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Chivas Regal

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24 Poemas Editados

 

Última entrada:

2001/04/18

 

- A Língua que eu escrevo

- Adormecer

- Ausência

- Como eu te quero

- Desabafos de uma insónia

- Desejo

- Dia Mundial da Criança

- Eu sou...

- Exultação ao amor

- Introspecção

- Mãos

- Morte

- Na escuridão

- Não vás

- Neste momento...

- O que eu tenho

- Obrigado

- Paris

- Queria dizer-te

- Saudade

- Sonho

- Um último adeus

- Vida

- Vinte e um anos

 

Invenção

Fotografia de José Soares

 
 
 
MORTE

E a morte virá,
chegará quando não a esperares,
arrancar-te-á da vida,
assim,
de repente,
sem te pedir licença,
e de repente
serás esquecido,
pelo mundo que fica,
vivo.

Depois,
morrerás,
e de ti não ficará,
sequer,
uma lágrima 
derramada
pelo rosto de alguém
quem sabe, talvez,
até de uma mulher...
e os dias para ti
deixarão de ser,
terás apenas a eternidade...

E depois do fim,
nada te resta,
a não ser
os palmos de terra
que te cobrem,
ou as chamas do fogo
que te consomem,
e ao pó voltarás,
porque foi do pó
que vieste,
e o ciclo da vida,
fechar-se-á sobre ti...



Gil, 03/2000
na escuridão, o medo....
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Adormecer

A noite chegou
e com ela
devagar,
devagarinho,
o sono espreita,
sobre o ombro...
lá fora,
na janela,
a chuva embala
numa cadência 
forte e macia,
que apazigua 
os pensamentos
e me leva à fantasia..
Aqui,
no quentinho 
do meu mundo,
fico sozinho
e adormeço,
não te preocupes,
eu não me esqueço,
os meus sonhos
serão bons,
são sonhos contigo,
amor...


Gil, 04-2000
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AUSÊNCIA
 
O nó que me ocupa a garganta
E a ferida que deixaste aberta no meu peito
Impedem-me de te confessar 
A falta que me fazes
 
A tortura que é olhar em volta
E não ter os teus olhos nos meus
Não sentir o teu doce perfume
Ou a suavidade da tua pele em mim
Afoga-me o coração em sufocantes lágrimas
Que me impedem de gritar por ti
 
A faca que me penetra os pulmões 
Não me deixa respirar fundo o teu nome
A tristeza que me invade o ser
Não me deixa focar a tua imagem 
No fundo da minha alma
Cada vez mais dilacerada
Pela tua ausência
 
Falta-me a ternura dos teus gestos
A doçura dos beijos
A franqueza das tuas palavras
A paixão do teu amor
Que te fez meu amor
E que me faz por ti sonhar
Gritar
       Chorar
             Berrar
                   Cantar
Amar louca e apaixonadamente
Toda serenidade que tu és
Todo o teu ser que me falta aqui
 
 
Gilberto Pereira
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Como eu te quero

Não sei como te dizer
quero-te ter,
quero sentir 
o calor dos teus abraços,
a paixão dos teus beijos,
a emoção no teu olhar...
quero ser aquele 
que chamas,
para os teus desejos
apaziguar...

Quero-te pedir
que me deixes amar-te,
que me deixes sonhar-te,
elevar-te nos braços
apertar-te contra o peito,
deitar-te sobre o meu leito,
possuir-te sem preconceito...
Quero que me deixes
entrar na tua vida,
ser a tua alegria,
fazer-te companhia,
e amar-te, 
de noite e de dia...


Gil, 03.2000
Ouça este poema lido por João Moutinho
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DIA MUNDIAL DA CRIANÇA
 
  
Criança,
Hoje é o teu dia,
Hoje és o centro do mundo
E és a imagem de todo o futuro
Que temos pela frente.
 
Hoje não choras,
Tens pão sobre a mesa,
Tens um brinquedo novo na mão
E tens um sorriso nos lábios
Capaz de derreter qualquer coração.
 
Mas para ti, criança,
Só fizeram este dia,
Esqueceram que também és criança
Durante o resto do ano,
E amanhã já o brinquedo estará quebrado,
E o sorriso estará calado e só...
 
Mas tu podes chorar,
Não és como os adultos estúpidos
Que não vêm que ainda és criança,
Que não sabem que tu queres brincar,
Correr, jogar, saltar,
Ser livre,
Como qualquer criança deve ser...
 
Por isso grita criança, grita
Para que o mundo acorde e veja que existes,
Não só neste dia que é teu,
Mas todos os dias que mereces...
Tu és o futuro, criança, 
E mereces um futuro feliz.
 
 
Gilberto Pereira
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Eu sou...

Sim eu sou,
sou aquele
qu sofre em silencio,
aquele que tudo vê,
e tudo sente,
sou aquele
que se esconde na noite,
se deita com a solidão,
e acorda 
com o rosto salgado,
das lágrimas dos sonhos...

Sou aquele que ama,
em segredo 
e com paixão,
aquele que 
ao vento se entrega
para cair nos teus braços
e descansar no teu regaço...

Sim, tens razão,
eu sou aquele que te ama,
sou aquele que te quer
sempre
e que sofre,
mas nunca  
por não te ter,
mas por sentir
não te merecer....


Gil, 3-04-2000
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Na escuridão

Na escuridão,
o medo,
e em ti
o segredo,
que não quis revelar...
na escuridão,
o terror,
o silêncio
e a indiferença,
daquele que te quis amar...

Na escuridão
a indiferença,
o vazio de existência,
o silêncio 
que povoa a alma,
a paz, 
que o medo acalma...

Na escuridão,
as lágrimas,
escondidas de ti,
esquecidas por ti,
provocadas
pela tua ausência,
e o desabafo intenso,
de um longo suspiro,
liberta,
na escuridão,
o desejo mais forte,
do descanso 
que não chega,
eu eu tento 
dormir outra vez...


Gil, 31.03.2000
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Não vás

A palidez da lua
acaricia-me a face
esta noite,
a solidão da terra,
apazigua-me o coração,
não sou o único
a estar sozinho,
paixão.

Sim, amor,
estou sozinho, 
agora,
com a solidão 
em que me deixas,
sempre que te vais embora,
e eu não quero
que vás,
não vás....

eu sei que vais voltar
mas não quero
que voltes,
quero que fiques
para que nunca precises
de voltar...
quero-te amar,
quero sonhar,
quero sentir 
o calor dos teus lábios
e adormecer nos teus braços,
quero esquecer 
o cansaço
de mais uma noite de amor....
não vás,
por favor...

quero acordar
com teus beijos,
quero satisfazer
os teus desejos,
fazer-te voar,
fazer-te sonhar,
quero ter-te comigo,
por isso fica,
não vás...

fica sempre,
aqui comigo,
com a palidez da lua
sobre nós,
com a paixão
que é tua,
e que me dás,
com a solidão da terra,
que seria minha
se aqui não estivesses,
e com o meu amor
que será sempre teu.
por isso, 
meu amor,
fica comigo aqui,
por favor,
não vás...


Gil, 03-2000
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O QUE EU TENHO
 
Tenho a mim apontadas as baterias do tempo
A mim atiram as granadas
Contra a memória e a favor do esquecimento
 
Tenho contra mim o passado
O presente e o futuro também
Tenho comigo uma alma que é minha e de mais ninguém
 
Tenho comigo uma mão cheia de nada
E outra cheia de coisa nenhuma
Tenho uma dúvida que não me larga
Porque é que o mar tem tanta espuma?
 
Tenho no bolso duas caixinhas
Uma com água e outra com sal
Para fabricar as lágrimas que nunca chegam
O que é que eu estou a fazer mal?
 
Gilberto Pereira
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Obrigado

Obrigado,
pelas palavras
de amizade.
Obrigado,
pelo amor
dos teus gestos,
pelo calor 
do teu olhar,
pelo sentir 
do teu amar....

Obrigado,
pelo silencio
quando me ouvias,
pelo sorriso
quando me lias
pela paixão 
quando me beijavas.

Obrigado,
pela solidão
em que me deixavas,
pois foi com ela,
que aprendi a amar
e foi com ela que comecei
a sonhar...


Gil,2000 
E o sono tomou-me a alma...
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QUERIA DIZER-TE
 
Queria dizer-te que a noite está molhada
Que gastei o sal das lágrimas pelas ruas
E que as palavras que te disse
Não eram verdades que surgiam no meu coração
 
Queria dizer-te que as horas pesam
Que os passos que me afastam ferem
Que a tristeza que me toma dói
E a solidão em que me deixas mata
 
Queria que soubesses que ainda te amo
Não importa o que passou
É só o teu nome que ecoa dentro de mim
 
Queria dizer-te pelo menos um adeus sentido
Sem esta chuva de sal que me escorre na face
Queria que a enxugasses com os teus lábios nos meus 
 
 
Gilberto Pereira
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Saudade

Saudade...
é o que sinto
quando olho a moldura,
aquela moldura sobre a lareira,
onde está o retrato nosso,
de um dia sem fim....

Lembras-te?
fui-te buscar,
fomos passear,
estacionamos
perto do mar,
como estava lindo 
aquele mar....
o sol brilhava,
transformava
o Atlantico em prata,
as gaivotas voavam felizes...

foi tão lindo 
aquele dia,
sabes? 
aquele à beira-mar...
aquele que te fez sonhar,
que me fez amar-te
tanto...(!)

Rimos tanto,
eu e tu,
amamos tanto 
naquela tarde de verão.
Depois chateamos 
toda a gente,
por causa do raio da fotografia....

Sabes qual é?
aquela,
que está na moldura,
sobre a lareira,
e que me lembra sempre
de ti....
é saudade....


Gil2000
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VIDA
 
Os olhos já beberam a salgada água 
Das ondas que cobriam a face,
As mãos, essas, deixaram-se cair
Lentamente sobre a areia
Cavando pequenas sepulturas
Que irrompiam sobre a espuma,
Como navios sob uma tempestade...
 
O mar engole lentamente
O corpo estendido na praia,
Junto às rochas,
Onde mais uma vez o consolo chegou,
E a loucura, cada vez mais frequente,
Repousou finalmente no caos 
Das ondas fustigantes sobre as rochas.
 
O sal chegou à boca,
Cada vez mais familiar
Deixou a recordação de ser,
Confundiu as lágrimas 
Que sempre correram na face,
E as águas do mar pareciam
O acumular de todas as noites
Em que uma pequena gota de água escorria,
Lentamente, pela face macia, 
E descansava na almofada...
 
Noites em que a alma se vestia de luto,
Se destronava do ser,
E vagueava sem esperanças,
Sem prazer, sem saudade,
Sem crenças de uma existência,
Só e infeliz,
Que perdurava indefinidamente e
Fazia o desejo, da escuridão infinita,
Crescer sempre.
 
Os olhos engoliram as lágrimas de sal dos oceanos,
Preguiçosamente, o sol esconde-se na prata do horizonte,
As gaivotas voam livremente
E uma onda leva a seringa abandonada 
Ao longo do corpo,
Onde a vida escorre lentamente,
Perdidamente, 
Pela agulha ensanguentada...
 
 
Gilberto Pereira
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Vinte e Um anos

Hoje, 
vinte e um anos passaram,
e com eles ficaram,
lembranças no coração...
foram vinte e um anos de dor,
de sonhos e medos,
de alegrias e tristezas,
vinte e um anos de segredos,
vinte e um anos de amor...

Foram vinte e um anos 
em que sofri,
vinte e um anos
em que tanto ri,
a tentar nunca chorar...
vinte e um anos a pensar,
se vinte e um anos mereci.

vinte e um anos
de amigos e amores,
vinte e um anos de flores,
que não soube colher...
vinte e um anos passaram
e eu, 
sem saber,
vinte e um anos 
deixei passar,
sem os saber viver...

Gil, 23-03-2000
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NESTE MOMENTO
NESTE MOMENTO EM QUE SOSSEGADAMENTE CREMOS EM NADA
 
neste momento em que 
sossegadamente cremos em nada
mais um soldado morre de cancro
pela ignorância de governos
pelo uso de plutónio empobrecido
ou assassinado por uma milíca qualquer
pela liberdade de um povo qualquer
 
neste momento em que
sossegadamente cremos em nada
e suspiramos por chegar ao fim 
mais um dia de trabalho
um pai dá um tiro na cabeça
no coração de uma cidade qualquer
por  não conseguir sustentar 
o filho a filha e a mulher
 
neste momento em que
sossegadamente cremos em nada
nada é precisamente aquilo
que alguém na sua pátria
tem para dar ao amigo
ou ao vizinho ou ao pedinte
para saciar a sua sede
a sua fome a sua amargura
 
neste momento em que 
sossegadamente cremos em nada
alguém morre alguém nasce
alguém chora alguém ri
mas ninguém trava as batalhas
pela liberdade e felicidade
que vem nos livros
aqueles livros que em criança li
 
neste momento em que
sossegadamente cremos em nada
tenho frente a mim o mar
e vejo a lua sobre ele brilhar
e seco as lágrimas por saber
que há pessoas assim a viver
 
 
Gilberto Pereira, 01.02.01
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MÃOS 
MÃOS 
 
estas mãos firmes
que suavemente navegam
a tua pele sobre o meu leito
que te fazem sorrir
que te fazem beijar
que se negam ao preconceito
e te fazem gemer docemente
ao meu ouvido
tremem de pavor 
ao sentir a tua ausência
esta noite entre os lençóis
tremem de tristeza
entre as lágrimas que secam
tremem de solidão por ver
que em ti hoje não navegam
 
estas mãos em pânico
anseiam pelo teu corpo
pelo enlace nos teus cabelos
pela suavidade da tua nuca
pela humidade dos teus lábios
anseiam pelo descanço 
no teu regaço
depois dos nossos corpos
se verem gastos pelo cansaço
 
estas mãos agora trémulas
dão por si sem nada
segurando o vazio 
que escorre por entre os dedos
sentindo o peso do tempo 
que lentamente traz
consigo a lembrança do teu corpo
e a doçura do seu abrigo
e a táctil tristeza 
de não te ter aqui
comigo
 
 
Gilberto Pereira
01.03.01
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DESABAFOS DE UMA INSÓNIA
DESABAFOS DE UMA INSÓNIA
(ou grito de raiva e de dor de uma juventude ameaçada)
 
Quero liberdade
seja lá o que isso for
quero sossego pra pensar
quero ser eu a decidir
quando é que tudo começa
e onde vai acabar
quero explodir em todo lado
quero acabar este sofrimento
abrir o peito dilacerado
quero sonhar à vontade
não quero ter medo
quero amar e ser amado
quero quebrar as grilhetas 
que me têm acorrentado
quero dar um salto no infinito
quero voar
quero gritar
      quero gritar
            quero gritar 
 
Quero acabar com esta dor
que toma conta da mim
quero ser eu a decidir o fim
desta juventude mal aproveitada
sempre a pensar no que virá
e no que fica sempre para trás
sempre com o inatingível como objectivo
sempre a ser pressionado
fustigado ameaçado
com o orgulho ferido
com o sentido perdido
sem rumo sem destino
torturado e esquecido
no fundo de uma gaveta
como uma semente estéril
que não chegou a germinar
 
Quero rasgar estas carnes que me prendem
quero dilacerar a face
quero incendiar a alma
arrancar os olhos
e dá-los aos corvos 
devoradores de segredos
quero inundar o coração
com a mais negra e pútrida maldição
quero acabar de vez com tudo e todos
quero parar para ser algo
ou parar de ser nada
quero ser
quero poder
quero gritar
            gritar
                  gritar
quero morrer(?)
 
 
Gilberto Pereira
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PARIS
PARIS
 
a maneira como te derramas sobre o Sena
é um poema que lembra os dias
que velozmente passam sobre ti
a pressa que atinge cada um
na tentativa de te descobrir
de expôr secretamente toda a tua nudez
no íntimo teatro de vaidades que povoa a mente
que preenche a timidez 
do desejo de te ter frente a frente
na realidade nua e crua 
da expectativa que cresce dentro de mim
como numa criança ao ver um brinquedo novo
assim que vislumbro no horizonte
a sombra majéstica do teu símbolo máximo
e traço os caminhos que em ti vou navegar
 
Gilberto Pereira, abr2001

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DESEJO
DESEJO
  
um braço no teu ombro
um beijo na face
no ouvido um segredo
e a cumplicidade dos olhos
que se encontram na penumbra da luz
enquanto as mãos descansam
sobre o teu regaço
 
é assim que te vejo
todas as noites em que sozinho
te sinto a meu lado
aquecendo-me com o teu corpo
 
a luz da lua na janela
revela a pureza do teu gesto
enquanto a tua mão navega o meu corpo
e descansa sobre os meus lábios
um beijo de cumplicidade
faz oscilar as sombras lançadas no escuro
pelo esmorecer das chamas
que iluminam o nosso amor
 
é assim que te vejo a meu lado
todas as noites em que sozinho
adormeço com a mão sobre a almofada
e me preparo para sonhar
 
 
Gilberto Pereira, abr2001

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INTROSPECÇÃO
INTROSPECÇÃO
 
nada existe que não cesse de existir
nada me ocupa a mente enquanto
descanso o sono dos justos
neste recôndido nicho de vida
a que chamo lar ou palácio
pequena porção de inferno 
na face deste azul universal
a que por ironia do destino
ou pela estupidez da criação
chamamos Terra
 
talvez a futilidade destas palavras
me leve a posteriormente
emparedalas em chamas
e seguindo o hiptnótico 
bailado das labaredas
emparedar-me também
mas em paredes de água viva
água pura de solidão e tristeza
onde de facto me possa sentir eu
e deixar em paz a ignorância que me rodeia
 
temo ser mal compreendido
afinal chamar ignorante a uma humanidade
não é algo de que se possa orgulhar
mas apesar do sentido incriminatório do pensamento
(e não serei eu essa humanidade "ergo" ignorante?)
continuo a lançar estas palavras ao vento
para ver se alguém se dói realmente
de levar com elas em cheio na cara
e de repente acordar 
e tentar remediar alguma coisa
 
 
Gilberto Pereira 2001mar

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   A LÍNGUA QUE EU ESCREVO   
  A LÍNGUA QUE EU ESCREVO
   
   
   eu escrevo numa língua indescritível
   escrevo na língua dos poetas
   na língua das aves e dos insectos
   na língua da terra e dos céus
   escrevo na língua da dor
   da tristeza e do sofrimento
   da paz e da paixão
   na língua do amor
   na língua dos amantes
   na língua do coração
   
   escrevo na língua dos sonhos
   que fazem a vida crescer
   que fazem o tempo sorrir
   que adoçam o caos e a solidão
   sempre que tento dormir
    
   escrevo numa língua que é de ninguém
   e que a todos pertence
   numa língua incompreensível
   e que a todos chega e enternece
   eu escrevo numa língua universal
   escrevo na língua do Camões
   escrevo na língua do fado
   na língua dos que conquistaram o mar salgado
   na língua dos heróis
   dos amados e mal-amados
   na língua dos reis e do seu povo
   na língua daqueles que deram a volta ao globo
   
   eu escrevo na língua do orgulho
   de todo aquele que de copo na mão
   em qualquer lado grita 
   e todo o mundo agita 
   enchendo o peito e dizendo
   a quem quer e não quer saber
   - "SOU PORTUGUÊS"
   
   
   Gilberto Pereira, mar2001

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  UM ÚLTIMO ADEUS
  UM ÚLTIMO ADEUS
  
   a noite envolve-me lentamente
   neste momento em que abro a janela
   subo para o telhado 
   e vejo a lua brincar às escondidas
   por entre as nuvens que lançam sombras
   e lágrimas sobre a minha face
    
   a chuva cai lentamente 
   ensopando-me os cabelos
   ajeito o colarinho da camisa
   para que o vento não me corte a garganta
   no momento em que encher os pulmões
   e grite no infinito da noite
   todo o meu amor por ti
 
   agora o silêncio não mata
   agora a chuva não molha
   mas a luz dói
   ofusca o pensamento e
   penetra-me os olhos ferindo-os
   fechando-os
   levando-me as mãos à face
   para as encharcar com a chuva e as lágrimas
   que por ela escorrem suavemente
    
   ergo-me lentamente sob o olhar atento da lua
   abro bem os braços tentando alcançar a chuva
   grito em pleno o teu nome e mergulho
   na escuridão profunda que tenho na minha frente
   no vazio preenchido pelas sombras 
   num último suspiro apaziguador
   num último adeus que nunca te chegará
   mas que sentirás sempre
   ao pronunciares o meu nome
   no mais fundo do teu coração
    
   Adeus
    
    
   Gilberto Pereira (Mar2001)
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SONHO
SONHO
 
percorro todos os poros do meu corpo
enquanto o pensamento se entretém sobre ti
ainda sinto os arrepios salpicados de saliva da tua boca
o aroma perfumado da tua pele na minha
procuro novamente a ternura dos teus dedos
frescura no olhar
o olhar cerrado intenso
projecções de éden-arco-íris-paixão
cada polegada que percorro imita tuas mãos
teus dedos teus lábios
moldo o ar com tuas curvas suaves
cobertas de penugem macia e perfumada
por cada polegada: amor
e no fim os teus lábios nos meus
o suspiro profundo da consumação dos corpos
o abandono nos braços um do outro
o prazer de te ter
tão perto
tão certo
que de repente voltamos a sonhar...
 
 
Gilberto Pereira, jul2000
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EXULTAÇÃO AO AMOR
EXULTAÇÃO AO AMOR
 
da última vez que tentei escrever algo para os teus olhos
sairam-me lágrimas da face
não soube ver que nada existe que te falte dizer
nada mais sinto que tu não saibas 
e a solidão deixou de existir
preenches todos os espaços do meu corpo 
com o teu soriso
percorres toda a minha pele 
num arrepio suave
cada vez que me lanças esses belos olhos 
e apunhalas a minha alma com todo o teu amor
 
será que te dás conta que sou teu escravo?
que és o meu pão e a minha água?
será que cada vez que te sussuro que te amo
sentes o meu corpo estremecer sobre os teus lábios?
 
será que é em vão que me lanço nos teus braços
e te deixo fazer de mim o que queres
e te amo e te quero
e sem ti desespero
e contigo sinto o nirvana da minha alma
e preencho toda a infelicidade que vejo e sinto
com o teu sorriso com os teus beijos
e mergulho no fogo do teu corpo 
e sacio a tua sede com meus lábios
e descanso contigo nos braços 
amando-te sempre
como se sempre fosse a primeira vez
 
 
Gilberto Pereira, mai2001
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