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7 Poemas Editados

 

- Alucinação Póstuma Terceira

- Auroras

- Circe

- Demostração Semigaláctica III

- Hamlin Revisited

- Mãe

- Salto Mortal

 

 

 

 
 

 

 

Alucinação póstuma terceira

 

 

Hão-de os pastores regressar.

Escuto-os já, cantantes e helénicos.

Sorrindo, bucólicos e cénicos,

Trazendo nos dedos uma pouca de música,

Nos lábios rubros o segredo dos frutos –

aguda afirmação de um doce pecado,

da ternura pagã o eterno legado,

transitoriedade crónica de Primavera.

 

Hão-de as fadas, pequenas, despertar.

Entrevejo-as já, mimos de luz,

Explosão multi-color, semi-vegetal.

Os olhinhos pretos, descalços e húmidos,

Sinceros de vontade, ingénuamente ardentes.

E nas orelhas espetadas, cerejas pendentes.

E eu desesperada, humana em demasia.

Crédula, fuga racional desmedida,

Procurando-as,

Em vão amando o sonho edénico

Que descaradamente me mentia.

 

Joana Lobos de Lima

2000

 

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Auroras

 

 

Às palavras

 

São temerárias e carentes.

Por isso são ânsia sôfrega de conciliação,

Por isso são definiveis em milagres individuais,

Cristalizações miocárdicas racionalizadas,

Ou talvez não...

 

E são elas a minha precipitação trágica,

Triunfante pedra no marasmo da inércia.

São sopro enervado, ameaça de facécia,

Propulsão constitutiva da concretização...

São o término do ciclo que deram à luz,

Agonia diferencial do bicho sapiens

E o crédito final de sua suposta compreensão.

 

Sou de vossas auroras exuberantes.

Recrio-vos e a mim

Em novos cambiantes gloriosos,

Reverberações sedutoras, estrépitos luminosos

De uma alma marcada a ferro semântico ardente.

 

Joana Lobos de Lima

 

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Circe

 

A aurora acariciou-lhe os negros cabelos

Um doce regresso de oníricos desvelos.

Seus olhos pretos, flamejantes e cruéis lutos

Despertavam, húmidos de pecado como dois frutos,

Ânsias vespertinas de um novo prazer,

Maledicências em lendas por cometer.

 

Abeirou-se, lenta, da luz à janela desvendada

E dilatou a vista à fresca manhã molhada.

Apoderou-se do horizonte em fiel meditação

E desvendou nos sinais etéreos, fugaz, a premonição:

Cortando as ondas acercava-se a ulisseica proeza,

Deliciosa certeza de uma nova, ingénua, presa.

 

E desejando o gostoso quebranto do tédio,

Seu sorriso branco, elegante, tornou-se nédio.

Bárbara pretensão de delicados encantamentos,

Venenosa premeditação de refinados tormentos.

Assim se deleitava em finas teias mentais

Enquanto se cobria de essências e sedas fatais.

 

Chegando, incautos, à ilha da incógnita feiticeira

Sucumbiram os nautas aos seus gestos de gata ligeira.

Cada um bebeu, cego, a funesta azulada dose

E sob o riso agudo da bruxa, cedeu à suína metamorfose.

Mas, de súbito, estacou, atónita, em trágica visão amorosa –

Era Ulisses que, agraciado, escapara à trivialidade ardilosa.

 

Joana Lobos de Lima

 

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Demonstração semi-galilaica III

 

Ao milagre trágico da criação

Amo esse zumbido circularmente primoroso

Ultra-milenar, silenciosamente luminoso

De grandiosidade anelar

Que, insidioso,

Se deita de eternidade amorosa

Em volta da evidência satúrnica -

- Pupila transcientífica para o infinito.

 

Fecho os olhos em suspensão respiratória,

Cristalização de além-memória

E a hora é súmula de transcendência temporal

Evasão ou contornação causal.

Fujo estática para os negros firmamentos

Condensação planetária de momentos...

Sou ninfa ptolomaica a rir nos lagos.

 

Há migalhas estelares nas pontas dos meus dedos

Selos indubitáveis de minha maternalidade

Promessas de gelo e fogo nas minhas criações...

Ardo na confusão norteadora das novas por explodir

De caos e essências sartrianas

Para desenhar e decidir.

 

Joana Lobos de Lima

 

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Hamlin Revisited

 

 

A um anjo

 

Tenho medo que sejamos

Dois espelhos em diálogo

De prata inocente por quebrar.

 

Era um dia de silêncios,

E a luz solar surgia messiânica,

parida pelo erotismo doce das nuvens,

quando escutei tua música

Evolar-se, de lembranças futuras,

Profecias escritas nas paredes brancas.

 

Apareceste-me então com a beleza trágica de Hamlin,

E eu fui o exército de meninos encantados

Fugindo, cegos, para a clausura libertadora

De ti.

Tu não me viste

E eu mortifiquei-me de nós, encostada ao vidro...

Os teus dedos estacaram e sorriste-me.

E quando dei à luz a minha voz,

Desejei-te pequenino nos meus braços

E as palavras por te ensinar.

 

Joana Lobos de Lima

 

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Mãe

 

Lembro-te marmórea à quente luz

De uma lenta meditação crespuscular.

Tudo então adormecia, ingénuo,

Transitoriamente apaziguado e sonolento,

Na vida dourada e pequena desse momento –

Concentração balsâmica e negra em teu olhar.

 

Jamais nos choras de ti, o medo.

Guardas escondido esse humano segredo

De ser da carne fraca e temerosa

que é o corpo nu de teus filhos,

Trôpego exército alucinado e fiel,

Tantos que perdem, de ti, a memória...

Trazem-te lenda, fantasia, tola branca história.

 

Procuro-te, tetricamente ferida,

Como ave renegada e assumida.

Perdoas de mim a trágica sede bolchevista

De sangue e comunhão gritante.

Qual de nós, fria mãe, terá razão?

Fechemos os lábios, somos da mesma abnegação.

Velo-te o sono,

Eu...criança enormíssima,

Que és, no santo barro do presépio, pequeníssima.

 

Cheiras a chuva da claustro.

És desveladamente bela e branca

e no silêncio tépido das velas

trazes o estigma agonizante de um perdão

nas mãos pálidas, quase móveis, cruzadas

sobre o peito de uma alma pré-ilusória –

-mítica recriação trágica de minha teológica

mal sucedida negação.

 

Procuro-te.

Há uma infinidade de revelações

Semi decifradas, nem sequer terminadas

Na palpitação semi-divina de tuas íris,

Safiras ou pepitas de azeviche vidradas

Fixas em êxtase ultra-beato,

Quando reflectem, enormes, as labaredas.

E não sei que oração teatral,

Mistificação alheia, transcendência causal

Me faz entrever-te, despida em profecia –

Evidência gelada, ardente agonia...

E chave-de-ouro desse soneto pantomineiro

Que me traz em suspensão consciente,

Trágico nó cego de dúvida crónica e doente.

Arde sempre, minha mãe.

Sê dessa refulgência pávida, priclitante.

Regresso,

de ti irmanada e constante,

e abraço-te de fé e piedosa reflexão.

E dorme, minha carne é a fria nave

Centralíssima e aguda de santidade.

Sou tempo recriado de tua transfiguração.

 

Joana Lobos de Lima

2000

 

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Salto Mortal

 

Eles chegam, Raquel.

À média luz dos archotes

Trazendo nos membros ciganos

A música louca de enganos

Com que encantam os magotes

De meninos boquiabertos sob os luares de papel.

 

São filhos do circo, Raquel.

Num ritual de masoquismo milenar

Brotam da terra como flores

Já meu apagadas, rindo das próprias dores.

As escolhas são força centrípeta do resignar

À eterna peregrinação nas estradas de fel.

 

Vê-os, bonecos pintados na arena, Raquel.

Os mistérios do pão são seus titereiros.

Saltam numa estilhaçante vibração cromática

À guarda desconsolada e psicossomática

De um par de magros rafeiros.

Seu riso teatral é renegação de Babel.

 

Tens medo do negro de seus olhos, Raquel?

Sei eu porque é.

Arde neles a nossa mesma aguda fé

No insano degredo e nos abrolhos.

Porque nascer sem o traço das cicatrizes

É nascer sem gosto para provar o mel.

 

Podes fugir de meus braços, minha menina.

Eles são fracos freios de tua liberdade.

És mais ao espanto de minhas lágrimas abandonadas.

Quero ver-te num milagre de pombas alucinadas

A gritar no vácuo a irracional força de vontade,

Constante ebulição, transitoriedade repentina.

 

Joana Lobos de Lima

 

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