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Chankecham

Poesia Galaico Portuguesa para o Terceiro Milénio

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10 Poemas editados

- II

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Catedral de Santiago

Foto: Maria Rennée

 

 

 

II
II

E desde que
uso de razâo tenho
e desde que tantas maravilhas vi
sempre a mim-Oh Deus-fizeste bem
e sempre vos eu moito amei
mas hoje jà dizer nâo posso
que a mim tedes por amigo
pois vejo que amor de mim fugiu
e paz de espìritu jamais atopo
e fraco me acho e devil estou
e como farrapo velho me sinto
ou trasto inutil que para nada serve
por isso-Oh Deus-do amor sem fim
dade-me a morte!
dade-me a morte!

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VII
VII

Quando ardorosa repousas
nos meus braços e passo a mâo
trèmula por as tuas ardentes coxas,
sinto dentro do meu peito o trepidar
do teu coraçâo amoroso.
Um suor frio apodera-se de mim
e tremo e làio-me e ti meu bem,
olhas-me risonha, como se fosses
a sùmula de todas as dozuras da vida.
Depois,quando jà se calmam
as ànsias e o teu amor se funde com
o meu ardor,penso que todas as
tristezas da vida e que todas as
misèrias do mundo jà nâo 
existem mais.
E isso porque ti eres,amada minha!
neste mundo de podridâo a ùnica
e verdadeira esperanza
de redençâo.

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IX
IX

Se nâo somos felices no tempo presente
jamais o seremos ao longo dos anos,
pois de outros governos è tâo diferente
o que temos,que dizem ser de enanos,
mas o que è a paga que è o importante,
falam as mâs linguas que è de gigante.
E digo eu:-Se querem crescer,
an-no mester,an-no mester!
 
Dizer que è de enanos nâo è felonia,
e sô indicar a constante no governar,
jà que todos parece que tenhem mania
de mal fazer,bem comer e moito roubar,
eisso porquè,o de enanos como dizem,
nâo è impedimento para que se cotizem.
E digo eu:- Se querem crescer,
an-no mester,an-no mester!
 
Tamèm falam as linguas viperinas,
que nâo sâo enanos,que sâo pigmeos,
pois ten-se visto cousas tâo peregrinas
como o de medrar colgando-se dos cabelos,
e seria de bom proveito que assim fora,
mas nunca tal se viu nem se verà agora.
E digo eu:-Sequerem crescer,
an-no mester,an-no mester!

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X
X

Jamais esquecerei aquela tarde
a veira do rio,entre pàmpanos e flores.
Cantavam os passarinhos no alto dos 
salgueiros e umha que outra andurinha
bicava a flor das àguas que mansas
fugiam aos nossos pès.
Luzia um cèo azul e transparente
como a doçura dos teus olhos.
Ao longe,um alalà perdido,
suspirava entre chousas e pinheiros.
Doce paz que à aldea envolve e
alma alimenta com o seu sossego.
Nos meus braços ti,
amor dos meus amores,
arrulando-me com teus beijos
como se jà fosse aquel cantinho,
o paraiso com que estou sempre
a sonhar.

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XI
XI

Um homem dos de moita valia
aos velhinhos falou com galhardia:
Dom Felôm,a quem a glòria desejamos,
esse que todos nôs a coro choramos,
era tâo bom,que marcou finando,
o caminho que hà que ir andando.
E venho-vos eu a sugerir,
que esse è o caminho a seguir!
 
Falava moito bem e claro o orador,
e dizia assim com patètico ardor:
Era o melhor home que na terra habia,
a todos ajudava e atodos bem queria,
a prova disto està em que expirando
o caminho a todos nos foi indicando.
E eu volto a vos sugerir,
que esse è o caminho a seguir!
 
Foi deste sèculo o maior portento,
assim o atesta a sua obra e o seu talento,
nâo fosse assim,como teria eu a bontade
de falar a gente de tâo longa idade,
de tal homem e do seu fatal passamento,
mesmo aqui,ante tantos,neste momento?
Se o fago è para vos sugerir,
que esse è o caminho a seguir!

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XIII
XIII

Por liberar-me de certos males,
fui petar ao paço dos tribunales.
Logo saiu à porta um empregado,
que amavel preguntou desta guisa:
-O que deseja home tâo preocupado?
-Aqui venho a procura de justiça!
Ouvido esto,rompeu a rir o assalariado,
e nâo parou atè morrer de risa!
 
Fui entâo detido e a prisâo levado,
como um vil e nojento condenado,
mas achando-me mal no estabulàrio,
fui ao alcaide,quem com voz submissa,
disse:-Que deseja deste seu criado?
-Sô venho a procura de justiça!
Tal ouviu,escachou a rir o funcionàrio
e nâo parou atè morrer de risa!
 
Achando-me em posse de tal poder,
dei por fazer o que bem entender,
obrando como à real gana lhe petava,
e a quem de mo privar tinha cobiça
bastava que,como aos outros lhe citara
a frase de:-O que procuro è justiça!
Para que a rir de sùpeto escachara
nâo parando atê morrer de risa!

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XV
XV

Umha cousa quero eu contar:
Ou vi dizer que umha tal M.da Tralha
anda hà tempo moito assanhada,
porque,se por sua fachada,
encontrou homem de bom paladar,
acha-se como se fora enganada,
pois ,o que mercou de bom grado
          està de tudo escaralhado!
 
Agora dizem que se lamenta
e que fala para quem quer ouvir,
que assim nâo pode mais seguir,
pois mulher fogosa tem que possuir,
para viver feliz e contenta,
mango duro ao que se assir,
mas,o seu desejo foi truncado
           ao mercar homem escaralhado!
 
Nâo è surpresa o sucedido,
a esta famosa,Eme da Tralha,
pois,sempre mal se amanha
quem buscando home dinheiro apanha
e se còmoda vida tem conseguido,
ao seu ardente corpo nâo agrada
e isso porquè,o que tem bem mercado,
          està por velho escaralhado!!

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XVI
XVI

Ouvir amigos o pasmado que estou:
Escutei o outro dia pela televisâo,
a um homem fogoso como tourâo,
que pesse a ter de tudo se lamentava,
de nâo ter para seu solaz umha cabra.
Ora digo eu:-Quem faz tal pregâo
por força tem que ser cabrâo!
 
Nâo hâ dùvida que o tal sujeito,
tem gosto apurado e fino paladar,
dizem ser de boa mesa e melhor jantar,
tamèm que habilidoso sovador ele è,
de tetas e coxas,sentado ou de pê
Mas penso eu hoje como entâo,
que quem gosta de cabra è cabrâo!
 
Dizem os mais que fala moito bem,
pois com dineiro umha moça engaiolou,
tâo jovem que em anos hà tempos dobrou
e por se for pouco, tem sona e fama,
de trabalhar moito e bem na cama.
mas dizem os que bem nados sâo,
que quem gosta de cabra è cabrâo!!

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XVII
XVII

Fui um dia ao cemitèrio da Adina
e na entrada um cabeçâo achei.
Que susto de atopar tal coisa levei!
Que nojo de olhar cara tâo mesquinha!
Pasmade-vos:Era como umha petaca,
            cheia de lixo e caca.
 
Nâo se estranhe ninguem do susto,
pois,neste pais de meigas e trasnos,
qualquer que tenha alguns anos
sabe que atè ao Demo se erige um busto,
com tal que o que prevenha disso
            nâo seja caca nem lixo.
 
Assim que o cràneo que alì vejo
nâo repugna e ainda parece agradar
aos que tenhem sujeira que atirar,
pois è sô chegar a caveira sem pelejo,
que alì se ergue ajeito de cloaca,
             e pousar o lixo ou a caca!
De o livro -
Cantigas de escarnho e madizer de chankecham

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XXI
XXI

Assim como 
o drogadinho acha
na droga que o destroe
a evasâo dum mundo que
nâo alcança a comprender,
assim eu,na tua beleza,
amada minha,
encontro a força que me anima
e o alimento que me sostem.
Em cada hora que passo olhando
o teu rosto angelical,deixa
o mundo de existir para mim.
Um paraiso de sonhos e ilusâos
governa inteiro o meu sentir.
E tudo è belo e ditoso e como
num èxtase de prazer e de gozo
navego mole,mui mole,
alem do cêo azul...

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