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João Moutinho
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Queria ter sido
mulher! |
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DESPEDIDA Olá amor Esta é a última carta que te escrevo Embora pareça estranho Ainda me apetece chamar-te Meu Amor Ainda me atrevo… Afinal sempre te tratei assim E ainda te mantenho Tão viva dentro de mim Esta é a última carta que te escrevo O último adeus… A despedida… Não tem nenhum sentido Sem ti a minha vida Há muitos anos que o sol Não aquece os nossos beijos A lua há muito que deixou De iluminar os nossos desejos Puros e nus deitados na fímbria da areia Há quantos anos tu não passas de uma ideia? Podem dizer que é loucura Mas a ternura com que beijava Os teus ternos olhos fechados A doçura de lamber a sobrancelha E sentir-te arrepiada A candura da mordida Do lóbulo da orelha… A aventura de descer o teu pescoço Beijar-te a nuca E sentir a língua maluca A escalar-te os seios… As minhas mãos não tinham dedos Eram apenas devaneios A desvendar os teus segredos Depois descia aos degredos Da prisão das tuas coxas Pressão total E o animal que há em mim Furava todas as rochas Em estado puro e natural E nunca havia final Podem dizer que é loucura Mas não havia nenhuma meta Tudo podia acontecer Na vida íntima e secreta Esta é a última carta que te escrevo Não me atrevo a dizer Que a cidade morreu Não me atrevo a dizer Que o meu neto cresceu O meu neto, o neto que não é teu! Não me atrevo a dizer Que a cidade existe Que a cidade sempre existiu Porque sem ti é tudo triste Até o meu coração dormiu Esta é a última carta que te escrevo E como tenho a certeza que não vais ler Posso continuar a ser louco As vezes que me apetecer E continuar a sentir-te nua Sempre que achar que é pouco Cada vez que amanhecer Esta é a última carta que te escrevo O último adeus… A despedida… O último elo da teia Adeus minha querida Há quantos anos tu não passas de uma ideia? 2002/07/21 |