! Boissons fraiches!" Tornou-se a sua brincadeira pessoal, naquele Verão, naquela viagem pelo sul de França. Algo que o fazia rir até às lágrimas e que repetia incessantemente, de testa franzida, uma sobrancelha erguida e aplicando o seu melhor sotaque alentejano, que lhe saía naturalmente, até nos deixar a todos doidos. Lembro-me de estar um dia sentada na praia e vê-lo mergulhar e esperar vê-lo regressar à superfície. Os segundos passaram vazios, silenciosos, sem sinais. Procurei entre os banhistas, aflita. Chamei os outros. Ficámos todos, suspensos da água coalhada de reflexos do sol e de banhistas, no calor do meio dia, suspensos apenas. Eu quase à beira das lágrimas. Intuição? Sexto sentido? Ainda hoje me interrogo da razão daquele pânico inusitado. E de repente, muito para lá da linha de demarcação de banhos, com um agitar de águas a sua cabeça surge à tona, de óculos de sol de verde berrante, comprados na praia nesse mesmo dia, gritando na nossa direcção : "À la glace, à la glace ! Boissons fraiches!" Era assim o meu irmão: um bicho do mar, a quem tratava por tu, onde estava no seu elemento. E o nosso bobo da corte, quando decidia deixar de ser um bicho-do-mato, um-bicho-do mar. E que nos fazia rir com o seu humor muito próprio. Um bicho-do-mato, um bicho-do-mar. Onde sempre disse que queria morrer. E o mar fez-lhe a vontade. Por isso, ao abrir os olhos para aquele mar imenso - sentada na rocha avermelhada que se erguia solitária à beira da falésia, a escasso meio quilómetro do Cabo da Roca, a que ele chamava carinhosamente "trono de neptuno" e onde se sentava sempre a preparar os seus apetrechos antes de descer lá abaixo, ao pesqueiro da Biscaia - a única coisa que recordei foram os dias daquela semana interminável que se seguiu à sua morte, lá em baixo, num sábado às 7 da manhã quando regressava de uma noite de pesca com um amigo de longa data. Dias que consumi sentada, imóvel, no trono de neptuno, alheia aos bombeiros, polícia maritíma e mirones - que aparecem sempre, como hienas à espera do repasto - com os olhos pregados no mar azul e brilhante de sol, quase cega por aquele brilho insustentável e esperando, convicta, esperando ver a sua cabeça emergir lá ao longe e ouvir a sua voz: "À la glace, à la glace ! Boissons fraiches!" A minha esperança morreu quando, cansada, contratei uma equipa de mergulhadores que trabalhavam na construção da Ponte Vasco da Gama e, num sábado de manhã, uma semana após o desaparecimento, trouxeram o seu corpo inútil à superfície, perante os meus olhos espantados, dilatados, incrédulos. Não passava de uma coisa mole com as suas calças de bombazina vermelha e a camisa de quadrados que eu lhe tinha oferecido no Natal. Quase me senti revoltada por aquela coisa mole lá em baixo, a ser puxada para o insuflável a motor, estar a usar a roupa do meu irmão. A coisa tombou pesadamente para dentro do barco, e alguém o tapou com um oleado amarelo. O barco afastou-se, uma risca branca de espuma a cortar a mancha brilhante do sol. Foi a última vez que vi o meu irmão. "Tudo tem um objectivo, Rosa". Sabia que estarias ali, fazia parte do padrão. Nem me virei, apenas pressentia o teu corpo - o assobio do vento tinha uma modulação diferente nesse ponto em que te opunhas à sua passagem. "Pois é, tudo tem um objectivo, mas este escapa-me... este escapa-me. Tenho saudades dele". "Eu sei" - e esta afirmação senti-a eu em cada partícula do meu corpo, uma verdade interior. Porque tu permanecias em silêncio. Floresta azul no nevoeiro "Estamos calados há tanto tempo". "Estamos?" - levantaste ligeiramente uma sobrancelha enquanto olhavas para mim. Parecia-me que caminhavamos há horas, numa cadência pacífica e monótona, por entre o nevoeiro e o corpo vegetal daquelas árvores enormes, imensas, de que não víamos a copa, ocultas no nevoeiro, mas apenas os grandes troncos rugosos e escuros a emergir da terra de uma planura absoluta, a espaços matematicamente calculados, num padrão cada vez mais apertado, até parecer cerrado, lá onde a bruma densa nos ocultava qualquer horizonte conhecido. Por muito que caminhássemos nada mudava, as árvores enormes sucediam-se umas às outras, silenciosas, como guardiões eternos de uma verdade há muito esquecida. Não caminhávamos para lado nenhum, apenas caminhávamos. O cheio da terra molhada era intenso - lembro-me que tinha fome. Reparei nisso quando percebi o cheiro, quando pensei nele e pensando nele, recordei todos os cheiros que amo: terra molhada, relva recém cortada, roupa lavada, café acabado de fazer, pão a cozer. Pão a cozer. A água cresceu-me na boca ao recordar o pão da bisa, o pão acabado de sair do forno da bisa. Um brilho no chão distraíu-me da fome e, baixando-me, apanhei uma coisa pequena de entre as folhas mortas e os musgos. Uma pequena bailarina de porcelana com uma mão partida jazia entre os meus dedos trémulos: "Ah... ah...." gaguejei eu, rodando a bonequinha naif entre os dedos, a tremer. Quiseste saber o que era e eu disse-te: uma prenda da minha bisa, há muitos anos perdida, para meu desespero, pois para mim tornara-se no símbolo da justiça, no símbolo da razão. E era das poucas recordações que ela me havia dado pessoalmente. "Fala-me dela". E eu falei. Falei do dia visceralmente angustiante que passei - teria eu, o quê? 4,5 anos? - em que a minha mãe me descobriu embevecida com a bailarina de porcelana, atrás da cama e me acusou de a trazer às escondidas - de a roubar - de casa da minha bisavó. Não adiantou garantir que não, explicar que a bisa ma dera, a mim, apenas porque eu gostava tanto dela. Tentou tirar-ma, gritou. Eu chorava e apertava a bailarina nas duas mãos fechadas contra a barriga, dobrada sobre mim mesma, chorava e gritava que não. Ela acabou por conseguir tirar-ma e, nessa luta, a bailarina perdeu uma mão - a mão delicada que se elevava acima da cabeça, num movimento etéreo de dedos de porcelana. Lembro-me da náusea provocada, mais pela perda que pela acusação. Lembro-me de ter vomitado horas a fio, a cabeça enfiada dentro de um alguidar, a chorar e a pedir: "Dê-ma mãezinha, dê-ma, foi a Vó Velha que deu..." e a minha mãe inflexível e convicta de um crime abominável. Claro que tudo se esclareceu no dia seguinte, com a bisa aterrada com as minha olheiras negras de uma noite em branco, em pânico, a navegar no charco daquela injustiça, a afogar-me num mar de lágrimas e de perda. A mãe ainda tentou reparar o erro, oferecendo-se para colar a mão perdida - como se isso retirasse a injustiça cometida - mas eu recusei. Recusei sempre, até ao dia em que a perdi, definitivamente, muitos anos depois, numa qualquer mudança de casa e voltei a chorar as lágrimas amargas da perda. Tu sorriste perante a história infantil, mas eu sentia-me de novo ultrajada, de novo sentindo como da primeira vez, a minha primeira profunda injustiça, a minha primeira recordação de uma perda emocional. "Será que os objectos amados e perdidos vão para a terra nebulosa dos sonhos?" interrogo-me, mais a mim do que a ti - "Será que só aí os podemos reencontrar?" "Nos sonhos encontras tudo o que quiseres, és tudo o que quiseres" - e sorriste-me, com os olhos nebulosos do nevoeiro com um brilho dentro. E eu acreditei em ti. Uma caverna no umbigo da terra "Agora, eu, tu e a escuridão somos uma coisa só." - disse eu. As palavras ficaram a ecoar no escuro, como xarope grosso a escorrer. No silêncio apenas o som levíssimo da tua respiração me impedia de ficar totalmente perdida no nada. Mas não tinha medo. Passou uma eternidade de tempo, mas podiam ter sido só segundos. Fechei os olhos, embora isso fosse totalmente inútil e estendi o braço para a frente, na direcção onde deverias estar, os dedos a tactear o ar. Parei subitamente antes de tocar o que provocava uma onda de calor, que sentia, a milimetros das pontas dos meus dedos. O coração disparou, senti a respiração acelerada, antecipando o toque. Suspendi o ar nos pulmões e deixei que o meu corpo se inclinasse para a frente imperceptivelmente. Os meus dedos tocaram a tua mão, também ela esticada na minha direcção, quente, um pouco húmida, viva - essa mão que me buscava silenciosamente no mesmo movimento silencioso com que a minha te buscava a ti. Na ausência de luz, todos os sentidos se aguçam, e a minha pele disparou em electricidade e toda eu fui para ti, dois corpos tendendo numa direcção comum. Os teus braços aceitaram silenciosamente o meu corpo, envolverem-no numa infinita doçura e enterrei a minha cara no concâvo morno do teu pescoço, sentindo o teu cheiro, recebendo o teu calor, esquecendo tudo: a escuridão, o lugar inóspito, todas as minhas dúvidas e problemas, todas as minhas reservas e culpas. Não havia palavras, não havia lugar para as palavras. Mas as de Eugénio de Andrade ecoaram no escuro. Ou foi nas minhas veias, lá no mais inacessível do meu corpo? Palavras tão densas como esta escuridão, tão envolventes como os meus braços, tentaculares, tentando exprimir o inexprímivel. A pele a arder, correntes telúricas de calor a explodir em cada milímetro deste corpo que estremece colado ao teu, em pânico. "Não acordes agora, não acordes" - a voz do limiar, a voz da vigília a murmurar que é um sonho. "Cala-te, a luz arde entre os lábios E o amor não contempla, sempre O amor procura, tacteia no escuro, Esta perna é tua?, é teu este braço?, Subo por ti de ramo em ramo, Respiro rente à tua boca, Abre-se a alma à lingua, morreria Agora se mo pedisses, dorme, Nunca o amor foi fácil, nunca Também a terra morre." Não sei se também as ouviste. Ouviste? Não sei. Colei-me mais a ti e senti um par de lábios que eram pertença tua a navegar devagarinho pelo meu pescoço, a pele toda em alvoroço - cada poro, cada pelo reagindo ao calor do teu hálito. Detiveram-se rente à minha orelha e murmuraste: "Acho que foi o sorriso..." Mergulhei completamente naquela vertigem e tudo deixou de fazer sentido, não havia mais palavras que pudessem ser ditas, nenhum som inteligível permitido. Apenas lançámos as nossas moléculas no espaço, na direcção a um canto do universo, já não numa gruta, já não no umbigo da terra. No espaço infinito, sideral, a viajar à velocidade da luz, estrelas a correrem em clarões súbitos, galáxias em turbilhão, vulcões soltos na noite cuspindo luz e lava multicolor, até mergulhar no vórtice de uma supernova e tudo se desfazer em luz, combustão primordial, emergindo na insustentável claridade... Despertei do sonho como quem emerge da água, após uma imersão demasiado prolongada. Espantada por me encontrar ali, no meu quarto, e não numa gruta desconhecida nas entranhas da terra. Abri os olhos para aquele quarto escuro e silencioso mas só queria abri-los para a claridade da imagem anterior. Para o teu calor na imagem interior. Senti, claramente, como a vibração de um tambor, o bater do coração como que sediado na garganta, tão pausado, com intervalos de uma regularidade tão absolutamente conhecida, que todo o sangue me afluiu ao rosto quase de imediato, num reflexo de vergonha insustentável... Depois, à medida que a respiração voltava ao seu ritmo normal e o coração se aquietava, apercebi-me que, excepto o que estava associado às sensações físicas, tudo - quase tudo! - se estava a esfumar no ar. Encetei então um exercício titânico para recuperar o meu sonho. Levantei-me por dentro da madrugada fria e fui fazer café. Envolvida pelo aroma inebriante, fumei lentamente um cigarro e peguei num dos meus cadernos de apontar a vida. E escrevi tudo quanto me lembrei. Tópicos que me servissem de guia para reatar as pontas soltas entre as imagens que se espraiavam caoticamente na minha cabeça, em alvoroço. Imagens esquivas que me acompanharam quase todo o dia, até eu ter a certeza que fora recuperado tudo o que podia sê-lo. Sei que muito se perdeu: diálogos inteiros que ainda agora tento recompor sem sucesso; outros lugares que já não passam de meros fantasmas; suposições. Deixo-te aqui tudo o que consegui salvar do esquecimento - as palavras que recordo, as emoções que revivo ainda agora, as impressões mais marcantes. Deixo-te tudo aqui à laia de testemunho, não sei bem de quê. Testemunho talvez de que, dê lá por onde der, serei cristalina para mim mesma. Não haverá teatro. Abaixo os gregos. Há alguma vergonha por aqui à mistura, alguma culpa. Mas, uma vez que existe, é verdadeira e é para ser dita. Mas culpa porquê, interrogo-me? É apenas um sonho. |
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De longe Subia serra acima com seis crianças entre os 4 e os 6 anos. Eles corriam lá à frente, entre gritos e ervas, um braçado colorido e eu cá, atrás, carregada com uma cesta enorme ( o piquenique !) deixava os olhos alongarem-se por aquele pedaço maravilhoso de verde. A "nossa" floresta. É certo que hoje em dia já temos de saltar um muro esboroado, alguém colocou um portão. Também temos de levar água, desviaram a nascente que ia dar à fonte, hoje seca. Escavacaram caminhos, cortaram árvores, vazaram tanques, deitaram a baixo a "casa da branca de neve" onde íamos sempre espreitar, não fosse dar-se o caso de um anão ter ficado constipado e estar em casa. Os limoeiros foram-se, as moitas de silvas que em Setembro se carregavam de amoras pretas e gordas são só uma recordação..."mãe, lembras-te?" E depois esqueceram-se. Ou acabou o dinheiro destinado à destruição, ou apenas é mais divertido destruir que cuidar. Sim, eu lembro-me e com sorte, Maggy, no próximo ano as amoras regressam à beira do caminho, se não neste, no outro ou ainda mais tarde... e talvez a fonte, depois de um Inverno rigoroso, regresse ao seu caminho de sempre. Quem sabe? Quero que a infância dela seja um lugar cheio. Um lugar repleto de recordações, emoções, sensações. Um lugar com mais que vídeos, barbies e computadores. Ela será do tempo em que o computador a acorda de manhã e adormece à noite e estará presente em cada minuto da sua vida. Com a minha idade, provavelmente não sairá de casa sem programar o dia da casa que fica vazia. A hora a que o forno se liga, a lista das compras disparada para uma internet omnipresente, talvez a consulta do saldo bancário, as contas a pagar, um sem-número de actividades que estarão à distância de uma tecla, no brilho azul de um ecrã. Quero que aprenda agora a ver a vida fora desse ecrã e que o verde não seja escolhido numa opção qualquer do PaintshopPro. Quero que as mãos dela aprendam a lidar com a terra, a colher, a associar a semente e a planta, a perceber que as alfaces não nascem dentro de um embrulho de celofane, por geração espontânea na prateleira de um supermercado. Quero que recorde como se extasiava com as flores, com os insectos, como qualquer ramo quebrado era um bordão e meia dúzia de heras uma grinalda. Quero preservar para ela uma memória antiga que habita a minha própria memória. Em que as coisas faziam sentido e se trabalhava para colher. Essa memória que hoje procuro preservar para mim mesma quase no limiar do esquecimento, como o sonho. Sobram as imagens e as sensações mas não o ténue fio condutor das maravilhosas histórias contadas à lareira, de que guardo apenas pedaços soltos, incapaz de as reproduzir para a minha filha. A memória da minha infância. Do alentejo da minha infância. Com que saudade recordo Bia a entrar em casa com a bilha de barro a escorrer água fresca e do jeito suave e maneado como a pousava no poial de pedra !Via-a pelo postigo da janela debruçada sob o muro do poço, a forma precisa e sacudida como enchia, de uma vez só, o caldeiro lá no fundo – quantos dias de verão passei, em bicos de pés e esticada por cima do muro a espreitar a água escura entre as avencas, a treinar o sacão brusco na corda que faria o caldeiro encher de uma assentada! Oh Bia, Bia! Tudo perdido. Tudo morto. A avó Nena, na sua imensidão que alastrava ferozmente dos vestidos pretos de um luto eterno por filhos nados-mortos , a senhora da casa, a patroa, a manageira. Lembro-me de admirar as suas ancas enormes, de parideira, sobressaindo abaixo do eterno avental atado à cintura ausente, toda ela grande, abrangente, omnipresente, quer pelo volume quer pela personalidade de sargento. Navegava mais do que andava, sulcando a casa como um navio, com passos lentos mas determinados. A trança ainda muito preta enrolada à volta da cabeça, os olhos escuríssimos que eu ansiava por não ver enfurecidos, e os seus mimos sacudidos mas vorazes. Dela, recordo especialmente o tempero, a mão de cozinheira, sempre debruçada sobre o lume na lareira de parede a parede, panelas e panelinhas de barro vertendo por entre testos areados iguarias fervilhantes para as brasas. E a sopa de feijão com arroz! Caldosa, olorosa, os bagos de arroz abertos como flores no caldo de feijão manteiga que o avô Gaspar secava, espalhado sobre sacas, no sótão do palheiro do fundo do quintal. O sótão era território proibido e por isso infinitamente visitado à sorrelfa, nas manhãs enjoadas de domingo, quando nós, os catraios, nos esquivávamos à sonolência parda da missa. Lá chegávamos por uma periclitante escada de madeira e aquilo não era mais que um braçado de tábuas corridas sobre as traves do palheiro. Mas que encanto, a luz, o espaço prenhe de cheiros e de uma poeira eterna suspensa nas lâminas de sol que se escapavam pela telha vã! Ainda hoje a minha despensa parece arremedar esse lugar: os cachos de tomate de conserva, muito bem compostinhos em ramalhetes laranja-baço, pendurados ao longo da parede. Os cachos de uva-passa, a minguar lentamente naquele suadouro infernal; as batatas, o feijão, a cebola à espera de ser entrançada em réstias; os cestos com nozes e os tabuleiros de figos a secar, que ressumavam o açúcar em pontinhos brancos sobre a casca rugosa e amarela. As balanças, os baraços de corda grossa que atava o porco, na matança. Um paraíso.
Vi-a definhar e morrer, a avó Nena, sentada num mocho de palha, a descascar ervilhas até à eternidade. Estranho como as recordações mais vividas são as mais antigas, eu menina, não as tardias... E o avô Gaspar, com o seu eterno porte de oficial de cavalaria – aquele que do alto de um cavalo baio apaixonou a menina Mariana, dezasseis anos mal feitos, enfim, um escândalo que ele tinha mais outros tantos - porte que manteve até ao dia em que, finalmente cedeu a sua mão e pediu tréguas numa guerra que travava com o coração que não o deixava viver com dignidade. Despediu-se da minha avó e da vida e pendurou-se na parreira do quintal ao lado dos cachos de uvas morangueiras que já não colheu, nem pisou, nem viu ferver. Como me fazes falta, avô! Queria sentar-me contigo à lareira e dizer "vês, esta é a tua bisneta". Ela tem os olhos pretos da avó Nena, mas aquela ternura de olhar é toda tua, avô. As tardes de verão, quentes a escaldar, passadas na casa do fundo contigo, avô, que mentias à avó e me deixavas ficar a ver-te encher cartuchos e brincar com os chumbinhos, em vez de dormir a sesta... e subias à figueira e colhias para mim figos gordos e maduros de capa-rota, a escorrer leite e mel. E depois, quando o sol o permitia, ias para a horta regar – lembro tão bem os teus gestos calmos e compassados, sem pressa, tu nunca tinhas pressa! – de enxada na mão, a abrir um rego de cada vez, para as caldeiras do feijão de embarrar. As canas faziam cabanas de índios, as folhas eram verdes e os feijões, grandes e curvos, pendiam pesados, e eu ali me escondia inventado mil histórias, João pé de Feijão, Joana da cana, e me enchia de água e lama fresca e escorregadia.
Ainda hoje refaço em muitos gestos os gestos deles todos; a minha mania de ter a casa cheia, apenas feliz com uma despensa a abarrotar de coisas que cheiram e lembram as suas casas e as suas vidas. Os garrafões de azeite escuro e aromático, as cebolas e alhos em réstias entrançadas como o avô as fazia, perfeitas, justas, apertadas. A rotina de fim de verão, em que me enfio na cozinha, presa de um qualquer transe ancestral e encho tachos e panelas com a fruta fresca chegada da quinta, tomate-chuxa, pêssegos, abrunhos e repito os gestos, dela, minha avó, preservando para o inverno os frutos maduros do sol e do verão. Qual bruxa entre caldeirões borbulhantes, grossas bolhas da fervura a estourar com um som seco, procuro o "ponto" na memória, apertando entre os dedos a calda doce. Doce de tomate e canela, vermelho escuro e compacto, comido ao serão sobre uma fatia grossa de pão, ou à colher, às escondidas que isso não se faz, doce é conduto.
E mais longe ainda, avó Velha, oh bisa Victória, que saudades ! A tua casa era a minha casa de bonecas, o mundo encantado habitado por uma fada que eras tu, branca e leve, adejando como asa pela cozinha imensa, senhora das arcas! A arca do pão, onde ainda entravam, vindos em tabuleiro do forno, os pães quentes, grandes como lajes, tostados, a que eu tirava os biquinhos castanhos e saborosos às escondidas. Não ias em modernices, Vó velha, o teu pão não vinha da padaria, mas do forno, pontualmente uma vez por semana, em tabuleiros de madeira tapados com uma toalha muito branca, à cabeça da Bia. A Bia que passava a manhã contigo a amassar e a sovar a massa grossa e pesada, que punham nos alguidares de barro vidrado a levedar. Era um mistério insondável para mim, vê-la entrar – tão pouca ! - e sair grande e esponjosa, macia, imensa. Depois, deixavas-me fazer pães pequeninos – tu deixavas-me fazer tudo bisa! – que iam para o forno com os pães que tu a Bia moldavam com gestos rápidos e precisos, repetidos uma vida inteira. E a arca da salga, enorme ! E os pernis à espera de vez para o fiambre no forno e o toucinho branco e macio como manteiga ! E o caixão do cereal, a arca da farinha, branca, fininha, a escapar-se pela fresta da tampa em grandes golfadas poeirentas. E a arca do linho, o cheiro a alfazema ! – herdei essa arca vó velha, sabes? Está no meu quarto e ainda cheira a alfazema, mas do linho restam apenas umas peças amareladas, com a letra do teu nome, o V da Victória, V de Victória, Vó Velha, bisa, querida fada pequenina. E os pequenos almoços (para mim, que para ti o para o vô velho eram "almoço") em que me enchias a taça azul e branca de fatias finas de pão e de queijo seco e salgadinho e cobrias tudo com um café com leite fumegante e grosso como chocolate. Como vou contar tudo isto à Maggy, bisa? Onde estás ? Onde está o teu rosto velhinho, a pele quebrada em infindáveis pregas sucessivas, onde eu contava as rugas com o dedo pequenino – uma, dua, três... - só para sentir a tua pele tão macia, parecia seda! E os teus olhos azuis leitosos – céu de Verão! – tão doces, tão doces... Havemos de voltar a conversar, bisa, debaixo da laranjeira enxertada; tu a apanhar salsa e coentros ao pé do tanque e eu a comer laranjas à dentada, o sumo a escorrer-me pelo queixo. A tua voz de campainha, tinia histórias que me faziam voar, que saudade Vó Velha, que saudade. Bisa, tens uma trineta e eu pergunto-te, o que vou deixar para ela, como tu me deixaste? Queria contar-lhe da alegria mansa de ficar à espera do vô Velho, no portão, e ver a parelha de mulas a chegar, a carroça carregadinha de tojo, para acender o lume. E explicar-lhe que no teu tempo havia uma casa do lume – qual recordação primeva de um fago sagrado - onde havia sempre calor e cheiro a café de panela e a fumo, e a chouriços a fumar nas traves pretas do tecto. E contar-lhe que o vô velho cavava e bulia de manhã à noite, mas que colhia. Que quase tudo vinha das vossas mãos gastas e curtidas pelo sol. Que o trabalho dava frutos, frutos reais, sumarentos. Batatas, que se fritavam em azeite, vindo do lagar. Cebolas, alhos (ai, o cheiro do piso da açorda!) tomate, feijão verde, verdinho! Como lhe explico, a ela, que se alimenta das linhas que rabisco (que não germinam, crescem, amadurecem)? Que os frutos do meu trabalho são papéis, coisas sem nexo, sem raízes ? Que o que lhe chega à mesa nem eu sei o que é? Geneticamente manipuladas, sei lá até onde pode ir esse conceito! Por isso continuo agarrada às ténues raízes que me prendem à terra, cá no fundo convicta que apenas se colhe o que se semeia, seja lá isso o que for. O meu mundo é hoje o das ideias, dos conceitos, tudo coisas que não se atam em réstias, não se tocam. Mas, no entanto são reais. E este o meu mundo mas é no sedimento do outro que as minhas raízes se afundam e me dão estabilidade. É no sedimento do outro que encontro paz.
Olho para eles, para os miúdos, a gritar e a correr felizes no meio da erva, molhados, suados, sujos, felizes. Hoje vamos fazer um piquenique com coisas feitas com as nossas mãos, com as mãos deles. Misturaram farinha e ovos, açúcar e leite, amêndoas e mel. Mexeram, amassaram, ficaram sujos e enfarinhados. Espreitaram o forno, acotovelando-se uns aos outros, e viram crescer e dourar a massa. É só um arremedo, mas é um princípio. Não fomos à loja comprar coisas de plástico, sem história e sem trabalho, sem sabor e sem qualidade. Hoje voltámos um bocadinho para trás, a ver se o futuro pode andar um bocadinho para a frente. Hoje fiz um piquenique com a minha filha e filhos de outros, que no entanto também são meus. E contigo avó Nena, a descascar ervilhas à lareira; e contigo avô Gaspar, a regar o feijão; e contigo Vô Velho, na casa da parelha a ferrar as mulas; e especialmente contigo, Vó Velha, minha avó fada, branca e leve como uma pena, a apanhar salsa e coentros ao pé do tanque. Vieram de longe - tão longe ! – como eu vos amo! |
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