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   João Moutinho

Poemas (1 a 20)

 

Página Inicial    O Ecos do Ressoa   Poemas 1  Poemas 2    Sonetos ditos

01 - A causa das coisas

02 - A magia dos sonhos...

03 - A meias

04 - A minha poesia

05 - A propósitos das Malvinas

06 - Abandono

07 - Abraços

08 - Açoite

09 - Adágio

10 - Adormeci

11 - Adoro páginas brancas

12 - Aflito

13 - Agora

14 - Ais

15 - Andorinha

16 - Anoitecer

17 - Ao mesmo tempo

18 - Aqui

19 - Até amanhã

20 - Até ao fim

José Alves

A Casa da Mariquinhas

 

 

 

A causa das coisas

A CAUSA DAS COISAS


Despedi-me das causas
As coisas nem sempre são o que parecem
Nem as nítidas imagens
Nos transmitem tudo
Tantos são os filtros que consomem...

As coisas...
As palavras...
Parecem às vezes, moucas,
Outras vezes, loucas...
Saltitam de boca em boca
Como se a fome pudesse
Escrever-se nas entrelinhas
Como se não existisse
Como se o ventre as parisse
Já cansadas, tristes, roucas...

Às vezes são muito poucas
As razões porque as usamos.
Outras vezes, mais traquinas,
Saltam como bailarinas
Nos palcos que a vida tece
E quase tudo acontece

... causam-se as coisas...
... coisam-se as causas...
E entre muitas pausas,
Parêntesis e risos
Há silêncios consentidos
E sentidos em silêncio

Despeço-me das coisas...
Esqueço-me das causas
Verto as águas que não quero
Escrevo as mágoas que não espero
E em desespero...
De causa... de tema... de poema...
Termino aqui o teorema...
... por causa das coisas...


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A MAGIA DOS SONHOS DE OUTONO

A MAGIA DOS SONHOS DE OUTONO


Tão longa se torna
A espera... se não vens!

Já nem saudades sei sentir
Quando apenas és...  ausência!

Olha a demência 
Do que escrevo
A decadência
Em cada verso
O olhar disperso 
No chão que já foi nosso...
E nosso único leito!
Desfaz-se assim
Todo o sonho que foi feito?

Já nem a magia dos sonhos
Me liberta...
Quem concertará a tua fuga?
Nem a lágrima que corre
Na mais profunda ruga
Me desperta...

Já nem o meu sono
Sonha...

Terá folhas o Outono?
Será que depois do Inverno
Ainda terei o inferno
De não te ter?

Basta ausência!
Não te quero conhecer!

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A MEIAS
.
A MEIAS


Sei da escrita o mesmo que de ti.
Leio na vertical o que me dizes
sem cuidar do que escreves - horizontalmente

Sei de ti o mesmo que da escrita
vertical, sem margens, nem pontes,
nem passagens subterrâneas

Sei da escrita as mentiras enganadas,
engasgadas verso a verso
como as maçãs de cada vida
brilhando sempre - ardentemente
antes da primeira dentada.

Que culpa tem a lagarta que haja fruta?

Sei de ti apenas o que queres
que eu leia em entrelinhas
ricas de tudo o que eu quiser...
meias verdades
a meias
com meias mentiras

Assim, é impossível ter saudades
do que nunca se sentiu

Nunca as maçãs serão lagartas
por muitas palavras que mastiguem
Nunca as lagartas serão palavras
por muito que mastiguem as maçãs
Nunca as palavras serão maçãs
por muitas lagartas que as mastiguem

Da escrita e de ti sei quase tudo...

Meias mentiras
a meias
com meias verdades

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A MINHA POESIA
A MINHA POESIA
Plantei um verso 
Na árvore da minha primavera
Na trepadeira louca do meu eu
Provavelmente um verso ateu
Um verso era...

Plantei um verso no meu eu...
Na trepadeira da minha primavera
Um verso ateu 
Provavelmente a árvore
Que não queria
Era um verso
E não sabia

Provavelmente
A trepadeira não era eu
A primavera era um ateu
Que não queria a minha árvore
E eu não sabia
Que era o verso que plantei

A trepadeira não era árvore
A árvore não era verso
O ateu não era primavera
A era não era
E não sabia
Que eu era apenas
A minha poesia

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A PROPOSITO DAS MALVINAS...
A PROPOSITO DAS MALVINAS...


Olhos em flecha, corpo e cor.
O fogo, o pau, a mecha,
O verde mar, a dor.
O princípio da paixão - 
A pecha.
A doçura, a ternura, a amargura,
O amor...

Dois dedos de espuma
Um mar imenso
O universo da fortuna
A metro e meio
E eu semeio, semeio...
E há sempre
Uma lacuna no meu seio.

Uma grade, uma prisão...
A calúnia que se mete de permeio.
O tédio, o impropério,
O assédio impossivel da loucura.
A secura, a secura...

A força do dedo médio,
O remédio para as anginas,
As Malvinas, as Malvinas...
A prosápia do gatuno
A luta do vagabundo
E o mapa deste mundo
Cada vez mais dividido...
E o ser humano ofendido
E o seu nome estilhaçado
E um estilhaço de crâneo...
Vendido ao quilo no talho?

Porque as verdades são fogo
Que não ficam no atalho
Nem se perdem nas retinas
Não joguem mais este jogo....

As Malvinas....
As malvadas das Malvinas...

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ABANDONO
ABANDONO


Ando a recolher
Todas as palavras que conheço
Para dizer, a quem as ler,
Que não mereço
Tanto esforço

Já baralhei
Demais o seu sentido...
Quantas vezes misturei
O fruto proíbido?
Quantas vezes rimei
Dor com amor?
Pão com chão?
Chão com grão?
Perigo com amigo?
E quantas outras rimas
Que não digo...

Ando a recolher
Todas as palavras que inventei
Para as trancar
No dicionário
E acabar de vez
Este calvário.

Escrever?
Para quê...
Apenas para dar
Prazer a quem lê?
E para quem não sabe ler
Valerá a pena escrever?

E quem tem fome?
Será que também consome
A dor que me vai no peito
Quando não tenho outro jeito
De gritar a sua dor?

Para quê a palavra Amor?
E solidariedade?

Tenho de acabar
Com a maldade
De escrever apenas por prazer...
Escrever só por escrever...
Que vã vaidade?

Há tanta coisa a fazer
Até se poder usar 
O palavrão igualdade...

Igualdade de dormir
Num vão de escada qualquer
Na companhia da lua
Que virou sua mulher
Na pedra que não é sua?

Igualdade de viver
Sem saber se vai comer
Outra sola de sapato
Ou mastigar qualquer rato
Acabado de morrer?

Vale a pena dizer mais?

Castigar a minha mente
Sabendo que é indecente
Ver "viver" no meu país
Frutos da mesma semente
Filhos da mesma raíz
Que não conseguem ser gente?
Ver gente tão infeliz?

Não me peçam mais poemas
Nunca mais digam que é lindo
Qualquer um destes meus temas
Mesmo que seja sorrindo...

De que vale a liberdade
- Palavra então proibída -
De escrever o que quizer
Se a dura realidade
É a vida sem saída
Que acontece a um qualquer
Que vai morrer de saudade
De nem ter vida sequer...

Abandono aqui o meu projecto
De guardar palavras por parir
Enquanto houver um "animal" sem tecto
Sem ter onde dormir...
Onde sonhar...
Onde sorrir...
Continuarei a ser o arquitecto
Que sentir
E que puder

Rimarei até poder
Paz com pão
Poema com ilusão
E quando todos 
Puderem ler
O que me vai do peito
Irei morrer satisfeito
Seremos uma Nação...

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ABRAÇOS (sem nenhum dano)
ABRAÇOS (sem nenhum dano)

Olhos...
Mãos...
Dedos...
Ideias!...
A cavalgar
Com sentido
Uma vida 
De mãos cheias
De abraços 
(sem nenhum dano)
Abraços
Que nunca dei
Mas que vou dar-te
Este ano...

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AÇOITE...
AÇOITE...


Para mim
Foi um açoite
Um renascer
Do meu eu
Um não saber que podia
Mesmo só
Por uma noite
Voltar a ser 
O que queria
Voltar a sentir-me
Eu...
Sem amarras
Sem mordaças
Sem máscaras
Sem caraças...

Apenas eu
Limpo e crú
Apenas dois
Eu...
E tu!

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ADÁGIO
ADÁGIO


pelas teclas fogem-me os dedos
ao compasso clássico
do Adágio
misturo palavras, melodias,
fragmentos de plágio...
ruídos, ecos, sentimentos...
e ficam sempre incompletas
as sinfonias...
nos meus medos

os segredos das palavras,
os segredos dos poetas,
nunca passam pelas mãos,
por muitas teclas 
que toquem, 
surgem na cabeça,
ressoam roucas no abdómen
às vezes - como loucas -
saltam da garganta,
correm, pulam, dançam...

estúpidas param,
no céu de muitas bocas
e, entupidas, desabafam,
como os pais,
doidas de esperança,
os sonhos todos
de criança,
nos húmidos lodos
de todos os portos
de todas as docas...

pelas teclas passam
as sombras dos segredos...
pelos dedos sobram
restos, mitos, medos...
pedaços desfeitos
de sonhos inacabados...
imperfeitos...

rasgam-se os raios da manhã
despidos já de lua
cravo os dentes na maçã
carentes dos beijos
que não deste...

revejo-te ainda nua...
e mato de vez
os teus lúbricos desejos
e nunca
nunca mais
eu beijarei a tua rua...

Sem teclas
Para quê os dedos?

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ADORMECI

ADORMECI


Adormeci
No chão imaculado
Do teu quarto...
E fui
Sonhando solto
O que senti...

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ADORO PÁGINAS BRANCAS...
ADORO PÁGINAS BRANCAS...


Adoro páginas brancas...
Ideias alinhadas...
Cabeças limpas...

Às vezes gosto até de ler-me
Através das gotas 
Que me turvam o olhar...
Aqueles pedaçinhos do meu rio
Que teimam, apesar da brisa macia,
Transbordar...
Têm outro sentido
As lágrimas distraídas
Que não consigo evitar.
Afagam-me tão dentro,
Tão em mim,
Que as deixo rolar livremente
Pelas rugas do meu rosto,
Pelo riso do meu espanto,
Por entre as palavras
Que não consigo soletrar
Contidas em tantas emoções...

E, se alguém as souber ler,
As decifrar...
Banhar-se-á na foz do rio
Na voz mais íntima da minha vida
E nunca chorará sensações pela manhã...
Poderá então sentir-me e afagar-me
Sem necessidade de soletrar a vida

Alinhei ideias...
Limpei a cabeça
E a página manchou-se...
De azul...

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AFLITO

AFLITO


Já tudo foi escrito
Cantado e dito!

Já disse o Pessoa
"que tudo vale a pena
Se a alma não é pequena"
Jorge de Sena...
Escreveu que se fartou
Camões, também
Tanto... que cegou!

Qualquer filho de mãe
Com a mania que é esperto
Dirá o quê... de Al Berto?
Que é truque?
Que é verniz?
Se calhar diz
Que é normal
Como a "Pedra Filosofal"
Filha de algum infeliz

O que é que eu fiz?
Deuses!
O que é que eu fiz?
Que me estala o coração?
Será do Gedeão?

Pronto!
Caíu-me no goto...
Certamente foi o Botto
Revoltado no caixão

"Ai! Carago...
Carago não Carago!..."
Esqueci-me do Saramago
Que inventou o "Nóbel"
E embolsou um bom bago...

E agora o que é que eu faço
A este papel almaço
Onde escrevo este escritito?
Será que irei por aí?

Ai! Meu Deus!
E o Ary...?
Confesso que estou aflito

Já tudo foi escrito,
Contado
E dito?

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AGORA

AGORA


Agora... eternamente só
Escovando os anos de pó...
Saboreando tristes desenganos...
Vou enganando a vida
Nos poemas...

Pinto como quero
O que desejo...
Projecto a cor perfeita
A dor profecta...
Diluindo os dilemas
Na ponta da caneta!

Agora... eternamente só
Completamente Deus...
Contemplo-te ainda
No desfiar do tempo
Entre a ponte do passado
E o ponto presente...

E pronto!

Visto-me de mim...
Peço emprestado
O que me falta de corpo...
Até que venha o fim
E assim...
Semi vivo... semi morto...
Entre sóbrio e ébrio...
Entre são e louco
Vou-me esfarrapando
A pouco e pouco
Em versos que escrevo
Tantas vezes por escrever...
Quantas vezes sem saber
O que me espera...

De certo a morte,
Quem dera a sorte
De ser apenas!
Primavera!

Agora...
Eternamente só!

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AIS!

AIS!


Há, 
Nos vitrais
Do pensamento,
Imagens coloridas,
Corroídas
Muitas vezes pelo tempo...

Há
Sinais que não invento
Na história
Que marca a memória
Dos sentidos

Há
Mastros de Orgulho,
Tribais,
Como o entulho
Que embrulho
Na indeferença
Do silêncio povoado

Há
Castiçais
Que não acendo
No altar do inimigo...
Não me vendo

Aprendo
Sempre aprendo
Nas barbas a arder
De qualquer perigo!
Qualquer abraço
Pode ser fatal!
Não me exijam
Saltos mortais
Às vezes são demais
As teias a que me prendo...

Descendo
Mais um patamar
Do emaranhado de sinais
Que não entendo...

Descrendo
Das podres virtudes
De todos os tribunais...
Tribais
Virtuais
Patriarcais
Constitucionais
E outros palavrões
que tais...

Vou crescendo
Como crescem
Quase todos os mortais
Vivendo
Vivendo
Vivendo
Nunca é demais!

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ANDORINHA

ANDORINHA


Há um voo de andorinha nos teus beijos
Desejos... sei...
De te chegares mais perto
Do rio solto em mim
Este deserto
De versos que guardei
De peito aberto!

Tudo é guardado em mim
E ainda é cedo
De carpir as minhas mágoas,
Os meus medos...
Segredos sei que tenho 
Sei que sei...
Memórias minhas
Não serão segredos!

Voaste sobre mim
E sem aviso
Doaste-me o teu colo 
De improviso
E eu cantei
Tudo o que foi preciso
Para encantar
O teu louco juízo...
E o meu juízo 
Quase ficou louco

Na sã loucura 
Que a paixão abriu
E o teu voo
Foi duma andorinha
Tu foste a foz tão ampla
Do meu rio
Tu foste tudo
O que eu nunca seria

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ANOITECER

ANOITECER


Não me agitem!

Deixem-me tranquilo
No meu canto
Devo estar senil

Ah! O que eu amei 
Depois de Abril
O que eu escrevi
O que eu sonhei...

Não me agitem!

Deixem-me sentir
De olhos fechados
Sem tactear
Todos os portos
Todos os corpos
Que ficaram por abrir
Todo o mar
Que não pude navegar

Não abram as persianas
Da minha câmara escura
Estão lá todas as imagens
Todas as personagens
Da minha ternura
Está lá a aventura
Da minha vida...

Não corrompam os ficheiros
Que tanto custaram a gravar...

O primeiro verbo amar
A primeira lágrima
A primeira dor
A primeira esquina,
Que tive de dobrar,
O primeiro sorriso de criança
A primeira esperança
O primeiro sonho,
Que não consegui realizar
O primeiro pesadelo
Foi tão medonho
Que nem me atrevo a repetir

Não ataquem, por favor,
Os meus executáveis
Mesmo se desagradáveis
Têm de existir
São eles que me permitem
Sobreviver...
Escrever...
Subsistir...
E, às vezes, são notáveis
Na forma de se exprimir...

Não me agitem
Posso ser perverso!

Quantas vezes faço da dor
O reverso do amor
Quantas vezes o meu verso
É todo o universo
Que não pinto
Quantas vezes o sorriso
O riso tresloucado
Do mais perfeito juízo
É o retrato passado
Vivido sem paraíso

Não me agitem

Quanto muito
Sussurrem no ouvido
Todo o prazer sentido...
Digam tudo...
O que tiver de ser
Sobretudo
Antes do amor
Depois...
Revistam a urna de veludo
E deixem-me anoitecer...

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AO MESMO TEMPO

AO MESMO TEMPO


Faço tudo ao mesmo tempo
Fumo,
Como,
Escrevo,
Amo...
Cavalgo-me loucamente
Entre passado
E presente
Tudo no mesmo segundo...

Volto a ser 
Centro do mundo
Cada vez mais insistente
Mais maduro
Consistente...

O furo que fiz no muro,
Quando era adolescente,
E que não tinha sarado,
Sarou de vez...
De repente...
E fico mais descansado
Porque sinto que o futuro,
Que andava tão reprimido,
Vai enterrar o passado
Graças a um "bicho" querido
Inda mais "doido varrido"
Que este aquário sofrido
Que teima em viver escondido
No fundo duma gaveta
E que sabe que não pode
Renegar tudo o que é...
Um mentiroso poeta...

Irá atingir a meta?

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AQUI

AQUI


Estamos aqui
Todos os horizontes
Todos os mundos
Todas as cores
Todas as dores...

Estão aqui
Todos os olhares
Todas as imagens
Tudo o que queremos
E não queremos...
Tudo o que julgamos saber
E não sabemos...

Estão aqui
Todas as paisagens...

Estão aqui todos os rios
Todas as margens...
Todos os desafios
Todas as miragens...

Estão aqui
Todos os sabores
Todos os odores...
Tantas ideias...
Tantos ideais...

Estamos aqui Nós
E nunca estamos sós...

Na virtual realidade de ser
Na real qualidade de viver
Na verdadeira maravilha de dar...
A melhor forma de amar...
Partilhar
Partilhar
Partilhar...

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ATÉ AMANHÃ...

ATÉ AMANHÃ...


Quando se diz: -Adeus
É já a saudade
Que se sente
Por isso eu digo apenas:
- Amigos até sempre!
Até que os heróis
Deixem de ser barro
E gente...
Seja apenas gente...
Até que "até amanhã"
Seja apenas despedida,
Seja "até amanhã"
Se Deus quiser
Ou não quiser
E até amanhã
Volte outra vez
A acontecer...

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ATÉ AO FIM
ATÉ AO FIM

Não me digam
O que posso ser...
O que deveria ser...
Nem o que queriam que fosse

o esforço que fiz
para chegar até aqui
foi simplesmente viver
foi a vida
que aqui me trouxe

e vai ser sempre assim
até ao fim
a vida fará de mim
o que quiser

de nada valeu lutar...
querer ser diferente...
é evidente
que tento sempre mudar...

seguir em frente
é sempre
o caminho que me resta
é esta a festa
que a vida nos ensina!

recuar
nunca será vacina
certa
cada segundo,
ganho ou perdido,
cada batalha
que se nega
cada passo que não der
nunca será descoberta

cada um constrói como quer
a sua própria utopia
a minha pode ser
uma mulher,
uma ideia,
um pormenor, apenas,
um horizonte, uma ilha...
um livro de poemas
um prato de lentilhas
uma mentira piedosa
uma enganosa verdade
uma noite de amor
uma prisão
uma mão amiga
uma canção...
um amigo

mas aquilo que preciso
e quase nunca consigo
dentro da minha solidão,
da verdade que nunca digo,
é poder andar abraçado
livremente
à palavra liberdade
e esquecer que existe
a sociedade!

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