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João Moutinho
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Queria ter sido
mulher! |
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CARTA A UM AMOR QUE NUNCA ESQUEÇO Esta carta de amor é muito triste É uma carta de amor sem preço É a carta a um amor que não existe É uma carta que nem sequer mereço Carta a um amor que nunca esqueço Carta de amor que não existe Como podes lembrar do luar que nunca viste… Que nunca existiu? E, no entanto, passeámos tantas vezes naquelas dunas. Claro que não te podes lembrar da sombra Esculpida pela lua na areia Éramos um corpo só Bordado de lua cheia Sei que não podes fazer sorrir a memória Mas eu posso, eu lembro-me bem, muito bem… O meu braço, o braço direito… Não me perguntes porquê Ficavas sempre desse lado, Rodeava-te o pescoço E as pontas dos meus dedos Pouco a pouco, lentamente, Faziam do teu mamilo Um flamejante caroço. Nesse preciso instante Sentia uma pressão maior Do teu braço esquerdo no meu ventre Os dedos entrelaçados Das nossas mãos restantes Nunca mais se esqueceriam De tão preciosos instantes É incrível a força das mãos dos amantes E a doçura da ponta dos dedos… Lembras-te, uma vez à luz das velas? As mãos avançaram lentamente, Eram tão belas as pontas dos teus dedos, Sabiam de cor o caminho De encontrar os meus, Ficavam a conversar devagarinho Quase não se tocavam E trocavam tantos segredos… Não havia tempo, Nem relógio a marcar as horas Tínhamos todo o tempo do mundo Recordo-me ainda dos desenhos da velha carpete Poída já do peso dos nossos corpos abraçados Mas nada disso era importante Nem a voz do Aznavour Cantando La Boheme tão distante Nem a vela que apagou. Até a lareira secou No calor do nosso amor Só o Sol no seu fulgor nos despertou… Sei que não te podes lembrar do sol O Sol nunca existiu O amor não existiu Tu nunca exististe Só o autor desta carta existe Por isso, só por isso Esta carta de amor é tão triste É apenas uma ideia… Éramos um corpo só Bordado de lua cheia 26/08/2005 |