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João Moutinho Poemas (1 a 20) |
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Página Inicial O Ecos do Ressoa Poemas 1 Poemas 2 Sonetos ditos |
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José Alves A Casa da Mariquinhas
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causa das coisas
A CAUSA DAS COISAS
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A MAGIA DOS SONHOS DE OUTONO A MAGIA DOS SONHOS DE OUTONO Tão longa se torna A espera... se não vens! Já nem saudades sei sentir Quando apenas és... ausência! Olha a demência Do que escrevo A decadência Em cada verso O olhar disperso No chão que já foi nosso... E nosso único leito! Desfaz-se assim Todo o sonho que foi feito? Já nem a magia dos sonhos Me liberta... Quem concertará a tua fuga? Nem a lágrima que corre Na mais profunda ruga Me desperta... Já nem o meu sono Sonha... Terá folhas o Outono? Será que depois do Inverno Ainda terei o inferno De não te ter? Basta ausência! Não te quero conhecer! Índice |
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MEIAS . A MEIAS Sei da escrita o mesmo que de ti. Leio na vertical o que me dizes sem cuidar do que escreves - horizontalmente Sei de ti o mesmo que da escrita vertical, sem margens, nem pontes, nem passagens subterrâneas Sei da escrita as mentiras enganadas, engasgadas verso a verso como as maçãs de cada vida brilhando sempre - ardentemente antes da primeira dentada. Que culpa tem a lagarta que haja fruta? Sei de ti apenas o que queres que eu leia em entrelinhas ricas de tudo o que eu quiser... meias verdades a meias com meias mentiras Assim, é impossível ter saudades do que nunca se sentiu Nunca as maçãs serão lagartas por muitas palavras que mastiguem Nunca as lagartas serão palavras por muito que mastiguem as maçãs Nunca as palavras serão maçãs por muitas lagartas que as mastiguem Da escrita e de ti sei quase tudo... Meias mentiras a meias com meias verdades |
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A MINHA POESIA A MINHA POESIA Plantei um verso Na árvore da minha primavera Na trepadeira louca do meu eu Provavelmente um verso ateu Um verso era... Plantei um verso no meu eu... Na trepadeira da minha primavera Um verso ateu Provavelmente a árvore Que não queria Era um verso E não sabia Provavelmente A trepadeira não era eu A primavera era um ateu Que não queria a minha árvore E eu não sabia Que era o verso que plantei A trepadeira não era árvore A árvore não era verso O ateu não era primavera A era não era E não sabia Que eu era apenas A minha poesia |
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A PROPOSITO DAS MALVINAS... A PROPOSITO DAS MALVINAS... Olhos em flecha, corpo e cor. O fogo, o pau, a mecha, O verde mar, a dor. O princípio da paixão - A pecha. A doçura, a ternura, a amargura, O amor... Dois dedos de espuma Um mar imenso O universo da fortuna A metro e meio E eu semeio, semeio... E há sempre Uma lacuna no meu seio. Uma grade, uma prisão... A calúnia que se mete de permeio. O tédio, o impropério, O assédio impossivel da loucura. A secura, a secura... A força do dedo médio, O remédio para as anginas, As Malvinas, as Malvinas... A prosápia do gatuno A luta do vagabundo E o mapa deste mundo Cada vez mais dividido... E o ser humano ofendido E o seu nome estilhaçado E um estilhaço de crâneo... Vendido ao quilo no talho? Porque as verdades são fogo Que não ficam no atalho Nem se perdem nas retinas Não joguem mais este jogo.... As Malvinas.... As malvadas das Malvinas... |
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ABANDONO ABANDONO Ando a recolher Todas as palavras que conheço Para dizer, a quem as ler, Que não mereço Tanto esforço Já baralhei Demais o seu sentido... Quantas vezes misturei O fruto proíbido? Quantas vezes rimei Dor com amor? Pão com chão? Chão com grão? Perigo com amigo? E quantas outras rimas Que não digo... Ando a recolher Todas as palavras que inventei Para as trancar No dicionário E acabar de vez Este calvário. Escrever? Para quê... Apenas para dar Prazer a quem lê? E para quem não sabe ler Valerá a pena escrever? E quem tem fome? Será que também consome A dor que me vai no peito Quando não tenho outro jeito De gritar a sua dor? Para quê a palavra Amor? E solidariedade? Tenho de acabar Com a maldade De escrever apenas por prazer... Escrever só por escrever... Que vã vaidade? Há tanta coisa a fazer Até se poder usar O palavrão igualdade... Igualdade de dormir Num vão de escada qualquer Na companhia da lua Que virou sua mulher Na pedra que não é sua? Igualdade de viver Sem saber se vai comer Outra sola de sapato Ou mastigar qualquer rato Acabado de morrer? Vale a pena dizer mais? Castigar a minha mente Sabendo que é indecente Ver "viver" no meu país Frutos da mesma semente Filhos da mesma raíz Que não conseguem ser gente? Ver gente tão infeliz? Não me peçam mais poemas Nunca mais digam que é lindo Qualquer um destes meus temas Mesmo que seja sorrindo... De que vale a liberdade - Palavra então proibída - De escrever o que quizer Se a dura realidade É a vida sem saída Que acontece a um qualquer Que vai morrer de saudade De nem ter vida sequer... Abandono aqui o meu projecto De guardar palavras por parir Enquanto houver um "animal" sem tecto Sem ter onde dormir... Onde sonhar... Onde sorrir... Continuarei a ser o arquitecto Que sentir E que puder Rimarei até poder Paz com pão Poema com ilusão E quando todos Puderem ler O que me vai do peito Irei morrer satisfeito Seremos uma Nação... |
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ABRAÇOS (sem nenhum dano) ABRAÇOS (sem nenhum dano) Olhos... Mãos... Dedos... Ideias!... A cavalgar Com sentido Uma vida De mãos cheias De abraços (sem nenhum dano) Abraços Que nunca dei Mas que vou dar-te Este ano... |
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AÇOITE... AÇOITE... Para mim Foi um açoite Um renascer Do meu eu Um não saber que podia Mesmo só Por uma noite Voltar a ser O que queria Voltar a sentir-me Eu... Sem amarras Sem mordaças Sem máscaras Sem caraças... Apenas eu Limpo e crú Apenas dois Eu... E tu! |
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ADÁGIO ADÁGIO pelas teclas fogem-me os dedos ao compasso clássico do Adágio misturo palavras, melodias, fragmentos de plágio... ruídos, ecos, sentimentos... e ficam sempre incompletas as sinfonias... nos meus medos os segredos das palavras, os segredos dos poetas, nunca passam pelas mãos, por muitas teclas que toquem, surgem na cabeça, ressoam roucas no abdómen às vezes - como loucas - saltam da garganta, correm, pulam, dançam... estúpidas param, no céu de muitas bocas e, entupidas, desabafam, como os pais, doidas de esperança, os sonhos todos de criança, nos húmidos lodos de todos os portos de todas as docas... pelas teclas passam as sombras dos segredos... pelos dedos sobram restos, mitos, medos... pedaços desfeitos de sonhos inacabados... imperfeitos... rasgam-se os raios da manhã despidos já de lua cravo os dentes na maçã carentes dos beijos que não deste... revejo-te ainda nua... e mato de vez os teus lúbricos desejos e nunca nunca mais eu beijarei a tua rua... Sem teclas Para quê os dedos? |
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ADORMECI ADORMECI Adormeci No chão imaculado Do teu quarto... E fui Sonhando solto O que senti... |
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ADORO PÁGINAS BRANCAS... ADORO PÁGINAS BRANCAS... Adoro páginas brancas... Ideias alinhadas... Cabeças limpas... Às vezes gosto até de ler-me Através das gotas Que me turvam o olhar... Aqueles pedaçinhos do meu rio Que teimam, apesar da brisa macia, Transbordar... Têm outro sentido As lágrimas distraídas Que não consigo evitar. Afagam-me tão dentro, Tão em mim, Que as deixo rolar livremente Pelas rugas do meu rosto, Pelo riso do meu espanto, Por entre as palavras Que não consigo soletrar Contidas em tantas emoções... E, se alguém as souber ler, As decifrar... Banhar-se-á na foz do rio Na voz mais íntima da minha vida E nunca chorará sensações pela manhã... Poderá então sentir-me e afagar-me Sem necessidade de soletrar a vida Alinhei ideias... Limpei a cabeça E a página manchou-se... De azul... |
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AFLITO AFLITO Já tudo foi escrito Cantado e dito! Já disse o Pessoa "que tudo vale a pena Se a alma não é pequena" Jorge de Sena... Escreveu que se fartou Camões, também Tanto... que cegou! Qualquer filho de mãe Com a mania que é esperto Dirá o quê... de Al Berto? Que é truque? Que é verniz? Se calhar diz Que é normal Como a "Pedra Filosofal" Filha de algum infeliz O que é que eu fiz? Deuses! O que é que eu fiz? Que me estala o coração? Será do Gedeão? Pronto! Caíu-me no goto... Certamente foi o Botto Revoltado no caixão "Ai! Carago... Carago não Carago!..." Esqueci-me do Saramago Que inventou o "Nóbel" E embolsou um bom bago... E agora o que é que eu faço A este papel almaço Onde escrevo este escritito? Será que irei por aí? Ai! Meu Deus! E o Ary...? Confesso que estou aflito Já tudo foi escrito, Contado E dito? |
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AGORA AGORA Agora... eternamente só Escovando os anos de pó... Saboreando tristes desenganos... Vou enganando a vida Nos poemas... Pinto como quero O que desejo... Projecto a cor perfeita A dor profecta... Diluindo os dilemas Na ponta da caneta! Agora... eternamente só Completamente Deus... Contemplo-te ainda No desfiar do tempo Entre a ponte do passado E o ponto presente... E pronto! Visto-me de mim... Peço emprestado O que me falta de corpo... Até que venha o fim E assim... Semi vivo... semi morto... Entre sóbrio e ébrio... Entre são e louco Vou-me esfarrapando A pouco e pouco Em versos que escrevo Tantas vezes por escrever... Quantas vezes sem saber O que me espera... De certo a morte, Quem dera a sorte De ser apenas! Primavera! Agora... Eternamente só!
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AIS! AIS! Há, Nos vitrais Do pensamento, Imagens coloridas, Corroídas Muitas vezes pelo tempo... Há Sinais que não invento Na história Que marca a memória Dos sentidos Há Mastros de Orgulho, Tribais, Como o entulho Que embrulho Na indeferença Do silêncio povoado Há Castiçais Que não acendo No altar do inimigo... Não me vendo Aprendo Sempre aprendo Nas barbas a arder De qualquer perigo! Qualquer abraço Pode ser fatal! Não me exijam Saltos mortais Às vezes são demais As teias a que me prendo... Descendo Mais um patamar Do emaranhado de sinais Que não entendo... Descrendo Das podres virtudes De todos os tribunais... Tribais Virtuais Patriarcais Constitucionais E outros palavrões que tais... Vou crescendo Como crescem Quase todos os mortais Vivendo Vivendo Vivendo Nunca é demais! |
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ANDORINHA ANDORINHA Há um voo de andorinha nos teus beijos Desejos... sei... De te chegares mais perto Do rio solto em mim Este deserto De versos que guardei De peito aberto! Tudo é guardado em mim E ainda é cedo De carpir as minhas mágoas, Os meus medos... Segredos sei que tenho Sei que sei... Memórias minhas Não serão segredos! Voaste sobre mim E sem aviso Doaste-me o teu colo De improviso E eu cantei Tudo o que foi preciso Para encantar O teu louco juízo... E o meu juízo Quase ficou louco Na sã loucura Que a paixão abriu E o teu voo Foi duma andorinha Tu foste a foz tão ampla Do meu rio Tu foste tudo O que eu nunca seria |
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ANOITECER ANOITECER Não me agitem! Deixem-me tranquilo No meu canto Devo estar senil Ah! O que eu amei Depois de Abril O que eu escrevi O que eu sonhei... Não me agitem! Deixem-me sentir De olhos fechados Sem tactear Todos os portos Todos os corpos Que ficaram por abrir Todo o mar Que não pude navegar Não abram as persianas Da minha câmara escura Estão lá todas as imagens Todas as personagens Da minha ternura Está lá a aventura Da minha vida... Não corrompam os ficheiros Que tanto custaram a gravar... O primeiro verbo amar A primeira lágrima A primeira dor A primeira esquina, Que tive de dobrar, O primeiro sorriso de criança A primeira esperança O primeiro sonho, Que não consegui realizar O primeiro pesadelo Foi tão medonho Que nem me atrevo a repetir Não ataquem, por favor, Os meus executáveis Mesmo se desagradáveis Têm de existir São eles que me permitem Sobreviver... Escrever... Subsistir... E, às vezes, são notáveis Na forma de se exprimir... Não me agitem Posso ser perverso! Quantas vezes faço da dor O reverso do amor Quantas vezes o meu verso É todo o universo Que não pinto Quantas vezes o sorriso O riso tresloucado Do mais perfeito juízo É o retrato passado Vivido sem paraíso Não me agitem Quanto muito Sussurrem no ouvido Todo o prazer sentido... Digam tudo... O que tiver de ser Sobretudo Antes do amor Depois... Revistam a urna de veludo E deixem-me anoitecer... |
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AO MESMO TEMPO AO MESMO TEMPO Faço tudo ao mesmo tempo Fumo, Como, Escrevo, Amo... Cavalgo-me loucamente Entre passado E presente Tudo no mesmo segundo... Volto a ser Centro do mundo Cada vez mais insistente Mais maduro Consistente... O furo que fiz no muro, Quando era adolescente, E que não tinha sarado, Sarou de vez... De repente... E fico mais descansado Porque sinto que o futuro, Que andava tão reprimido, Vai enterrar o passado Graças a um "bicho" querido Inda mais "doido varrido" Que este aquário sofrido Que teima em viver escondido No fundo duma gaveta E que sabe que não pode Renegar tudo o que é... Um mentiroso poeta... Irá atingir a meta? |
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AQUI AQUI Estamos aqui Todos os horizontes Todos os mundos Todas as cores Todas as dores... Estão aqui Todos os olhares Todas as imagens Tudo o que queremos E não queremos... Tudo o que julgamos saber E não sabemos... Estão aqui Todas as paisagens... Estão aqui todos os rios Todas as margens... Todos os desafios Todas as miragens... Estão aqui Todos os sabores Todos os odores... Tantas ideias... Tantos ideais... Estamos aqui Nós E nunca estamos sós... Na virtual realidade de ser Na real qualidade de viver Na verdadeira maravilha de dar... A melhor forma de amar... Partilhar Partilhar Partilhar... |
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ATÉ AMANHÃ... ATÉ AMANHÃ... Quando se diz: -Adeus É já a saudade Que se sente Por isso eu digo apenas: - Amigos até sempre! Até que os heróis Deixem de ser barro E gente... Seja apenas gente... Até que "até amanhã" Seja apenas despedida, Seja "até amanhã" Se Deus quiser Ou não quiser E até amanhã Volte outra vez A acontecer... |
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ATÉ AO FIM ATÉ AO FIM Não me digam O que posso ser... O que deveria ser... Nem o que queriam que fosse o esforço que fiz para chegar até aqui foi simplesmente viver foi a vida que aqui me trouxe e vai ser sempre assim até ao fim a vida fará de mim o que quiser de nada valeu lutar... querer ser diferente... é evidente que tento sempre mudar... seguir em frente é sempre o caminho que me resta é esta a festa que a vida nos ensina! recuar nunca será vacina certa cada segundo, ganho ou perdido, cada batalha que se nega cada passo que não der nunca será descoberta cada um constrói como quer a sua própria utopia a minha pode ser uma mulher, uma ideia, um pormenor, apenas, um horizonte, uma ilha... um livro de poemas um prato de lentilhas uma mentira piedosa uma enganosa verdade uma noite de amor uma prisão uma mão amiga uma canção... um amigo mas aquilo que preciso e quase nunca consigo dentro da minha solidão, da verdade que nunca digo, é poder andar abraçado livremente à palavra liberdade e esquecer que existe a sociedade! |
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