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João Moutinho Poemas (21 a 40) |
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Página Inicial O Ecos do Ressoa Poemas 1 Poemas 2 Sonetos ditos |
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José Alves A Casa d'Irene |
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ATÉ BREVE! ATÉ BREVE! Mais um rio que secou, Que encontrou a sua foz, Outra ave que voou E nos deixa aqui, tão sós Tão fartos de ser caminho Tão gastos de solidão Tão carentes do carinho Que falta, da sua mão... Tão cansados de saudade Tão amigos da tristeza Tão pobres de liberdade Nossa única riqueza Tão carentes que o abraço Se venha juntar à mesa Onde há sempre outro pedaço Que mata a fome à pobreza Outra lágrima que corre Dentro de mim sem destino E se o destino não morre Eu morro desde menino Outro poema de ausência Outra falta de sentir Para aumentar a falência Da vida que está por vir Nesta casa que fechou Já não mora mais ninguém Foi um fruto que secou Um fruto de minha Mãe Tenho mais uma saudade Guardada no pensamento Outra chama da verdade A arder no sentimento Índice |
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ATÉ MORRER ATÉ MORRER Lindo? Lindo é isto Que eu não sei dizer E ficará em mim Até morrer... Índice
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AUTOCRÍTICA AUTOCRÍTICA Não me tirem o brinquedo Este jogo que seduz E que produz o segredo De dar brilho a pouca luz Não me tirem as palavras Mesmo pobres, mesmo gastas, Prostitutas ou mais castas Com elas vou construindo Aquilo que vou sentindo E que dá sentido à vida Eu sei lá se é poesia Aquilo que vou escrevendo. Para isso há uns senhores, Certamente doutorados, De certeza iluminados, Que também usam palavras, Muito mais caras que as minhas, Polidas, elaboradas, Para vos dizer que estas linhas, Se calhar não valem nada... Ou serão, sorte suprema, Do editor do poema, "O suprasumo da escrita... Egocêntrica, erudita... Lavradas a sangue e mágoa... Lágrimas erotizadas... Gotas de chuva embaladas Em partículas de insenso... Mirra pura, odor intenso Que se sente a cada rima... A cada esquina esquecida No torvelinho da vida No torpel do pensamento..." "Sei muito bem o que digo E digo, leitor amigo, Que vale a pena gastar O tempo que precisar Para ler todo o artigo" Por mim fico por aqui Ainda noutro dia li Sobre aquilo que escrevi Opinião bem diferente "Escrita bruta, incoerente Pedaços de quase nada, Que nada acrescenta à mente" Fecho o jornal Estico-me Dengosamente Acendo Vagarosamente Um cigarro Ínalo Profundamente O fumo E penso Não faz mal Resumo... Fecho os olhos Sorrio suavemente Para dentro do escritor... Ainda sinto no meu O cheiro inebriante Do teu corpo O sabor estonteante Da nossa noite de amor... E durmo. A fome que nos consome! Índice
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AVÓZINHA AVÓZINHA Avózinha Os pais Preocupam-se tanto Comigo Que, às vezes, Se esquecem de ti! Neste dia Eu lembrei-me Que também És.... Mãe! Índice |
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BARTHIRA BARTHIRA Nada se dá nem se thira Nem mesmo tudo se transforma Não há regra, nem há norma Nem há força que consiga Mudar tudo o que se sente! Bebe-se um copo num bar... E o gosto é tão diferente Do que o bebido no lar... Tire a thira do lugar Deixe o Bar seguir somente E veja lá que diferente Fica você a soar... Partida, desconjuntada, Pouco mais é do que nada Mas, ainda assim é gente... Gente querida, gente amada... Gente que sente que a gente Apesar de ser só tira..., Pedacinho ambivalente Duma pequena semente, É bem capaz de ser gira... Sabe o poeta que mente... E às vezes tão facilmente Que não sabe que a verdade, Aquela que nunca sente, É a pura realidade Que alimenta a sua mente... Fica aqui mais uma tira, Mais um copo, neste bar Em que juntei a mentira Com a verdade de amar E assim se faz a vida De tira em thira De bar em bar... Barthira! Índice |
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BOBBY SANDS MORREU BOBBY SANDS MORREU Imagine que da astronave Há pouco pousada na minha imaginação, Faíscando azul e ouro, Saíu um personagem estranho, Suave... Calmo... Irritantemente calmo, No translucido contraste Da minha interior revolta! Olhou-me, Como se há muito me conhecesse, Avançou sem receio Na minha direcção e... Instintivamente recuei, Como se pudesse fugir Da minha pobre imaginação. Encurralado, Entre mim e eu próprio, Estendi a mão à consciência Que sorrindo - pareceu-me que sorria - Firmemente me estendia a sua. Senti-me estupidamente inseguro Como se sobre mim Pesassem as mortes de S. Salvador Ou do Afeganistão E aquele meu flácido cumprimento Mais não fosse do que Irremediável confissão. Já não pensava recompor-me e, Quando, enfim, Levantei a cabeça E com ela O peso dos doze milhões De refugiados Deste martirizado planeta, Senti-me ruir E os joelhos dobraram-se em pranto, Na relva nuclearmente poluída, Embora as estatísticas governamentais A afirmassem verde e viva... Uma vez mais Aquela mão se estendeu para mim Afectuosa, Como se remisse, no gesto, Todos os meus pesadelos E deixassem de ter importância Os problemas da Polónia, As guerras do Médio Oriente, O apartheid da África do Sul E o próprio Klu Klux Klan Tivesse desaparecido Em golpes de magia. As lágrimas gritaram-me na face, Quando finalmente Encarei aquele rosto, Simplesmente porque não me reprimia. Inesperadamente, Como se a paz Sentisse poder existir, Um coro monumental Irrompeu nos meus ouvidos, Milhares e milhares de watts, Repetindo as últimas palavras de Allende, Tendo como pano de fundo O matraquear entrecortado De metralhadoras De várias nacionalidades, E o eco repetindo até ao infinito A máxima de Che... "Patria o muerte... Pátria o muerte... Pátria o muerte..." O beijo névoa Que senti na face, Ainda misturado No último dos ecos, Trouxe-me novamente a mim Mas, tão fraco, tão cansado... Tão intimamente desesperado Que não retribuí. Os lábios imobilizaram-se E apenas pude sentir Distância. O salto violento A que me obrigou aquela notícia Fez-me distanciar Do misterioso personagem, Irremediavelmente, Duplamente: "BOBBY SANDS MORREU" Procurei ansiosamente Na minha imaginação Faíscas de azul e ouro. No lugar da astronave Que há pouco ali pousara, Uma pedra tosca Onde apenas conseguia ler: -"Aqui jaz o homem do cobertor"! Índice |
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BOÉMIAS ANTIGAS BOÉMIAS ANTIGAS Cansado da farra Deixei a guitarra Soar à vontade Pela noite fora Já de madrugada Bateu a saudade Ninguém foi embora Boémias antigas Voltaram à sala Na voz que não cala Antigas cantigas Amores e ciúmes São chagas e lumes São casta, são garra Só esta guitarra Podia trazer O som do prazer Das noites de farra Guitarra velhinha Bem sabem que és minha Se tocares o fado Pela noite fora Ninguém vai embora E ao romper da aurora Venceu a saudade Índice |
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BRAVO BRAVO Talvez tu ouças este grito Quem mais? Talvez tu vejas este escrito Quem mais? Eu só posso fazer isto Manifesto o meu protesto Quanto ao resto? Não presto! Mas não desisto... Tenho dois braços Duas pernas Barriga, peito, Coluna vertebral... Continuo a deitar fumo do pulmão Estas lanternas - Os olhos baços - Cravados na frente da minha testa, E que só podem atestar destruição, Não são tudo o que me resta... Ainda tenho mãos! A cabeça, embora tensa, Ainda pensa, Escreve, Rima... Triste sina! De que valem as lágrimas Das pobres palavras Que aqui deixo... Aqui... Em Portugal de Abril Envergonhado? Afinal de que me queixo? O que é que eu fiz por ti Timor? De que vale afinal Este triste manifesto? Já disse acima que não presto! Mas mesmo assim deixo escrito... E a minha verdade não se engana Bendito o país Que viu nascer Xanana! Que enorme coração Tem aquele homem Imagem da coragem E da gana No meio da tortura E da agressão Ainda fala de ternura E de perdão! Bravo Xaxana Gusmão!. Índice |
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Breve Breve Breve É o sono Que não durmo... Índice
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BRUNO BRUNO É duro Ter de dizer Que ainda Nada te escrevi Neto! Descansa... Ainda não me esqueci Que tu não és O meu projecto Mas és De certeza O meu futuro... Aqui! Índice
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CAI A NOITE NA CIDADE CAI A NOITE NA CIDADE Cai a noite na cidade Vai-se perdendo a vaidade Bebendo copos de mágoa Solta-se a língua de medos Deitam-se fora segredos Em cada wisky com água Cai a noite na cidade Nasce o dia à prostituta Mais outra noite de luta Outro dia sem idade Outra noite de verdade Vida dura, vida bruta As cantigas vão saindo Da garganta escancarada Sabendo a malte e cevada E há ouvidos ouvindo E há sentidos sentindo Que já não sentem mais nada Sem a saudade saber Vou bebendo por beber O que resta de saudade Vou cantando por amor Versos feitos com ardor E a noite cai na cidade Índice
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CAIS CAIS Nenhum cais Será apenas De partida ou de chegada... Há em cada regresso A mágoa de partir Cada ida Tem agrilhoada A saudade de ficar Quando anuncias que vais Sobra sempre um beijo Desconforto Quando o lenço branco Se desdobra E absorto Se despede ao vento E em silêncio Diz adeus ao sentimento Quem sabe... até nunca mais! E morrem no esquecimento Casas à beira do cais... Índice
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CENA ÍNTIMA CENA ÍNTIMA Baixem o pano! A cena é íntima, Provocante, Insinuante, Verdadeira, Deixem que as vedetas Se dispam, Que fiquem nuas. Não! Não são as vestes Que se tiram... São os preconceitos. Portanto, Deixemo-los E aproveitemos o tempo. Dêem as mãos em cadeia E vão sorrindo Quando atingirem A gargalhada geral, O fraternal entendimento, O riso pleno e total... O pano de cena abre. O tempo correu infinitamente O pano continua à espera De ser atingido pelo riso, Se não me engano... Baixem o pano Índice |
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CHORAR CHORAR Deixem-me chorar Chorar apenas... Deixem que o sal derreta Nos lábios da minha boca Deixem que fique ali O que o poeta Não quer dizer E aí morram as lágrimas... Os poemas... E as penas... Índice |
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CIPRESTE CIPRESTE Seu vulto de cipreste deixa no vento saudades daquilo que não me deste do amor que nunca fui e tão cedo prometeste Fui aquilo que quiseste Talvez um cheiro... Uma sombra... Do sol que nunca tiveste Na vida que não te assombra Alinhado, mudo, lento Vou soprando como o vento Perfumes que não sonhei Nem são leito do meu rio Nem afagam este frio Que trago no pensamento Seja o sonho o que quiser Sopre o vento o que soprar Não há-de faltar alento De ser sonho de mulher De ser musa no momento Em que tiver de escrever Nunca me foi alimento A sombra que não fizeste Se o cio me foi agreste E me tolda o pensamento Saudades deixa no vento O vulto do teu cipreste Índice
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COMO MAIS ME CONVIER COMO MAIS ME CONVIER Até ao último instante Hei-de ser o que eu quiser, Católico ou protestante, Como mais me convier Já me enganaram demais Muitos malandros na vida Andam há solta pardais Que, metidos na gaiola, P'ra todos era uma esmola Quem é que ainda duvida? Não fá-lo só de patrões Que toda a vida roubaram O suor de quem trabalha Pois há muitos mandriões Que outras artes inventaram Quem se lixa é a "canalha" Bem vestidos, boa pose, E ar sério como convém Nunca respeitam ninguém. Hão-de morrer de overdose De mentira e de desdém, Que a verdade ainda é alguém A ganância do poder Enlouquece o pensamento Esquecem a todo o momento Que vamos todos morrer E lá dentro do caixão Não há dinheiro nem pão. Índice |
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COMO SERÁ? COMO SERÁ? Como será sentir o outro lado dos poemas que escrevi? O que pensa cada um de cada verso? Que universo lhes farei sentir? Será que as lágrimas Que humedeceram O papel original Caem também No outro lado do poema? A mentira Que tantas vezes pinto E sinto não ser verdade Como se lerá No reverso do poema acidental? Será que me desnudo? E quem me lê lerá tudo Mesmo aquilo que não sou? Serei eu original? Sinto-me sempre no cio! Escrever é sempre Um novo desafio... Ficam atentos todos os nervos Cada poro... sua... Cada rima nua É outro desconforto Às vezes o arrepio Sobe pela espinha E lembra-me os teus dedos... Perco o rumo do poema E sigo o teu caminho O sonho é sempre o mesmo Sempre a mesma pena... Que só fala da ausencia... Paciência... Ainda te hei-de moldar Na consciência Como a suprema escultura... Hei-de arquitectar A ilha maravilha... Onde nem sequer a aventura Nos segura... E para quê? Lá ninguém me lê... Índice |
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COM TENSÃO... COM TENSÃO... Contenção? Mesmo de mãos caladas E a boca amarrada Por algemas... Mesmo que separem as gemas Das minhas ideias claras... Mesmo que partam todos os ovos, Mesmo que seja restrita - A minha solidão Não se censura... Ah! Se a minha escrita Fosse fresta... A festa que eu faria Na contenção da liberdade... Mesmo que fosse verdade, A confusão não me suportaria! Sou o meu maior censor E a censura É a aventura maior De um escritor... A Pomba da Paz... Os Soldadinhos de Chumbo... A Branca de Neve e os 7 anões O Capuchinho Vermelho E sei lá quantos figurões... Mesmo de boca amarrada Por algemas E as mãos caladas Não me prendem As ideias na cabeça... Tenho as veias Cheias... De poemas! Índice |
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CONCHA CONCHA Fecho-me na concha Dos sentidos... Sinto-me cheio de mim E sem ser Deus Volto a fechar-me Que os ateus Podem sem querer Querer acordar-me... Índice |
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CONTOS CONTOS Na cidade do espanto O Tocador azul Cantava a noite Com a flauta turqueza~! Cadente Na estrela do vento... A noite turqueza Na cidade azul Espantava o tocador Da flauta de vento Na estrela cadente... Espantalhos... na noite Cadente da cidade Tocavam a beleza Do vento azul Da flauta turqueza A estrela turqueza De flauta azul... Tocava a noite da cidade Cadente Nos espantalhos do vento... A cidade do vento... A estrela cadente... A noite dos espantalhos... A Turqueza azul... O Tocador de Flauta... Li... Li sim... Li E não me arrependi... Senti o vento da cidade Toquei cadente... a estrela Espantei a noite turqueza Escrevi a pauta Vesti-me de azul E fui eu O tocador da flauta Índice |
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