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João Moutinho
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Queria ter sido mulher! |
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HAVIA TANTA COISA… (Sujeito ao mote: Entre as coisas e mim havia vizinhança) Havia tanta coisa que não lembrava Ecos de saudade Ruídos de infância Do tempo em que o pão que se fez Sabia a pão E a sardinha, bem assada, Se dividia por três Três pedaços de irmão Três esquinas de rua Três espaços de nada Todo o Universo na palma da mão Havia tanta coisa que não conhecia Solidão a rodos Manchada de espanto No canto vazio Cansado da noite Não sei se era fado Não sei se era açoite Não sei se eram todos Sei que era beleza Que me descobria Havia tanta coisa que não me deixavam Os dias de festa Em que nunca cabia. As tardes de sesta Que me proibia, Prender de polícia, Fazer de larápio Pegar no cardápio Da minha ousadia E vestir a vida Dos sonhos que tinha Havia tanta coisa que não entendia A Missa do Galo Que me adormecia O Jornal da Noite Que me aborrecia As novas da guerra Que iria morrer Dois palmos de terra Dois baldes de cal Dois olhos vazios Da minha utopia Havia tanta coisa carente de esperança… Entre as coisas de mim E o Eu das minhas coisas Não há qualquer semelhança Entre as coisas e eu Apenas vizinhança 31/10/2005 Anterior Próximo |