João Moutinho

 

Queria ter sido mulher!

 

 

 
 
BRUMA
 
(Sujeito ao mote de Marta Cruz:
... e da bruma emerge a cidade
negra...
Como eu!)
 
 
Sente-se a espuma do rio
Por entre a bruma...
 
Uma névoa que inebria
Um cheiro, um gesto, um gosto...
Duas margens na ribeira
De pontes que não conheço...
Quantas surpresas no rosto?
Quantos sorrisos mereço?
 
Piso um chão quadrado de saudade
Um chão duro, terra bruta
Sente-se em cada pedra
Uma luta, uma disputa...
Uma guerra realidade...
 
Cada cara é um sorriso que não sei
Um abraço no meu silêncio
Um afago no meu âmago
Há um soco no estômago 
Mas não dói...
Quase me sinto herói
De banda desenhada
 
Atravesso toda a cidade
Perco-me em cada esquina
Cada rua desconhecida
É outra história
Para encher a minha vida...
Até uma cigana me leu a sina
 
Na Sé até o fado cantei
Não, não sei por andei
Havia uma Grande Praça
Um ribeira, um Porto...
Bebi bom vinho da Pipa...
Inda não sei bem onde acordei
Será que me deitei?
 
Esfreguei os olhos cansados
Entre o denso nevoeiro
Lavei a cara
Na água gelada do chafariz
 
Não havia nenhuma regra
Ninguém me fez infeliz...
 
Senti no rio a espuma
Do meu céu..
... e da bruma emerge a cidade
negra...
Como eu!
 
 
Fev 2000

        
 
 
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