João Moutinho

 

Queria ter sido mulher!

 

 

 
CARTA AO POETA QUE NÃO SOU

Esta carta não tem endereço
Nunca devia ter sido escrita
É quem sabe o alto preço
Que pago por não ter guarita

As palavras de palavras não passam
Só ganham algum sentido
Quando escritas, quando ditas
Quando se agarram à alma
Quando a alma acredita
Que vale a pena sentir

Mas quando é que a alma sente?
Quando se sente que a gente
Já não sabe o que sentir

Deixa-te lá de mentir
Poetas que estás em mim,
Passas a vida a sorrir
A gozar tudo o que sou

Há… Há um gozo que nunca te dou
Por muitos versos que me faças sofrer
Acabo sempre por ser eu a escrever
Aquilo que tu não queres

Sei que amas como eu todas as mulheres

Sei que, como eu, levas a vida a seduzir
A partilhar o que se calhar nem queres
A reduzir ao ínfimo de ti o que eu sou
Mesmo se tu não quiseres

Pudesse eu ser o poeta que me habita
Pudesse ser das palavras o abrigo
E nunca correria nenhum perigo
Nem atingiria nenhuma meta
Nem nunca serias o meu castigo

Ah! Poeta que não me deixas ser eu
Pobre poeta que em mim se desenvolveu,
E teimas em não me deixar crescer,
O homem que há em mim ainda não morreu
Quem manda em mim sou eu

E com todas as palavras que conheço
Com todas as palavras que mereço
Declaro aqui um amor que não tem preço
E não se pode cobrar

O endereço desta carta
Que nunca devia ter sido escrita
É para quem souber acreditar
Que a vida sou é maldita
Se não soubermos amar

 

        

        

      
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