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27 Poemas Editados

- a vontade

- No olhar ausente...

- Apesar de tudo

- Caminho à margem...

- E apesar de tudo...

- E há dias...

- E nada

- Eles tinham

- Era uma vez...

- Escrever é

- Gosto muito de pensar...

- Há dias

- Há dias em que

- Há dias em que tenho...

- Há uma infinidade de lugares

 

- Não sei em que calçadas...

 

- Não sei que lugar

- No amanhã acordei

- O amanhã é muito longe

- O caminho

- O corpo

- O movimento é...

- Ouço a chuva...

- Quando eu fizer cem anos

- Se um dia eu disser...

- Virá o tempo

- Visão oceânica

Apocalipse Now

Ele53

 

 

 

 
a vontade
a vontade
 
 
a vontade
a ânsia de ser eternamente
ânsia de ser permanente
ou ainda não

quero anseio desejo

é a vontade que define o momento
de se percorrer o chão
olhando o alto

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no olhar ausente um brilho oculto
no olhar ausente um brilho oculto
no olhar ausente um brilho oculto
não sinto dor nem vontade
apenas a preguiça
dos dias de sol
num quarto distante
do meu tacto

os meus pensamentos são escuros
tão escuros que lhes fujo
mas sem maldade
desculpo-me
o sol brilha no jardim
e está calor

fecho os olhos e finjo dormir

dói-me a chuva que não guardo
nas mãos
a chuva que deixei fugir 
– como tantas coisas –
por entre os dedos
este inverno

é uma estranha liberdade
esta de me fazer ouvir em palavras que não disse
que nunca vou dizer senão a algum estranho
que um dia me interpele na rua por acaso
“tens lume? não, mas tenho tempo”

e acendo-lhe o cigarro com a pouca chuva que afinal guardei
do inverno passado

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apesar de tudo
apesar de tudo
apesar de tudo
há sempre o céu
ou pelo menos a esperança
de que o céu possa um dia
ser
também em mim

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caminho à margem dos meus passos
caminho à margem dos meus passos
caminho à margem dos meus passos
o rio é o meu rosto e a minha voz
e às vezes o próprio caminho que me faz olhar para mim

se olhasse o céu
veria um mundo azul
assim olho o rio e vejo o céu e a terra e vejo-me a mim

sim	a transparência é um equívoco
a água é feminina e usa maquilhagem
e veste-se de brilho à superfície da pele

caminho

se chovesse tudo seria mais honesto
e ainda que turvo o céu cinzento significaria apenas céu cinzento
e a beleza e a verdade apenas beleza e verdade
e gosto de ti apenas gosto de ti

se chovesse eu encontraria no rio a minha voz
e não esconderia que na água guardo o coração
e também o medo e a esperança
e tudo o que existe sob a minha pele de água reflectida

esse é o lugar mais belo de todos
gosto da sua força
do másculo esforço com que transporta
na mesma corrente
toda a água que comporta

caminho à margem dos meus passos nesse rio que é o espelho do mundo
na medida exacta do meu olhar


um dia destes choverá e eu beberei a chuva sabendo porquê
e a beleza e a verdade significarão apenas beleza e verdade
e eu dir-te-ei gosto de ti e tu dir-me-ás que esse é o único sentido

um dia destes choverá e eu beberei a chuva sabendo porquê

então saberei que terei chegado a casa

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e há dias em que tudo se resume
e há dias em que tudo se resume
e há dias em que tudo se resume
a um movimento invisível singularmente transparente
como o arco das mãos ou a palavra que desperta nos lábios
ao toque inconsciente das pupilas dilatadas

e o poema
como as mãos ou a palavra
afirma-se caminho madrugada
trilho de chama ou luz
entre a sombra e a claridade

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e nada
e nada
e nada
nada mais importa
senão a essência das coisas
liquidez das mãos ou espectro quente das palavras

o horizonte faz-se e desfaz-se
à distância de um gesto
e ainda assim permanece
tão longe do toque tão longe
do coração...

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eles tinham
eles tinham
 
eles tinham
tudo:
o céu muito azul e o
infinito
a que às vezes chamavam casa

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era uma vez um fim de tarde  
era uma vez um fim de tarde  
 
era uma vez um fim de tarde  
não sei o que tinha de especial aquela tarde
eu lembro-me apenas de aconchegar o cachecol e esperar um autocarro
que finalmente me conduzisse
a casa

é a grande vantagem dos autocarros
essa certeza do destino
saber que chegamos invariavelmente a casa
mesmo percorrendo por dentro outros caminhos

era fim de tarde e havia trânsito 
lembro-me 
de pequenos lençóis de água junto aos passeios
e muitos guarda-chuvas que provavelmente abrigavam pessoas
mas não me lembro de as ver

havia um cheiro bom a café quente
(e o autocarro que não chegava...)
sim, havia esse cheiro bom a café quente
que descia a rua como um bafo conhecido

se em vez de café fosse um cartucho de jornal a escaldar de castanhas
ter-me-ia abrigado igualmente no conforto desse cartucho chamuscado

chovia e eu entrei e sentei-me numa mesa do canto
depois lembro-me de pedir um café simples muito quente	só para sentir o cheiro bom
do calor humano

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Escrever é...
Escrever é...
 
 
Escrever é...
... encontrar o curso de água submerso onde dormem as palavras do meu rio de amanhã.

 

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Gosto muito de pensar

Gosto muito de pensar

 

Gosto muito de pensar que me ocupo de coisas importantes, mas se o sorriso que me deste sem eu pedir, aquele café muito quente que tomámos, o passeio à chuva pelas ruas mais estreitas da cidade enquanto falávamos sobre assunto nenhum, se tudo isto são coisas absurdas, então quero viver sempre no absurdo, absurdamente feliz.

 

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há dias
há dias
há dias
em que procuro
o infinito
e no caminho encontro
o coração
 

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há dias em que
há dias em que
há dias em que
vejo
o céu tão azul
sinto
o sol tão perto
que me custa acreditar
noutro céu maior que este

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há dias em que tenho uma percepção
há dias em que tenho uma percepção
 
há dias em que tenho uma percepção
muito nítida de tudo:
os lugares que trago comigo
as pessoas que amo
as coisas que me sorriem
e as outras que eu não conheço
porque nunca me dei
ao prazer
de as olhar de oscultar o seu rumor
há dias
há dias em que ao entrar em casa
me sinto
estranhamente de visita

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no amanhã acordei
no amanhã acordei
 
no amanhã acordei
e inventei um novo mundo

respiro os dias
em respiração acelerada
e bebo cada amanhã que invento
num lugar bonito
deste mundo

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o caminho
o caminho
o caminho
é a manhã que procuro
ainda antes de acordar

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o corpo
o corpo
 
o corpo
longe etereamente longe
ao sabor da noite quente

podia ser a amanhã
esta insinuante alegria de corpo
ausente

podia ser a manhã
se o coração tivesse um lugar
para acontecer

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o movimento é a constância eterna
o movimento é a constância eterna
 
o movimento é a constância eterna
a ausência de atrito ou impulsão brusca
a serenidade plena a geométrica certeza
de um círculo perfeito
longe dos desejos humanos do lume verdadeiro onde nasce
a chama da vontade

a felicidade bebe-se de um trago
como uma bebida gelada
numa tarde muito quente de verão
e tudo o que permanece é a frescura líquida
ou a memória de um momento feliz
à escala humana da eternidade

a mesma matéria dos gestos e dos sentidos
pelos quais concretizamos o amor e a palavra

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ouço a chuva. na rádio
ouço a chuva. na rádio
 
ouço a chuva. na rádio
toca uma música que nem sei
folheio um livro
e faço um sorriso
abstracto para
ninguém

podia levantar-me
sair do quarto
e descer a rua até ao fim

veria com certeza alguém conhecido
com sorte um amigo
também com sede de um pouco de céu

se descesse a rua até ao fim
veria alguém conhecido
encontraria um amigo
ou talvez não
mas ao descer a rua faria dos meus passos
o próprio bater do coração

ouço a chuva
fecho o livro
acordo a música comigo
e guardo o sorriso
para a rua que me decidir descer
amanhã

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quando eu fizer cem anos
quando eu fizer cem anos
 
quando eu fizer cem anos
ofereçam-me apenas o futuro
num sorriso 	e a chuva
que escureceu 		por vezes
o nosso caminho

os raios de sol
trago-os eu sempre comigo
 

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se um dia eu disser “fiz um poema”
se um dia eu disser “fiz um poema”
 
se um dia eu disser “fiz um poema”
não procureis um papel escrito
mas a  poesia que por ventura acontecer em vós
nesse momento
 

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virá o tempo
virá o tempo
 
virá o tempo
sim	eu sei que virá um tempo de dias claros como manhãs
e noites claras e madrugadas claras
porque a manhã é interior

sim	um dia será verão
e então virá o tempo de todas as promessas
e as fronteiras deixarão de ser
fronteiras
porque serão
o caminho comum e não mais a divisão
da terra prometida

um dia será verão
e então virá o tempo dos dias claros como manhãs
das manhãs que são lugares e se habitam por prazer
de lá morar

um dia será verão
e na luz faremos a nossa casa




e o verão é isto
andar à chuva e ainda assim beber o sol
e o verão é isto

um dia será verão

como adormecer esta sede de verão
sede do tempo que virá?

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visão oceânica
visão oceânica


podia ser só luz
o olhar que trazemos do mundo

e as coisas e as pessoas
seriam tão claras
como a visão que idealizamos
do nosso olhar profundo
 

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e apesar de tudo
e apesar de tudo
e apesar de tudo
espero em ti	coração peregrino dos meus dias

não sei me sentarei contigo um dia à mesa da eternidade
mas olho-te nos olhos
e sei que ao perder-te nos meus passos
te recupero em dobro no horizonte indizível dos dias
 

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há uma infinidade de lugares por habitar
há uma infinidade de lugares por habitar
há uma infinidade de lugares por habitar
lugares que nunca encontrei
talvez por não serem lugares de se chegar de visita e até depois
mas onde a beleza é perene e se demora e manifesta sem tempo por ser verdade

há alturas em que me sinto visitada 
como se uma consciência superior ou uma voz interior me rodeasse
e me gravasse no coração “porquê?”

porquê a vida	
porquê esse sorriso	
ou a criança que também sou e nunca cresce
porquê terra do nunca e não terra do sempre		
porquê tão longe	porquê um dia
porquê?

esses lugares que nunca habitamos – pressinto-o – 
habitam-nos antes mesmo de os pressentirmos
clandestinos	
como visitas que chegam sem ser convidadas e fazem sua a nossa casa
e alteram a disposição dos móveis e das prioridades	
e deixam as superfícies nuas de retratos esquecidos e calor artificial
e nos preenchem de riso e amigos em volta do calor humano

então questiono tudo		
tudo o que é vão e só existe para ser posto em causa
e até a certeza firme onde assento a firme certeza de não ter certeza alguma
a não ser a dos horizontes que persigo e a das metas que acredito
ainda assim 	
ou talvez por isso	
ou sem nenhuma outra razão que não a procura de um sentido
	ou de um lugar feliz onde morar	também comigo

e há uma infinidade de lugares por habitar

e eu sei que num deles habita a minha verdade	
e também a minha memória e a minha esperança
e os meus medos dissipados e os sonhos comuns	
e as pessoas que amo e que vou amar
e as suas paredes estão caiadas de poemas 
e retratos de tudo o que fui e ainda serei

fossem as metas esses lugares que nunca habitámos
e na felicidade descobriríamos o caminho até casa 
 

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não sei em que calçadas deixei o coração
não sei em que calçadas deixei o coração
não sei em que calçadas deixei o coração
 
outro dia	lembro-me	perdi mais uma parte de mim
na esmola regateada de um corpo sujo
e senti que tinha sido em vão
 
atravesso as mesmas ruas vezes sem conta
e raramente me sinto a caminho
de um lugar com sentido
 
chove		é tempo
de beber a vida num grito	e a felicidade	e a dor	e a ternura
pois sei 	apenas sei	que sou de passar
não sei em que calçadas deixei o coração
 
chove		e ainda assim temo encontrá-lo
não vá o meu coração vagabundo
não mais caber 
dentro de mim
 
coração peregrino...
 
com que luz	que pessoas	que caminho?

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não sei que lugar
não sei que lugar
 
não sei que lugar
existe em mim
que me inibe de caminhar

sei que aí eu sou feliz
nesse berço lugar que habita em mim
e onde eu ainda habito
se sinto o coração sem colo

e sei que aí eu sou feliz	mas quero mais
e sei em mim que tenho medo

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o amanhã é muito longe
o amanhã é muito longe
 
o amanhã é muito longe	e se o persigo
perco-o em horizontes que
não toco	porque não são de tocar
e perco-me de mim	porque não sei existir sem tacto

confundo as coordenadas	o futuro	o amanhã é muito longe

tenho medo

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