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25 Poemas Editados Aquosas Transumâncias Conjunto de 5 poemas:
Sem te tocar
Conjunto de 8 poemas:
Poemas Dispersos
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Janela No lugar onde desaparece, um quadrado de parede, aparece uma cabeça de areia calvo epicentro dunar varrido pelo norte solestício dedos de verão nortenho acariciam a vegetação rasteira. O olhar perfura a duna e grãos de areia fazem sangrar os olhos o vermelhar das lágrimas é onírico. Da água do olhar voam dilúvios de sal suas asas derretem-se e o mar emerge no quadro horizonte. Escuto o marulhar do horizonte descasco a cal das paredes e a espuma brota das ondas desenrolando cortinas sobre o lugar onde desaparece um quadrado de silente parede. Nelson Aires 08/07/2000 Índice ____1 |
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Socorro Escrevo no escuro das águas minerais as linhas tropeçam na humidade consentida dos sexos e o vapor reacende os fósseis nos vidros gotas escorridas da matéria de que somos feitos e sulcam os vidros como se fossem lágrimas de cristo talvez seja aqui a secreta morada de Deus Com o horizonte apagado emerge um brilhante vermelho esbatido é a voz do socorro dos náufragos codificada no eterno canto das sereias essas ninfas mortais que se abrigam nos cascos e apagam seu rasto na água e na ilusão a luz do farol que se esbate agora nos vidros que me envolvem O seu código morse é uniforme e universal funde-se nas constelações vivas e mortas este céu que alberga contos e amantes e é frio para os náufragos perdidos algures nos sucalcos do envidraçado. Nelson Aires 19/11/2000 Índice ____1 |
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Os afogados emergem á tona lunar agarrados a um sonho bêbado de amor os pulmões vazios de ar azul, cheios de carne do impudor amor menina olhos verdes comendo a curva de meus cabelos castanhos mel dourado. Respiração boca a boca na sombra dos lábios harpa melodia nos ressuscita da água labareda os ossos quebram-se no êxtase em cada espasmo morremos para viver. Cantamos a morte alegres, a eternidade sobrepõem-se momentaneamente, deixamo-nos de cantar com as bocas pousadas na terra fértil bebendo a terra que nos sustenta comendo rios de margens laranjas gomos da noite escura, morada dos amantes em quartos de sangue purpura nas veias de papel deste texto onde as letras reflectem a imagem de nosso afogamento na praia lunar, na face escondida, escura na urna aberta do amor poema. Gota a gota nos deixamos afogar na força da alegria da morte amor nos ramos da árvore fértil excertada com nossos beijos amora crescendo frutos pelos braços, nas folhas dos cabelos, nas raízes das unhas que se enterram na carne regada com gritos selvagens da loucura. E nos afogamos na asfixia da separação dos minutos eternos na infinidade das horas tempo, a cama do leito amargo sem nos sentirmos enlaçados nas pernas na língua de folhas doces o chá afrodisíaco do sémen escorrido seiva de amor escorrida na cegueira da carne olhar nas lágrimas de sal, tempero da separação. A noite lentamente amanhece o meu poema na periferia de meus lábios nasces da saliva fecunda, deixado sabor recordação um coração se forma e lateja espasmos nas linhas deste poema de socorro a náufragos.
Nelson Aires 14/05/2000 Índice ____1 |
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Retratos Na mesa aveludada os retratos liquefazem-se pelos umbrais da noite na cumplicidade da seiva escorrida nos abetos no tronco das mulheres tatuadas nos sexos dos anjos. Percorro o rasto das imagens pelo mar do tempo as molduras de madeira ressequida pelas térmitas dos dedos, afogam-se no sal dos peixes minha boca navega acima dos náufragos retratos a bombordo dos lábios uma imagem agarra-se á ancora recolhida corroendo o aço com seu sorriso obliquo. E uma criança dá à costa, perdida na espiral de um búzio encarnado ressoando o marulho das tempestades e das bocas perdidas em corpos dourados enclausurados entre os vidros e os papeis das fotos essa prisão de pena perpétua sob a forma de enigmáticos sorrisos. Nelson Aires 04/06/2000 Índice ____1 |
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Emergir da areia onde te deitas pairar sobre a fisionomia das almas e dar-te um nome de água para correr um rio sobre as dunas.
Escavar os dias de chuva e os tapar com a música inaudível das fotografias essa Fotocromia que me pinta onde ergo o olhar para fora dos dias.
Diluído na fantasia construo a obra de vidro É o derreter da areia que construo quando quero propor-te o orvalho da noite onde o acromo passado morrerá após o sono.
Nomear-te para os sonhos de papel fertilizando o ciclamor e em cada vermelhar cordiforme, pulsar o medo dos nocturnos corredores onde as aranhas se recolhem no silencio.
Nelson Aires 15/07/200 Índice ____1 |
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O rosto de expressão profunda brota em mim uma candeia interior por onde a veia negra se asfixia na luz ilumina a mão que te esboça o sonho e o sangue turvo derrama-se sobre as fendas expulso pela vontade de dividir que tece novos fios de sangue entrelaçados pelos teus dedos que imagino
O silencio alimenta os cometas as suas caudas envolvem teus cabelos imagino terem o aroma do voo da borboleta
Escrevo-te na concavidade da insónia a tremura aloja-se na copa das árvores quando passeio pela noite aberta nas mãos e a lua da largura do olhar a coloco sobre ti sabendo que é comum aos dois
Uma criança caminha pelo meio das areias filho de uma outra paragem onde abriste porta para a eternidade descendência luminosa onde a chuva se abre para dar lugar aos passos da inocência
O espirito anda à solta rodeia-te em abóbadas de mistério os odores secretos deambulam nas letras as noites sensíveis com castiçais de areia
Aqueço o espaço livre com álcool das vinhas a miragem é a do douro que desliza no teu verde olhar as quantidades são medidas apenas para o voo ficar mais leve e os sentidos mais sensíveis ao sonho em marcha o álcool trabalha o sangue tecendo a flor da videira adocicando o néctar das abelhas.
Nelson Aires 03/09/2000 Índice ____1 |
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A mulher ansiada passeia com seu violino a pauta abre-se para novas notas o ritmo oscila na minha saliva e engulo os sons dos gestos enlaçam-se as cordas vocais na madeira brilhante da serenata do olhar
A mulher respira e passa a mão pelo horizonte a linha imaginária sente-se na inspiração recolhe-se na indecisão das estátuas o movimento não se efectua no mármore polido a pedra mantém-se fria no exterior dos dias mas no interior fulgura o ritmo da lava oceânica
Perante o ritmo a Íris vermelheia a retina envergonhada na pálpebra caída os trabalhos do sol fundem as almas lentamente a espessa camada de neve escoa-se resvala na pele de transumância aquosa
As palavras queimam-me a língua o caminhar o doce café empunha a colher de prata sobre o trabalho do sorver lento levanto os olhos num deslizar ascendente da pálpebra escorrego então na fera que me doma o chicote e a pontada de fogo o derrete das mãos
Por este corpo fissura a luz das estrelas sinto-me um animal cativo espumando a seiva dos sentimentos em orgasmo crescendo um novo órgão emplumado sobre o voo na cauda de um pássaro flamejante lançando flocos de algodão salgado sobre as águas dos rios longe dos mares e criam as margens de espuma salgada onde a silhueta da mulher doura a pele e a nogueira ecoa a vida das cordas.
Nelson Aires 12/09/2000 Índice ____1 |
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A espera prolonga-se pelos areais do mundo é propositada a espera nos lábios que se incendeiam nos passos do teu gesto
É certo que o teu sorriso omnipresente acompanha a centrifugação das ondas deste mar salgado onde me deito e cavalgo nas linhas de água crepúscula flutuo com serenidade sobre a espuma que anuncia a chegada do areal e a impressão adocica a superfície das conchas
Prolongo a espera em poemas onde o papel se pode trincar com as mãos e os dentes e vêem a mim o sabor dos frutos silvestres por entre os ramos das árvores que me inspiram para a espera
É certo que o mar não preenche a tua ausência mas aponta-me a imensidão do teu olhar e a fulguração das chamas
Prolongo a espera talvez propositadamente deixo que a hera da paixão se incendeie sem nunca ter raspado na tua pele para assim a certeza habitar no calor das cinzas uma temperatura que se conserva e acolhe os animais em seu sono.
Nelson Aires 17/09/2000 Índice ____1 |
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A lestia corrente aproxima-te-me do mar transportas a ventania no teu colo ar que rareia na tua ausência afogando a água os peixes e os corvos paralisam-se suspensos no sentido
As asas negras da lapidescência nocturna debatem-se e cobrem o mistério de plumagem a pressa é insignificante no olhar do voo tornando-se lívido o rosto emergido das águas vendo o plano traçado na vertical altura a linha de terra o horizonte de tua silhueta
A velocidade do ar acorda-me-te e os jardins do mar contorcem-se nas correntes marítimas para uma chegada que se ilumina um pouco há noite ...nem os lençóis humedecidos de éter seguram a embriaguez tecida no perfume inominado
Os cabelos tocados pelos dedos da distancia são envolvidos por um lenço de ar azulino destacando-se as linhas taciturnas de um gesto segredado com novelos de ouro a abrirem-se pelos ombros e o vício do pouco sono impregna-se mais em mim quase atinge o centro dos átomos quando vejo o corvo partir gravado nas estrelas que se fecham e o desfecho anónimo para a vigília do seu respirar.
Nelson Aires 24/09/2000 Índice ____1 |
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O mar abriga agora as primeiras folhas de Outono a natureza despe-se do passado e reciclam-se as cores primárias: o mar o fogo o sol
Vêem à costa fragmentos das águas de verão a luz curva-se no seu interior e os dias recolhem-se mais cedo na leveza das estrelas o pano nocturno acolhe os amantes corroídos de desejo e eu acolho a noite no interior da luz emergindo a imagem do teu quarto sobre a distância desconhecida tiro-te do ventre do sonho para juntos olharmos as águas graves de Outono nestes dias de lapidescência invernosa
Escuto: Sobre o momento do rebentar das ondas explode a vontade declaração das águas à terra a lama esse fruto que cresce da terra alimenta o fogo na fornalha das bocas extinguindo-se para o objecto moldado no silencio
Nelson Aires 01/10/2000 Índice ____1 |
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Os passos outonais ganham mais profundidade na areia na concavidade do rastro persegue-me o vento de frente levando o presente de caminho para o passado abrindo clareiras de cintilações aquosas no reflexo do dia
Os trabalhos do mar recomeçaram a musica foi violenta e a dança das águas expulsou o limo residente o areal defeca o lixo de reciclagem centenária e um muro de betão cresce sustendo-te acima dos elementos não desejados
Eis então que se criou a ausência do que me rodeia envolvendo-me nos reflexos do cobre das árvores que sombreiam ao longe os teus cabelos iluminando os minerais da rocha artificial oxidando o tempo da tua inexistência
Caio na tarde premeditória da noite o veneno da espera forma-se na saliva das palavras o antídoto algures num vidro onde corre a condensação do vocabulário expandindo-se de volta às águas deste mar.
Nelson Aires 05/10/2000 Índice ____1 |
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Neste mar de reflexos desejosamente inocentes o sal corrói lentamente as areias sombreadas pela luz obliqua o relevo evidencia-se o escopro crepuscular é exímio no delinear emocional
A musica inaudível do acaso aconchega o abraço ergue-se a figura aquosa de semelhante mobilidade turvada pelo vento paralelo à linha do horizonte o prazer invade-me as narinas desse ar que corre em torno de alguém
O nítido desbotar das árvores posiciona-me no tempo o abraço é urgente porém o animal necessita da lã e o fuso e a roca adormeceram no aconchego do fogo
Resta-me e anseio o veludo da noite emergindo o sonho vinculado nos lençóis onde o peito inunda-se de voos e os barcos encontram os seus cais de desembarque na humidade que escorre pelos vidros da alba.
Nelson Aires 05/10/2000 Índice ____1 |
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Condenem! Minha alma, Meu corpo For favor!
Condenem-me! Por viver ao contrário da vida, Estilo que criei, Gostar da alegria de pernas para o ar, Até ficar-mos azuis ou vermelhos. Fico alegre assim.
Condenem-me! Por usar as pessoas, A vitima em que me torno, Para sofrer e sofrerem. Relações impossíveis, Cálice da vida eterna.
Condenem-me! Por amar a lua, E me achar seu dono, Seu único filho As estrelas mãe.
Condenem-me! Pelo crime contra a morte, Suicídio falhado.
Condenem-me! Porque meu corpo é papel E preciso mais das letras Do que da carne.
Condenem-me! Tudo em que toco, Se transforma em letras, Sou um monstro insaciável.
Condenem-me! Para sentir as barras de aço Como gelo na face Aprisionado corpo.
Condenem-me! Por assim me sentir feliz mais infeliz Trabalho melhor.
Condenem-me! Minha forma são alfabetos dispostos Para me desfazer na literatura, Escoando-me pela ponta dos dedos.
Condenem-me! Só assim ficarei mais triste, Alegre por o ter conseguido Cheio de vida E pedir desculpas á morte Por ter falhado. Agora vou conseguir!
Nelson Aires Índice ____1 |
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Saciaram a sede com o mar, Alguém bebeu de sua água, Um gigante talvez. Agora o manto de areia Governa planamente.
Onda vem Desenrolando-se na areia, Onda vai Levando memórias, Alimento da sereia.
Fazendo espuma, Bolhas de sal, Cortinados de água, Lençóis engomados de areia.
Caminho junto á orla de espuma Pelas línguas de areia, Vejo as marcas do rebolar dos nossos corpos, Ficávamos tontos...
Uma onda invadia a areia E com a espuma Passávamos a mão No corpo um do outro, Esfregavas-me as costas Eu sorria... Esfregava teus pés, Tu rias-te ás gargalhadas.
Com as bolhas de sal, Completávamos o banho sensorial, Nosso divertimento, Olhar nosso reflexo Nas bolhas e ver o que não existia, Depois elas rebentavam...
Com o cortinado de água A correr pela fina areia, Me lembro da janela, Do quarto onde... Nunca estivemos...
No lençol de sílica Onde rebolávamos, Me lembro do cetim, Da cama, Do quarto onde... Nunca estivemos...
Das dunas Nos amávamos secretamente, Me lembro da... Almofada do teu ombro, Do teu corpo, No quarto onde... Nunca estivemos...
Dos cristais de areia Que víamos a brilhar, Me lembro do candeeiro Ao lado da cama... Que nunca o acendi E via teus olhos semicerrados Para conter o prazer O meu prazer Tinhas vergonha, És tão tola... No quarto onde... Nunca estivemos...
O pôr do sol Que nos tingia de vermelho, Me dizias: Agora sim, Nos teus braços morreria... Estou completa...
O pôr do sol Me lembrava O quadro Na parede do quarto Que nunca existiu...
A maré engordava Alimentava-se Da areia fina De nós De mim.
Grãos de areia molhada Me tornei Dispersos pelas marcas Em que estive contigo, Aqui, ali e acolá, Na praia Onde nunca estivemos...
Nelson Aires 24/03/00 Índice ____1 |
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Cai... cai em gotas, Gotas mil faz a força Gota inofensiva Em mil aguaceiro. Cai... cai em força, Aguaceiro, a raiva do céu Água que bate no pó O levanta no ar, repousando-o Cai... cai livremente, O cheiro da terra molhada, A terra com sede Absorvendo sem deixar, Vestígios da cascata de gotas. Cai... cai, não te esgotes, E limpa o castanho Das flores, das plantas, Liberta o verde, a esperança Prisioneira do pó. Cai... cai além da nuvem, Liberta o arco-íris E nos colorir Neste dia cinzento. Cai... cai nas sete cores, Ponte entre a terra e o céu Cordão umbilical Da terra mãe E o pai céu. Cai... cai me levando, Em bote de água Pelos rios de terra. Cai... cai colar de gotas Em fio de ar Para presentear e vestir O pescoço do meu amar.
Nelson Aires 02/04/00 Índice ____1 |
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Água que corre Ficando aprisionada Num lagar, Lavagem da alma.
Começo por despir Meu calçado, Por onde segui As suas vontades.
Dispo a lã De meu tronco, Onde te encostavas E adormecias inocentemente.
Dispo da ganga Das pernas, Onde nos estendíamos Ao comprido.
Dispo entre as pernas A folha de Adão Onde contém Restos de pudor.
Dispo meu cabelo Fios de seda castanha Onde teu nariz Tuas mãos, se perdiam.
Dispo-me de ti Nua alma me torno O vazio Para reconstruir.
A água sem culpa Vai lavar Os restos que mancham Minha pele.
Nelson Aires 26/03/00 Índice ____1 |
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Peço-vos para...
Não chorarem o que canto Não sonharem Com as letras de meu encanto Analogias minhas.
Não escrevo para...
Vós, Ela, A vida. Escrevo para mim.
Não me roubem...
A intimidade dos lençóis brancos A vida preto no branco em negativo O sentido do amor sem sentido O seu perfume na tinta camuflado.
Deixem-se de...
Sentir como se fosse vosso, O que vivo, O que vivi. É meu, só meu.
Escrevo para...
Me digitalizar, A digitalizar, A ela, Á vida.
Escrevo ainda para...
Gravar meu presente em: Na água emoções, No ar tristezas, No fogo alegrias, Na terra amores passados.
Mais uma vez deixem-se de...
Analisar o papel Onde estou digitalizado. Eu é que tenho de entender, Não vocês.
Ainda insistem?...
Não me plagiem Para as vossas vidas. Que culpa tenho eu, Que vos falte algo?
Pela última vez...
Não escrevo para vós! Nem o quero, já são crescidos. Me imprimo em papel vegetal Para minha alma Usar como calquitos, Noutra vida, no outro lado, Quero exactamente o mesmo...
Nelson Aires 22/03/00 Índice ____1 |
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Á noite te recolhes Embrulhas-te em leveza Na penumbra do meu olhar O sono da tua beleza. Acordas com a frescura pousada Das gotas de orvalho ressoado, Da humidade condensada Suspiros de nosso amor prateado. Lentamente com o meu olhar Te vais recompondo Desabrochando tua cor, impondo Meu olhar a brilhar. O teu corpo, o caule balança Sustento, enraizado No algodão de minha cama Se endireita, numa dança, Onde me deixas hipnotizado. Teus braços, as folhas Se abrem espreguiçando Abraçando, O ar que respiro, Que te alimenta Em meu retiro. Tua cabeça, essa flor Se ergue, me mostrando As pétalas do teu cabelo, A sombra do teu sossego, A almofada do teu olhar, O pólen néctar de teus lábios Adocicando meu acordar De todas as manhãs...
Nelson Aires 04/04/00 Índice ____1 |
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Como num carreiro De formigas pretas, O cortejo do adeus Caminhava, mas mais lento.
A maioria, mulheres Negro a sua cor, Não o negro daquele dia, Mas o de todos os dias.
Homens também os haviam, Homens de três pernas, Vergados pelo peso do tempo, Os olhos buracos negros De dias como aquele sem nome, Serem já demasiados.
Era um cortejo sem Carro fúnebre Transporte da matéria. Na frente apenas Dois homens acabados de nascer, Empunhavam uma foto... Único sinal de sua existência.
Naquele cortejo O cangalheiro chorou, Pois não havia caixão, Apenas uma foto.
Olho com mais atenção.
Os homens que empunhavam a foto Eram de feições gémeas, Á foto chorada. Filhos órfãos... A mãe de rastos... Agarrada á foto...
No local do adeus, Inaugurando a materialização Do corpo entregue a alguém, As mulheres perdiam A água de sua vida, do seu olhar, Água em que lavavam a cara, Todos os dias antes do sol acordar...
Todas choravam, Não pela foto, Não pela esposa da foto, Mas sim por elas. Sabiam que... Aquele dia... Era um fruto amargo ainda desconhecido...
Como era a foto? Digo antes como era sua vida...
Seu rosto escavado pelo sol, Seus cabelos queimados pelo sal, Suas mãos calejadas Dos cortes da seda, Feridas sempre abertas, A água salgada sem piedade.
As redes, seu apanha pão, Água, a semente do seu alimento, Sal o tempero de sua vida, Saudade o seu passatempo, Solidão como companhia.
Casca de noz, Fazia lembrar um barco, Mas só fazia, Era um faz de conta, Com dois remos E uma vela, Remendada.
Olhava muito, Para a vela amarelada, Branca tinha sido. Sua alma metade Era quem remendava Os buracos dos temporais.
Ah! As sereias! Suas amantes, Dos dias? Das noites? Não sei!
Ele não media o tempo. A não ser quando estava No seu lar, castelos de areia, Bebendo o suor doce, Que sempre lhe perdia o gosto, Quando estava longe, E de vez para vez, Mais doce e aromático.
A sua perdição, O canto dos suspiros De sua amada, Alma gémea.
O sexo, Não aquele que conhecemos, O outro, É desse que falo. Era música para seus ouvidos. Gravada no seu coração, Ele a cantava, Quando antes, do suor quente esfriar, e a noite se deitar, já ele estava com as mãos nas redes e o corpo na casca de noz.
Ela a sua amada, De xaile negro E pele queimada, Pelo desespero, Ainda vai todas as madrugadas Cantar para o mar Esperando, Que o seu pescador, Lhe siga a voz do lamento, Para se deitarem na areia A água seus lençóis.
Nelson Aires 23/03/00 Índice ____1 |
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Abatam as árvores! Com as laminas da tristeza, Trabalhem a madeira Nas histórias da vida.
Desbastem a montanha! Ferramentas? As recordações, Lápide se tornará.
Limpem o pó! De vossos chapéus pretos. Engomem os fatos, Com a água do vosso olhar.
Façam espelhos! Dos vossos sapatos. Quero brilho! Na ultima caminhada.
Subam a bandeira! Que existe em nós, Subam-na, A meia haste.
Deus é um abutre! Arrancou-nos mais um pedaço De nossas vidas.
A sua última caminhada Para a morada eterna Será na lua nova.
A noite irá vestir luto também
Nelson Aires Índice ____1 |
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Erro monstruoso foi... Erro! Eu disse "erro" E que tal erros É mais correcto. Erro grande foi.. Te julgar como Água... Queria-te, límpida, transparente Mal sabia eu teus segredos Teus desgostos ofuscados sempre Pela limpidez que te impus. Água para beber Saciando-me me beijavas Ingénuo sem o saber Pensei que não te esgotavas Tinha-te num cantil Onde não te renovavas. Água para me lavar Do desejo por ti Sem saber que te polui, Tu sem culpa do meu pecar. Água que usava apaixonadamente E te fechava num cantil Onde lentamente O lodo te crescia fútil Consumia-te sem piedade Eu sem o paladar Com o gosto da comodidade Nunca me apercebi ao te amar. Não te queria á luz do sol Com medo que evaporasses Egoísta fui no meu atol. Teu sol começou a ser O ódio que ia crescendo Ganhando raízes para permanecer No fundo do cantil escurecendo. Ódio que bebi E me engasguei Fora tarde que percebi E te libertei. Libertei-te... Jamais serás livre... Desculpa...
Nelson Aires 31/03/00 Índice ____1 |
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Não Gosto! É verdade sinto isto por ti. Pois olha bem: Não gosto de estar sozinho sem ti. Não gosto quando vais embora de mim. Não gosto que estejas linda todos os dias e eu não te veja. Não gosto que rias sem eu me rir. Não gosto tomes banho sem mim. Não gosto limpes teu corpo sem a minha língua. Não gosto do teu olhar que põem loucos outros homens. Não gosto de nunca ter acordado a teu lado. NÃO gosto de nunca ter brigado contigo. Não gosto que tenhas medo de mim. Não gosto de saberes a resposta sem saber a pergunta. Não gosto de pensar em ti sem falar de ti. Não gosto que morras sem saber o que isto é. Não gosto das horas que passas ao telefone sem me veres. Não gosto que penses nas minhas primaveras. Não gosto da dor no meu peito quando não estou contigo. Não gosto do sentimento entre nós, merecemos mais. Não gosto de me constipar pois não sinto teu cheiro. Não gosto de acordar quando sonho contigo, tenho de tomar banho. Não gosto que estejas molhada sem teres minha mão por perto. Não gosto de ficar sóbrio, fico assim sem ti. Não gosto que fales quando te quero beijar. Não gosto que tenhamos de descansar após um beijo. Não gosto que me conheças. Não gosto de te conhecer. Não gosto do destino, eu e tu sem destino, isso sim. Não gosto de ainda não ter dito "és a melhor foda do mundo". Não gosto de comer, quero é que alimentes de mim. Não gosto quando fazes amor com o Ken, quero ser o Action Man, para te vires. Não gosto de dar flores, para provar meu amor, prefiro foder. Não gosto, não gosto, gosto não, não gosto, gosto não. Não, não gosto. Perdi-lhe o sentido, não gosto de lhe ter perdido o sentido.
Nelson Aires 01/02/00 Índice ____1 |
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Semeio alfabetos Fertilizando-os com o papel, Regando-os com as memórias Na estufa do meu pensamento. A semente do alfabeto se enraíza na areia e se enlaça num afecto de sentimento que tacteia. Com a luz do teu olhar A raiz tímida o chão lavra Mutando-se ao som da tua voz, E com o calor de teus lábios Nascem as primeiras palavras. Da folha uma palavra, De uma flor um verso Se uma floreira um poema Que te perfuma, confesso...
Nelson Aires 03/04/00 Índice ____1 |
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Vivas noites escuras Vento forte cantava Relâmpagos formosuras Chuva que destoava
Zeus nos céus em festa Lançando fogo de artifício Lembranças de terror infesta Nós como suplício
Na terra lado sentido, A velhinha sozinha Sem forças seu ouvido Para suportar o que se avizinha
Os cães com uivos Relembra á lua Lobos com pelos ruivos Á solta pela rua
Os amantes que se amam Com o fogo do desejo A chuva os espreitam Por entre um beijo
A mãe que não dorme Vagueia pelos corredores A filha que não chega A mãe cheia de horrores
O bébé que chora Grito sufocado O trovão frio ignora As lágrimas do desesperado
A criança com o horror Se enfia no seio dos pais Não sentido o pudor, O suor de sua raiz
Eu...
Procuro nos lençóis Fragmentos de amarrotado Tocando para não sentir Meu amor derrotado.
Nelson Aires 21/03/2000 Índice ____1 |
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