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Tó Mané
 

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Do outro lado da janela

A noite estava gelidamente fria e o vento irado cortava assobiando pelas ruas. As lâmpadas coloridas de Natal, orquestravam entre si sons finissimos de tilintares continuos numa melodia suave. As pedras sob os nossos pés espelhavam a arte em movimento das pinturas de côr vindas de cima emanadas pelos enfeites altivos da época religiosa. De vez em quando aqui ou acolá, ouvia-se um som como se fosse o de um regato de água, numa esquina ou numa sargeta. Cá em baixo, as montras das lojas, envaideciam-se cobertas de luz como se de vida possuissem. Lá em cima uma janelas de madeira encerradas protegendo os seus donos do frio e do vento. Esporádicamente um motor de um carro ia trabalhando lentamente até perder-se dos nossos ouvidos.

A rua, era deserta de vida humana... a não ser um menino que a descia. Calçava botas fortes de couro e umas velhas calças, mais molhadas do que sujas. O tronco servia-se de um forte casaco velho sobre uma blusa de lã e pela cabeça, um gorro bem aconchegado terminava as vestes daquele rapazinho. Os passos eram lentos e os seus olhos contemplavam as montras, qualquer uma, não interessava se era de brinquedos, ou outra coisa qualquer. Bastava ser uma montra iluminada de luz e de sonhos infinitos. Montras repletas de vida no além. Montras que faziam dos lábios do menino, transparecer um leve sorriso e uma estrela de cristal vibrar nas suas pupilas. Acabado o sonho de uma montra voltava a tristeza naquele olhar cabisbaixo contanto as pedras que as suas botas calcavam chapinhadamente, até chegada outra montra para renascer outro sonho, diferente do anterior, diferente de todos os outros. Uma nova viagem começava para ele. Os olhos voltavam a sorrir alegremente e a sua boquinha entre abria-se. Mais uma viagem alucinante aquele menino iniciava. Vamos chamar-lhe de "Zé", uma vez que não sabemos o seu nome. O Zé nem dava pelo cair das gotículas de água lançadas pelo vento nos seus ombros e já nem sentia a diferença do seco ao do molhado. A sua imaginação não tinha limites. Era o menino mais rico do mundo nesse momento. Era o sábio mais sábio, o dono da rua, da cidade e da noite. Tinha todo um mundo só para ele, em cada montra uma viagem, uma vida, qualquer delas mais saborosa do que algum menino poderia imaginar ou ter.

Nesse instante, o Zé nem se tinha dado conta, que junto às suas pernas um cão rafeiro tentava um pouco de afecto pingando de água. A sua mão estende-se fazendo-lhe uma festa na cabeça e agacha-se perante o quadrúpede – meu pequerrucho – disse-lhe o Zé enquanto passava as mãos sobre o seu pelo encharcado. A língua do rafeiro tentou beijar os seus dedos. Mais uma vez, o Zé acaricia agora desta feita no pescoço do animal e vai caminhando continuando a olhar as montras iluminadas, agora já com um amigo. O rafeiro acompanhava-o, ora olhando em frente, ora para cima na direcção do Zé. A rua continuava só deles. As montras já não desvaneciam sonhos tão profundos como os anteriores. Já nem eram necessárias montras para o Zé sentir a vida própria elevar-se. Sentia que algo tinha mudado a partir do momento em que o cão tinha aparecido. Não estava só. Tinha companhia, um amigo.

O tempo ia passando e a rua não terminava. Também não havia pressa. Do lado direito, uma janela de primeiro andar iluminava um ponto escuro da rua. Do lado de lá dos vidros serapintados de água, umas cortinas claras faziam denotar umas sombras em movimento. O Zé aproximou-se levantando a sua cabeça como se quisesse espreitar. À medida que mais perto se encontrava, ia ouvindo sons de palavras salteadas de crianças e adultos. De vez em quando notava um piscar de luzes coloridas encobertas pelas cortinas. De vez em quando também entravam nos seu ouvidos umas gargalhadas ou uns risos vindos da janela. Nessa mistura incompreendida de sons, ouviu – ena! Um carro grande! - , ao mesmo tempo também talheres tocavam música em pratos de louça imaginada pelo Zé. Lá dentro, aquela família comemorava a festa da paz no mundo, do Nascimento, das crianças, dos adultos, da vida, comemoravam o Natal. O proprietário, um senhor de grande porte de olhar meigo fumava o seu cachimbo da paz ouvindo com redobrada atenção a conversa que o seu cunhado estava tendo com ele. Do outro lado da sala, ao canto um pinheiro verde e luzidio de cores vibrantes cintilava junto às crianças. O rasgar de papel de embrulho de variadissimas cores e padrões brilhantes, ecoava na sala sem terminus. As mães carinhosamente pegavam e distribuiam os presentes às crianças. Na mesa, dois rapazes e uma rapariga, apreciavam as iguarias caseiras elaboradas para esta ocasião especial. Ela, com 17 anos de olhos verdes e cabelo comprido castanho escuro saboreava um bombom enquanto mostrava ao seu primo e irmão o presente que o pai lhe dera: um conjunto de pulseira e fio de pôr ao pescoço em ouro. O irmão, dois anos mais novo contemplava o computador portátel que recebera de presente ao mesmo tempo que ouvia a irmã envaidecer-se da oferta que recebera. O primo, esse recebera poucos presentes nesta ocasião, pois os pais já tinham comprado uma moto de seiscentos centímetros cúbicos na véspera. Sobre a mesa, haviam bolos de todos os tamanhos, sabores e feitios, garrafas com bebida e copos de cristal, bombons e rebuçados, enfim, uma fartura de coisas doces e boas. Ao centro da mesma, um arranjo enorme de azevinhos com um castiçal no meio. As crianças no chão da sala brincavam já com os seus presentes e as mães vaidosas apreciavam deliciadas os seus mais que tudo. O aroma a pinheirinho e a música de natal completavam o clima que se vivia no seio daquela casa de alegria, felicidade e bem estar. Lá fora continuava a cair uma chuva miudinha e a rapariga que recebera a pulseira e o fio levantara-se da cadeira. Veio à janela espreitar a rua olhando o céu escuro lembrando-se do namorado que neste momento estará noutra casa, com a sua família comemorando também o Natal, pensando que estará ele também, agora ao mesmo tempo noutra janela olhando o mesmo céu recordando-se da sua namorada apaixonada. Depois, ela olha para baixo e vê o menino mais o seu cão sob a janela cruzando o seu olhar, o seu mundo.

Lá fora, o Zé vendo aquela pessoa entre as cortinas, desvia o seu olhar e continua rua abaixo muito vagarosamente olhando uma montra ou outra acompanhado pelo seu companheiro momentâneo. Um gato passa na rua que se cruza com esta e o cão ladra. A seguir recebe uma festa a mais do Zé e continuam os dois rua abaixo na sua paz, senhores de si próprio e da noite. Uma montra cheia de brinquedos desperta a atenção do menino. Eram carros, bonecos, casas, pistas, bolas, um infindável mundo de brinquedos. Agora, em vez do olhar brilhante e cristalino habitual do Zé, ficou com um olhar triste e melancólico, sabendo que nada daquilo ele possuia. Colocou a palma da mão no vidro enorme da montra húmida ficando estagnado olhando-a. O cão tenta colocar as patas sobre o beiral da montra e o Zé faz-lhe mais uma festa na cabeça. Resolve continuar o seu percurso, triste, muito triste, pensando porque será ele diferente de todos os outros meninos. Porque será que não tem brinquedos como aqueles que viu na montra – um dia hei-de ter muito dinheiro quando fôr grande para comprar muitos brinquedos para mim – pensou ele. E lá foi ele mais o seu cachorro de rua, de baixo de chuva e vento, de frio cortante nas faces.

A casa de pedra vulcânica caiada de branco sujo e velho, já era visível aos seus olhos. A porta castanha, de falhas, deixava uma brecha junto ao chão bastante larga suficiente para deixar passar o vento e o frio. As suas mãos agarravam a maçaneta da porta exercendo força para a abrir. Um som forte e pesado faz-se ouvir das dobradiças. Depois – fecha a porta moço! Não vêz que faz muito vento? – ouviu-se lá de dentro. Era a mãe que estava na cozinha fria e húmida fazendo um bolo simples para ser comido na manhã seguinte, no dia de Natal.

- O pai, mãe?

- Então, não tiveste com a tua tia?

- Não estava ninguém em casa, mãe.

- Devem ter ido à Missa do Galo... filho, depois a mãe compra-te um presente de Natal, porque o pai não o pode comprar antes. Não tinhamos dinheiro.

- Eu já tenho o meu presente mãe.

- Quem te o deu rapaz se a tua tia não estava em casa? E leva esse cão daqui para fora que ainda pega alguma doença à tua irmã... está-me a molhar o chão todo da cozinha!

- Ninguém... encontrei-o, é o meu amigo Natal.

 

FIM

António Manuel

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