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25 Poemas Editados

Aquosas Transumâncias

Conjunto de 5 poemas:

- Azulina Visão

- Janela

-Naufragos

- Retratos

- Socorro

 

Sem te tocar

Conjunto de 8 poemas:

 

- Sem te tocar I

- Sem te tocar II

- Sem te tocar III

- Sem te tocar IV

- Sem te tocar V

- Sem te tocar VI

- Sem te tocar VII

- Sem te tocar VIII

 

Poemas Dispersos

 

- Caminhada

- Condenado

- Cortinas de água

- Erros

- Gotas

- Não gosto

- Para te viver

- Peas

- Pedido

- Trovões e relâmpagos

- Uma flor

- Xailes Pretos

 

 

Azulina visão

 

O mar abre-se em cascatas no céu,

e o azul move-se torneado pela plumagem branca,

das asas, o voo, da imaginação pelo peito da terra.

Da terra o sonho emigra,

pelas aguas que ainda, hão-de cair,

desta estação de temperada chuva,

onde se acolhe no olhar que espera.

As sementes florescerão,

e os perfumes se alojarão na sombra das arvores,

na espera do corpo secretamente segredado

onde a posição da espera se resume

á simplicidade do voo dos golfinhos.

Nelson Aires 30/11/2000

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Janela
No lugar onde desaparece, um
quadrado de parede, aparece
uma cabeça de areia
calvo epicentro dunar
varrido pelo norte solestício
dedos de verão nortenho acariciam
a vegetação rasteira.
O olhar perfura a duna
e grãos de areia fazem sangrar os olhos
o vermelhar das lágrimas é onírico.
Da água do olhar voam dilúvios de sal
suas asas derretem-se
e o mar emerge
no quadro horizonte.
Escuto o marulhar do horizonte
descasco a cal das paredes
e a espuma brota das ondas
desenrolando cortinas sobre o lugar
onde desaparece um quadrado
de silente parede. 
Nelson Aires 08/07/2000
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Socorro
Escrevo no escuro das águas minerais
as linhas tropeçam na humidade consentida dos sexos
e o vapor reacende os fósseis nos vidros
gotas escorridas da matéria de que somos feitos
e sulcam os vidros como se fossem lágrimas de cristo
talvez seja aqui a secreta morada de Deus
Com o horizonte apagado
emerge um brilhante vermelho esbatido
é a voz do socorro dos náufragos
codificada no eterno canto das sereias
essas ninfas mortais que se abrigam nos cascos
e apagam seu rasto na água e na ilusão
a luz do farol que se esbate agora nos vidros que me envolvem
O seu código morse é uniforme e universal
funde-se nas constelações vivas e mortas
este céu que alberga contos e amantes
e é frio para os náufragos 
perdidos algures nos sucalcos do envidraçado.  

Nelson Aires 19/11/2000
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Náufragos

 

Os afogados emergem á tona lunar

agarrados a um sonho bêbado de amor

os pulmões vazios de ar azul, cheios

de carne do impudor amor menina

olhos verdes comendo a curva

de meus cabelos castanhos mel dourado.

Respiração boca a boca

na sombra dos lábios harpa melodia

nos ressuscita da água labareda

os ossos quebram-se no êxtase

em cada espasmo morremos para viver.

Cantamos a morte alegres, a eternidade

sobrepõem-se momentaneamente, deixamo-nos de cantar

com as bocas pousadas na terra fértil

bebendo a terra que nos sustenta

comendo rios de margens laranjas

gomos da noite escura, morada dos amantes

em quartos de sangue purpura

nas veias de papel deste texto

onde as letras reflectem a imagem de nosso afogamento

na praia lunar, na face escondida, escura

na urna aberta do amor poema.

Gota a gota nos deixamos afogar

na força da alegria da morte amor

nos ramos da árvore fértil

excertada com nossos beijos amora

crescendo frutos pelos braços, nas folhas

dos cabelos, nas raízes das unhas

que se enterram na carne

regada com gritos selvagens da loucura.

E nos afogamos na asfixia da separação

dos minutos eternos na infinidade das horas

tempo, a cama do leito amargo

sem nos sentirmos enlaçados nas pernas

na língua de folhas doces

o chá afrodisíaco do sémen escorrido

seiva de amor

escorrida na cegueira da carne olhar

nas lágrimas de sal, tempero da separação.

A noite lentamente amanhece o meu poema

na periferia de meus lábios nasces

da saliva fecunda, deixado sabor recordação

um coração se forma e lateja espasmos

nas linhas deste poema de socorro a

náufragos.

 

Nelson Aires 14/05/2000

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Retratos
Na mesa aveludada
os retratos liquefazem-se pelos umbrais da noite
na cumplicidade da seiva escorrida nos abetos
no tronco das mulheres
tatuadas nos sexos dos anjos.
Percorro o rasto das imagens pelo mar do tempo
as molduras de madeira ressequida
pelas térmitas dos dedos, afogam-se
no sal dos peixes
minha boca navega acima dos náufragos retratos
a bombordo dos lábios uma imagem
agarra-se á ancora recolhida
corroendo o aço com seu sorriso obliquo.
E uma criança dá à costa, perdida
na espiral de um búzio encarnado
ressoando o marulho das tempestades
e das bocas perdidas em corpos dourados
enclausurados entre os vidros
e os papeis das fotos
essa prisão de pena perpétua
sob a forma de enigmáticos sorrisos.  
 
Nelson Aires 04/06/2000
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Sem te tocar I

 

Emergir da areia onde te deitas

pairar sobre a fisionomia das almas

e dar-te um nome de água

para correr um rio sobre as dunas.

 

Escavar os dias de chuva

e os tapar com a música inaudível das fotografias

essa Fotocromia que me pinta

onde ergo o olhar para fora dos dias.

 

Diluído na fantasia construo a obra de vidro

É o derreter da areia que construo

quando quero propor-te o orvalho da noite

onde o acromo passado morrerá após o sono.

 

Nomear-te para os sonhos de papel

fertilizando o ciclamor

e em cada vermelhar cordiforme, pulsar

o medo dos nocturnos corredores

onde as aranhas se recolhem no silencio.

 

Nelson Aires 15/07/200

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Sem te tocar II

 

O rosto de expressão profunda

brota em mim uma candeia interior

por onde a veia negra se asfixia na luz

ilumina a mão que te esboça o sonho

e o sangue turvo derrama-se sobre as fendas

expulso pela vontade de dividir

que tece novos fios de sangue

entrelaçados pelos teus dedos que imagino

 

O silencio alimenta os cometas

as suas caudas envolvem teus cabelos

imagino terem o aroma do voo da borboleta

 

Escrevo-te na concavidade da insónia

a tremura aloja-se na copa das árvores

quando passeio pela noite aberta nas mãos

e a lua da largura do olhar

a coloco sobre ti

sabendo que é comum aos dois

 

Uma criança caminha pelo meio das areias

filho de uma outra paragem

onde abriste porta para a eternidade

descendência luminosa onde a chuva se abre

para dar lugar aos passos da inocência

 

O espirito anda à solta

rodeia-te em abóbadas de mistério

os odores secretos deambulam nas letras

as noites sensíveis com castiçais de areia

 

Aqueço o espaço livre com álcool das vinhas

a miragem é a do douro que desliza no teu verde olhar

as quantidades são medidas

apenas para o voo ficar mais leve

e os sentidos mais sensíveis ao sonho em marcha

o álcool trabalha o sangue

tecendo a flor da videira

adocicando o néctar das abelhas.

 

 

Nelson Aires 03/09/2000

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Sem te tocar III

 

A mulher ansiada passeia com seu violino

a pauta abre-se para novas notas

o ritmo oscila na minha saliva

e engulo os sons dos gestos

enlaçam-se as cordas vocais

na madeira brilhante da serenata do olhar

 

A mulher respira e passa a mão pelo horizonte

a linha imaginária sente-se na inspiração

recolhe-se na indecisão das estátuas

o movimento não se efectua no mármore polido

a pedra mantém-se fria no exterior dos dias

mas no interior fulgura o ritmo da lava oceânica

 

Perante o ritmo a Íris vermelheia a retina

envergonhada na pálpebra caída

os trabalhos do sol fundem as almas

lentamente a espessa camada de neve escoa-se

resvala na pele de transumância aquosa

 

As palavras queimam-me a língua o caminhar

o doce café empunha a colher de prata

sobre o trabalho do sorver lento

levanto os olhos num deslizar ascendente da pálpebra

escorrego então na fera que me doma o chicote

e a pontada de fogo o derrete das mãos

 

Por este corpo fissura a luz das estrelas

sinto-me um animal cativo

espumando a seiva dos sentimentos em orgasmo

crescendo um novo órgão emplumado

sobre o voo na cauda de um pássaro flamejante

lançando flocos de algodão salgado

sobre as águas dos rios

longe dos mares

e criam as margens de espuma salgada

onde a silhueta da mulher doura a pele

e a nogueira ecoa a vida das cordas.

 

Nelson Aires 12/09/2000

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Sem te tocar IV

 

A espera prolonga-se pelos areais do mundo

é propositada a espera nos lábios

que se incendeiam nos passos do teu gesto

 

É certo que o teu sorriso omnipresente

acompanha a centrifugação das ondas

deste mar salgado onde me deito

e cavalgo nas linhas de água crepúscula

flutuo com serenidade sobre a espuma

que anuncia a chegada do areal

e a impressão adocica a superfície das conchas

 

Prolongo a espera em poemas

onde o papel se pode trincar

com as mãos e os dentes

e vêem a mim o sabor dos frutos silvestres

por entre os ramos das árvores

que me inspiram para a espera

 

É certo que o mar

não preenche a tua ausência

mas aponta-me a imensidão do teu olhar

e a fulguração das chamas

 

Prolongo a espera talvez propositadamente

deixo que a hera da paixão se incendeie

sem nunca ter raspado na tua pele

para assim a certeza habitar no calor das cinzas

uma temperatura que se conserva

e acolhe os animais em seu sono.

 

Nelson Aires 17/09/2000

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Sem te tocar V

 

A lestia corrente aproxima-te-me do mar

transportas a ventania no teu colo

ar que rareia na tua ausência

afogando a água os peixes

e os corvos paralisam-se suspensos no sentido

 

As asas negras da lapidescência nocturna

debatem-se e cobrem o mistério de plumagem

a pressa é insignificante no olhar do voo

tornando-se lívido o rosto emergido das águas

vendo o plano traçado na vertical altura

a linha de terra o horizonte de tua silhueta

 

A velocidade do ar acorda-me-te

e os jardins do mar contorcem-se nas correntes marítimas

para uma chegada que se ilumina um pouco há noite

...nem os lençóis humedecidos de éter

seguram a embriaguez tecida no perfume inominado

 

Os cabelos tocados pelos dedos da distancia

são envolvidos por um lenço de ar azulino

destacando-se as linhas taciturnas de um gesto segredado

com novelos de ouro a abrirem-se pelos ombros

e o vício do pouco sono impregna-se mais em mim

quase atinge o centro dos átomos

quando vejo o corvo partir gravado

nas estrelas que se fecham

e o desfecho anónimo

para a vigília do seu respirar.

 

Nelson Aires 24/09/2000

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Sem te tocar VI

 

O mar abriga agora as primeiras folhas de Outono

a natureza despe-se do passado

e reciclam-se as cores primárias:

o mar

o fogo

o sol

 

Vêem à costa fragmentos das águas de verão

a luz curva-se no seu interior

e os dias recolhem-se mais cedo na leveza das estrelas

o pano nocturno acolhe os amantes corroídos de desejo

e eu acolho a noite no interior da luz

emergindo a imagem do teu quarto sobre a distância desconhecida

tiro-te do ventre do sonho

para juntos olharmos as águas graves de Outono

nestes dias de lapidescência invernosa

 

Escuto: Sobre o momento do rebentar das ondas

explode a vontade declaração das águas à terra

a lama esse fruto que cresce da terra

alimenta o fogo na fornalha das bocas

extinguindo-se para o objecto moldado no silencio

 

Nelson Aires 01/10/2000

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Sem te tocar VII

 

Os passos outonais ganham mais profundidade na areia

na concavidade do rastro persegue-me o vento de frente

levando o presente de caminho para o passado

abrindo clareiras de cintilações aquosas no reflexo do dia

 

Os trabalhos do mar recomeçaram

a musica foi violenta

e a dança das águas expulsou o limo residente

o areal defeca o lixo de reciclagem centenária

e um muro de betão cresce

sustendo-te acima dos elementos não desejados

 

Eis então que se criou a ausência do que me rodeia

envolvendo-me nos reflexos do cobre das árvores

que sombreiam ao longe os teus cabelos

iluminando os minerais da rocha artificial

oxidando o tempo da tua inexistência

 

Caio na tarde premeditória da noite

o veneno da espera forma-se na saliva das palavras

o antídoto algures num vidro

onde corre a condensação do vocabulário

expandindo-se de volta às águas deste mar.

 

Nelson Aires 05/10/2000

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Sem te tocar VIII

 

Neste mar de reflexos desejosamente inocentes

o sal corrói lentamente as areias sombreadas

pela luz obliqua o relevo evidencia-se

o escopro crepuscular é exímio no delinear emocional

 

A musica inaudível do acaso aconchega o abraço

ergue-se a figura aquosa de semelhante mobilidade turvada

pelo vento paralelo à linha do horizonte

o prazer invade-me as narinas

desse ar que corre em torno de alguém

 

O nítido desbotar das árvores posiciona-me no tempo

o abraço é urgente

porém o animal necessita da lã

e o fuso e a roca adormeceram no aconchego do fogo

 

Resta-me e anseio o veludo da noite

emergindo o sonho vinculado nos lençóis

onde o peito inunda-se de voos

e os barcos encontram os seus cais de desembarque

na humidade que escorre pelos vidros da alba.

 

Nelson Aires 05/10/2000

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CONDENADO

 

Condenem!

Minha alma,

Meu corpo

For favor!

 

Condenem-me!

Por viver ao contrário da vida,

Estilo que criei,

Gostar da alegria de pernas para o ar,

Até ficar-mos azuis ou vermelhos.

Fico alegre assim.

 

Condenem-me!

Por usar as pessoas,

A vitima em que me torno,

Para sofrer e sofrerem.

Relações impossíveis,

Cálice da vida eterna.

 

Condenem-me!

Por amar a lua,

E me achar seu dono,

Seu único filho

As estrelas mãe.

 

Condenem-me!

Pelo crime contra a morte,

Suicídio falhado.

 

Condenem-me!

Porque meu corpo é papel

E preciso mais das letras

Do que da carne.

 

Condenem-me!

Tudo em que toco,

Se transforma em letras,

Sou um monstro insaciável.

 

Condenem-me!

Para sentir as barras de aço

Como gelo na face

Aprisionado corpo.

 

Condenem-me!

Por assim me sentir

feliz mais infeliz

Trabalho melhor.

 

Condenem-me!

Minha forma são alfabetos dispostos

Para me desfazer na literatura,

Escoando-me pela ponta dos dedos.

 

Condenem-me!

Só assim ficarei mais triste,

Alegre por o ter conseguido

Cheio de vida

E pedir desculpas á morte

Por ter falhado.

Agora vou conseguir!

 

 

Nelson Aires

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CORTINAS DE ÁGUA

 

 

Saciaram a sede com o mar,

Alguém bebeu de sua água,

Um gigante talvez.

Agora o manto de areia

Governa planamente.

 

Onda vem

Desenrolando-se na areia,

Onda vai

Levando memórias,

Alimento da sereia.

 

Fazendo espuma,

Bolhas de sal,

Cortinados de água,

Lençóis engomados de areia.

 

Caminho junto á orla de espuma

Pelas línguas de areia,

Vejo as marcas do rebolar dos nossos corpos,

Ficávamos tontos...

 

Uma onda invadia a areia

E com a espuma

Passávamos a mão

No corpo um do outro,

Esfregavas-me as costas

Eu sorria...

Esfregava teus pés,

Tu rias-te ás gargalhadas.

 

Com as bolhas de sal,

Completávamos o banho sensorial,

Nosso divertimento,

Olhar nosso reflexo

Nas bolhas e ver o que não existia,

Depois elas rebentavam...

 

Com o cortinado de água

A correr pela fina areia,

Me lembro da janela,

Do quarto onde...

Nunca estivemos...

 

No lençol de sílica

Onde rebolávamos,

Me lembro do cetim,

Da cama,

Do quarto onde...

Nunca estivemos...

 

Das dunas

Nos amávamos secretamente,

Me lembro da...

Almofada do teu ombro,

Do teu corpo,

No quarto onde...

Nunca estivemos...

 

Dos cristais de areia

Que víamos a brilhar,

Me lembro do candeeiro

Ao lado da cama...

Que nunca o acendi

E via teus olhos semicerrados

Para conter o prazer

O meu prazer

Tinhas vergonha,

És tão tola...

No quarto onde...

Nunca estivemos...

 

O pôr do sol

Que nos tingia de vermelho,

Me dizias:

Agora sim,

Nos teus braços morreria...

Estou completa...

 

O pôr do sol

Me lembrava

O quadro

Na parede do quarto

Que nunca existiu...

 

A maré engordava

Alimentava-se

Da areia fina

De nós

De mim.

 

Grãos de areia molhada

Me tornei

Dispersos pelas marcas

Em que estive contigo,

Aqui, ali e acolá,

Na praia

Onde nunca estivemos...

 

 

Nelson Aires 24/03/00

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GOTAS

 

 

Cai... cai em gotas,

Gotas mil faz a força

Gota inofensiva

Em mil aguaceiro.

Cai... cai em força,

Aguaceiro, a raiva do céu

Água que bate no pó

O levanta no ar, repousando-o

Cai... cai livremente,

O cheiro da terra molhada,

A terra com sede

Absorvendo sem deixar,

Vestígios da cascata de gotas.

Cai... cai, não te esgotes,

E limpa o castanho

Das flores, das plantas,

Liberta o verde, a esperança

Prisioneira do pó.

Cai... cai além da nuvem,

Liberta o arco-íris

E nos colorir

Neste dia cinzento.

Cai... cai nas sete cores,

Ponte entre a terra e o céu

Cordão umbilical

Da terra mãe

E o pai céu.

Cai... cai me levando,

Em bote de água

Pelos rios de terra.

Cai... cai colar de gotas

Em fio de ar

Para presentear e vestir

O pescoço do meu amar.

 

 

Nelson Aires 02/04/00

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PEAS

 

 

Água que corre

Ficando aprisionada

Num lagar,

Lavagem da alma.

 

Começo por despir

Meu calçado,

Por onde segui

As suas vontades.

 

Dispo a lã

De meu tronco,

Onde te encostavas

E adormecias inocentemente.

 

Dispo da ganga

Das pernas,

Onde nos estendíamos

Ao comprido.

 

Dispo entre as pernas

A folha de Adão

Onde contém

Restos de pudor.

 

Dispo meu cabelo

Fios de seda castanha

Onde teu nariz

Tuas mãos, se perdiam.

 

Dispo-me de ti

Nua alma me torno

O vazio

Para reconstruir.

 

A água sem culpa

Vai lavar

Os restos que mancham

Minha pele.

 

 

 

Nelson Aires 26/03/00

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PEDIDO

 

 

Peço-vos para...

 

Não chorarem o que canto

Não sonharem

Com as letras de meu encanto

Analogias minhas.

 

Não escrevo para...

 

Vós,

Ela,

A vida.

Escrevo para mim.

 

Não me roubem...

 

A intimidade dos lençóis brancos

A vida preto no branco em negativo

O sentido do amor sem sentido

O seu perfume na tinta camuflado.

 

Deixem-se de...

 

Sentir como se fosse vosso,

O que vivo,

O que vivi.

É meu, só meu.

 

Escrevo para...

 

Me digitalizar,

A digitalizar,

A ela,

Á vida.

 

Escrevo ainda para...

 

Gravar meu presente em:

Na água emoções,

No ar tristezas,

No fogo alegrias,

Na terra amores passados.

 

Mais uma vez deixem-se de...

 

Analisar o papel

Onde estou digitalizado.

Eu é que tenho de entender,

Não vocês.

 

Ainda insistem?...

 

Não me plagiem

Para as vossas vidas.

Que culpa tenho eu,

Que vos falte algo?

 

Pela última vez...

 

Não escrevo para vós!

Nem o quero, já são crescidos.

Me imprimo em papel vegetal

Para minha alma

Usar como calquitos,

Noutra vida, no outro lado,

Quero exactamente o mesmo...

 

Nelson Aires 22/03/00

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UMA FLOR

 

 

Á noite te recolhes

Embrulhas-te em leveza

Na penumbra do meu olhar

O sono da tua beleza.

Acordas com a frescura pousada

Das gotas de orvalho ressoado,

Da humidade condensada

Suspiros de nosso amor prateado.

Lentamente com o meu olhar

Te vais recompondo

Desabrochando tua cor, impondo

Meu olhar a brilhar.

O teu corpo, o caule balança

Sustento, enraizado

No algodão de minha cama

Se endireita, numa dança,

Onde me deixas hipnotizado.

Teus braços, as folhas

Se abrem espreguiçando

Abraçando,

O ar que respiro,

Que te alimenta

Em meu retiro.

Tua cabeça, essa flor

Se ergue, me mostrando

As pétalas do teu cabelo,

A sombra do teu sossego,

A almofada do teu olhar,

O pólen néctar de teus lábios

Adocicando meu acordar

De todas as manhãs...

 

 

Nelson Aires 04/04/00

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XAILES PRETOS

 

 

Como num carreiro

De formigas pretas,

O cortejo do adeus

Caminhava, mas mais lento.