| Froggie |
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27 Poemas Editados - Há uma infinidade de lugares
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Apocalipse Now Ele53
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a vontade a vontade a vontade a ânsia de ser eternamente ânsia de ser permanente ou ainda não quero anseio desejo é a vontade que define o momento de se percorrer o chão olhando o alto |
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no olhar ausente um brilho oculto no olhar ausente um brilho oculto no olhar ausente um brilho oculto não sinto dor nem vontade apenas a preguiça dos dias de sol num quarto distante do meu tacto os meus pensamentos são escuros tão escuros que lhes fujo mas sem maldade desculpo-me o sol brilha no jardim e está calor fecho os olhos e finjo dormir dói-me a chuva que não guardo nas mãos a chuva que deixei fugir – como tantas coisas – por entre os dedos este inverno é uma estranha liberdade esta de me fazer ouvir em palavras que não disse que nunca vou dizer senão a algum estranho que um dia me interpele na rua por acaso “tens lume? não, mas tenho tempo” e acendo-lhe o cigarro com a pouca chuva que afinal guardei do inverno passado
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apesar de tudo apesar de tudo apesar de tudo há sempre o céu ou pelo menos a esperança de que o céu possa um dia ser também em mim
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caminho à margem dos meus passos caminho à margem dos meus passos caminho à margem dos meus passos o rio é o meu rosto e a minha voz e às vezes o próprio caminho que me faz olhar para mim se olhasse o céu veria um mundo azul assim olho o rio e vejo o céu e a terra e vejo-me a mim sim a transparência é um equívoco a água é feminina e usa maquilhagem e veste-se de brilho à superfície da pele caminho se chovesse tudo seria mais honesto e ainda que turvo o céu cinzento significaria apenas céu cinzento e a beleza e a verdade apenas beleza e verdade e gosto de ti apenas gosto de ti se chovesse eu encontraria no rio a minha voz e não esconderia que na água guardo o coração e também o medo e a esperança e tudo o que existe sob a minha pele de água reflectida esse é o lugar mais belo de todos gosto da sua força do másculo esforço com que transporta na mesma corrente toda a água que comporta caminho à margem dos meus passos nesse rio que é o espelho do mundo na medida exacta do meu olhar um dia destes choverá e eu beberei a chuva sabendo porquê e a beleza e a verdade significarão apenas beleza e verdade e eu dir-te-ei gosto de ti e tu dir-me-ás que esse é o único sentido um dia destes choverá e eu beberei a chuva sabendo porquê então saberei que terei chegado a casa
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e há dias em que tudo se resume e há dias em que tudo se resume e há dias em que tudo se resume a um movimento invisível singularmente transparente como o arco das mãos ou a palavra que desperta nos lábios ao toque inconsciente das pupilas dilatadas e o poema como as mãos ou a palavra afirma-se caminho madrugada trilho de chama ou luz entre a sombra e a claridade
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e nada e nada e nada nada mais importa senão a essência das coisas liquidez das mãos ou espectro quente das palavras o horizonte faz-se e desfaz-se à distância de um gesto e ainda assim permanece tão longe do toque tão longe do coração...
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eles tinham eles tinham eles tinham tudo: o céu muito azul e o infinito a que às vezes chamavam casa
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era uma vez um fim de tarde era uma vez um fim de tarde era uma vez um fim de tarde não sei o que tinha de especial aquela tarde eu lembro-me apenas de aconchegar o cachecol e esperar um autocarro que finalmente me conduzisse a casa é a grande vantagem dos autocarros essa certeza do destino saber que chegamos invariavelmente a casa mesmo percorrendo por dentro outros caminhos era fim de tarde e havia trânsito lembro-me de pequenos lençóis de água junto aos passeios e muitos guarda-chuvas que provavelmente abrigavam pessoas mas não me lembro de as ver havia um cheiro bom a café quente (e o autocarro que não chegava...) sim, havia esse cheiro bom a café quente que descia a rua como um bafo conhecido se em vez de café fosse um cartucho de jornal a escaldar de castanhas ter-me-ia abrigado igualmente no conforto desse cartucho chamuscado chovia e eu entrei e sentei-me numa mesa do canto depois lembro-me de pedir um café simples muito quente só para sentir o cheiro bom do calor humano
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Escrever é... Escrever é... Escrever é... ... encontrar o curso de água submerso onde dormem as palavras do meu rio de amanhã.
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Gosto muito de pensar
Gosto muito de pensar que me ocupo de coisas importantes, mas se o sorriso que me deste sem eu pedir, aquele café muito quente que tomámos, o passeio à chuva pelas ruas mais estreitas da cidade enquanto falávamos sobre assunto nenhum, se tudo isto são coisas absurdas, então quero viver sempre no absurdo, absurdamente feliz.
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há dias há dias há dias em que procuro o infinito e no caminho encontro o coração
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há dias em que há dias em que há dias em que vejo o céu tão azul sinto o sol tão perto que me custa acreditar noutro céu maior que este
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há dias em que tenho uma percepção há dias em que tenho uma percepção há dias em que tenho uma percepção muito nítida de tudo: os lugares que trago comigo as pessoas que amo as coisas que me sorriem e as outras que eu não conheço porque nunca me dei ao prazer de as olhar de oscultar o seu rumor há dias há dias em que ao entrar em casa me sinto estranhamente de visita
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no amanhã acordei no amanhã acordei no amanhã acordei e inventei um novo mundo respiro os dias em respiração acelerada e bebo cada amanhã que invento num lugar bonito deste mundo
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o caminho o caminho o caminho é a manhã que procuro ainda antes de acordar
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o corpo o corpo o corpo longe etereamente longe ao sabor da noite quente podia ser a amanhã esta insinuante alegria de corpo ausente podia ser a manhã se o coração tivesse um lugar para acontecer
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o movimento é a constância eterna o movimento é a constância eterna o movimento é a constância eterna a ausência de atrito ou impulsão brusca a serenidade plena a geométrica certeza de um círculo perfeito longe dos desejos humanos do lume verdadeiro onde nasce a chama da vontade a felicidade bebe-se de um trago como uma bebida gelada numa tarde muito quente de verão e tudo o que permanece é a frescura líquida ou a memória de um momento feliz à escala humana da eternidade a mesma matéria dos gestos e dos sentidos pelos quais concretizamos o amor e a palavra
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ouço a chuva. na rádio ouço a chuva. na rádio ouço a chuva. na rádio toca uma música que nem sei folheio um livro e faço um sorriso abstracto para ninguém podia levantar-me sair do quarto e descer a rua até ao fim veria com certeza alguém conhecido com sorte um amigo também com sede de um pouco de céu se descesse a rua até ao fim veria alguém conhecido encontraria um amigo ou talvez não mas ao descer a rua faria dos meus passos o próprio bater do coração ouço a chuva fecho o livro acordo a música comigo e guardo o sorriso para a rua que me decidir descer amanhã
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quando eu fizer cem anos quando eu fizer cem anos quando eu fizer cem anos ofereçam-me apenas o futuro num sorriso e a chuva que escureceu por vezes o nosso caminho os raios de sol trago-os eu sempre comigo
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se um dia eu disser “fiz um poema” se um dia eu disser “fiz um poema” se um dia eu disser “fiz um poema” não procureis um papel escrito mas a poesia que por ventura acontecer em vós nesse momento
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virá o tempo virá o tempo virá o tempo sim eu sei que virá um tempo de dias claros como manhãs e noites claras e madrugadas claras porque a manhã é interior sim um dia será verão e então virá o tempo de todas as promessas e as fronteiras deixarão de ser fronteiras porque serão o caminho comum e não mais a divisão da terra prometida um dia será verão e então virá o tempo dos dias claros como manhãs das manhãs que são lugares e se habitam por prazer de lá morar um dia será verão e na luz faremos a nossa casa e o verão é isto andar à chuva e ainda assim beber o sol e o verão é isto um dia será verão como adormecer esta sede de verão sede do tempo que virá?
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visão oceânica visão oceânica podia ser só luz o olhar que trazemos do mundo e as coisas e as pessoas seriam tão claras como a visão que idealizamos do nosso olhar profundo
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e apesar de tudo e apesar de tudo e apesar de tudo espero em ti coração peregrino dos meus dias não sei me sentarei contigo um dia à mesa da eternidade mas olho-te nos olhos e sei que ao perder-te nos meus passos te recupero em dobro no horizonte indizível dos dias
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há uma infinidade de lugares por habitar há uma infinidade de lugares por habitar há uma infinidade de lugares por habitar lugares que nunca encontrei talvez por não serem lugares de se chegar de visita e até depois mas onde a beleza é perene e se demora e manifesta sem tempo por ser verdade há alturas em que me sinto visitada como se uma consciência superior ou uma voz interior me rodeasse e me gravasse no coração “porquê?” porquê a vida porquê esse sorriso ou a criança que também sou e nunca cresce porquê terra do nunca e não terra do sempre porquê tão longe porquê um dia porquê? esses lugares que nunca habitamos – pressinto-o – habitam-nos antes mesmo de os pressentirmos clandestinos como visitas que chegam sem ser convidadas e fazem sua a nossa casa e alteram a disposição dos móveis e das prioridades e deixam as superfícies nuas de retratos esquecidos e calor artificial e nos preenchem de riso e amigos em volta do calor humano então questiono tudo tudo o que é vão e só existe para ser posto em causa e até a certeza firme onde assento a firme certeza de não ter certeza alguma a não ser a dos horizontes que persigo e a das metas que acredito ainda assim ou talvez por isso ou sem nenhuma outra razão que não a procura de um sentido ou de um lugar feliz onde morar também comigo e há uma infinidade de lugares por habitar e eu sei que num deles habita a minha verdade e também a minha memória e a minha esperança e os meus medos dissipados e os sonhos comuns e as pessoas que amo e que vou amar e as suas paredes estão caiadas de poemas e retratos de tudo o que fui e ainda serei fossem as metas esses lugares que nunca habitámos e na felicidade descobriríamos o caminho até casa |
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não sei em que calçadas deixei o coração não sei em que calçadas deixei o coração não sei em que calçadas deixei o coração outro dia lembro-me perdi mais uma parte de mim na esmola regateada de um corpo sujo e senti que tinha sido em vão atravesso as mesmas ruas vezes sem conta e raramente me sinto a caminho de um lugar com sentido chove é tempo de beber a vida num grito e a felicidade e a dor e a ternura pois sei apenas sei que sou de passar não sei em que calçadas deixei o coração chove e ainda assim temo encontrá-lo não vá o meu coração vagabundo não mais caber dentro de mim coração peregrino... com que luz que pessoas que caminho?
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não sei que lugar não sei que lugar não sei que lugar existe em mim que me inibe de caminhar sei que aí eu sou feliz nesse berço lugar que habita em mim e onde eu ainda habito se sinto o coração sem colo e sei que aí eu sou feliz mas quero mais e sei em mim que tenho medo
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o amanhã é muito longe o amanhã é muito longe o amanhã é muito longe e se o persigo perco-o em horizontes que não toco porque não são de tocar e perco-me de mim porque não sei existir sem tacto confundo as coordenadas o futuro o amanhã é muito longe tenho medo
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