João Moutinho

 

Queria ter sido mulher!

 

 


QUEM ME DERA
 
(sujeito ao mote: Entre as coisas e mim havia vizinhança)

Entre as coisa e mim
Havia o mundo
Havia o modo
Havia o medo

O silêncio cimentado
No fundo de cada ser
A arte de não dizer 
Do sentimento profundo
Que nos obriga a viver
Não de frente
Mas de lado

Entre as coisas e mim
Havia actos
Havia fados
Havia factos

Contratos que alguém assina
Sem saber do que se trata
Coisas em nome de mim
Feitas de forma abstracta
Ás vezes contra natura
Que por vezes assassina
A inteligência nata
E causam tanta amargura

Entre as coisas e mim
Havia fome
Havia caos
Havia falta

Acenos que não se fazem
Vizinhos que não existem
Bons dias que não se dizem
Mendigos que já não vivem
E já não nos dizem nada

A falta que nos faz a humildade
O caos a que chegou a sociedade
Que já nem mata a fome a liberdade

Entre as coisas e mim
Há quase tudo
E quase nada

Quase tudo 
O que há em mim de criança
Quase nada 
O que há em mim de esperança
Quase tudo
O que o poema respira
Quase nada
Que é quase tudo mentira

Quase que conheço a vizinha
E quase que desconheço
Será isto que eu mereço?

Entre as coisas e mim havia semelhança
Entre as coisas e mim havia vizinhança
Quem me dera poder voltar a ser criança

João Moutinho aka ressoa
02/11/2005
 
 
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