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10 Contos editados |
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DOR Dor. Como defini-la? Sente-se na felicidade, sente-se na ausência. Sente-se por amar em insegurança, dói o mesmo tanto por não amar. A presença faz doer, mas não tanto como o encontro. A frustração traz-nos para casa amargura que, no final de alguns episódios repetidos, se vai instalando, como a visita de uns parentes distantes. Habituamo-nos tanto a ela que a tomamos como mobília, como uma rotina confortável. Não exalta, não alegra, não irrita, não faz chorar. Apenas está comodamente presente. Tanto, que tememos o que existe para além dos seus, agora bem definidos, contornos. Vamo-la construindo dia a dia ao convivermos com o seu lugar à mesa, o seu espaço na cama, a sua imagem no espelho. Tanto, que travamos todas e quaisquer tentativas de a exorcizar com um novo desafio. A muito custo e atenção, conseguem-se descobrir os pormenores inóspitos, mais recalcados que uma encarnação passada. A fim de elaboradas desculpas e argumentos, voltamos ao nosso vazio eleito. Ocupa tanto espaço, que chegamos a dormir com os pés destapados à noite. Cultivamos o desespero como a uma relação, questionamo-nos diariamente, a razão pela qual escolhemos o nosso companheiro. Independentemente da resposta, o dia seguinte é igual. São as nossas próprias fobias que nos impedem de viver e a sua constatação não chega para virar a página. Dói sabê-lo. Doiría mais viver na ignorância. Dói fechar os olhos e dói abri-los de madrugada. Sobreviver vai-se tornando uma tarefa exigente. Os movimentos mecânicos ajudam a concretizar as funções vitais que asseguram a fragilidade desta existência. No dia seguinte, já não magoa tanto e a vida vai-se tornando numa sequência de hábitos repetidos que nos permitem distinguir dos seres impulsivos. A garganta perde a voz e o eco, perde-se lá dentro. Ao fim de um tempo, custa a erguer o copo que nos mata a sede. A sede passa, deixa de incomodar. Viver não dói, haver cansa. Passamos pelos compromissos sem, no entanto, os ter. a fronteira entre a realidade e o inatingível torna-se cada vez mais ténue. Tanto, que deixamos de a distinguir. Deixamos de saber o que sentimos, se sentimos. Doará sentir? Doará não sentir? Dói, simplesmente não doer... |
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Parte de mim Deixa-me ser o teu sonho. Deixa-me fazer parte dos mistérios que envolvem a tua noite. Queria ser um conto que assola a tua cabeça quando a poisas sobre a almofada. Quero ser um fio do teu cabelo que se escapou pelas tuas roupas. Quero ser as tuas mãos, assim poderei tocar o teu rosto. Como será ser a camisa que abraça o teu corpo? Quero ser o perfume com que aromas o teu cheiro, assim seria a pele que te protege do mundo. Mas não posso, pois ninguém te possui e tu não possuis nada nem ninguém. As coisas são as únicas que te podem envolver, pois são aquelas que não te pedem nada. Não me importava de ser a lágrima que lava o teu rosto. Sinto-te, mas não te posso tocar. Por isso sou os teus olhos para poder olhar o espelho e assim serei Narciso. Se eu fosse a ti, amar-me-ia em todos os detalhes. Não deixaria que nada me ferisse, fazer-me-ia feliz, o mais que pudesse. O alimento que beija os teus lábios deve saber o gosto da seda. Deixa-me ser a brisa que refresca o teu calor, assim poderias ansiar por mim como eu por ti. És mais grandioso, que uma força da natureza. Posso ser uma moldura que fica na tua mesa de cabeceira para te olhar dormir? És tão lindo quando dormes, quando viajas pelas terras distantes do mundo da fantasia. Qual será o destino necessário ao alcance de um pensamento teu? É tarde para me desfazer de ti. Como me podem pedir que te esqueça? Era como pedirem para me esquecer de mim própria. Foram necessários anos de busca e paciência para te encontrar. Quando já nada te fazia adivinhar, quando todos os dias seguiam iguais e a vida se passeava pela melancolia de uma tarde cinzenta de outono. Soubeste encontrar-me quando me escondia. Quando me amaste fizeste-me amar novamente. A ti e a mim. Fizeste de mim melhor pessoa. Fizeste com que eu quisesse ser uma pessoa melhor. E agora? Continua os teus sonhos, a tua vida! Dizem eles. Que sonhos? Que vida? Eles eras tu e tu eras eu. Contigo levaste-me, esqueceste-te de me deixar. A minha alma continua presa à tua, sem a tua não sei pensar, sem os teus pulmões não sei respirar... Para onde foste? Onde estás? Leva o vazio que deixaste. Vivo aqui e agora, enquanto espero por ti.
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Quando a noite chegar É de noite. O céu, imenso, não é mais que um manto negro que se estende sobre as nossas cabeças. Alguns pontos brancos cintilantes, despontam na heteroesfera abrindo a cor pesada do escuro. Deito-me no jardim que fica nas traseiras da casa. A relva húmida, molha-me as costas que, apesar de ser Verão, me provoca um arrepio de frio. Olho para cima e sinto medo. Só consigo ver o grande desconhecido e apercebo-me que o universo consiste nisso mesmo: no desconhecido. O conhecido é apenas uma fracção do que existe e do que já ficou para trás. Sinto medo do que está para além daquilo que consigo ver, medo do escuro, medo do que não conheço, medo do que está para vir, medo que o céu não aclare, medo que o amanhã não chegue, medo de não saber onde estás, medo de sentir o que sinto, medo de não te encontrar amanhã, medo que o meu peito venha a sangrar ainda mais. Todos os sons se agravam, tudo aumenta de dimensões. Só eu fico mais pequena. Estou impotente e perfeitamente inofensiva. É à noite que os vampiros saem das grutas e voam sobre as pessoas. As corujas avisam a sua chegada e o que eles trazem. É que os vampiros têm em seu poder o destino dos amantes. Os anjos não aparecem, sabem que enquanto for de noite eles estarão seguros, a paixão perpetuará. Os anjos só tomam conta daqueles que perderam ou ainda não encontraram a sua outra parte. Fecho os olhos e posso sentir a tua respiração. Emanas uma luz forte que encadeia os meus olhos, por isso não te posso ver. Posso sentir-te, o teu calor, o teu cheiro, a tua pele, tocares-me com a tua alma. Não há mais nada. O universo é nosso e abraça o meu jardim. Não há vento, nem escuro, nem frio, nem vampiros, nem corujas... só duas metades que se tocam. Aqui alcancei a eternidade. Um raio de claridade ilumina, repentinamente, o céu. A tua sombra afasta-se, o frio retorna, tudo toma as suas proporções. Mas eu não te libertei. Sento-me no chão, sobre o qual segurei o cálice da vida há momentos. Tudo em meu redor toma cores, cores que não conheço, que nunca vi. Nas alturas, consigo distinguir a forma do véu branco do anjo que olha sobre mim. Agora entendo tudo. O dia amanheceu e com a noite, os meus receios entorpeceram-se. Sacudo as folhas secas que trago agarradas à roupa. Uma delas é completamente negra, sem cor absolutamente nenhuma. Pego nela e guardo no bolso. Sei que a noite virá mais tarde. Os vampiros tornarão aos céus e as palavras deixarão de ter significado. Sei também que, só nessas ocasiões os amantes se encontram, só aí é que me voltarei a me conhecer. Até lá, o anjo continuará esfumado no azul lá em cima. Por isso, agora não tenho medo. Só quando a noite chegar.
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Á janela do comboio Todo o tempo do mundo é passado em constante busca. Catalogamos os nossos objectivos como em busca de ideais. A perfeição é o limite e a urgência é o prazo. Desde pequenos que nos incutem o hábito de sermos irrepreensíveis. Nas palavras, na construção das frases, mais tarde no assunto de discussão, no sentido das nossas afirmações, na sustentabilidade e credibilidade dos nossos argumentos, nas nossas crenças religiosas e políticas. Nos objectivos de vida, na nossa personalidade, no desejo, na ambição e realização pessoal. Quando paramos para ver em que degrau da vida nos encontramos, já é tarde, já embarcámos numa espécie de comboio fantasma com destino incógnito. Nem sabemos porquê, sabemos apenas que toda a comunidade do nosso meio, económico, social e profissional, se desloca no mesmo transporte. Dirigem-se exactamente para o mesmo local. Penso em perguntar para onde vou a alguém que está, compenetradamente, sentado a meu lado, poderá ele responder-me? Saberá ele mais do que eu? Não! Então porquê a razão de estar ali? Talvez a mesma do que eu: absolutamente nenhuma. Terá ele a mesma vontade de chegar do que eu? Certamente! Não faz a menor ideia, tal como eu. Estudamos na escola que temos órgãos vestigiais que se tornaram obsoletos devido à falta de uso. Ora os nossos sentidos, as sensações, gozam da mesma propriedade. Tais como a o tacto, o prazer, a vontade. Como nunca dei ouvidos à minha vontade, não sei o que é, como é nem como se manifesta. Por isso não sei se quero estar nesta locomotiva que me dá uma sensação de impotência, juntamente com um nervoso miudinho resultante do pânico que tento à força esconder. Olho pela janela e vejo uma paisagem belíssima. As cores são douradas, provocadas pelo sol de final de tarde a tocar na imensidão de relva sobre o arvoredo equitativamente implantado. Existem folhas por todo o lado e o vento suave traz um aroma adocicado característico do outono. Fecho os olhos e estou lá fora. Corro que nem uma doida pela relva selvagem e deixo-me cair naquele manto verde acastanhado. Abro os olhos e estou dentro do comboio. Será esta sensação a que chamam de ... vontade? No entanto, a velocidade vai aumento a olhos vistos. A vertigem e a adrenalina começam a fazer efeito em mim, vejo-o porque sinto o meu corpo mais leve. A minha cabeça plana acima do meu corpo e vejo os acontecimentos de um plano superior. O comboio começa a abrandar, a abrandar, até que fica sem movimento. Uma massa gigantesca de gente, aproxima-se, da porta de saída, onde eu estou inserida. As pessoas saem, lentamente, pouco a pouco, um a um, da locomotiva. Não consigo perceber o que está lá fora, pois a ninguém deixa transparecer seja o que for. Nem surpresa, nem excitação, nem alegria, nem tristeza, nem contentamento. Só obrigação, só acomodação. Eu, em nada, me distingo seja de quem for. Sou apenas mais um rosto no meio da multidão. O meu coração fica apertado, sinto as costelas a pressionarem os meus pulmões, a respiração começa a falhar. Começo a chamar o meu nome lá de cima mas, cá em baixo não oiço. Grito e grito e gesticulo mas, é escusado. Falta-me o ar, as pulsações começam a aumentar de ritmos e a inspiração mais profunda não satisfaz a minha carência de oxigénio. Repentinamente, caio lá de cima e estatelo-me no chão. Fico inconsciente. Quando volto a mim, levanto os olhos e vejo uma enorme mancha de sangue sob a minha cabeça. Tinha quebrado o nariz, mordido os lábios e a língua. Não conseguia mexer uma perna e um braço. Em meu redor, tudo deserto, nem uma alm0a a quem pedir ajuda. Vou-me arrastando, devagar, até à porta de saída mas não se vê absolutamente ninguém. Lá fora, os campos que tinha avistado atrás. Instintivamente ergo-me sobre uma perna e deixo o meu corpo se abater até lá abaixo. O meu corpo dói tanto, que nem consigo identificar todos os meus sentidos. Mas é tudo tão lindo e majestoso que nem me lembro de mim. Acordo. Olho-me ao espelho e pergunto: quem está aí? Queres mesmo saber? Pergunta uma voz do outro lado? Claro! Então chama-me e deixa que eu aja livremente. Assim o fiz. As consequências daquele acto foram desastrosas. Aquela pessoa quem eu chamei, era decidida, obstinada e corajosa. Não tinha medo de nada, nem se sentia intimidada por uma olhar mais repreendedor. Fez um comunicado oficial internacional. Disse que não era perfeita. Como se não bastasse tal revelação, tal demonstração de fraqueza, disse que não pretendia sê-lo. A última afirmação, mais devastadora, foi a que, apenas queria ser feliz. Apartir foi alvo de todo o tipo de represálias, discriminações aberrantes, ódios e escárnios desoladores, digno de fazer sentir um deus pouco temido. Todos ergueram as vozes contra eles, pois não tiveram coragem de erguer as suas mãos para o felicitar. Pouco a pouco, as coisas começavam a decorrer melhor, as pessoas foram-se esquecendo dela, os pequenos degraus da grande escadaria iam sendo atingidos. Como o rio mais sujo tem a capacidade de se autodepurar, o ritmo da suas escolhas tinham a capacidade de se satisfazer. E nas pequeninas coisas, enquanto buscava a sua felicidade momentânea, ia tendo tudo de bom que lhe podia acontecer, e cada vez com mais precisão, mais acurácia. Segui o meu caminho sozinha para sul, quando todos rumavam para norte. Caminhei com os meus próprios pés e ouvindo as setas que o meu coração ditava, percorri toda uma viajem. Não sabia o destino da jornada, mas sabia para onde queria ir. Ouvi a minha vontade. Fui feliz, fui triste. Caí e ergui-me novamente. Não sei se um dia chegarei lá, mas certamente para lá caminho. Vou colhendo e guardando as flores da estrada, as pedras jogo fora. No final, abrirei o saco e vejo o que está lá dentro, toda uma histórias e aventuras escritas por mim. Tomei o percurso mais difícil, mas saí a tempo do comboio. A tempo de conhecer o que de bonito a paisagem tinha para me mostrar.
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Acontece...? Tenho uma enorme pena que tenhas guardado ódio. É certo que as coisas foram duras, é certo que errei muitas vezes, que fui indecisa, que te feri, mas, por favor, não me odeies. Porque eu adoro-te. Amo-te como amo meus irmãos, minha família, meus amigos queridos. Vivemos intensamente o pouquinho que nos coube, queria tê-lo aproveitado melhor. Posso ter sido fraca, pouco lutadora. Não sei, no entanto, se haverá algo melhor ou maior. Anos e anos a pensar que alguém nos reservou algo de completamente diferente a quem nos podemos entregar de corpo e alma porque será somente nosso. Será a nossa casa, o nosso destino. Hoje duvido de tudo o que antes me tornavam tão diferente. Duvido do fado, do futuro, da vida, da vontade, de deus, até que o sol nasça amanhã. Agora compreendo porque não conseguia ver brilho nos olhos dos mais velhos. A luz dos dias apagou-a. Não podemos ser muito exigentes, dizia-me minha mãe. Porque não? Pensei eu. Devemos exigir tudo aquilo que temos direito. Somos presenteados, assim que cá chegamos com a maior dádiva entregue pelos céus. No entanto, é raro lembrarmo-nos disso, em contrapartida, perdemos todo o tempo a pensar no que não temos, com o quê que não nascemos, desdenhando o que os outros possuem, a cultivar sentimentos avos. Para quê? Para um dia partirmos sem levar nada connosco, deixando tudo para trás. Tudo o que de bom e de mau fizemos, criando o que de bom o de mau fomos, cantando o que de bom ou de mau ouvimos. Queria voltar a inventar o mundo, queria voltar a inventar as pessoas. Acho que criaria apenas algumas características das quais se poderiam escolher para serem distribuídas. Voltaria a inventar-me. Seria tudo aquilo que não consigo ser. Amar-te-ia, acima de tudo. Amaria Deus, Alma e Mundo, apesar destes me atraiçoarem. Daria a outra face cada vez que sentisse uma mão pesada no meu rosto. Odiaria quem, pela primeira vez, amei, quem me fez sentir viva. Arrepender-me-ia de me ter entregue. Desejaria voltar atrás para fazer tudo diferente. Mas não posso começar o que já foi inventado, não poso mudar o que não é meu, não posso falar com lábios alheios. Posso tentar viver como sei, aceitar o que de bom existe e tentar mudar o que tenho de mau. Um amigo uma vez resumiu todos os sonhos, esperanças, utopias numa simples frase que explica o significado de toda a existência. Há medida que o tempo vai passando, cada vez vou acreditando mais nessa expressão: "Acontece..." |
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| MANHÃ
MANHÃ A manhã chegou tão devagarinho, que até me assustou. Bateu de leve à janela, afastou o cabelo do meu rosto e sussurrou-me ao ouvido: "o mundo já gira lá fora... Vem sentir o seu perfume!" Regalei os olhos de alegria. As cores e os cheiros invadiam o meu quarto, não me queriam deixar dormir. Pensei que tivesse feito uma viagem de milhares de quilómetros, acho que adormeci num sítio totalmente diferente. Até os móveis se tinham mudado. O corpo estava ainda cansado. Podia sentir na pele, ainda o cheiro que denunciava a tua chegada. Sentiria-o a milhas de distância, mas nunca o tinha pensado ter tão presente, nem tão colado em mim. Que cumplicidade tão secreta, podia gritar a todos que tinha descoberto a inocência, eras meu. E ao ver-te assim, a dormir serenamente, na minha cama fria, cinzenta, deu-me uma paz eterna, podia ter acreditado em Cristo, se me tivessem dito, naquele momento, que ele tinha descido à terra para me salvar. O nervoso miudinho invadia-me como já não acreditava que acontecesse. Estava, finalmente, em casa, podia deixar de correr, de fugir, de procurar, não tinha mais pressas de chegar a sítio algum, tudo resto era secundário e, se tudo o resto falhasse, se o meu pequeno forte ruísse, ter-te-ia a ti. Teria tudo. E a manhã veio dizer que não era um sonho. Não percebes? A manhã chegou para nós, veio celebrar o reencontro. Só ela nos pode dizer que a noite não foi ludibriosa, só ela vem cerrar o nosso pacto, agora sei.
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| MÃOS
SUJAS
MÃOS SUJAS Por favor, fecha a porta atrás de ti. Certifica-te que ela não se volta a abrir para te revelar. Não me olhes assim, eu sei o que deves pensar de mim. Não gastes o teu tempo a questionar os motivos, as razões de ser. Nunca te disseram que a vida não é justa, nem para aqueles que mais o merecem? Não sejas tão doce, tão compreensivo. O que é que de tão bom consegues ver nas pessoas, o que é que de tão colorido tem o mundo, o que é que ainda te faz ter fé seja no que for? Perdão, mas não sou assim. Tenho amargura, trago o azedume de com quem se tornou impossível conviver. Não perguntes porquê. A vida não nos dá respostas e eu também não o faço. Não digas que compreendes, porque não fazes uma pequena ideia, não digas que me desculpas porque não quero ser perdoada. Sou fria e seca, como uma pedra de mármore. Linda, esculpida, macia ao toque, mas gélida em todos os pontos. Nunca te disseram que a vida é assim mesmo, as coisas más acontecem sem nenhum motivo aparente? Não existe ninguém lá em cima a ensinar-nos seja o que for, não há nada escrito em lado algum, não há nada que guie os nossos passos e, especialmente, não existem encontros marcados. Existem pessoas que aprenderam a ir vivendo, souberam coadunar-se aos tropeções nos passeios, às encostas escorregadias, aos carros que atropelam e outras há que, não se souberam vergar aos caprichos da realidade. E então tornaram-se assim, feias como eu. Não te iludas, não existem pessoas melhores que outras. Somos todos iguais, a diferença é que uns escondem-se melhor atrás de véus transparentes com que julgam tapar o sol. Como se isso fosse possível... E, mesmo que o fosse, apesar de coberto, o sol continuaria a erguer-se no céu. Eu não, não sou hipócrita, sou como me fizeram e faço questão de o exibir aos que me observam friamente, criticando a minha apatia. Tu mesmo, um dia serás assim. Não julgues saber tudo sobre ti próprio, pois poderás surpreender-te. Não olhes muitas vezes o espelho, um dia podes assustar-te. Não beijes muitas vezes quem amas, os lábios podem secar-te. E nunca, nunca, dês a outra face, porque a mão que sossega o teu peito, bater-te-á sem pensar duas vezes. Quando cresceres, será diferente, poderás sugerir. Gerarás alguém inocente que salvará o mundo. Um ser prefeito, sem dores, sem erros, terá os teus como legado. Ingénuo, não herdará aprendizagem, terá curiosidade, terá prisão, revoltar-se-á por algo que não viveu. Será inóspito. A culpa? Será tua. Ainda pensas ser melhor que eu? Muito bem. Espera um pouco. Quem matou os sonhos da tua mãe? Foste tu. Tiraste a liberdade que levou a vida toda para conquistar. Tirou o comer dos próprios lábios, para que não sentisses fome. Submeteu-se a uma vida vazia, sem amor, sem alegria, sem objectivos. Porquê? Porque tu nasceste. Ofereceu-te tudo o que tinha aprendido, sem nunca ter tido a oportunidade de o aplicar. É por isso que te ensinou tudo errado e fez de ti o ser desprezível no qual te vais tornar. Acreditas agora que todos somos deus e o diabo? Já sentes incompreensão, revolta? Já me achas insuportável, já me odeias tanto como eu a ti? Ainda queres que eu te toque, ainda que não sinta nada? Acreditas numa palavra que eu digo, sabendo que minto? Ainda confias, sabendo que me chamo Judas? Queres ainda dar-me a mão? Não olhes para mim, não me peças a mão. Não chores de medo, porque ele virar-se-á contra ti. Talvez um dia sejas forte, talvez venhas a compreender porque nunca te pude tocar.
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| MENINA
FRÁGIL
MENINA FRÁGIL
Cara bonita, olhos doces, sorriso aberto. Linda mulher que se passeia por entre as brumas dos seus caminhos. Confiante como só ela sabe, certa das suas pretensões, como a Terra está da sua singularidade. Pobre criança que se veste com o peso da responsabilidade. Foge da vida, como o azeite da água. Acha que assim se poderá defender melhor. O pânico de sangrar novamente supera o seu antigo usual fascínio pela surpresa. Costumava ser tão cheia de vida, transbordava alegria que partilhava, indiscriminadamente. O seu amor próprio e pelo mundo não cabia em si. Mas um dia teve o que quis e descobriu que os sonhos só se devem viver sob as estrelas, quando o corpo desiste de lutar. Só pedia que fosse amada numa pequena fracção daquilo que ela retribuía. Isso era maior que tudo, maior que o sonho, que a vida, que o mundo e que o universo. Até se esqueceu de si, perdeu-se algures na fronteira do céu com a terra e a força que a retornou a casa não alcançou mais que o corpo. Por isso, a sua alma etérea separou-se do que sempre a tinha complementado. Vive só, embora pense que não. Celebra a vida, pois escreve nela um mar de oportunidades para realizar a sua mais fértil imaginação. Sente-se livre, mas vive presa a uma imagem de horror associada ao mais nobre sentido das sensações. Julga viver cada momento como o último, porque adora a sua rotina, quando na realidade não sabe quando vai sucumbir à tristeza. Enche-se de planos que a tornam ainda mais incompleta, crente de a vão tornar mais interessante. Frontal como o espelho, guarda o sufoco na garganta de nunca ter confessado o seu amor. Afasta todo o romantismo de si, porque se for mais fria, isso torná-la-á mais forte. Na realidade, os cristais de gelo, acabarão por afogá-la. Canta aos quatro ventos que não acredita no amor, pois pensa que assim, um dia acabará por acreditar nisso. Tão forte é a necessidade de fugir àquilo que a faz viver, que acaba existir obcecada com a esperança de que haverá alguém para ela, que venha a contrariar o seu grande carácter, o mesmo que faz dela uma menina tão frágil.
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| SE...
SE... Se tivesse sido de uma qualquer outra maneira, hoje não seria quem sou. Se não tivesse crescido tão cedo, hoje seria uma jovem de vinte e dois anos. Se me tivesse calado, ninguém me teria ouvido. Se tivesse acreditado em mim, não teria ficado doente. Se não tivesse adoecido, não teria deixado de viver. Se não tivesse entorpecido, não me terias ressuscitado. Se tivesses chegado um segundo mais cedo, não terias ter que o fazer. Se tivesses prestado atenção, ter-me-ias ouvido gritar. Se tivesse tido coragem, ter-te-ia pedido para ficar. Se hoje não estivesse aqui, ter-me-ia perdido no caminho. Se tivesse ficado por um instante, o nosso beijo não seria de despedida, seria de saudação. Se não fosses tu, não seria mais ninguém. Se não tivesse confiado em ti, talvez não tivesse amigos. Se não tivesse olhado para ti, não te teria chegado a conhecer. Se nunca te tivesse conhecido, faltar-me-ia um pedaço. Se a existência não fosse dolorosa, não saberia dizer se estou viva. Se falar fosse fácil, ter-te-ia dito o que sinto por ti. Se a tinta me tivesse falhado, ter-me-ia afogado em pensamentos. Se nunca tivesse errado nas decisões, esta noite não teria ficado acordada. Se a nossa história tivesse sido igual a todas as outras, hoje não me recordaria de nada. Se eu não tivesse guardado nada, não me farias tanta falta.
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COMO SEI O QUE SINTO? Chamo por ti. Quero ver-te, quero tocar-te. Quero saber se és real. Visitas-me nos meus sonhos e dizes-me para não ter medo. A tua voz acalma a minha ansiedade. O nervosismo de quando estás para chegar, os dois segundos anteriores à tua presença que parecem anos de vida. A certeza que dispensa quaisquer perguntas. O não ter horas de partida ou de chegada. Não ter compromissos que não te incluam. A insignificância de tudo o que acontece fora da nossa porta. O desejo arrepiante de sentir o cheiro do teu cabelo. A sensação de continuidade do meu corpo, quando me tocas. Saber que ninguém me conhece melhor. Não querer desvendar-me a qualquer outra pessoa. Chegar a casa num abraço teu. Ter a força de vinte homens só por saber que sentes o mesmo. Acreditar mais em ti do que em mim própria. Mergulhar no teu beijo, afundar-me nos teus olhos, sem sequer dar conta. Embriagar-me nos teus braços com a intensidade doce do teu cheiro, que só eu sinto. O vazio quando partes. O mundo quando chegas. Quero que me olhes desse modo e que me descubras, como só tu sabes fazer. Que as minhas pernas me falhem só porque chegaste de mansinho. Ter a certeza que serei sempre e só tua, pelo modo como a tua pele sabe na minha. Saber que não poderia ser de outro modo. Que me segures e me salves das minhas fraquezas. Confiar no teu apoio mesmo sem ver as tuas mãos. Que me ames com essa intensidade. Partilhar o meu esconderijo contigo. Seres meu cúmplice. Meu amigo, meu amante. Seres a minha e eu a tua vida. Quero ver-te, deixa-me ver-te! Deixa-me abraçar-te, segurar-te contra mim, com tanta força, que nunca mais possas ir embora. Deixa-me sentir-te, amar-te, viver em ti, porque tu existes no que há de mais bonito em mim. Deixa-me continuar a procurar-te, mesmo sem saber se existes. Deixa-me continuar a viver, mesmo sem saber se te vou encontrar. Não quero passar por esta vida sem ter a certeza se me vou conhecer, se vou passar a prova de não te ver fisicamente. Acredito em ti. Creio em nós, na intensidade da resistência do que nos une. É por isso e por tudo aquilo que invade constantemente todos os meus sentidos e me confunde as emoções. É por aquilo que eu sou e por aquilo em que acredito. É por aquilo que eu quero ser quando estás a meu lado. Não sei se é um sonho, se é real. Não sei se sonhei com esta crença, ou se é uma crença com que sonho. Só sei que é assim que te amo. Agora ou quando te conhecer.
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| O
Voo
O Voo Finalmente as correntes quebraram-se. O aço, cuja força representava a união com o passado, não foi cortado, não foi rasgado, nem tão pouco partido, moído, dissolvido, derretido, foi, simplesmente, desvanecido. Afinal, não era assim tão forte. As coisas só têm a importância que nós escolhemos dar-lhes, assim com a matéria só tem a resistência que a nossa determinação permitir. Quando alguém mais velho diz que conseguimos tudo aquilo a que nos propusermos, é verdade. A sua experiência não deixa mentir, as nossas possibilidades ultrapassam todos os limites realizáveis. Podemos voar, se o nosso espírito assim o determinar. É preciso enfatizar aqui, que o voo imaterial requer mais aerodinâmica que voo físico. Pois esta capacidade não é comum dos mortais, daqueles que estão ligados à terra por um elo mais invisível que as asas que permitem essa transposição aérea. São esses que nos cortam os membros que nos permitem viajar. Esses são os mais temíveis inimigos, logo a seguir à nossa memória, é claro. Os inimigos que nos rasteiram, se nós descurarmos os caminhos por onde andamos. Não nos podemos esquecer do caminho para casa, mesmo que ainda não o tenhamos visitado ou, até mesmo, o encontrado fisicamente. Pois as suas dimensões deverão nos ser perfeitamente conhecidas. Talvez possamos pensar que o conseguimos fazer com o auxílio alheio, mas essa certeza é tendenciosa, leva-nos a crer que o fio condutor não está em nós, porque realmente não o conseguimos ver. Está em nós. Nasceu, cresceu, desenvolveu-se, evoluiu e emana de nós. Somente nós. Se o deixarmos fluir, só assim, conseguimos entregar a nossa energia alguém. Energia que motiva que faz viver e dançar, rir das atrocidades porque não representam a derrota na guerra, somente o recuo na batalha que nos impulsionará para a vitória. Só aí, começamos a amar, a nós próprios, aos outros. Às coisas, à rotina, às tristezas, às nossas falhas e enganos. Gritar alto para que as vozes ultrapassem a barreira do som, a velocidade da luz. Recuar na história. Até onde as nossas vidas se haviam comprometido encontrar-se, sempre que o tempo voltasse a nascer. Ao nosso amor. A ti. Cuja luz irradia, reflecte e ilumina, todos os dias. Os meus dias. És único, és meu. Somos parte do mesmo todo. Ao Nel
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Como é
Não tenho nada para dizer. Nem tampouco tenho jeito para as palavras. Pediram-me para falar sobre o que sinto e o que significou para mim... A verdade é que, as manhãs são tão somente manhãs e, como tal, sucessivas centelhas de luz após a escuridão que já não abrilhanta absolutamente nada. E as flores, sim as flores que rego no começo do dia, escolhem não se erguer, não perfumar, não adornar os vasos que não as desejam amparar, sobre uma mesa de pratos semivazios e de copos rancorosos que, outrora, foram beijados. A vida arrasta-se pelas esquinas da rotina porque não sabe para onde progredir, não tem por onde. E, se existem incidências sem sentido, a sua partida, a qual não me foi questionada ou sobreavisada, consta do rol dos factos que não aceito. Se a realidade insistir nesses moldes, baixos os braços e deito a toalha ao chão. A lua pode-se apagar, esses raios não têm quem iluminar. Por favor, fechem o véu que permite que as estrelas sejam visíveis, o mais provável é que, também elas já tenham sucumbido. Apaguem as cores, os meus olhos negam-se a ver algo que não seja o negro. Cubram os aromas que suscitam os sentidos, pois os meus pereceram com o meu amor. As águas do nosso rio não têm para onde correr, o mar jamais espera por ele. A árvore, onde inscrevemos as nossas promessas, rejeitam a madeira profanada, expelem a seiva que flui da terra porque, também esta rejeita o alimento. Não há beleza neste sítio onde estou, porque fui aqui desabrigada sem quem me abrandava o espírito. Um ermo ocre, sem um centígrado de calor, de humanidade, sem esperança. Só saudade. Não terei o condão do verbo, não é sequer conjecturável, o suplício do que é, seguir um trilho cujos quilómetros e quilómetros de extensão, levam a lugar algum.
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Fico, se me prometeres um sorriso Dos que gelam a primavera sem aviso. Fico. De tudo terei saudade Das investidas, indiscretas pela cidade, A noite, é tão triste, só e escura. Mas fico, espero que venha essa ternura, Esse afago, enquanto a paixão dura. Fico. Porque és a flor que cresce no deserto, No calor, no vento quente, sol e a lua, espalhados em céu aberto. Fico, quando de mim te fartares Lembra-me de partir, se tampouco já não me amares Não erguerei a minha espada Não lutar pelo sentido, não viver, não esperar a madrugada Para ver o teu rosto dormir, Querer esse teu sonho, que de tão doce, te faz sorrir. Fico. E se um dia me perderes Chama-me, até do meu nome te esqueceres. Longe, quando não existir mais nada Fico mais um pouco, emalo as roupas, digo adeus, sigo jornada.
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Só esta noite
Só esta noite, enquanto o calor me sua Fica à nossa sorte e eu prometo que serei tua. Só esta noite e não quero o que não podes dar, Não me digas coisas doces, e não nos vamos apaixonar. Só desejo o desejo, que o corpo também governa Quero o teu, só por uma noite e esta, não é eterna. Então beija-me e esquece-me. Afastemos a solidão, Sucumbamos no prazer, levemos o corpo à exaustão. Se me queres e eu a ti, entrega-te esta lua, Seremos só dois corpos que se unem, uma alma nua. Só esta noite, sem pudor, sem censura Existirás só, enquanto a noite dura, Cumpriremos a carência, a que a noite tortura. Por isso, vem segue o caminho ao meu aposento Despe a roupa, despe o tormento, Acalma a solidão, o carícia de não ter quem te tocar Seremos amantes, amigos, dois corpos, sé enquanto a noite durar.
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