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LÁPIS DE COR
Começa a chegar o momento de me libertar de alguns fantasmas que a poesia não permite, a falta de tempo também não e, se calhar, o talento muito menos. Lembro-me de quando era mais novinho, princípio da adolescência, ser bem classificado pelos textos que escrevia, as redacções como eram chamadas na altura. De facto qualquer tema servia para eu desenvolver a escrita, passear pelo subconsciente, delirar um pouco por coisas que sabia nunca poder atingir. Eram devaneios simples mas inacessíveis a quem vivia numa família de parcos recursos e já bem numerosa na época. Lembro-me de minha Mãe ter estado três meses a juntar embalagens de uma determinada marca de farinha para menino, acho que se chamava Amparo ou Predilecta, só podia ser uma dessas, eram as únicas na altura e, já perto do Natal, reparar que ela andava esbaforida à procura de umas quantas que não encontrava. Não podia encontrar. Eu tinha feito desaparecer umas quantas a fazer umas colagens de brincadeira. Imagino o desespero dela. Aquelas embalagens davam em troca duas bolas simples de borracha que ela nos queria oferecer no Natal, a mim e ao meu irmão mais velho. Eu vi a aflição dela e fiquei aborrecido, mais que aborrecido sentindo-me culpado. Eu não imaginava a razão da preocupação dela mas, mesmo assim, resolvi tentar encontrar embalagens. Fui para as mercearias de então, muito diferentes dos supermercados de hoje e, quando via alguém comprar as farinhas perguntava se faziam colecção de embalagens, ficavam meio incrédulos e perguntavam porquê. Eu lá tentava resumir a história dizendo que precisava muito das embalagens. Valeu-me a ingenuidade e consegui reunir várias embalagens. Cheguei a casa e escondi num sítio meio parvo. Mais tarde disse à minha Mãe que tinha encontrado umas quantas no tal sítio parvo. A minha Mãe mostrou aquele ar meio ingénuo, passou a mão na minha cabeça e disse: Ah! Meu malandro! Lembrar-me que hoje qualquer embalagem de cereais trás um brinquedo dentro e, muitas crianças até pedem este ou aquele produto apenas para ficarem com o objecto e deixarem de lado o produto. Não quero agora saber se é melhor ou pior assim, talvez seja objecto de outra “redacção” nem sei porque motivo acabei por escrever este pequeno episódio da minha infância. Isso também não é muito importante. Foi aqui que a escrita me trouxe e não posso deixar de recordar-me o cuidado que a minha Mãe teve para guardar as bolas do nosso olhar durante alguns dias. Ela não sabe é que eu estava à espreita quando ela as colocou na chaminé dentro dos nossos sapatinhos. Quando a família estava à mesa na Consoada de Natal, depois da Missa do Galo, recordo-me dela ter dito: O que eu passei por causa dessas bolas… Fiquei meio corado, baixei a cabeça envergonhado mas ninguém notou. Envergonhado e feliz porque contribui em alguma coisa para aquela prenda do Pai Natal… Melhor de tudo foi que, com muita dificuldade, imagino eu, a minha Mãe resolveu não meter no sapatinho um lindo brinquedo que me deu naquela hora, uma caixa de lápis de cor (24 lápis de cor) que me encheram a vida durante largos meses. Até aí só conhecia caixas de lápis de 6 cores. Quando comecei esta crónica, da maneira que o fiz, pensei que iria falar da minha nova condição de reformado, com tempo para outras coisas e acabo de retornar à infância. Aqui há tempos num poema eu escrevia que: “É muito bom envelhecer ao nascer do Sol”. Tomara que seja e que todos possam receber caixas com 48 lápis de cor! 10/12/2004 17h00 |
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Realizo agora que vivi, vinte e cinco anos, à espera que algo acontecesse. Algo que, não correspondesse ao trivial, ao mesquinho e reprimido quotidiano que então se vivia, melhor se sobrevivia. Desde a adolescência que tinha consciência, ainda que impírica, da existência de uma realidade que não era a nossa e que seria manifestamente diferente. A não ser, não se justificariam, nem a frustração existencial que já então sentia, nem a esperança surda, mas interiormente forte, de que a guerra algum dia iria terminar. Voar não faz parte das possibilidades humanas mas, na verdade, nenhuma polícia podia impedir-me de colocar, pensamento e sonhos, na rampa de lançamento. E lancei. E voei. Voei muito, algumas vezes alto de mais e as quedas, abruptas no meu interior, ainda que os não fizessem ruir por completo, muito danificaram os meus fracos alicerces. A convalescença era forçosamente construída a golpes de paciência que me tornavam cada dia mais adulto, mais maduro, mais fortemente agarrado ao meu introvertido individualismo. A carapaça que me foi envolvendo tornou-me quase completamente invencível a qualquer apelo exterior. Eu era o princípio e o fim, a nascente e a foz. O rio não tinha rumo certo nem sentido definido, embora corresse sempre, por vezes em caudaloso alvoroço, como se algo estivesse iminentemente perto, indubitavelmente certo. Sentia que o algo, permanentemente vivo em mim, se tornava intangível a cada queda, a cada recomeço. De quando em vez, em laivos de extroversão, fugia por entre as frestas da minha carapaça e sorvia avidamente sons e palavras que me enchiam os ouvidos e espírito, vindos de pessoas de que apenas raramente e muito a medo tinha ouvido falar. Nessas ocasiões, escassas e realizadas à margem da sociedade surda e cega em que vivia, sentia que as amarras com que eu próprio me prendia prestes rebentariam. O ar inchava-me no peito como se quisesse levantar voo. A cabeça latejava. Parecia-me que os impulsos positivos que estava absorvendo entravam em colisão com a carga negativa que ao longo dos anos fui acumulando e a explosão dava-se, tímida na sua expressão exterior, mas violenta nas minhas entranhas. Depois de cada fuga sentia que a obra em construção dentro de mim avançava mais rapidamente e num desejo irresistível procurava-as com a frequência possivel. Queria sentir a obra acabada. Entendi então, no contacto com os outros que comigo ouviam, que a realidade que eu imaginava diferente, existia mesmo. Em pequenos círculos é certo, esquartejada, como que enclausurada mas, existia. E era sobretudo ali que se manifestava ardente, conunicativa, colectiva. Passei então a viver em função dessa realidade apreendida – o sentido do colectivo. Conheci-te, enfim, embora que apenas em teoria. A força que emanava daqueles aplausos enchia-me de jubilo e de raiva. Porque motivo haveria aquela força, que eu previa capaz de obras enormes, continuar a ser fechada no colete de forças em que a todo o custo a metiam? Quantas perguntas me fiz que ficaram sem resposta? Sei apenas que a pouco e pouco as fui deixando sair de mim, talvez porque o vigor que ganharam já não pudesse ser controlado, talvez porque se tivesse dissipado a dúvida e o rio já vislumbrasse a sua foz. Então, através das entrelinhas que cada vez mais fortemente se manifestavam, e que até aí nunca tinha entendido, fui tomando contacto contigo, furtivamente é certo, mas num namoro que esperava, mais tarde ou mais cedo, poderia ser publicamente assumido. Mais cedo do que poderia esperar, demasiado cedo sinto agora, desabrochaste madrugada fora e enchi-me de ti. Extasiei-me. Bradei aos quatro ventos o teu nome, em datas que não se desprendem da memória. Saltei contigo muros até aí inviolados. Dancei, dancei até ao esgotamento, até à crise. Foi tão fácil soltar as amarras da minha introversão, tão bom, tão inebriante, que nem me preocupei com defesas inúteis. Esventrei-me. Gritei o teu nome em toda a parte, sem me aperceber de que não estávamos sós. Sim! Era o delírio colectivo, a febre a chover em tempestades loucas e incontroláveis. Pouco a pouco fui-te vendo enrodilhada em multidão, num turbilhão de vida que esbanjavas sem cessar. Pareceste-me inexgotável e temi-te. Pródiga na tua inexperiência, não escolhias companhias, sentias-te orgulhosa nos louvores que te teciam gregos e troianos, russos e americanos. O meu ciúme foi-se diluindo lenta, sofridamente. Já não conseguia distinguir-te no seio da loucura. Todos te reclamavam, a todos pertencias, talvez inebriada, embriegada em alcoóis de tão variada proveniência. Fui-me até esquecendo que existias. Confesso que custou a habituar-me à tua ausência, diria mais à tua inexistência. É sempre difícil, em casos como o nosso, de amor à primeira vista, mas profundo desde o início, habituarmo-nos à ideia da perda, do desaparecimento precoce dum sonho que imagivávamos imortal. Eu sei que a realidade não se compadece com romances mas nunca esperei que tivesse a velocidade da luz. Creio até que a tua chama nunca chegou a brilhar em pleno, a afirmar-se em absoluto. Amuou aos primeiros arrufos, claudicou nos momentos decisivos, acabando por ser dispersa em pequenas faúlhas, que sinto ainda vivas mas tão fracas que temo pela sua completa extinção. É provável que te pareça estranha esta missiva sete anos volvidos. É claro que não me conheces bem. Sete anos são muitos dias, muitas horas nas viagens do pensamento. Voltei a mim é evidente. Sonhei-te muito, mas sempre sonhos, só sonhos. Só, fiz outra vez da solidão a minha arma, senti necessidade de tudo reaprender, de me reciclar. Sete anos quase sem notícias, sem novidades. De quando em vez pequenas locais num canto de qualquer jornal. Já não tens honras de vedeta. Tudo o que é vulgar se esquece. Não, creio que tu não és vulgar. Vulgarizaram-te, vulgarizaram-te e fizeram com que perdesses a oportunidade. Contigo muitos se perderam, se fecharam em conchas praticamente inexpugnáveis, esperando pacientemente outra oportunidade. Desculpa não ser tão claro quanto provavelmente desejarias mas, também em mim, e ainda, os mecanismos da censura inexplicavelmente funcionam. É verdade. Vinte e cinco anos à espera que acontecesse o 25 de Abril. Quantos mais à espera que aconteça? Até à próxima, espero que mais aberta, mais liberta da minha própria censura interna. Adeus revolução. Até breve!
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