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Welington Almeida Pinto

Página inaugurada em 31/07/2005

Ultima actualização 23/06/2006

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4 Contos Editados

- Nota biográfica

- A muralha de flores

- Albert em Bruxelas

- Aconteceu naquele baile

- Chuva!... Graças a Deus

5 poemas editados

- Anjo

- Busca

- O mundo

- O Sol

- Pássaro azul

2 Crónicas editadas

- A vida em bronze

- Quinze de Março

Veja a Pintura do Autor neste site

Palavra por palavras

Quadro de Lucy Berenguer

 

     

 

 

 

Pequena Nota Biográfica

PEQUENA NOTA BIOGRÁFICA

Welington Almeida Pinto é escritor. Autor, entre outros livros, de Santos-Dumont, No Coração da Humanidade e A Saga do Pau-Brasil. Site: www.welingtonpinto.blogspot.com - e-mail: welingtonpinto@yahoo.com.br

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ALBERT EM BRUXELAS
 

- Chegamos, senhor. Esse é o hotel mais próximo da igreja Notre-Dame-de-la-Chapelle.
- Ah, sim. Obrigado. Esta nota paga a corrida?
- Dez Francos!... Ainda tem troco.
- Não precisa. Guarde o dinheiro.
- É mais do que o preço marcado pelo taxímetro, senhor.
- Não se preocupe. Resta-me outra, o bastante para pagar a pensão por esta noite – garante o passageiro.
- Agradecido, senhor. Bom descanso.
- Bom trabalho, camarada. Tiau.
Albert desce do táxi e entra no Hotel. Pára diante do balcão de atendimento e toca a campainha para chamar a atenção do recepcionista que lia o jornal, mergulhado numa poltrona.
- Boa noite.
O moço ergue os olhos:
- Sim, senhor.
- Meu nome é Albert, venho de Londres. Quero um quarto.
- Um quarto!?... admira o recepcionista, aborrecido com a interrupção da leitura por aquela estranha figura de pé na sua frente; um homem magro, a cabeleira branca, emaranhada, descendo pela nuca sobre um colarinho encardido.
- Sim. Um quarto, por favor – repete Albert, sorrindo.
- Muito bem, são doze francos. Pagos adiantados.
O homem põe a pasta de couro no chão, o capote sobre ela e busca nos bolsos do casaco o dinheiro. Acha apenas uma nota de dez francos e algumas moedas.
- É o que sobrou – mostra o dinheiro.
- Lamento, o senhor só tem dez francos e cinqüenta e quatro centavos. Não posso fazer nada.
- Mas...
- Não adianta insistir. Descendo a rua vai achar pensões mais baratas.
- Não, está tarde. Amanhã, pago o restante.
O hospedeiro cuspinha para o chão.
- Impossível.
- Calculei mal.
- Quanto pensa que tinha?
- Não sei o certo. Quando saí de Londres minha mulher me deu várias notas. Disse que era o bastante. Mas encontrei tantos pobres no navio, que me vi na obrigação de ajudar alguns.
- Pobres, é!... O que veio fazer em Bruxelas?
- Visitar amigos.

- Por que não fica com um deles?
- Sim, amanhã. Não quero importuná-los a esta hora da noite.
- São pouco mais de sete horas.
- É tarde. Acho que não devo.
- Importunar amigos, não pode. Me encher meu saco, pode. Vamos andando, cara. Descendo, você encontra hospedagem mais barata.
- Tudo bem. Mas, poderia me fazer um favor.
- Se prometer dar o fora.
- Sim. Antes, quero usar seu telefone.
- Combinado. Passe o número que eu disco.
- Só tenho o endereço.
- Tudo bem. Já estou com a lista telefônica na mão, desembucha.
- Castelo de Laken.
- Castelo de Laken!... Não. Não pode ser.
- Isso mesmo.
- É um trote, não é?
- Não, não é. Tenho uma grande amiga que mora lá.
- Lá é a residência real, cara.
O recepcionista torna a olhar Albert de cima a baixo. Depois de uma risadinha divertida, caçoa: - Suponho que toma chá com a rainha Astrid.
- Sim, às vezes. Ela é minha amiga.
- Fazendo hora com minha cara, não é?
- Não, não estou. Por favor, veja para mim o telefone do Castelo de Laken.
O moço pensa um pouco e relaxa. Desenha nos lábios um sorriso irônico e resolve divertir um pouco mais com o estrangeiro. Encontra na lista o telefone do Castelo, disca e passa o aparelho a Albert, dizendo:
- Fique aí batendo papo com a rainha que vou até a porta tomar um ar.
Enquanto Albert falava ao telefone, o hospedeiro sai e logo volta com um policial.
- Tudo bem, tudo resolvido – adianta Albert, ao avistá-lo novamente.
- Que foi que a rainha disse? – pergunta o hospedeiro, piscando para o guarda.
- Estava no banho. Deixei o recado com a Senhora Sudary, sua camareira. Passei o número do telefone do hotel. Fiz mal?
O moço da recepção balança a cabeça como quem diz que não adianta mesmo. O policial se aproxima de Albert, batendo uma das mãos nos seus ombros:
- Como se sente?
- Agora, melhor. E o senhor?
- Não se preocupe comigo. Vou providenciar uma ambulância para levá-lo ao Hospital.
- Para mim!?... Não estou doente.
- Sim, deve ser um surto passageiro – tenta explicar o agente.
- Acha que estou ficando tantã?
- Terá um bom tratamento em nosso Hospital.
- Pare com isso. A rainha vai me ligar daqui a pouco.
O policial ironiza, rindo:
- Ela telefona para o Hospital.
E dirigindo-se ao hospedeiro:
- Chame uma ambulância, por favor.
Albert perplexo:
- Seu guarda, não acha que está cometendo um grande erro?
- Por favor, controle-se.
Assustado e inquieto, Albert perde a paciência e ameaça deixar a recepção do Hotel, mesmo sentindo as pernas privadas de impulso. O policial dá um passo à frente, agarra com fúria o seu braço e sai empurrando o desconhecido para a calçada, onde acabava de estacionar a ambulância.
Albert consulta o relógio.
- Deus do céu!... E se a rainha me telefonar?
- Fique tranqüilo, senhor. Ela vai entender - caçoa o policial
- Moço, tenha juízo!... Assim o que é que a rainha vai dizer.
- Pois bem, agora podemos ir.
De súbito, a campainha do telefone toca dentro do hotel. O hospedeiro, que assistia tudo de pé junto à porta, corre e atende.
- Alô!... Sim, Majestade. Quem? Um momento, Majestade. Pode aguardar na linha, por favor.
O recepcionista imediatamente pousa o fone sobre a mesa, como se fosse uma jóia muito delicada. Em seguida, pula para a rua bradando:
- Esperem!... Esperem!... Há um engano.
O policial, que abria a porta da ambulância, sente o sangue abrasar-lhe o rosto:
- O que é agora?
Meio sem fôlego e com a fisionomia alterada, o hospedeiro fixa os olhos em Albert e pergunta:
- Por favor, seu nome completo?
- Albert Einstein.
- Então é o próprio!
O oficial interfere, nervoso:
- O que está acontecendo?
- Tem uma senhora no telefone querendo falar com você. Disse que é a rainha.
- Você também está ficando maluco, cara?
- Não, é verdade – insiste o hospedeiro. - Venha depressa.
Olham um para o outro, interrogando-se. O guarda corre ao telefone:
- Oficial Van Eck falando... Sim, Majestade... Certo, Majestade... Imediatamente, Majestade.
O policial larga o aparelho, ajeita no pescoço o nó da gravata e se dirige ao cientista.
- Doutor Albert, a rainha deseja falar com o senhor.
Os olhos do Cientista se iluminam de repente. Com o peito ofegante, caminha apressado para o hall do hotel e, depois de conversar com a rainha, volta para a calçada e encara o policial com um risinho crítico:
- Bem que tentei explicar. Pode dispensar a ambulância, a rainha mandou um carro me buscar.
- É claro, senhor.
O hospedeiro também se aproxima de Albert, recompondo-se:
- Perdoe-me, senhor.
- Bobagens! Tudo está bem quando termina bem – responde o Matemático.
E acrescenta:
- Eu e a rainha vamos tocar um dueto na noite do próximo sábado. Apareçam, serão meus convidados.

 

Welington Almeida Pinto

* Notas do autor. Albert Einstein, físico alemão, naturalizado norte-americano ( Ulm 1879 – Princeton 1955), além de ser um dos maiores cientistas de todos os tempos, foi um grande violinista. Recebeu o prêmio Nobel de Física, em 1921. Era um homem generoso, sempre ajudando os mais necessitados.

** Rainha Astrid, rainha dos belgas. Em 1926, aos 21 anos, casou-se com Leopoldo III.

*** Welington Almeida Pinto é escritor. Autor, entre outros livros, de Santos-Dumont, No Coração da Humanidade e A Saga do Pau-Brasil.

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ACONTECEU NAQUELE BAILE


SÓFOCLES larga o jornal e levanta os olhos para o relógio na parede, que marca nove horas da noite. Esfrega as mãos, ajeita o colarinho da camisa e se despede dos amigos da sala de leitura do Clube. Desce a escadaria até o hall de entrada do salão de festas e fica ali por um minuto, passeando o olhar pela fila de mesas; quase todas ocupadas. Escolhe uma entre as vazias e se acomoda apressadamente.
Na mesa de mogno escuro, decorada com um forro marron, um cardápio com capa de couro e o cinzeiro de metal vazio. Examina outra vez o salão, quase lotado, e estala os dedos para chamar a atenção dos garçons. Um deles chega:
- Boa noite, senhor.
- Oi. Uma cerveja, por favor.
- Brahma ou Boemia?
- Não tem outra?
- Não, senhor. Trabalhamos apenas com as duas marcas.
- Então, a mais gelada.
- Mais alguma coisa, senhor?
- Por agora, não.
- A comanda, por favor – pede o moço.
- Comanda!?....
- Não lhe deram uma folha na entrada?
- Não. Quer dizer, sim. Desculpe-me, está no bolso da jaqueta.
- Grato, senhor. Trago a bebida em um minuto.
- Bem gelada, por favor – reforça Sófocles.
O moço sai e volta logo com uma garrafa de cerveja e dois copos. Serve Sófocles, que continua entretido com o burburinho das pessoas saudando uma às outras, falando, rindo, espalhando cordialidade, sentadas ou circulando pelo recinto - um barulho tão ruidoso como o de um recreio de colégio.
Minutos depois as cortinas do palco se abrem e a orquestra começa a tocar. A iluminação clara e incandescente é trocada por uma mais fraca, que deixa o salão numa penumbra maliciosa, convidando os primeiros casais para a pista de dança. Em seguida, surgem outros e mais outros, girando sem parar em diversos graus de intimidade: uns acanhados, outros mais empolgados e os mais controlados, mostrando no rosto rugas características de quem muito se preocupa com dinheiro.
Mesmo encantado com a festa, Sófocles ainda continua oculto na penumbra da garrafa escura de uma cerveja, pensando que poderia convidar alguma moça para dançar. Do outro lado da pista, uma mulher com os cabelos cor de palha e ares de garota, sentada entre amigas, chama sua atenção. Trocam olhares. Estimulado pelo flerte, fez-lhe um sinal de mão convidando-a para sua mesa. Ela balança a cabeça, concordando. E logo se aproxima:
- Ei!
- Olá – responde Sófocles abrindo mais ainda o sorriso
- É mesmo uma linda mulher!
- Oh!... Que recepção! Assim me encabula.
- Nem pense. Sente-se, por favor.
- Obrigada. É novo por aqui?
- Sim. A primeira vez.
Ela ri com ar de surpresa.
- Que bom!
- Me sinto um debutante! – brinca Sófocles.
- Seja bem-vindo.
- Penhoradamente agradeço. O salão é muito bonito, imponente.
- Meio no estilo art nouveau. É antigo, mas é bem conservado.
- Isso é bom.
- Também acho. E você, dança?
- Danço mal.
- Não tem importância, aqui ninguém liga – garante a moça.
- Melhor assim. E você, o que deseja beber?
- Acompanho o cavalheiro na cerveja.
Sófocles enche o outro copo, convidando:
- Um brinde aos seus belos olhos.
- Tintim.
- Um brinde à nossa saúde.
- Tintim – repete Sófocles tlintlincando os copos.
- O clube promove bailes todos os meses.
- Ah, é!... Serei um freqüentador assíduo.
- Espero.
- Qual o seu nome?
- Luciana. E o seu?
- Sófocles.
- Sófocles!... o mesmo do dramaturgo grego?
- Sim. Meu pai foi um grande admirador da cultura grega. Mas não sou nada trágico.
- Nos tempos de faculdade li Édipo Rei. Adorei – revela Luciana.
- Segundo Freud, representa o drama de todos nós. E você, escreve?
- Não. Esse é um dom de poucos, mas sou uma leitora compulsiva. Fiz letras e leciono literatura.
- Deve ser uma boa professora.
- Me esforço.
- Sabe de uma coisa, acho afrodisíaca a inteligência feminina.
- Afrodisíaca!... Me parece um tanto cômico.
- Não. É verdade.
- Está brincando! Quer dizer que excita seus apetites sexuais?
- Excita.
- Ahhhhhhhh!... E você, escreve?
- Sim. Ganho a vida produzindo textos.
- Jornalista?
- Publicitário. Quando a inspiração bate faço literatura.
- Pelo jeito, deve bater sempre.
Depois de algum tempo trocando risos e palavras, Sófocles põe uma das mãos no joelho da mulher e fica um momento admirando seus lábios, cobertos de vermelho. E elogia:
- Você tem uma boca bonita.
Antes que ela dissesse qualquer coisa:
- E os olhos também. Azuis como o céu de Paris.
- Obrigada. Você é um observador perspicaz.
- O belo me atrai, sempre.
A mulher ri, satisfeita. Do longo vestido de organdi azul em que moldava o corpo sarado, surgiam dois braços arredondados e claros, nus até aos ombros, onde o homem, de leve, vez ou outra, depositava um beijo, elogiando:
- Tem a pele tenra como veludo.
- Meu Deus!...
- Seu perfume também me seduz.
- Magriffe. Gosta mesmo?
- Huummm!... deliciosamente delicioso!
Luciana, sorrindo, tira a mão dele de cima de suas coxas.
- Apressadinho!
- Eu?
- Posso revelar um segredo?
- Claro.
- Tenho medo de homem com mais de trinta anos.
- Então, estou fora. Pelo menos, por enquanto, não represento perigo. Fiz 30 este ano.
- Mas, tem talento de sobra na arte da conquista.
- Obrigado.
- Muito perigoso para uma mulher sozinha. Há qualquer coisa em você que acalma e seduz ao mesmo tempo. E por cima, é muito charmoso.
- Também não precisa exagerar.
Risos. Grandes focos de luz, rápidos e azulados, a todo minuto riscavam as paredes e o teto do salão, colorindo o ambiente. Novamente Sófocles estala os dedos para o Garçom e pede outra cerveja.
Luciana:
- Tive uma idéia. Que tal dançarmos?
- Desculpe, querida. Enferrujado com estou, sinto que preciso beber mais um pouquinho. O álcool lubrifica as juntas de minhas pernas, além de me ajudar a descontrair.
- Que pena, mocinho.
- Perdão, só mais um tempinho.
- Ok. Então vou para a mesa de minhas colegas conversar um pouco mais.
- Já?
- Já.
- Não que eu seja saudosista, mas assim que tocar um bolero, tiro você para dançar. Posso?
- Você tem bom gosto.
- Não é só isso: dois passos para lá, dois para cá... é mais fácil de controlar.
- Espertinho!
- Não some. Meu coração deseja vê-la novamente.
- Claro.
E com a mesma expressão afetuosa e divertida, Luciana se levanta, despedindo:
- Até mais. Tiauzinho.
- Espere.
- O que foi?
Sófocles toma um gole de cerveja e, num beijo furtivo, passa o líquido para a boca da mulher, que deixa a mesa rindo do gesto audacioso do rapaz, remexendo os quadris sensualmente arredondados.
A festa continua animada. Sófocles estende o olhar para os lados como se quisesse aparecer para as outras mulheres, que se misturavam no vai-e-vem da dança. Mas, antes do baile terminar, ele decide ir embora. Deixa morrer sob os dedos a melodia que devolvia lembranças ligadas à sua mocidade, chama o Garçom e paga a conta. Atravessa a porta principal do salão de festas do Minas e toma o elevador, deixando atrás de si a felicidade resgatada pela música dos anos sessenta que ainda tocava: ... Óóóóhhh... Óóóhhh Diana, por favor...
- Valeu!... - suspira, enquanto pegava no bolso das calças a chave do carro.
 

Welington Almeida Pinto

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A MURALHA DE FLORES
 

Welington Almeida Pinto

* Há muito tempo, um poderoso rei na região da Galiza resolveu construir um muro alto em torno de sua cidade para dar mais proteção aos seus vassalos. A notícia correu o mundo de boca em boca. Arquitetos de vários lugares do velho continente europeu apresentaram projetos para realizar a obra. De todos, apenas dois foram selecionados. E seus autores convocados para entrevista na corte.
No dia da audiência real, o primeiro a entrar na sala do trono foi Pedro Pedreira. Repleto de promessas, ele apresenta seu projeto:
- Majestade, trago a melhor idéia para a construção do grande muro. Farei tudo com pedras brancas, roliças de igual tamanho, assentadas em argamassa com óleo de baleia, escamas de peixe, cal de ostra e terra também branca.
- Escamas de peixe!... – estranha o rei.
- Sim, Majestade! Escamas de peixe para que o muro faísque ao toque dos raios solares.
- Huuummmmm!... Seu projeto me parece bom. Além de bonito e reluzente, deve ser bastante seguro, não é?
- Muito seguro, Majestade. Por fora, a beleza e a miragem da suavidade de uma extensa nuvem de algodão. Por dentro, uma fortaleza indestrutível. Despertará inveja até nos chineses - afirma o arquiteto muito cheio de si.
- Muito bem, cavalheiro. Agora, Depois de ouvir o outro candidato farei a opção que achar a melhor.
- Majestade, se optar por mim terá o condado mais admirado e protegido da Galiza - garante Pedro, já inclinando o busto para frente numa mesura ao rei.
Pedro Pedreira deixa a sala do trono e entra Monjardim para mostrar seus planos ao rei. Depois de uma respeitosa reverência, fala:
- Senhor da Galiza, trago a Vossa Excelência um projeto para proteger suas terras dos invasores que nada retira dos mares nem das montanhas, além de encher de beleza e perfume os ares de seu reino.
- Meu Deus, verdade? - espanta o monarca.
- Farei uma cerca viva com milhões de pés-de-rosa enfileirados e enlaçados um no outro.
- Rosas!... Que proteção um muro desse pode dar ao meu império?
- Total, Majestade! A roseira é um vegetal lenhoso cuja haste é ramificada desde a base até dois metros de altura. Os ramos se entrelaçarão tão habilmente que nem mesmo um pequeno roedor terá como passar pelos seus espinhos, afiados como a ponta de uma espada!
- Interessante!...
- Bastante seguro também. E ecologicamente correto.
- Santo Deus! Reconheço que tenho diante de mim dois projetos audaciosos.
E depois de pensar mais um pouco:
- Ah!... Tenho uma idéia.
- Sim, Majestade.
- Você fará uma metade da obra e Pedro Pedreiras fará a outra.
- Mas...
- Concluídas as partes, peço ao mágico Pé-de-Vento para fazer o teste de resistência com seus tufões. O construtor da parte que não ceder ao poder do vento será consagrado vitorioso. Ganhará um prêmio de cem mil moedas de ouro e a tarefa de finalizar a muralha em torno de meu reino. Certo?
- Bravo, excelência!... É um rei sábio e generoso - aplaude Monjardim.
Pedro Pedreira igualmente aceita o desafio. Meses mais tarde, o grande muro fica pronto: metade de vegetal metade de pedras. A parte de Pedro Pedreira, mais parecia uma comprida nuvem celeste, de tão alva, lambendo o solo. A de Monjardim, se estendia pelos campos como um extenso paredão colorido, embalsamando o ar com o aroma agradável e o encanto das flores.
No dia do julgamento, o velho prestímano Pé-de-Vento chega bem cedinho ao local da prova e passa um bom tempo examinando o céu. Depois, satisfeito com a inspeção, procura o rei e comunica:
- Majestade, farei soprar um vento tão forte que a construção mais frágil cairá por terra tão rápida como uma estrela cadente.
O rei:
- Então, vamos pôr tudo à prova.
A um sinal do soberano, o ilusionista começa a dizer frases num dialeto diferente, abre os braços e risca o ar várias vezes com o cajado até surgir no azul do céu um bloco de nuvens escuras, escondendo o sol. E grita:
- Afastem-se todos do grande muro.
E com mais fôlego:
- Foooogoooo!...
Foi o bastante para o vento cumprir a ordem. E, solto de tudo, começa a galopar em direção à muralha, tão forte e veloz que a parte feita de pedras desmorona na mesma hora, mas a cerca viva resiste, sem se desgrudar do chão.
Passado o turbilhão, ao ver o céu clarear e sol voltando a brilhar, o povo retoma no rosto o sorriso. E, numa demorada ovação, saúda o rei:
- Deus salve o rei da Galiza!...
Passarinhos de várias as cores e tipos voltam a cruzar o espaço e a pousar alegremente nas roseiras. Monjardim, muito alegre, justifica:
- Meu bom rei, árvore plantada com amor nem o vento derruba.
O rei, satisfeito com o resultado, acolhe o arquiteto num abraço vitorioso.
- Ufa!... Pensei que o vendaval ia levar tudo. Confesso que, em toda minha vida, jamais encontrei um ser de mão tão boa para plantar rosas.
- Obrigado, Majestade.
O rei da Galiza, com outro gesto fraterno, passa o braço em volta dos ombros do Monjardim, convidando:
- Bravo!... Bravo!... Vamos comemorar a vitória nos salões de gala da corte.
O engenheiro concorda. Despedindo do povo, os dois entram na carruagem imperial e partem em direção ao Palácio. Lá, houve muitas festas e júbilo geral. Como o rapaz apaixona-se pela jovem Izabela, uma das filhas do rei, a sua vida, dali em diante, foi muito mais feliz ao lado da bela princesa de faces rosadas. Nomeado pela corte a um cargo importante no governo, foi o primeiro Ministro da Ecologia que se tem notícia na história das civilizações.
Tempos depois a outra parte da muralha foi concluída com milhares de roseiras e a Galiza nunca mais foi invadida. Pelo menos, por saqueadores.


* Nota do Autor: releitura de histórias populares do folclore europeu reverberando que a mesma inteligência que destrói a Natureza pode reconstruí-la.

** FBN© 2004 * A MURALHA DE FLORES - CATEGORIA: CONTO

Welington Almeida Pinto

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PÁSSARO AZUL

Seria tão bom possuir
um pássaro que fosse
o pássaro para sair de
meus versos e
dizer ao pé de seus olhos
a canção verde
que brota em cada rima
de minha saudade.

Seria melhor ainda se o pássaro
fosse azul. Assim poderia mostrar que
ando bem próximo de ser
feliz.
 

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BUSCA
 

Entre uma coisa e ela
Mesma, há um espaço lírico, uma
Inexplicável sensação que domina
O universo de meus
Sonhos interiores.

Existe qualquer coisa
Que me ignora e eu
A ignoro também.

É como se da palavra
Ao pensamento existisse
Uma estrada onde nem sempre
Transporto o que sinto
Ou penso.

Assim escrevo
Porque escrevo, como pássaro
Que canta
Porque canta.

Welington Almeida Pinto

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O MUNDO

Da minha casa
eu vejo o mundo, imenso e grande,
maior do que tudo que vejo no
espaço.

Na minha casa
existe um outro universo, onde nada é pequeno,
tudo verdade
entre a fantasia e o sentimento.

Lá canta um pássaro de canto sensível,
dolorido e doce,
Azul.

Lá estou a ser eu,
na dimensão de cada verso,
em cada vida de meu
coração,
do tamanho de cada instante
e não do tamanho do meu
corpo.

Welington Almeida Pinto

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O SOL
  
Quando o sol
bate na minha janela eu
sinto que só o sol bate na minha janela.
O sol é uma realidade espontânea
que me atrai e me compreende
da cabeça aos pés.
E não
há nada mais simples.
Eu curto o sol
e que me importa a distância
entre mim e ele,
eu estou do lado de cá
e do lado de lá
não há nada que me interesse.
O sol em minha janela
me faz mais humano,
por dentro e por fora. É o imediato instante
em que ele é
e eu sou.

Welington Almeida Pinto

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CHUVA!... GRAÇAS A DEUS.
 

O DIA TODO foi assim: um céu carrancudo cobrindo a cidade. Pardo, ameaçando chuvas. Vez ou outra, uma ventania içava do chão as folhas secas e os pedaços de papel; tudo rodopiando no ar. Pelo rádio, o instituto de meteorologia explicava: um ciclone extra tropical em alto mar está enviando ventos frios para a região sudeste. A previsão é de tempo instável, com mínima de 19 graus e máxima de 24 na capital mineira. Pode chover forte no final da tarde.

Pouco antes das quatro, o céu escurece. Uma lufada, fria e estúpida, começa a rolar densos chumaços de nuvem negra no ar. Raios riscam o infinito. E trovões bufam sem parar, anunciando a tempestade. A cidade pára, temorizada. Medo e correria nas ruas: pessoas e cães correm para se abrigar debaixo das marquises.

De repente, uma pancada nervosa de chuva desaba sobre a cidade. Durou pouco, mas foi o bastante para encher as ruas com uma enxurrada barrenta, transbordando o meio-fio, que arrastava tudo: a folharia, as garrafas de plásticos e os dejetos urbanos jogados no asfalto.

Minutos depois, ela perde a força, mas não cessa. Estabelece uma toada cadenciada, perpendicular, por mais de uma hora. Mas, minutos antes das seis, a estiagem. O céu de primavera perde o cinza de alumínio e se transforma em um imenso azul. O sol reaparece, meio fraco mais ainda luxuriante, espalhando luz e vida por todos os lados.

Do alto do edifício Malleta, me envolvo numa contemplação curiosa daquela tarde marcada por três estações: calor de verão, chuva de outono e o sol da primavera. Observo xaxins de orquídeas suspensos na estreita e poluída varanda de um apartamento em frente, no Araguaia. Lindas flores!... Revestidas de um novo verde, revigorado pela chuva, me enchem o olhar de clorofila e arte, que também se expandem pelo meu corpo num agradável jogo de sedução.

E assim, enquanto o sol dobrava a fronteira dos morros recolhendo sua luz, lembro Tagore: a Natureza, mesmo agredida, produz flores.

*Tarde de um dia de verão, em Belo Horizonte

Welington Almeida Pinto

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QUINZE DE MARÇO

Levantei várias vezes na madrugada para cumprir os preparativos de uma biópsia de próstata, marcada para as 9 horas da manhã seguinte. São muitos. Mas, antes das oito já estava liberado para sair. Como ninguém, em minha casa, manifestou-se vontade para me acompanhar, parti em silêncio para a Urológica. Tenso, peguei um ônibus lotação, porque assim pensei que ficaria mais invisível.

Na Clínica fui obrigado a dar uma desculpa pela falta de acompanhante, mas garanti à atendente que minha irmã, que leciona numa escola no primeiro turno, voltaria para me buscar. Ela tomou nota do seu celular e, minutos depois, fui chamado ao ambulatório.

Encontrei um ambiente agradável, tudo muito limpo e todos os equipamentos eletrônicos no seu lugar – coisa de primeiro mundo. Ainda apreensivo, vesti uma camisola verde e, sob o olhar atento de uma enfermeira, deitei na cama hospitalar. Logo, entraram dois médicos: um para retirar os fragmentos do órgão para exames laboratoriais e o anestesista. Ambos cordiais e amistosos. E, com uma boa dose de habilidades, eles me esclareceram como seria o procedimento médico de cada um.

Meia hora depois, acordei com a enfermeira ao meu lado, que me informou que a intervenção tinha ocorrido muito bem. Aliviado, mas ainda meio zonzo, ela me pôs em uma maca e fomos para uma sala de repouso. Lá, mergulhado num silêncio consolador, tomei um frasco de soro e minha pressão medida várias vezes. Depois, fui convidado a saborear um suculento lanche que ajudou a melhorar, em muito, minha disposição.

Pronto para deixar o andar superior da Clínica, outra moça quis saber pela minha acompanhante, dizendo que havia chamado por ela na sala de espera e ninguém atendeu.

- Não tenho – respondi. - Eu mesmo me acompanho.

Ela com ar de surpresa:

- Como assim?

- Isso mesmo. Estamos aqui: eu e eu. Não basta?

- Então, está sozinho, sem acompanhante?

- Sim.

- Meu senhor, isso não deve acontecer. Não leu as recomendações: é indispensável que uma pessoa adulta o acompanhe quando da saída do Hospital.

- Li. Como não pude contar com ninguém, me convidei e aqui estamos.

- Meu senhor, um ou uma acompanhante, além do apoio presencial oferece ao paciente um conforto emocional, um alento, não acha?

- Acho. Desculpe-me, mas na próxima eu prometo que isso não vai acontecer.

Ela fecha o sorriso:

- Espero que não veio dirigindo um carro!...

- Não, neste item obedeci a regra. Como não passa das onze horas da manhã, pretendo pegar um táxi, moro perto.

- Tudo bem – concorda a moça reabrindo o riso - o senhor pode descer e aguardar no hall de entrada da Clínica. Vamos chamar um táxi.

- Ótimo.

- Só mais uma coisinha: em casa, procure seguir as instruções deste folheto. Ok?

Agradeci a moça loira de olhos claros e tomei o elevador. Quando cheguei à portaria uma das recepcionistas levantou os olhos para mim, e disse:

- Senhor, aquele é o táxi que vai deixá-lo em casa com total segurança. Um momento que vou acompanhá-lo até o carro.

- Obrigado por tudo.

- Vá com Deus e que tenha uma boa recuperação. Qualquer desconforto que sentir, volte e será atendido pela nossa equipe de plantão.

Deixei a Clínica com a satisfação de que tudo agora estava bem e que ainda permanecia no mundo para continuar minha história de vida.

 

Welington Almeida Pinto
 

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A VIDA EM BRONZE


Domingo de sol encoberto. Tempo frio, ameaçando chuvas. Bom para ficar em casa, abrir uma cervejinha, ouvir uma boa música e, quem sabe, acessar memórias e emoções guardadas no inconsciente.

Assim, como numa película, a lembrança de alguns dos amigos começaram a movimentar minha imaginação: Henry Correia de Araújo, Cleonice Rainho, Blay Barbosa, Célius Aulicus, Chico Motta. Tanto que bateu uma vontade sair de casa e procurar um bardo daquele tempo para um bate-papo numa mesa de bar. Pensei chamar o Reis para visitar o Paschoal Motta, no bairro Cachoeirinha. Mas, com um tempo feio desse, desisti. Achei melhor caminhar até o Café da Travessa e quem sabe encontrar o Belisário, um dos poucos literatos que ainda encontro, vez ou outra, pelos bares da vida.
 

Saio de casa à pé, levando apenas um guarda-chuva. Desço a rua Leopoldina num só trote, pego a avenida do Contorno e, em poucos minutos, chego ao Café da Travessa, na Savassi. Surpresa: a casa estava fechada.
 

Sem ter o que fazer, atravesso a Avenida Getúlio Vargas e paro em frente à estátua de Roberto Drummond, na Praça Diogo Vasconcelos. Giro lentamente em torno do bronze, sento-me num banco ao lado do escritor e começo a imaginar mil coisas a respeito de quem já morreu e tem uma estátua em sua homenagem na cidade. Afinal, Roberto é a primeira pessoa imortalizada em um monumento que conheci na vida. Caso raro, eu sei. Lembro que dois dias antes dele se encantar, passando pelos jardins da Boa Viagem encontrei o jornalista parado numa das portas laterais da Igreja. Ao cumprimentá-lo, perguntei o que fazia ali. Ele comprimiu o sorriso e disse: nada, perambulando.
 

Aguçado de novo pelas indagações, observo que uma ou outra pessoa adulta, movida pela curiosidade, toca no corpo estático do escritor e comenta alguma coisa. Em seguida, duas crianças chegam e começam a brincar com a imagem de ferro. Primeiro, fingem tomar o livro que ele tem numa das mãos. Depois, pegam a se enroscar no corpo mineral do Roberto, rindo à beça, divertindo muito.

Gosto de ver a estátua do Roberto Drummond no meio das pessoas naquela praça, que tanto inspirou seus livros. Interessante!... Não há como negar, as estátuas são mesmo testemunhas silenciosas de um passado de glória. Tão confortantes à memória que, na Europa, até as pessoas menos célebres também são imortalizadas em praças públicas - na França, Mademoiselle Anne Marie, a queijeira que aprimorou a receita do queijo camembert, está lá toda imponente na entrada de sua cidade, imortalizada em bronze.

Welington Almeida Pinto – abril/2006.

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ANJO


VIVE dentro de mim

um escravo, humilde e raro,

que guarda meu sono

e compreende meu corpo,

que fala comigo quando estou só

e, ao meu cansaço,

estende os braços

e acomoda minha alma.

Ele é forte e humano,

me respeita com incrível respeito

e ora por mim cada manhã

que desperto como quem ainda dorme,

Depois, num lance divino,

mostra-me que no mundo

eu sou o personagem principal

pelas ruas de meus sonhos.

 

Welington Almeida Pinto

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