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Vera Abi Saber

Contos

Página inaugurada em 23/06/2005

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3 Contos Editados

- Conto em 3 cenas

- Travessia

- Uma menina

À luz das velas

Lucy berenguer

 

 

 

 

 

CONTO EM TRÊS CENAS
 

Cena 1 – Tomada aérea

O carro pequeno desliza pela estrada. Segue veloz como um ponto móvel na paisagem. Do lado direito, montanhas e campos se revezam. Do lado esquerdo, até aonde a vista enxerga, somente campos verdes. No horizonte, um resto de sol vermelho e intenso teima em permanecer mais um pouco e dá a impressão de um rasgo no céu que se esforça para escurecer.
As estrelas vão se chegando, a paisagem muda de tom. Apaga-se.
A cena vista de longe parece uma pintura - um risco cruzando a tela rumo ao infinito.

Cena 2 – Dentro do carro

Quatro ocupantes. Cansados. O zumbido do motor, o som monótono dos pneus rodando no asfalto e o contorno vago das árvores à beira da estrada trazem para dentro do carro uma sensação bruta de torpor. Real e irreal se confundem. O silêncio é compacto. Pesado. Exausto; só quebrado vez por outra pela respiração cadenciada dos ocupantes. Aos poucos o resto de claridade acaba cedendo e a escuridão invade tudo. Interior e exterior se misturam. Noite sem luar. Densa. O barulho do motor inebria, hipnotiza. Visto de dentro do carro o clarão do farol é como um facho de laser que perfura a noite. Vara a escuridão. Força a passagem; mas é quase que imediatamente tragado pelo negrume. Não há neblina ou qualquer coisa que atrapalhe a visão. Apenas a negrura concreta na noite envolvente.

 

Cena 3 – O acontecimento

O carro, implacável, segue pela estrada riscando a paisagem. A viagem prossegue. Num momento qualquer, como que brotando do asfalto, surge um vulto assustado que encara o carro de frente. Seus olhos refletem o brilho frio dos faróis. Pavor dentro e fora do carro. Choque violento. Sensação do impacto ferindo a carne. Um grito fica contido nas gargantas adormecidas. Alguns murmúrios. Nenhum comentário. O carro todo treme como se estivesse com os nervos à flor da pele. Dança uma dança louca. Parece que se rebela, não quer seguir em frente. Geme também. Com habilidade o motorista domina a máquina, mas o baque fica cravado em cada um dos passageiros. Indecisão. O carro ainda vacila por mais um instante depois segue em frente. Noite escura. Muito escura. Pelo vidro traseiro ainda se pode ver a sombra estendida na estrada sendo engolida pela escuridão. Um cachorro... Ou quem sabe um bezerro... Ou... Talvez... Tudo tão rápido. A cena, como se fosse um quadro fixado no espaço, vai se distanciando. O carro segue cortando a noite. Continua veloz. Os faróis ferindo a escuridão. A imagem desaparece absorvida pelas trevas. Extingue-se.
No interior do carro – silêncio. Nas gargantas ainda o grito, travado, impotente, de espanto e dor.
Lá fora – a noite de verão. Quente. Escura. Insondável.

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UMA MENINA

Ele a examinou, dissimulado. Ali, parada naquele hall, esperando o elevador, ela era de uma fragilidade incrível. Mal aparentava os seus 18 anos. Ele se aproximou, assim como quem não quer nada e posicionou-se atrás dela.
Jovial e irreverente, ela se vira e diz: - Demora, né?
Sério, encara-a e apenas move a cabeça. Mas seus olhos de caçador já haviam avaliado a presa.
Entram no elevador. Ele não consegue tirar os olhos daquela silhueta esguia e firme. Advinha-lhe as formas sob o jeans apertado. Admira-lhe as curvas. Perde-se nos ombros e roliços. A camiseta de malha cruelmente colada ao corpo revela seios arrogantes que despertam nele desejos de escalar montanhas e picos. A garota não se dá conta da fúria que desperta.
Será que não?
Num dado momento, procurando alguma coisa na mochila, ela dá um passo para trás e, sem querer, roça seu corpo no dele. A fragrância que exala é perturbadora.
Um suor fino inunda-lhe o corpo. Ele recua. Olha para ela sorrateiro, quer adivinhar-lhe intenções inimagináveis, mas o que vê é um sorriso encantador.
Tantos anos de caça e... Uma simples menina... Estaria confundindo as coisas?
Seu instinto reage. O espaço do elevador, de repente, torna-se pequeno demais. O cheiro dela invade tudo e o deixa sem controle. Agarra-se à pasta e ao casaco que carrega como se fossem escudos. Há muito tempo não se sentia assim tão...perturbado.
O elevador pára. Alguém entra. O espaço fica menor ainda. Ela dá outro passo atrás, corpo quase colado ao dele. Mas desta vez ele não recua. Fica ali, firme, respiração curta, nó da gravata sufocando. É um predador e fica de tocaia, vigiando a presa.
O elevador pára novamente e eles tornam a ficar sozinhos. Mas ninguém se move. Um silêncio denso de idéias concretas enche o lugar.
De repente ela se vira e o encara.
Ele estremece. Onde estou com a cabeça? pensa. Desde quando fiquei assim... tão vulnerável?
Ela o fita direto nos olhos e quase com candura, pergunta:
- Conhece algum professor de matemática?
O tom inocente é desmentido pelo arfar do peito e pelo olhar perturbador.
- Preciso urgente de algumas aulas, ela diz. Tenho prova na semana que vem.
Sem raciocinar direito ele se vê balbuciando: - Eu... no tempo da faculdade.... (Justo ele, que mal chegara perto de ter sido um aluno sofrível em matemática).
- Hum...hum..., ela responde.
A mentira o acalma um pouco.
-Terei imenso prazer em ajudá-la, murmura, já recuperado, devorando-a com o olhar. – Quando?
- Pode ser agora, é meio urgente, diz ela, mordendo inocentemente a pontinha
da unha.
Mais do que ninguém ele sabia da urgência.
O elevador pára no andar dele. Descem. Ele abre a porta do apartamento (onde nunca sequer um único livro de matemática entrara).
Ela se deixa conduzir.
Sorri.
Caça e caçador agora se confundem.
A porta se fecha.
 

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Travessia

Laura abriu os olhos. Estava sozinha e cansada, mas alguma coisa a impelia a seguir em frente. A escuridão não a incomodava, já estava acostumada. Tinha um pouco de medo, claro, afinal, era a primeira vez que fazia aquele trajeto. Seguia seu instinto. Sabia que do outro lado estariam lhe esperando, já ouvia as vozes abafadas e distantes. Ouvia também alguns barulhos que não conseguia identificar e isso só aumentava a sensação de medo. Sabia, ainda, que eram pessoas especiais e que estavam ali para ajudá-la, se precisasse, mas nunca vira nenhuma delas... Eram desconhecidas.

Continuou sua trajetória agora mais empenhada; tinha que se apressar pois

não queria que se preocupassem demais com ela. Agora já conseguia enxergar uma luz adiante. Luz forte. Nunca tinha visto nada igual. Fechou os olhos... Gostava do silêncio, da escuridão, sentia-se aconchegada, mas estava na hora de agir. Havia chegado na etapa final da viagem. Por puro instinto sabia que tinha que seguir em direção à luz e é isso o que faria.

Estava cansada, muito cansada. Se não estivessem esperando por ela, com certeza desistiria e se deixaria ficar por ali mesmo. Mas não podia. Comprometera-se e não era pessoa de faltar com suas promessas. Parou mais um pouquinho e então, confiante, seguiu em direção à luz. Agora já não pararia mais. A angústia do desconhecido e a sensação de desconforto tinham aumentado, mas ela sabia que seria por pouco tempo, agora tinha que seguir em frente. Exausta, faz mais um esforço e arremete-se pelo caminho estreito. Não seria fácil...Ouvira dizer que alguns, poucos, desistem, mas ela não. Estava ficando cada vez mais ansiosa e a ansiedade a deixava mais exausta ainda.

Agora as vozes estavam mais perto e, de repente, no meio das vozes desconhecidas, consegue identificar uma, a dele...Ah, que alívio, ele também estava ali para recepcioná-la. Seu coração bate mais forte e um arrepio percorre-lhe a pele molhada. Não, não o conhecia pessoalmente, mas aquela voz já era sua velha conhecida, sentia que podia confiar nele. Sim, já confiava.

Pronto, agora é definitivo um último esforço e a travessia estará completada. Fecha novamente os olhos e busca um restinho de coragem...Já consegue ouvir as palavras de incentivo e encorajamento e também palavras de carinho que ele lhe fala.

Prende a respiração e arremete-se com ímpeto no último e mais difícil trecho. Está feito. Alguém lhe puxa e segura forte. Abre os olhos e vê então toda aquela luz e toda aquela gente lhe esperando. Com mãos trêmulas ele corta o cordão que a prendia. Emocionada, dá um grito de vitória e chora, alto e forte, aconchegada em seu peito.

(Vera Abi Saber)

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