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Sherezzade

Ultima actualização 21/12/2005

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4 CONTOS EDITADOS

- Esperas sem tempo

- O Lacrau

- A notícia

- Questão de honra

 

Caminho da Beira Baixa

Sherezzade

 

 

 

 

  Esperas Sem Tempo

 

O barco arrancou. Suavemente, nascente acima. Fitas de ondas, muito leves, como que se desfiavam atiradas por mão invisível do casco bolorento e sem cor. Faziam lembrar aquelas ondas pequeninas que se formam quando nos lembramos de lançar qualquer calhau para uma lagoa adormecida. Em círculos, a água como que se sacode em tremuras até acalmar novamente.

Assim o barco, sulcando devagar aquela vastidão do rio, deixava para trás um rasto de serpentinas líquidas que, da margem, Parrinha observava.

Era um daqueles miúdos que pareciam ter sido criados com o cuspo dos homens. Pertencia à lezíria, ao mouchão, como um fruto pertence à árvore e um touro à campina. Como muitos outros miúdos, aliás, a surgirem aos encontrões na vida, já desenganados e sem um arrimo certo.

Viu o homem e a mulher começarem a dirigir a pequena embarcação. Todos os dias, àquela hora, a mesma cena. O barco arrancando, suavemente, nascente acima. O barco era sempre o mesmo. As gentes eram sempre as mesmas. Gostava deles, que sempre lhe davam umas migalhas de atenção. Um gesto de longe, um braço levantado, um aceno de mãos. Poalha de afectos, de ternuras, a inundarem-lhe a alma sedenta. Moravam no esteiro, mais arriba, em barcaça velha. Reparou na destreza de ambos, afoitos às andanças no rio, como se na água tivessem nascido e sempre assim tivessem andado de tamanhinhos. Ela, muito firme na proa, robusta e trigueira, equilibrava o corpo sem esforço, olhos encastoados no horizonte, mãos hábeis desembaraçando o cordame. O homem, já velho e encarquilhado como um pergaminho, seco de sol e maresias, colocando a espicha nas velas, assobiava baixinho uma cantilena já moída pelos anos. E o barco avançou no mesmo trecho do rio, bem devagar, em movimentos ondulantes, sincopados, numa preguiça de tempo.

Do ponto onde se encontrava, Parrinha podia ver os outros barquitos que ficavam, quilhas inclinadas na areia escura, manchas de colorido no cinzento pardacento da tarde, emprestando notas vivas à vida parada da lezíria.

Era um espectáculo já gasto, este de olhar o rio. Mas ele para ali vinha, teimosamente, todos os dias, àquela hora, esperar ver nem saberia bem o quê. Talvez um outro barco, trazendo uma mãe tardia, vulto esfumado pelas lembranças, que um dia se soltara da vida para ir para lá das nuvens, tratar do menino Jesus como lhe tinham dito, para acalmar a ansiedade. Ou então, talvez só o Tejo, simplesmente, em delongas friorentas para a foz, escorrendo em pequenos soluços, a baloiçar num ritmo constante as pequenas embarcações presas aos lodos do fundo.

De quando em vez, em círculos calculados de precisão, bandos de gaivotas pipiavam, rasando as águas em debiques de alimento fresco. A barulheira que elas faziam! Uma vez até sonhara pescar uma gaivota. Estava irritado. Apetecia-lhe uma vingança, qualquer que fosse, em relação à vida. Que ele até nem era mau de todo, como proclamava a D. Fernanda aos quatro ventos quando lhe chamavam a atenção para o isolamento do rapaz e a vida esquisita que levava. Para os putos era o “mosca-morta”. Talvez por isso quisesse descarregar o seu ódio dos outros nas pobres das gaivotas. Aquela, então, isolada do bando, ficava quieta, no areal molhado, esperando não se sabia bem o quê, descansando numa perna mal cicatrizada. Lançara mão de uma linha de desperdício à qual empatara, num anzol já velho e ferrugento, um daqueles peixinhos miúdos que Zé Pescador deitava fora. E, zás! Água com a isca. Mas a gaivota era esperta e nunca quis nada com petisco de fácil catadura. Parrinha desistira. Daí para a frente, ficara-se a olhar as gaivotas e o seu mundo, muito calado e quieto, com o seu olhar de peixe morto, como se por si só o mexer-se perturbasse a ordem das coisas. O seu olhar varria, então, perdido, esse mundo de casas velhas e baixas, barricas de madeira e redes alagaçando o areal, as campinas ao longe esfumadas pelas brumas da distância. Nunca percebera porque as via sempre tão azuis. E depois, tudo lhe parecia sempre tão igual, tão uniforme no tempo. Apenas o ancoradouro, esteira mal alinhada de troncos díspares, ressaltava numa imagem bolorenta de humidade que o sol apenas secava e mal nos estios. Os miúdos pelavam-se por brincar ali, naquele recanto, lançando vestido à água o mais confiante do grupo. Depois, saltavam todos num chapinhar seboso até que, fartos e desencantados, se rebolavam nas ervas, à beira rio. Catavam os limos das roupas e deitavam-se virados ao sol, a secar a gordura de uma água poluída, mascando palhinhas arrancadas de fresco.

E uma aragem fria, transpirando já odores de inverno, sacudiu em movimentos fortes as roupas estendidas nos varais. Levantou um pouco da terra seca e fez ondular ainda mais as águas paradas junto ao pontão. Parrinha olhou em frente. Como era bonito o rio! Como ele amava aquele rio! Quase fugindo, numa linha esguia e sem profundidade, o mouchão da Póvoa, rasteirinho, sem árvores de grande porte, espreguiçando-se Tejo fora, como numa pressa de chegar ao mar. Um dia, ainda havia de atravessar para a outra margem, descansar naquele lugar de ninguém e sonhar que estava longe, muito longe, suficientemente longe da chateza da sua própria vida. Tal e qual o Ricardinho fazia, o filho da professora, menino palerma e pasmado, sempre muito limpo e a cheirar a sabonete, como se a vida ao passar por ele tivesse receio de sujar aquele anjinho. E o Ricardinho, nos seus passeios de Domingo, lá partia com os papás, os manos mais pequenos e o cesto da merenda para o mouchão. Saltava para o barco do avô depois de ensaiar o pulo, não fosse salpicar de lama esverdeada as peúgas brancas e as botas de carneira. Pois um dia ainda havia de atravessar o rio como o outro, cesto de merenda e tudo. Havia de lá ficar, muito tempo, todo o tempo do mundo, deitado sobre as ervas, para olhar as estrelas. E cada estrela havia de contar uma história. E cada história tinha que ter um pai e uma mãe e muitos filhos e todos felizes para sempre. O seu olhar varreu uma vez mais aquele pedaço de rio, o mouchão, num desejo de posse adiada.

Mais para a sua esquerda, o areal pejado de ervas secas, o chafariz emudecido esperando fregueses. Sentia-se ali bem, numa espera sem tempo, gozando a paz da tarde. Quando o dia amanhecia já assim, cinzento e sem brilho, daquele cinzento que embacia casas, árvores, roupas estendidas às janelas, ele sentia em si a irrealidade das coisas que o fim da tarde trazia. Do rio, começava, então, a desprender-se uma neblina húmida, irritante, que se lhe entranhava no corpo, pegajosa. Começava a subir, a subir, lençol esbranquiçado cobrindo a terra, cobrindo a vida, cobrindo os medos. No entanto, apreciava aqueles momentos. Roubados a maior parte do tempo aos recados do Chico merceeiro, eram os únicos momentos do dia em que se sentia verdadeiramente bem, longe do chiar repetitivo da borracha no asfalto, da garotada ruidosa do seu bairro, dos arengados estridentes dos vendedores. Estes, quando o topavam quieto numa soleira de porta, fabricando um barquinho de cana, arremessavam-lhe como pedradas:

- Não sejas maricas, rapaz! Vai mas é jogar à bola com os outros!

Como doía, Santo Deus!

Ficava pior era quando lhe gritavam lá na tasca do João Firmino, entornando obscenidades nos seus ouvidos e o despediam porta fora, com um pontapé no traseiro:

- Eh! Parrinha! Vê se medras, fedelho!

E ele fugia, lágrimas quase a rebentarem-lhe pela cara, numa fúria por se sentir impotente para exigir qualquer desforra, explicar fosse o que fosse. Só acalmava no rio. Era um cantinho privilegiado aquele. Tudo via mas não era visto. Para trás, ficavam as casas tão iguais da Póvoa no seu sarro de fumos e de poeiras. Para a frente o sonho, o rio, a sua grande praia de verão e que era só dele. A separar estas duas realidades do seu dia a dia, apenas uma moita, enorme e sem graça, coito de cães mal cheirosos e abandonados. Mas era a sua moita, o seu visor do mundo, o seu limbo antecipado. E era esta intimidade com o seu mundo que lhe dava o maior prazer. Apreciava a solidão como quem saboreia um bom petisco. Noutros momentos, desvendadas as bisbilhotices ribeirinhas, orientava a sua curiosidade para outros campos, procurando um outro mundo de segredos.

Gostava então de reparar nas folhas, amarelas e vermelhas de queimadas, quando subia aos montes, lá para os lados do Cabeço da Rosa, por alturas do S. Martinho. Também elas, na sua quietude de fim de tarde, pareciam esperar não se sabia bem o quê. Mas ali, tremendo em frémitos ligeiros pelas brisas do rio, eram sacudidas de quando em quando num estertor de outono, desprendendo-se logo em seguida para virem ziguezagueando, silenciosamente, de encontro ao solo. Assim gostava de ficar, como elas, esquecido no conhecimento dos outros, deslizando silenciosamente pela vida.

E naquele dia assim ficou, amolecido o corpo numa pedra, a olhar o esfumar-se da tarde, também ele num esquecimento de tudo. O céu acabara por se ir tingindo nos tons pálidos do entardecer, quase sem se dar por isso. Em gradações lentas, a lezíria passou a uma outra calma, típico prelúdio de fim de dia. A pouco e pouco foi-se a garotada recolhendo, uns para a vila, outros para os barcos. Do estendal, uma peça ou outra que se apanha com a lentidão dos gestos gastos. O fumo, penachos curtos empoando o ar, começa a soltar-se de uma ou outra chaminé.

Parrinha vê Ti Maria do Brejo. Vestindo de negro, passa no seu andar arrastado de paquiderme, varizes atropelando-se no bojo das pernas, equilibrando no alto da cabeça um cesto de vime. Sentia ternura por Ti Maria do Brejo mas não a saberia demonstrar. Não aprendera ainda a mecânica dos afectos. Quantas vezes lhe não dera ela carícias de mãe, o aconchegara em noites de inverno e o protegera das mãos pesadas do velho Covais. Ti Maria do Brejo sorri-lhe quando o vê, acenando-lhe com a sua mão grossa e sapuda de varina, orlada de pulseiras e anéis de ouro fresco.

- Tu é que a levas direita, meu magana! Rica vida, filho, rica vida!

Lá se foi, como todos os dias, com o seu cesto de vime cheio de enguias vivas para vender na Póvoa e o seu casaco amarrado à cinta.

E um silvo agudo, estirado para as bandas da estação, irrompe na tarde. Ao mesmo tempo, para os lados de cima, outros silvos, mais cortantes e prolongados, salpicam o silêncio. E as fábricas, vomitando gente, lançam em golfadas de turnos uma multidão cinzenta. Vozeirando em falas contidas, ocupa motorizadas, sobe para as camionetas, devassa as estradas.

O miúdo sobressaltou-se, acordando da sua quietude morna. Tinha que chegar a casa antes do pai. De pequeno já tinha medo dele, da sua voz, das suas pancadas. Guardou, entre as mãos, a concha rósea de vieira que encontrara. E numa corrida doida, devorando segundos, abalou caminho fora pela quelha do rio, apertando o tesouro da sua descoberta.

Covais assomou ao postigo e escarrou para fora. Por momentos ficou-se a olhar o vaivém dos pombos, num voltear constante sobre o casario baixo. Apetecia-lhe embirrar com os pombos. Mas voavam alto, em círculos grandes, como maquineta comandada à distância. Era uma mancha compacta que no seu rufar de asas o incomodava. Odiava tudo o que fosse bicho. Olhou depois para as cagadelas empastadas no postigo e escarrou novamente. Cuspia assim na vida, nos outros, talvez em si próprio. Por fim, mandou calar com um grito a garotada que ainda brincava em frente:

- Eh! Canalhada! Quero pouco barulho!

Os miúdos galhofaram. Um até tocou-lhe corneta com as mãos, bochechas inchadas, olhar trocado e vesgo de malícia provocatória. Detestavam Covais. Em resposta, largou-lhes uma das suas asneiras e virou-se para dentro. Puxou do banco. Ajeitou-o no ondeado do linóleo e sentou-se nele, dobrado sobre si mesmo. Das calças puídas tirou o macinho das mortalhas e, lambendo os dedos, começou a enrolar um cigarro. Eram dedos enegrecidos, trémulos, que ele desesperadamente tentava esconder quando da rotina dos meses ao Dispensário de Vila Franca. E quanto mais o médico soltava, muito aéreo e sem o olhar, cigarrilha na mão esquerda e a Parker com aparo de ouro na direita escrevinhando a ficha amarela “...e de bebida? E de tabaco, como vamos?...” e ele, inocentinho como um petiz, enterrando as suas próprias mãos nos fundilhos dos bolsos, a responder num fiozinho de voz que comoveria qualquer anjo, olhando de cima a calva reluzente do outro:

- “Ah! Nunca mais, sr. doutor! Nunca Mais! Pel’alminha de minha santa mãezinha que Deus Nosso Senhor traga em descanso!” – “Corja!”, pensava para si.

O gato passou a correr numa brincadeira inocente. Em pulinhos de caçador, foi saltitando de canto para canto. Depois, numa reviravolta, veio roçar-se-lhe nas pernas, ronronando baixo, buscando uma carícia. Covais deu-lhe um pontapé e o bichano miou.

- Raios do gato! Qualquer dia mato-o!

Continuou praguejando, a tentar enganar-se a si próprio nas razões. E aquele silvo agudo que escutara ainda há pouco, vindo das bandas da estação, entrou-lhe na alma a picar-lhe a solidão. A ausência do miúdo incomodava-o. Sentia-a na sacola atirada sem jeito para um canto do colchão, no vaivém do gato em desassossego. Sentia-a no silêncio, nos pratos vazios, nas roupas em desalinho espalhadas pelo enxergão. E a cabeça a estoirar, a estoirar, em pensamentos. Irra!

Levantou-se, cambaleou, voltou a sentar-se. “Que puta de vida!” – lançou para ninguém, passeando o olhar turvo sobre as paredes esburacadas e os rodapés carcomidos pelo bicho. E dobrado ficou a dobar minutos numa espera enraivecida, o morrão a desfazer-se entre os seus dedos queimados, tão ausente como um sonho bom. Depois, o olhar caíu-lhe na garrafa vazia. Pegou-lhe com desespero e com um arremesso calculado estilhaçou-a de encontro à parede. O bichano sobressaltou-se. Refeito da pancada e do susto, contornou os cacos de vidro e ensaiou uma nova aproximação. Mas logo desistiu. E Covais deixou que os olhos embaciados tombassem uma vez mais na sacola caída, que o pensamento agarrasse a ausência do garoto.

- Filho de uma cadela! Quando chegares abro-te a meio, cabrão de merda!

O felino pulara já sem ruído para a janela. Encurvou o dorso pelado, estendeu as patas dianteiras e escancarou a boca num bocejo. Depois, anichou-se a um canto da vidraça e olhou a rua. E como Covais pensativo ficou, semicerrando os olhos amendoados, remoendo qualquer coisa, numa espera sem tempo.

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Costa da Ericeira

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  O LACRAU

 

Muitos foram os que acorreram à oliveira. Queriam ver o corpo do velho Xarreta. O homem, já sem vida, fora encontrado bem cedo, pendendo da corda, muito teso e já roxo, naquela quente manhã de julho. Como um rastilho, a novidade varrera a vila. Conseguira suspender o bocejo colectivo daquele povoléu entediado, sacudiu a modorra, a pacatez daquele estio já avançado no tempo e foi apanhar-me, ainda empoleirada numa figueira, a esventrar num gesto os frutos que me saciavam a gula e me resolviam as teimosias congénitas do intestino.

Dramática, como o são quase todas as mulheres do interior, nas vestes, nos gestos e na alma, segurando a cabeça enfaixada num lenço de ramagens e chapéu de palha como precauções de canícula, a Carmina apareceu a correr, gesticulando fartamente, a bramir lamentos de circunstância. Vinha esbaforida, quase a galgar caminho à frente dos seus tamancos surrados, tais as ânsias que lhe norteavam a arribação.

-Ai que grande desgraça, menina! Encontraram o Xarreta enforcado numa oliveira. Tinha a língua toda de fora, coitadinho!

Cuspi o figo. Que raio de sensação era aquela? Náusea, vómito, por imaginar o corpo hirto, sujo, do velho António, acarinhado pelo mosquedo que se afadigaria pelas narinas peludas e lábios crestados, pedaço de carne retesado e mal cheiroso que fora gente ou, simplesmente, uma enorme pançada de figos, pelos exageros da gulodice?

Não, não era nada disso. Era uma sensação totalmente diferente. Até de barriga vazia, talvez. Ou, muito possivelmente, um coração a abarrotar de angústia. Caramba, quem se lembraria de morrer numa quente manhã de verão não merecia viver, na verdade. Que escolhesse um soturno fim de tarde pelo outono ainda se compreendia. Tinha pelo menos uma lógica ambiental condutora. O ar e as cores poéticas da meia estação a convidar às lágrimas e ao sofrimento. Um céu de antracite, se possível. Talvez, até, uma chuva miudinha, uma aragem fria, folhas mortas que caem em abandono total. Deste modo, seria tão fácil chorar alguém. Em suma, toda uma atmosfera a empurrar-nos para a metafísica, a convidar-nos à abstracção. Mas assim, com um estio a prometer paixões, quebrantos, sensações voluptuosas tangendo a pele, chiça! E ainda por cima tratando-se do velho António, o Xarreta da minha meninice já tão distante, que se gabava a quem o queria ouvir, numa promoção alarde do seu status de rural beirão, arrotando bazófias de ingenuidade:

- Cá os meninos do senhor doutor criaram-se em cima da minha burra, fiquem sabendo!

Como num toque de mágica, relembrei-o. Esquálido, num desequilíbrio constante sobre as andas das suas pernas, agigantado no porte e na malícia, transportando nos ombros magros um cesto de vindima. Por vezes, um assobio agudo, monocórdico, escapando-se como um eco da caverna do seu peito magro e seco, forrado de fumos e de bronquites. Via-o quase sempre assim. O chapéu roto e amassado, atirado para a nuca em tiques de perplexidade, pirisca bailarina a bambolear-se na comissura ressequida dos lábios e os seus olhinhos pequenos e redondos, muito vivos, de ratazana gorda, a lambuzar gulosos os quadris da nossa lavadeira. E enquanto a jumenta das suas andanças, presa à sombra de uma romãzeira, mascava barbas de milho e cipós da mata enquanto durasse a jorna, o malandreco passava dengoso junto à nossa criada, acoitada que estava a cavalgadura da soalheira, para se roçar rente ao tanque da barrela. E ela, bate-que-bate, a maneirinha da Maria do Carmo, bem cheia de carnes e de perspicácia, enviesando o olhar na apreciação do homem. Na sua gaiatice de se sentir desejada, a moçoila atirava-lhe ao rosto, sem piedade, uma gargalhada irónica, despejando provocação:

- Ora não querem lá ver, seu grande pau de virar tripas! Isto que aqui vê não é para o seu bico!

António, envergonhado por se sentir descoberto, arrefecia. Fazia um compasso de espera naqueles arremedos. E entre cada tentativa e cada vindima, ia-se consumindo aos poucos, numa viuvez já carunchosa, ranchada de filhas para pôr com dono. Apenas um único varão capaz de o ajudar, argamassando tijolo nas obras, que o outro, ainda que macho também, o Américo, ceguinho de nascença, lá se fora criando na montanha como a urze, pascentando as três cabras parideiras do seu sustento e fabricando, a canivete, pífaros de cana. Como isso fora possível, continuava mistério. O garoto nunca se perdera por barrocas e montados desde que perdera a mãe e fora solto para a vida. Como o gado da pastorícia, recolhia ao sol posto, cada dia mais leve e feliz, a embasbacar as gentes, com tamanho milagre de Deus. O Américo sorria a tudo por nada ver. Sorria num sorriso abstracto, vazio de conteúdos conhecidos. Sonhava o mundo e os outros numa paleta de cores muito próprias, muito suas, sem referências. E o sorriso fora crescendo, crescera com ele, alastrava para os outros a cada descoberta, deixando escancarados os gorgomilos do desgraçado. E Xarreta pai, sem compreender, a achá-lo cada vez mais imbecil para a vida. E tudo afinal porque ele, o anormal dos estereótipos, sorria. Vá lá a gente pensar que conhece os homens!

Afogava a mágoa daquela e de outras desditas com um pichel de boa água-pé que emborcava, vezes sem conta, durante o tempo da jorna. Para o nosso feitor, à laia de justificativa, que o outro bem lhe conhecia os podres e os desejos, cuspilhava por entre dois incisivos sobreviventes, mal emparelhados e rombóides:

- Isto dá força a um morto, carago!

E meu saudoso avô, velho e avisado, que com ele partilhara muitas palmatoadas e o banco da segunda classe, desde que o apanhasse a jeito, não fosse o outro encher-se de melindres, segredava-lhe à socapa, em qualquer recanto da quinta:

- Ai, homem, não me abuses da bebida! Andas a dar cabo de ti. Olha que ainda tens as raparigas para criar!

E o outro, ala, a sumir-se num ai, trica-larica por aqui me sirvo, nem o raio do velho me dá descanso! Sopesava mais um carrego de uvas naqueles ombros finos e marchava rumo ao lagar, em passinhos periclitantes e descalços, assobiando a velha cantilena.

Doía, recordá-lo. Tirou-me de anseios o petiz da Carmina. Apareceu no rasto da mãe, à boca do portão, arvorando, com triunfos de caçador experiente, um pequeno lacrau, muito desbotado de cores e de genica, espigão bem preso num fioco roubado às sacas de serapilheira.

- Pilhei-o mesmo à entrada do buraco! - lançou-me do carreiro, quando viu estremecer uma braçada da figueira.

Olhei para ele, como quem acorda, num vago de realismo. Na sua infantilidade, o miúdo erguera olhos e braços até à ramada onde me anichara para me atascar de figos, acenando com o tesouro da sua descoberta. Pensaria, talvez, que me saltariam dos olhos faíscas de admiração. Ensaiei o pulo, saltei da figueira. Os moscatéis ficariam para depois.

O garoto continuava, antebraço esticado, suspendendo o bicho, a cirandar junto ao tronco. Via-se que procurava o pasmo da citadina, o reflexo do medo, um qualquer lampejo de terror. Frustrei-o no pasmo, no medo, não lhe dei o gosto dessa descoberta.

- Dá cá isso, se queres que eu te mostre uma coisa.

Peguei no fio em cautelas, não fosse o aracnídeo desenvencilhar-se.

- Olha, Celso, corre a buscar umas palhinhas, umas folhas secas, o que encontrares para fazer lume. Anda, vai ligeiro!

O miúdo ficou-se a olhar para mim sem perceber e depois sumiu, no tempo de um suspiro. Fiquei só, a remoer pensamentos, agarrando obstinada as minhas recordações sobre António.

Ainda me parecia vê-lo, na remelice do seu casebre de montanha, quase toca xistosa onde assentavam e mal caibros de pinho e telha vã, expurgando batatas velhas com uma navalha. As novas, cozia-as com casca. Lume aceso entra quatro pedras de granito, panela negra de tripé e um odor gostoso que se desprendia das suas migas de vilão. “Adoro as tuas migas, meu velho. Ainda um dia me hás-de ensinar a fazer!” dizia-lhe meu avô, quando o via destapar o cesto da merenda que trazia consigo desde a alvorada.

O mulherio, escalonado pelos anos felizes de mancebia, que padres e papéis não faziam parte do seu programa de vida, furavam no mundo de qualquer jeito, serviçais louçãs pelas terras-do-sem-fim. Elas foram partindo, na justa medida das oportunidades, deixando os três Xarretas entregues a si próprios e à montanha. E quando eu própria, no aventureirismo das minhas fugas para o sossego, o surpreendia à soleira do seu portal, curtindo uma solidão pesada, sentia-me a ladroar o mundo e as gentes por ser feliz. Arrepiava, então, caminho, que o confronto magoava. Um tanto à socapa, escapulia-me serra abaixo, pelo outro lado, deixando para trás os seus arremedos contra o mundo e contra a porca da vida e os sons do pífaro do Américo a repercutir, lugubremente, pelas barrocas da montanha.

Senti um nó, um nó muito apertado, que me dilacerou a recordação. Como se fosse um estilete fininho que penetrasse na carne, devagar, bem devagar, direitinho ao coração. O miúdo da Carmina voltou. Felizmente. Mesmo a tempo de me acabar com os espasmos de consciência.

- Vais ver uma coisa, Celso.

Rapei do que me trouxera, avidamente, quase com raiva. Tinha pressa de acabar o holocausto do bicho e das recordações sobre António. Que raio, era uma bela manhã, eu estava viva e bem viva, acordara com a cisma de subir à figueira e empanturrar-me até à exaustão. Que procurava afinal? Os pássaros não tardariam em cair sobre o melaço dos figos.

Com sadismo, construí um círculo de palhinhas secas e restolho de caruma. E lume? Que é do lume? Faltava-me o lume.

- Tens fósforos, moço? – quase lhe gritei.

Pensei, depois, na imbecilidade da pergunta. Desnecessária. Corri, célere, à nossa velha cozinha, deixando desta vez o pasmo, o reflexo da curiosidade, nos olhos muito abertos de Celso. Voltei com asas nos pés, embriagada de emoções contraditórias. Tinha pressa, uma pressa muito grande, de acabar com tudo. Afinal era verão, o céu estava bem azul, adeus figueira onde já vais, amanhã é um outro dia, uns morrem de uma maneira, outros de outra, cada um é livre de se soltar desta vida como lhe aprouver.

- Dá cá o bicho! – desta vez gritei-lhe mesmo. Pensei à laia de justificação, como quem elabora mentalmente um silogismo ”De qualquer forma Celso acabaria com ele, esmagando-o com uma pedra”. Pronto, estava aplainada a minha consciência.

Diabo, que é do fósforo? Onde pús a porcaria do fósforo? Risquei-o, finalmente. Alucinada, já, pela minha própria loucura, provoquei o incêndio.

Pequenas chamas, de um amarelo alaranjado, começaram a evoluir num bailado destruidor. Celso estendeu a mão, o braço, quase a medo, na direcção do meu corpo. Passou-me o fio. Com cuidado, coloquei o bicho no meio, mesmo no meio do coliseu do meu azedume. Talvez tivesse deixado escapar um trejeitinho qualquer. Celso bebia-me os ares, tenso, espectante, uma corda de violino pronta a ser dedilhada. E fiquei-me a olhar para o ritual que já de sobejo conhecia. Fora Xarreta que me mostrara, pela primeira vez, ainda menina, o estranhíssimo comportamento do escorpião, numa iniciação aos mistérios da natureza.

Setembro expirava pelo S. Martinho, estrebuchando nos últimos arremedos de verão, trovoadas secas atroando os ares da montanha e os calores salpicados de uma chuva miudinha que ajudava às uvas. Tempo de vindima. Homens e mulheres, pelas encostas de vinhedo farto, enchiam cestos de moscatel e os ares, já lavados, de cantigas. Um pequeno grupo olhava divertido, galhofando, enquanto o velho Xarreta, de caniço em punho, escarafunchava um pequeno buraco no solo ressequido. De longe, eu espiava curiosa sem nada ver. Que se estava a passar? Que coisa engraçada era aquela, para tantos risos e tanta demora? Os homens riam das raparigas que deixavam escapar gritinhos histéricos sempre que Xarreta escarafunchava mais um naco da terra ressequida.

Acabou por me chamar, uma timidez que destoava no seu ar de homem curtido por muitos invernos, sabido por muitos desenganos. Havia, até, um sorriso doce naquele rosto encarquilhado pela desventura e muitos sóis. Estava simplesmente feliz por saber algo que eu, menina de cidade, adornada de rendas e criada entre enciclopédias e essências perfumadas, decerto desconhecia. E eu olhava aquele gigante da pequenez dos meus oito anos, com um misto de veneração e respeito que D.Amélia, mestra de uma terceira classe cheia de aritméticas e de ditados mas, sinceramente, tão vazia de vida, jamais me conseguira inspirar.

- Venha ver uma coisa, menina...- tinha-me dito.

Olhei-me em Celso, trinta anos recuando no tempo. Revejo-me em Celso no pasmo, sou a criança que fui, tudo me cheira a uma infância reencontrada. Não há dúvida que consigo ver as encostas cheias de vinhas espraiando-se em direcção ao vale, as copas pontiagudas dos pinheiros lá no alto, bem no alto, quase a curvarem a crista dos montes e a velha estrada, serpenteando as curvas da ribeira, a escapulir-se para as bandas da Guarda. Oiço o vozeirar dos cães na quinta do Zé Côxo, o grito esganiçado da quinteira chamando pelas filhas e o murmúrio das águas caindo no tanque das regas. Como tudo está tão perto! Como tudo está tão longe!

- Repara, Celso, olha bem para ele.

O lacrau, posto à vontade, coçou-se primeiro, talvez para debelar o formigueiro que a imobilidade provocara. Depois, atentou melhor no que se passava à sua volta. Viu as chamas que o rodeavam num cerco perigoso. Avaliou a situação. Num ápice, deu duas voltas completas à arena do meu sadismo. Procurou bem. Saídas não havia. Nem uma simples brecha por onde passar, rumo à liberdade. Pensou, talvez, “estou acabado mas não lhe darei o prazer de me destruir”. Com dignidade - ou covardia?- caminhou direito ao centro. Olhou uma vez mais as chamas que quase se extinguiam. Seguro de si, recurvou a pinça de unha envenenada na direcção da sua própria cabeça.

Memória, memória, um momento! É isso, sim, sim, aquela aula teórica de psicopatologia com o mestre debitando a ciência dos compêndios e tratados. Pareceu-me estar a ver as ânsias da Maria Ernestina, ouvindo os seus suspiros fundos, alongando o olhar enfastiado para o Medeiros. E o Medeiros, um prumo de ossos e olheiras cavas, com aquela brancura de estearina, etérea, como que a sugerir o mote para que a discussão recaísse no suicídio. A velha cisma dele. E depois, aquele sorrisinho a instalar-se na turma, uma pedrinha no charco, quando despejei a pergunta inocente na suprema sabedoria daquele professor:

- E o lacrau, Doutor, poderemos dizer que se suicida?

Silêncio enorme, gelado, a grudar-se em cada carteira como o visco dos pinheiros em tempo de sangria. Não, não estou na aula. Nem ouço, sequer, o pigarrear seco daquele mestre indiscutível, quando ajeitou as bandas do casaco para me responder com as suas insofismáveis certezas. Vejo perfeitamente o bicharoco a recurvar a pinça. Firme, de um só golpe, injecta o veneno mortal. Teve dois ou três espasmos, quanto muito. Nada mais. Em segundos, tudo acabara. Para ele, para mim que erradiava de vez as minhas lembranças sobre António Xarreta.

Celso, esbugalhado de espanto, olhou o animal, já corpo inerte. Olhou-me a mim, a própria imagem de Mefistófoles que debalde procurava uma razão, apenas uma, para tal acto de crueldade. Que raio, nem uma varejeira consigo esmagar! Por onde andavam as minhas preocupações ecológicas, por que caminhos se perdeu a minha defesa intransigente pela vida?

- Celso, o lacrau matou-se. Viste? Mas não fui eu. Ele próprio se matou.

Olhei-o de revés, tentando adivinhar-lhe qualquer mal-estar. Continuou estupidificado, mirando as cinzas, mirando o corpo já inerte do bicho, de boca aberta como uma garoupa acabada de pescar. Vi-lhe, então, um risinho besta começar a desenhar-se no rosto trigueiro e manchado a ranho.

Depois, para mim só, apalpando o estômago, quase em resposta ao meu vómito interior, a tentar enganar-me nas razões:

- Malditos figos!

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Vale de Caria

Sherezzade

 

     

 

 

   

Questão de Honra

 

Mal ressoavam nos ares lavados do seminário os toques da sineta do portal maior, indicando férias grandes, que nessas coisas a tia Vicência fora peremptória “Hei-de ter um filho padre! Nome que se preze tem sotaina na família”, o primo Pita arrancava para a quinta, os bons propósitos arrumados na bagagem e catorze anos de adolescência viril e espigadota às custas de uma vida espartana vivida entre os altos muros do internato. Partia para matar saudades da família, uma das condições impostas pelo chefe espiritual num teste à sua vocação mas, no mais íntimo de si mesmo, partia, também, em busca de um pouco de evasão e aventura, saturado que estava dos espartilhos morais que o desejo de Vicência impusera. Antes, em código caligrafado sobre poemas de Garrett, não fosse padre Pereira perceber e estragar tudo boicotando a saída, uma mensagem do primo chegava aos meninos Menezes, da Câmara Vicente e Rebordalo Pais de Sousa, todos seus amigos de criação mas estudantes em Lisboa, depois da saída intempestiva por contestação aos dogmas. Num convite à boa comida e distracção que a quinta de Vale Paraíso proporcionava em Agosto, o casarão enchia-se com o chilrear alegre das crianças, os amigos dos pais, os parentes distantes. Pita deixava antever, nas entrelinhas codificadas, as férias soberbas que iriam desfrutar, terminado que fosse o último exame. Além disso, a pequena Ermelinda, criada de fora de sua mãe, muito limpa e ageitadinha para a idade, era linda de se ver nos seus quinze anos trigueiros, inocentes e selvagens. E depois, preenchia de forma bastante agradável certas lacunas de ensino básico na vida eremitante e anémica dos educandos.

A tia Vicência, prevenida de véspera por telegrama, mandava chamar de imediato o dono do único carro de praça lá da terra para providenciar o transporte do jovem seminarista. E no dia seguinte, mal ouvia a chocolateira ultrapassada do sr. Firmino, vinha esperar o seu rebento ao portão da quinta. É que em questões de economia, a avareza dos tios não permitia o luxo de viatura própria por desnecessária ao uso que lhe faziam. Firmino estava sempre presente para as necessidades. Era um excelente condutor. O carro era confortável. Isso era suficiente.

Acalorada pela alegria, lágrima rebelde escorrendo junto à verruga do olho esquerdo até tombar desamparada no buço crescido, braços abertos em ferradura, peito arfante de emoções, estreitava o seu menino, o Pita dos seus olhos, lançando os mesmos ao céu num mudo agradecimento.

- Ai meu querido filho! Como tu tens crescido, santo Deus! Que saudades tuas, meu anjo! – depois, olhando a carne da sua carne, beliscando aqui e ali como que a consciencializar aquela presença muito amada – Ó Pitinha, tu deves vir muito estafado, não é filho?

E num vigoroso apertão, atabafando o Pita da sua alma, beijocava sofregamente as faces amarelinhas do menino, mal dando espaço para que a criança retribuísse a efusão. Aquilo do nome fora cisma. O tio Cosme teimara, sabe-se lá por que influências de raciocínio ou de leituras, que o primeiro filho, a ser filho varão, Pitágoras seria. Houve azedumes de parte a parte, pela primeira vez se encrespou a voz da tia sem resultado. E eis Vicência, ao termo de nove luas certinhas desde que se estreara nas delícias do matrimónio, mau grado toda a descrença das más línguas, a botar no mundo o menino que viria a ser motivo da chalaça colegial. Mas vá lá, alma caridosa se lembrara, com oportunidade ou avareza de letras, em abreviar o descoco do tio Cosme. E Pita ficara, para descanso de todos.

Ora esse velho tio das minhas lembranças, considerado desde muito jovem como original e raposa velha, constituía prato de substância nas histórias apimentadas da cidade. Fulano apaparicado até à exaustão pela tia, a quem salvara de um celibato congénito por obra e graça das influências de padre Pires de Lima, seu primo de sangue e confessor de Vicência, era tido como homem perspicaz sobre negócios e dinheiros. Correram vozes que muitas das suas propriedades foram arredondadas pelas lascas de terreno roubado aos vizinhos, em negociatas orientadas pelo seu faro comercial, dada a sua esperteza, conhecimentos de leis e falar manso. A respeito dele, mestre Abílio, barbeiro de profissão e grande aliado nas andanças à rua da Coriscada, costumava dizer, peito inchado de tanto orgulho por tal amizade e companheirismo:

- Está para nascer quem lhe faça o ninho atrás da orelha!

Quanto à tia Vicência, grata por tão elevada mercê quando já eram perdidas todas as esperanças de estrear enxoval, ela, que tão bem tocava piano e primorosamente bordava a matiz, desdobrava-se em cuidados para com o seu maridinho e para tudo o que era dele. Desde o enlance memorável, que na época fizera história na região, consumia-se em novenas infindáveis de agradecimento na capelinha do Alto da Srª do Carmo, era um autêntico general em campo com as hostes dos seus trabalhadores rurais. Fosse na vindima, azeitona, colheita da fruta. Levara muito a peito a sua presente condição de matriarca de Vale Paraiso.

E desde que a vira assim ocupada, num esmero e dedicação que comovia, o tio lá se escapava, com uma regularidade de relógio, para o número vinte e sete da rua da Coriscada, a desenjoar do matrimónio. Pegava no bastão encastoado a prata que lhe ficara do pai e que pertencera a vários patriarcas Cosmes, tirava-lhe o chapéu à saída e dizia apenas, cofiando o bigode queirosiano de pontas retorcidas, no tom cerimonioso que a sua educação e diferença de idades lhe impunham:

- Venho tarde. Tenho uns assuntos a tratar que me vão retardar um pouco. A senhora não espere por mim para jantar.

Vicência entendia tudo perfeitamente mas fazia-se parva. Era uma solução bastante cómoda para ambos. Ele, porque precisava de um corpo jovem, desenvolto, que reagisse. Para ela era uma chatice, o pior daquela vida a dois, para a qual não fora preparada sequer. A rotina só se quebrava quando o casal partia a banhos em S.Pedro do Sul ou Pita vinha de férias. Segundo a mãe, ainda que o menino fosse inocentinho de todo e dali não viesse mal ao mundo, tinha muito tempo de consciencializar as escapadelas do pai. E quando tal acontecesse, seria já homem feito e com outros ideais. Assim, a favor da boa harmonia familiar, Cosme jejuava a contra gosto.

Pois chegado que era, à rédea solta do seminário, logo a tia o desembrulhava de roupas e de silêncios.

- Anda, queridinho, conta coisas à mãe, filho. Estou aqui ansiosa por te ouvir!

E invariavelmente acrescentava, olhando aqueles olhos sombreados por espessas pestanas tanto do seu orgulho e as olheiras fundas e azuladas num rostinho de cera, como um ferrete de família:

- Como tu vens amarelinho, meu amor! Mas isso passa, descansa. Com este solinho, estes arezinhos, vais ver em que instante ficas outro!

Pita, guloso deste aconchego familiar, ainda muito antes de entrar em casa, começava logo a desbobinar com satisfação os momentos altos da sua vida de estudante, as pequenas partidas aos colegas e chefe do dormitório, encerrando no cofre do esquecimento as notas baixas em história e latim. Misérias que tinham muito tempo de vir a lume.

- E a comidinha, filho, que tal?

- Ah! Mamã! Nada que se compare com a sua! Tenho cá umas saudades do tempero da Joaquina...!

E Joaquina, a soberba e pesada Joaquina, um autêntico dinossauro doméstico que vira crescer três gerações de Cosmes, bastante velha e gasta, despontava igualmente ao portão, vinda das bandas da cozinha, limpando as mãos gorduchas às pontas do avental de riscado:

- Meu Menino...!

Pita distribuía-se generosamente pelas duas. Abraços para aqui, beijinhos para ali, capitalizava com esperteza dividendos de mimo que sabia serem de extrema utilidade no momento oportuno. Para a noite reservava sempre os aspectos mais sérios, as conversas circunstanciais, quando a figura imponente e patriarcal do tio Cosme encabeçasse o topo da longa mesa conventual, do imenso salão de jantar. Explanaria, nessa altura, com o garbo de seminarista, o rol imenso das informações académicas. Faria a transmissão dos cumprimentos respeitosos enviados pelo reitor e aproveitaria, com subtileza, o momento primeiro de qualquer manifestação amistosa do pai, amolecido em saudades recalcadas, para pedinchar mais uns dinheiros. O tio fazia questão de guardar, ciosamente, qualquer comentário para o fim do jantar, até deglutir a última garfada da saborosíssima truta em molho de escabeche e do frango com ervilhas, pratos de honra habituais no cardápio das boas-vindas, em satisfação às preferências gastronómicas do primogénito da família. Limpava os beiços carnudos ao linho do guardanapo e condescendia, por fim, em mostrar o timbre da sua voz.

- O senhor poderá dizer-me, por acaso, como derreteu as notas suplementares que lhe fiz chegar pela Páscoa? E a mesada deste mês?

Pita remexia-se desconfortável na cadeira. Aquele comportamento que o pai adoptava para com ele tinha o condão de o gelar por dentro. Olhava, de soslaio, para os rostos trocistas dos manos e das manas, alinhados defronte de si como um naipe de cartas, divertidos por vê-lo em xeque. Ele, o bom senso em pessoa, a virtude corporizada, o exemplo das boas maneiras, tudo estandartes erguidos pela mãe para referência, estava a ser admoestado pelo pai, na frente dos mais novos. Que vexame, pensava para com os seus botões. Olhava para a mãe, de lado, em busca de socorro. E a tia Vicência, completamente derretida por aquele semblante que a mirava a meia haste, atalhava de imediato, chamando com um gesto de mão a serviçal que sustinha a travessa, inclinando-se para o marido:

- Coma mais um bocadinho, ande! Está como gosta. E deixe isso para depois do jantar. Não vê que assim nem serve de proveito à criança? – e virando-se de lado, piscou o olho da verruga ao filho. Do outro lado da sala, num canto, preparando tudo para o café, Joaquina sorria-lhe com a força da sua cumplicidade. E pelo semblante daquelas duas queridas mulheres, o sortudo do primo sabia-se já a salvo.

Mas como nem tudo na vida são rosas, aquele verão parecia destinado a um certo reboliço que destoava descaradamente com a pacatez daquelas vidas. Uma manhã, sem prevenir, contrariamente aos seus hábitos, a tia Vicência dera para entrar no quarto isolado do primo, na ala da casa oposta aos quartos dos irmãos, em pézinhos de veludo, para o surpreender no seu sono de querubim. Segurando o tabuleiro com saborosas rosquinhas saídas do forno a lenha, tacinha de manteiga acabada de bater e a malga de estimação de Pita fumegando com aromático leite de cabra, tingido a cevada, tão do seu agrado, afivelava já o sorriso dos bons-dias, numa pressa de esbanjar ternuras, de esbanjar carinhos. Aquele mimo de mãe quase lhe custou uma apoplexia, um ataque de coração. Rolando na cama desfeita, tal como surgira neste mundo, o filho mais idolatrado da tia Vicência ginasticava-se em acrobacias jamais sonhadas pela esposa de qualquer Cosme, sobre o corpo trigueiro e igualmente nu de Ermelinda, soltando urros de animal no cio.

- Pitinha!!!

O estardalhaço do tabuleiro tombando desamparado nas tábuas enceradas do soalho, o choro convulso da empregadita que se tapava às pressas, envergonhada, rubra de aflição, e o grito histérico da tia Vicência que ferrara com desespero as mãos sapudas nos bandós do cabelo, quebraram, definitivamente, a harmonia daquela manhã.

À noite, no silêncio fúnebre da mansão em luto por tamanho desacato, o tio fechara-se na biblioteca, digeridos os acontecimentos da manhã, em colóquio secreto com o filho, depois do chilique de Vicência. Nada transpirou apesar das frinchas mal calafetadas das portas. Só um ténue zumbido de vozes, magoadas, sumidas como que perdidas na distância. Um silêncio de catedral tudo envolveu.

Joaquina esperava o pior desde que ouvira os gritos. Deixou queimar o borrego do almoço, entornou a sobremesa do jantar nos ladrilhos da cozinha e ensopou à vontade meia dúzia de lenços com as lágrimas do seu desgosto.

Quanto à tia, prostrada pela mágoa e desilusão, hibernava desde a manhã no leito conjugal por obra e graça dos cházinhos alternados de flor de laranjeira e tília que Joaquina, quase hora a hora, lhe vinha trazer, para acalmar tamanha angústia. Pousava de mansinho a chávena de Sèvres na borda da mesa de cabeceira, suspirando funda e sentidamente, olhando com olhos sofridos o rosto da sua senhora e tentando consolá-la o melhor que sabia, numa cumplicidade de afectos:

- Deixe lá, minha senhora, aquilo passa. São verduras de rapaz moço...

Vicência aproveitava estes desabafos da fiel empregada para verter mais uma lágrima, deixar escapar mais meia dúzia de suspiros fundos. Enviesava o olhar na direcção do oratório, a um canto do quarto, apenas iluminado pela chama trémula de uma lamparina de azeite e abanava tristemente o rosto, encarando os santos da sua devoção.

E os dias daquele Agosto iam-se arrastando, estragando, numa monotonia de meter dó. Cancelaram-se, à pressa, todos os convites já feitos, pretextando saída para Lisboa a consulta médica. O primo fechava-se no quarto, horas seguidas, esticando-se sobre a cama como um bacalhau secando ao sol, pensativo, parecendo alheado de tudo, ruminando estratégias para reconquistar a família. Só se atrevia a descer à sala de jantar para as refeições, cabisbaixo, como um condenado a caminho da forca. Mesmo depois de se ter chamado à pressa o confessor de Vicência para que falasse com o jovem e amaciasse as posições estremadas entre pais e filho, a verdade é que nenhum deles se sentia suficientemente à vontade para estabelecer qualquer tipo de diálogo, voltar a reviver, ainda que por breves palavras, as imagens da tragédia. Aquela afronta de Pita viera instalar pela quinta uma certa atmosfera de conspiração, um nevoeiro espesso que toldava as alegrias. Só os manos, em cochichos infantis sobre o comportamento do irmão mais velho, sem bem perceberem as razões de tamanho drama, deixavam transparecer uma certa vitalidade que ensombrava, ainda mais, a frustração dos adultos. Chilreando pelo jardim como um bando de pardais, entregavam-se às correrias de sempre, no corre-corre da inocência, mais soltos e endiabrados que nunca, pela ausência de qualquer disciplina fiscalizadora.

Ora a propriedade onde viviam tinha uma esplêndida represa, para aproveitamento das águas da ribeira que por lá passava, onde pululavam cardumes de percas e achegãos. Ali também se sedentavam as mulas do Ti Francisco e se consumiam, nos caniçais, os ardores da paixão do primo, do Zeca e do Biça, seus conterrâneos e seus companheiros de estudo, quer do latim quer da anatomia de Ermelinda. Costumavam aparecer logo pelo fresco da manhã no tempo das férias, aproveitando a ausência de calor, carregados de livros e toalha de banho ao ombro. Assobiavam o sinal sob a janela do quarto do amigo e esperavam por Pita, encostados aos muros da quinta. Depois, partiam em grupo, alegres e soltos como cachorros em liberdade, mastigando à vez as últimas novidades da terra, as mexeriquices do costume, ansiosos por se verem longe da figura inquisidora de Vicência. Relidas algumas páginas dos textos obrigatórios, de molde a sentirem-se de bem com a sua consciência e cumprindo o calendário dos deveres, largavam roupas e sandálias junto a uma pedra de granito e mergulhavam, felizes, nas águas transparentes da represa. Pelas onze, Ermelinda aparecia, cesta de roupa à cabeça, andar gingão de moçoila, espevitando os meninos sem saber. Arregaçava as sais pelas coxas, dobrava-se sobre uma laje amaciada e aí batia a roupa, cantarolando modinhas de rancho. De perto, deitados sobre as ervas, os meninos olhavam fascinados aquelas pernas roliças, muito brancas, que os atraía e excitava. O que custara mais fora a primeira tentativa. Tinha sido o diabo para acabar com aquela timidez de sotaina, chegar à fala com a rapariga. Vergá-la, a ela, não fora assim tão difícil, para espanto de todos. Depois, com conversa mansa, tudo passara a entrar numa excitante rotina. Eles saíam com a desculpa do estudo ao ar livre, ela com a obrigação da roupa. A aprendizagem era mútua. Satisfeitos os corpos, Ermelinda estendia os lençóis e as camisas lavadas sobre as moitas de rosmaninho, a corar ao sol. Mas desde que o escândalo de Pita rebentara, tudo tinha levado uma grande volta. Joaquina, a mando do patrão, ainda mesmo naquela manhã fatídica, colocara nas mãos da rapariga um macinho de notas, pegara-lhe na trouxa e pusera-a porta fora. E antes que esta se fechasse, para sempre, sobre as costas do pecado, não resistiu e gritou-lhe:

- Sua desavergonhada! A esta altura está tua mãe revolvendo-se na cova com tamanha pouca vergonha!

Pela tardinha do dia seguinte, quando o feitor fora abrir, junto à represa, a vala para as regas do pomar, encontrou o padrasto de Ermelinda encostado ao portão enferrujado da quinta. Congestionado pela ira, empunhando um varapau de marmeleiro, avançou direito a ele, espumando de ódio.

- Quero falar com esse cabrão! Onde é que ele está?

O feitor pensou tratar-se de Pita. Soubera, como todos, porque nestas coisas as novidades correm mais ligeiras que o fogo empurrado pelo vento, que D. Vicência apanhara o menino mais novo, futuro padre ainda por cima, numa desavergonhice com a rapariga do Xico da Mula. Ainda tentou pôr um pouco de água na fervura. Que eram fatalidades que podiam acontecer a qualquer um, afinal eram duas crianças e nada mais, decerto o Dr. Cosme lhe iria dar qualquer compensação, não estava tudo perdido, que toma, que deixa, se calhar ainda tinha sido um bem, talvez o futuro da rapariga ficasse resolvido, sempre era melhor que trabalhar na terra, a família tudo faria para lavar tamanha nódoa, a contento das partes.

O padrasto de Ermelinda estancou na investida, olhou perplexo a cara comprometida do feitor.

- Mas do que é que vocemecê está pr’aí a falar?

- Ora, do menino Pita e da miúda da sua mulher, que Deus haja em descanso, do que é que queria que fosse? Se calhar foram-lhe contar coisas e não é bem assim, você sabe que há muita inveja por esse mundo fora, a cachopinha é engraçadita e o menino é macho, embora a estudar para padre ainda está muito verde, não deve ter sabido bem o que fez, o patrão não vai querer a desgraça da rapariga, você Xico tem que ter calma...

Naquele instante o rosto de Francisco distendeu-se num esgar, parecendo clarear sob a barba espessa por fazer. Por segundos, olhou aparvalhado a fisionomia igualmente estupidificada do rendeiro e capataz e quando finalmente entendeu aonde o outro queria chegar, puxou fundo uma escarradela e cuspiu-a sobre um maciço de urtigas.

- Vocemecê está mas é a mangar comigo!

Depois, reparando na cara aflita do outro, convicto do que estava dizendo, espalmou-lhe a mão no ombro e abriu-se, pela primeira vez desde que chegara, num sorriso.

- Mulher é mesmo gado para cobrir, homem! E a minha Ermelinda já conheceu passarão– dizendo isto ferrou com o punho no seu próprio peito – tinha a rapariga uns doze anos!

Joaquim entupiu. Quedou-se calado, muito tenso, não querendo acreditar em tamanha desfaçatez e bizarria. Francisco cheirava já a vinho, é certo, às vezes não dizia coisa com coisa, afinal não deixava de ser um pobre diabo, mas aquela confidência deixara-lhe uma sensação esquisita, quase como quem recebe uma bela murraça nas trombas, sim senhor. Quando finalmente a sua mente se clarificou, quando conseguiu ordenar ideias, foi quase a medo que perguntou:

- Mas, então, a que propósito era aquela conversa toda?

O padrasto de Ermelinda voltou a si da raiva que calara por momentos. Ergueu a mão calejada e encardida empunhando o varapau, afastou com a ponta dele a aba do boné e, apontando num gesto de cabeça o casarão de Cosme, meio escondido entre a folhagem espessa do jardim, foi desabafando:

- O filho da mãe, não contente com o que já me roubou no passado, ainda me corta a água para as minhas poucas terras, lá no passal! Ó feitor, você sabe muito bem que é o único sítio que ainda tenho para pascentar as ovelhas e as cabras!

- Ó Xico, você não ande pr’aí a dizer essas coisas do patrão! Veja como fala. Que jeito, homem! Ele precisa lá agora da sua água! Ele tem a água que quer. Vá mas é ver se não tem algum cano roto ou se não foi outro que lhe desviou a água.

Francisco aquietou-se por breves segundos. Pareceu ir buscar dentro de si uns resquícios de dignidade, uma força que a diferença de classes sempre se encarregava de desfazer.

- É uma questão de honra, feitor! Quando lhe vendi um bocado de terreno para que pudesse juntar as vinhas da herança que lhe ficaram do pai, deu-me a sua palavra de homem que a água continuaria a passar pelo meu chão. Parece que o estou a ver, todo falinhas mansas, dedos enfiados no colete, “Ó Xico – disse-me ele – quanto à passagem das águas não há problema, homem. Fica tudo como está, dou-te a minha palavra de honra! A tua mulher conhece-me!”. Acreditei nele, pois claro, que remédio! E agora não tenho eu pinga d’água coisa nenhuma! Foi encanada para o Mogo, longe das minhas terras. E onde meto agora o meu gado? Eu juro que mato esse cabrão! Ou não me chamem o Xico da Mula! Porque, feitor, ele deu-me a sua palavra e eu sinto-me enganado!

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  A Notícia

Tinha sido mais ou menos pelo S. João que se começara a falar da novidade. Pelo menos eram os murmúrios que se escapavam pelos corredores bafientos e empoeirados da Câmara, lá na cidade. Aquela terra ia ser, finalmente, uma terra conhecida. “Caramba, também já não é sem tempo!” confidenciara uma das administrativas platinadas à menina Matilde, manicura no cabeleireiro Marinho & Filhas. Ali mesmo à entrada da urbe rural, junto ao Largo do Pelourinho, o pequeníssimo salão de beleza centralizava os mexericos públicos e privados, adensava os mistérios, para os reproduzir com a virulência de uma gripe epidémica. Matilde, carregando uma donzelice já bolorenta e envinagrada, incapaz de segurar uma novidade ou confidência, desabafara de sopetão com a tia, empregada na casa do padre da vila. E Damiana, mais azeda e donzela que a própria sobrinha, aproveitara a trégua entre o tirar do prato da sopa e servir o guisado de borrego para deixar descair, como quem não quer a coisa, em murmúrios de confessionário:
- Pois é o que lhe digo, sr. prior. Diz que vem pr’aí pessoal do governo que é uma fartura, como nunca se viu. E que o presidente da República vem também!
“Tretas!” – pensara o padre, ensopando um pedaço de batata no molho apurado – “Aquela gente sempre fora muito exagerada! Povo, talvez. Isso sim. Aguardava aquelas obras como o pão para a boca desde os tempos da Maria Cachucha!
E para si próprio, consolando-se com a ideia do que fora a sua força persuasiva e os rapapés ao bispo com meia dúzia de achegas sobre o descalabro a que chegara a vila, Orlando Lima estava desde há muito esperando por aquele momento. Imaginava, sem esforço, magotes de gente percorrendo o empedrado granítico e irregular das ruelas, cachos de crianças arrastando-se na peugada da representação ministerial e, como não podia deixar de ser, as bisbilhoteiras da terra espiolhando pelos umbrais das portas, pelas frinchas das sacadas das janelas, sobre os muros argamassados dos quintais. E ele, à frente de todos, encabeçando a representação do poder local, mostrando os pôdres da terra e as belezas do sítio, muito considerado, muito invejado, por acompanhar Suas Excelências. Os técnicos viriam graças ao seu apelo, as obras seriam realizadas, mais dinheiro tombaria na caixa da sua obra social porque ele conseguira o que nenhum outro fora capaz até então. Depois, seriam as notícias nos jornais, as entrevistas aos maiorais e, quem sabe, talvez até a televisão dissesse qualquer coisa, fosse lá para fazer uma reportagem. E ele a responder a todos de cátedra, peito inchado de tanto orgulho, por ter conseguido dar ao povoado a dignidade que merecia.
Era tempo de sair do anonimato a sua terra! Era tempo de parar com aquela purga de gentes pela falta de condições. Vila bonita de tradições beirãs, encastoada nas faldas da grande serra, pujante de verdes e de frutas mas fétida pelas águas a céu aberto. Outras havia, como o Fundão, a progredir a olhos vistos, a crescer como cidades e sem o privilégio da sua implantação. Doía-lhe aquela aparência de aldeia medieval, aquele atraso do povo chafurdando na miséria e na ignorância. Ah, se Deus quisesse, tudo iria ser diferente! E só de pensar na publicidade que a região poderia vir a ter, o desenvolvimento que se poderia operar, ceou melhor naquele dia, com outra disposição. Ultimamente parecia que a comida não lhe caía lá muito bem. Eram uns ardores, umas agonias. Nem o chá de cidreira, que a velha Damiana lhe fazia todas as noites, acalmava aquela indisposição. Ficava-se, então, um bom bocado, ali para um canto da saleta, muito murcho, enterrado no sofá de merino, a remoer o seu mal-estar, sem atinar com as causas.
Às vezes, depois do jantar, aparecia o presidente da junta a desafiá-lo. Nem chegava a subir. Cá de baixo, da entrada, logo que a criada esticava o cordão do fecho, entreabria a porta e gritava:
- Ó padre Orlando! Venha daí! Hoje pago-lhe eu o café!
Que nada, não se sentia bem, agradecia muito, fosse sozinho. Ficaria para uma outra vez. E o Proença lá seguia, igualmente murcho por ir só, rumo ao Café do Arménio.
E isto arrastava-se havia meses. Havia já quem dissesse, à boca fechada, que aquilo do padre Lima era doença ruim. “ Pois vocês não repararam ainda na cor dele? Está assim, a modos que da cor da terra, amarelo, amarelo. Só pode ser aquilo...” e a D. Afrosinda, mulher do farmacêutico e parteira oficializada, benzendo-se com frenesim, virava o rosto para o céu, espreitando pelo rabo do olho o efeito de tamanho palpite. Suspirando com sentimento, aguardava uma concordância. E quando o pároco estava presente para os momentos da catequese, aconchegado a um dos cantos do salão paroquial, eram uns silêncios pesados que se faziam, olhares tristes de finados que se trocavam, como se o homem estivesse prestes a partir deste mundo, já com os pés encaminhadinhos para o além. Duas ou três das beatas mais cozidas com a igreja chegaram a fazer promessas a Nossa Senhora do Carmo pela vida do seu pastor. Mas nem as velas grandes no altar da Virgem, nem os rosários desfiados após rosário, pareciam dar vida nova ao sr. padre Orlando Lima. Outras havia que, pela calada da noite e quando já a vila dormia o seu grande sono, lhe vinham queimar ervinhas à porta, aspergi-la com água benta e outras mezinhas de fabrico caseiro. A mando de Ti Ana Catuleira, endireita por vocação, pintaram a sangue de rôla virgem um círculo no último degrau da escada, encomendaram o esconjuro dos cinco sábios e aguardaram. Qual quê!
Fora, pois, com manifesta surpresa que, naquela noite de junho, ainda os noticiários corriam na televisão, os habituais frequentadores do Café do Arménio viram entrar a figura baixa e pesada do padre Lima. Ainda amarelinho pela clausura a que se votara nos últimos tempos, mau grado os dias bem soalheiros daquele mês, o velhote entrou, cumprimentou com acenos de cabeça as mesas cheias e dirigiu-se logo para os fundos, onde, como todas as noites, o Proença, o dr. Ornelas, o velho coronel Paiva e o Maximino jogavam uma suecada.
Logo que o viram afastar a cortina de caricas, juntaram as cadeiras para um lado, deixando-lhe espaço num dos cantos da mesa.
- Para aqui, padre Orlando, para aqui – disse-lhe o Proença, ao mesmo tempo que roubava uma cadeira à mesa da frente – Ó Joaquim, deixa-me tirar esta cadeira aqui para o sr. Prior.
- Ó sr. padre Lima, por quem é! Faça favor!
Mexeram-se todos para ajeitar o lugar.
- Benvindo seja, seu maroto! – disse o velho coronel já reformado, batendo-lhe amigavelmente no ombro – Já cá fazia falta.
- Aqui o nosso abade – começou o dr. Ornelas – já cá tardava. Com quem havíamos nós de implicar, não me digam? Homem, você zangou-se com os amigos?
Padre Lima sorriu-se, satisfeito com o acolhimento.
- Vocês verão – dizia novamente o doutor – se não foi o cheiro que lhe deu. Ó Maximino, pede aí mais um copo aqui para o nosso abade fugido...
- Ó Arménio! – gritou Maximino, levantando um braço. – Dá cá mais um copo aqui para o sr. Prior.
Depois, voltando-se para este, disse-lhe piscando o olho:
- O sr. padre Lima vai provar a maravilha das maravilhas. Uma garrafa de 62 que aqui o nosso presidente trouxe e andava prometida há séculos, desde que perdeu aquele joguinho de bilhar, lembra-se? Ó Proença, dê aí esse regalo de aguardente.
- Lamento, meus amigos – atalhou logo o padre Orlando – mas nada de bebidas alcoólicas. Não tenho andado nada bem do estômago. Isso seria um verdadeiro veneno!
- Veneno! Vocês ouviram? Veneno!! Amigo prior, o sr. está proferindo uma tremenda heresia, seu fingido! Que digo eu, sacrilégio! – gracejou o dr. Ornelas – Desta pinga, aposto eu, não tem o sr. na sua garrafeira! Muito menos nas galhetas. Isto ressuscita um morto! – e enchendo o copinho que o Arménio viera pousar na mesa, entregou-lho, dizendo:
- Ande, chegue-lhe, homem! Isto nunca fez mal a ninguém. Além de que era uma tremenda desfeita aqui para o nosso Proença.
- Isso, isso –respondeu o presidente da junta– sempre quero ver se me faz essa desfeita!
- Beba-lhe, sr. prior, é meia cura! – respondeu Maximino.
- Ai, estou servido convosco! Pois seja, mas só um pouquinho. – E encolhendo os ombros, sorriu-se. Levou o copo à boca, bebeu dois golinhos e, dando um estalinho seco com a língua, abanou a cabeça num gesto de bom apreciador.
- Boa aguardente, sim senhor. – Voltou-se para o seu velho amigo Proença – Onde é que o sr. tinha isto escondido?
- Eu não lhe dizia, amigo abade? – exclamou todo satisfeito o doutor, ao mesmo tempo que lhe dava palmadinhas no braço – Bem me queria parecer que você tinha vindo mas era ao cheiro deste néctar!
- Nem nada! Queria-vos dar uma novidade – disse o padre, todo rosadinho de excitação, antegozando a surpresa que iria provocar quando falasse do assunto. Melhor que ninguém, ele sabia como era importante para aquela gente que o processo do saneamento básico fosse para a frente, se tornasse, enfim, uma realidade. – A propósito, não estou cá a ver o nosso Álvaro – e relanceou um olhar pelo café, varrendo as mesas uma a uma com o seu olhar de míope. – Aliás, faz um certo tempo que não o vejo.
- Como queria vê-lo se não tem aparecido? Pois tem estado cá caído quase todas as noites –respondeu o coronel Paiva. – Ultimamente, quem o quisesse topar a si, só na missa da manhã, enterros e baptizados. O sr. já nem aos amigos queria aparecer! Saíu-me um bom ingrato, não há dúvida!
Um tanto comprometido, padre Lima coçou a calva e tentou desculpar-se.
- Bem, a verdade – começou – é que não me tenho sentido nada bem. Não sei explicar exactamente o que é, mas aqui anda coisa má. Dá-me cabo do estômago e da disposição. Umas azias...Não é por mal, acreditem.
- Ó homem – acrescentou o clínico – não estou eu aqui? Você até parece que acredita mais nas orações que nos meus remédios! Eu punha-o aí fino num instante! – arrematou.
- Bem sei, bem sei – respondeu o padre – mas realmente...bom, faltava-me cá a disposição.
- É o que eu digo, um ingrato! – volvia o coronel.
- Bom, para sua informação, ó abade – acrescentou carinhosamente o doutor – o Ávaro foi a Castelo Branco. Partiu ontem e volta no sábado. Problemas lá com o jornal. Ele depois lhe conta.
- E bem que eu precisava de falar com ele – continuou o padre – Era um favor, a bem da terra. Aliás, coisa simples.
- Se não é urgente – interrompeu Maximino – fala com ele no sábado. Se tem pressa, posso dar um recado ao Maricoto. Vai para lá amanhã, levantar umas mercadorias que chegaram de Lisboa.
- Não, tem tempo. Não é nada de urgente – e ao dizer isto, pensava que uma noticiazinha sempre era importante. Alertava o pessoal da terra, acalmava os ânimos já demasiado exacerbados, acabava por se transformar num elogiozinho ao governo, um chamariz turístico, enfim, só benefícios.
Não custava nada e eles sempre gostavam destas coisas. Pelo menos sentiam-se importantes. E alimentar a vaidade de cada um dava sempre, segundo a sua experiência de vida, alguns frutos. Não havia dúvida, o Álvaro Mota tinha que pôr a notícia lá no jornal do Fundão, bem destacada e talvez com uma fotografiazinha da terra, um recantinho típico, quem sabe a Fonte dos Desejos, podia ser a Quelha dos Abraços, bom, depois se veria, pensou.
- Como queira, sr. prior. Já sabe que estou à disposição – e pegando novamente na garrafa, Maximino fez menção de lhe encher uma vez mais o copo.
- Mais uma pinguinha, sr. prior.
- Nem pense nisso, homem! – atalhou vivamente padre Lima, saindo do seu devaneio, daquele alheamento em que a notícia o trazia ultimamente. – Vocês o querem é que eu vá de xarola para casa. Bonito serviço, sim senhor. E cobrindo o copo com a mão, deu uma risadinha como há muito tempo o não fazia.
- Então vai um cafézinho – disso o Proença.
- Qual quê! A uma hora destas era vigília certa! –respondeu o padre.
- Uma cigarrilha então? – ofereceu o coronel, estendendo uma caixinha de latão amarelo, que tirara do bolso do casaco.
- Vocês querem mas é dar cabo de mim! – disse o padre Lima, ao mesmo tempo que recusava com um gesto a cigarrilha e exagerando com uma careta os malefícios do tabaco.
- É o que eu digo! Vocês lá pelos seminários só aprendem coisas más – gracejou o doutor.- Não bebem, não fumam, nada ! - e fez uma expressão muito subtil, meia em suspenso, deixando entrever o picante da frase.
Todos riram. Tinham percebido a intenção, onde o doutor queria chegar. Era sempre a mesma coisa quando tocava a espicaçar as convicções do padre Lima. Ficaram, então, um bom bocado, dissertando sobre os seminários, os vícios privados e públicas virtudes. O bom do velho via-se e desejava-se para responder com seriedade às investidas, tais as frases apimentadas com que o mimoseavam. Retorcia-se de riso porque constituíam o tema já gasto com que procuravam fazê-o arreliar. E de vez em quando, afrontado de tanto riso, sobrevinha-lhe um ataque de tosse que o deixava rubro, barbela inchada, esbracejando com o lenço aberto junto às narinas.
Arménio apareceu, então, a perguntar se ainda desejavam alguma coisa. “Vou desligar a máquina do café”. Proença olhou para o relógio e exclamou:
- Já meia-noite! Hoje a noite foi um foguete.
- Meia-noite?! Céus! – exclamou Maximino – E eu que disse à minha que vinha aqui dar só dois dedos de conversa.
Agarrou nas cartas que tinham ficado espalhadas pela mesa desde que o prior entrara e entregando-as ao dono do café, disse:
- Toma, Arménio. Olha, sempre queres que te traga alguma coisa da Covilhã? Parto cedinho.
O rapaz recolheu os copos vazios, as cartas ensebadas e limpou o tampo da mesa com um pano que conhecera melhores dias. Já todos se tinham levantado e afastavam algumas cadeiras para sair.
- Obrigado, seu Maximino, mas o meu cunhado também vai por lá. Agradecia-lhe é se me dava lá um toque ao gerente da fábrica, por causa do meu irmão. Sabe como ele precisa. E eles não estão a meter ninguém neste momento.
- Está descansado que não me esqueço.
Saíram para a estrada. A noite estava relativamente fresca e o céu completamente limpo de nuvens. A vila dormia já, num sossego apenas quebrado pelo canto das cigarras e pelo ronco de um automóvel que passou, iluminando por momentos o pequeno grupo que permanecia especado à beira da estrada.
- Ó Maximino, você não se esqueça de levar o engenheiro a almoçar no Paúl – começou por dizer o coronel, mãos enfiadas nos bolsos das calças e olhando o firmamento com os seus milhões de pontos luminosos. – O meu amigo Lemos vai sair daqui a saber como se come na beira! Comece por sugerir aquele ensopado de cabrito. Ou melhor, aquele bacalhauzinho do forno que a D. Conceição faz tão bem. Mania a dele, que só no Minho é que se come!
- Os dois, os dois – cortou o dr. Ornelas – Eu se fosse a si, Maximino, começava pelo bacalhau e continuava com o cabrito. Ao menos o homem leva a barriga cheia!
Maximino olhava para ambos, alternadamenta, cheio de pressa em sair dali. Depois arrematou:
- Eu encarrego-me dele, fiquem descansados. Agora deixa-me ir, que tenho que me levantar cedo. Meus senhores, até amanhã! – e antes que lhe pudessem dizer mais qualquer coisa, acrescentar fosse o que fosse, Maximino deu meia volta, meteu logo à rua do correio, cortou à venda da Carminda e desapareceu da vista do pequeno grupo que o ficara olhando.
Padre Orlando, que estivera todo o tempo calado e que nada percebera da breve troca de palavras, abeirou-se curioso do coronel, antevendo uns serõezinhos diferentes, com a vinda de mais um elemento para o grupo do costume.
- Esse engenheiro seu amigo, vem cá passar férias, é?
- Ó padre Orlando, desculpe lá que até me esqueci de lhe dizer – cortou logo o Proença, incomodado pela falta. – Vem amanhã um engenheiro de Lisboa, amigo aqui do nosso coronel, para fazer andar as obras do saneamento básico. Um empurrãozinho! Já se sabe, se isto não fosse assim, nunca mais andava.
- Um engenheiro mandado pelo governo? – quase sussurrou padre Lima, sentindo a alma a amarfanhar-se de frustação.
- Não, nada disso. Uma amizade antiga aqui do coronel, mas que tem uma certa influência no presidente da Câmara. Parece que são compadres. Além de que o presidente da Câmara deve favores de peso a esse engenheiro.
- Ah! – fez simplesmente o padre, um trejeito desiludido na voz, um esvair-se do seu entusiasmo inicial. Como ele imaginara estupidamente a representação ministerial, as obras na vila, as palestras, o povoléu acorrendo em massa. Ridículo! Claro, como compadres era tudo muito mais fácil, com menos alarde, uma discrição que convinha. Olhou para o seu pequeno relógio e despediu-se.
- Bom, também me vou. Já vão sendo horas.
O dr. Ornelas, agarrando-o pelo braço, puxou-o novamente para o pequeno grupo.
- Espere lá, homem! E que novidadezinha era essa que o sr. nos queria dar? Ainda não se descoseu com nada.
- É verdade – continuou o coronel Paiva – o sr. disse que vinha para nos dar uma novidade. Vamos a ela!
Padre Orlando, sem pinga de entusiasmo, sorriu-se num sorriso mole e acrescentou:
- Era pura brincadeira, amigos. Eu gosto de os ver com esse ar guloso. É uma desforrazinha. Até amanhã.
Ficaram-se a olhar para ele, sem perceber, vendo-o afastar-se de cabeça baixa, rumo ao adro da igreja, com aquele andar de galinha poedeira. Não era habitual aquela ironia na voz, aquela partida tão sem jeito. E, sem comentarem sequer, todos no seu íntimo atribuíram às indisposições de estômago ou do fígado aquele azedume do velhote, achando que afinal não estava passando nada bem. Apenas um traduziu em voz alta o que todos pensavam:
- Amanhã vou observá-lo. – comentou o clínico.
E começando a andar, logo foi seguido pelos outros. E os três, como faziam todos os dias de bom tempo, ainda ficaram um bom bocado, gozando o fresco da noite, percorrendo a estrada até à ribeira onde parariam, por breves momentos, ouvindo lá de cima, da ponte romana, o sussurro da água despenhando-se no moínho do Zé Marques. Pelo caminho, um deles ainda cuspilhou uma galhofa:
- Esquisito, o padre! Parece que anda aluado!
 

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