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Nilze Costa e Silva

Contos

Página inaugurada em 28/06/2005

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- Dados biográficos

- Teia

 

Amplexo

Lucy berenguer

 

 

 

 

  Nilze Costa e Silva

e-mail – nilzecosta@terra.com.br
 
Escritora, formada em Administração de empresas, com especialização em eoria da Literatura. É coordenadora da NAVE - Núcleo de Ação e Valorização da Espécie Humana, integrante do Fórum de Mulheres Cearenses, da REBRA – Rede de Escritoras Brasileiras, do Fórum Independente de Cultura de Fortaleza (FICFORT) e conselheira do Conselho Estadual de Cultura, representando as Centrais Sindicais.
Fundou e coordena o grupo Poemas Violados, um poema, uma Canção, que tem feito parte da programação cultura de Fortaleza. Editei e participei do livro Poemas para a PAZ (2001). Escreveu mais de 100 artigos para o jornal O POVO na área de Direitos Humanos.

Realizou oficinas de Sexualidade e Gênero para o Fórum Social Mundial nos anos de 2000, 2001 e 2002 em Porto Alegre - RS
 
É colaboradora do Jornal O POVO com mais de 100 artigos publicados na área de Direitos Humanos
 
OBRAS PUBLICADAS: VIAGEM - contos e crônicas - 1981; NO FUNDO DO POÇO - novela - 1982 - Prêmio Estado do Ceará em 1981; O VELHO - 1983 - romance; O ESCONDERIJO DOS ANJOS - romance-reportagem - 1985; DILÚVIO - contos - 1986; MULHERES DE PAPEL - 1990 -Um ensaio sobre o personagem feminino na Literatura Brasileira; SEM MEDO DA DELICADEZA - Ensaio sobre a violência masculina - 2000;
No prelo:REINVENTANDO A LINGUAGEM, 2003 - ensaio sobre linguagem inclusiva.
 
ANTOLOGIAS: 10 CONTISTAS CEARENSES - 1981 - Secretaria de Cultura do Estado do Ceará; MULTICONTOS - BNB - 1984; ANTOLOGIA DO CONTO ERÓTICO, Realce - são Paulo - 1992; O Talento Cearense em Conto, 1996, Maltese; Iracemar, 1996, contos sobre a Praia de Iracema, O Talento Feminin em Prosa e Verso I e II. - 2003 e 2004 - editora Scorteci - Saõ Paulo
 

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TEIA

“Eu canto com a minha voz
com meu corpo
com meu sexo
eu canto toda.”
(Janis Joplin)

Amanhecia quando o disco se pôs a tocar e Ana adormeceu velada pelos gatos em torno dela, carinho escorrendo na curiosidade felina de saber do sonho ou da intenção de não mais voltar. A pata indecisa da gata doente tremia, tentando acariciar o rosto marcado pelo cansaço da noite. O dia correu preguiçoso, quente e sem comida. À tarde, o veterinário tocou inutilmente a campainha. Brigite sofrera um aborto e agora vazava-se em sangue, agitando insistentemente a cauda, numa tentativa de disfarçar a dor.
Janis Joplin há muito emudecera e apenas queria mostrar, no quadro pendurado na parede, seu sorriso mais debochado.
As canções que Ana cantava tinham ficado na noite, quando era lua cheia. Amava soltar a voz o mais estridentemente possível porque era o seu modo mais sincero de dizer as pessoas que elas eram surdas. Espalhava o canto gritando, chorando, implodindo. Tinha muito de leoa e era indiferente às pessoas que muitas vezes nem a ouviam, distraídas entre papos e cervejas.
O chefe, o escritório, o telefone insistindo, a janela escancarando a violência dos sons, faziam parte de um passado distante. Acabara de ajeitar o microfone e ajustar os óculos sobre os olhos miúdos quando alguém passou e lhe mordeu de leve o braço. Carinho louco.... Sorriu levemente e a canção despertou para a noite. Outro lhe introduziu um papel na mão que acabra de fechar-se num gesto que acompanhava o rito facial, tal como sugeria a canção.
A boca pequena desafiava o público: “Pra começar, quem vai colar, os tais caquinhos do velho mundo?” A lua era o sorriso aberto da noite que de vez em quando ela fitava ao cantar. Pela madrugada, o canto se desfaria. Em casa, antes de adormecer e colocar a alimentação dos gatos, diria à Brigite com ódio nos olhos e desprezo na voz:

- Já chamei o veterinário. À tarde ele estará chegando.

A aranha, no canto da sala, continuou tecendo a interminável teia que um dos gatos se entretinha em alcançar, sem sucesso.
Brigite era de quem Ana mais gostava. Chegara à sua casa pequenina e tímida, implorando comida e carinho com lamentosos miados. Frágil em todos os gestos, frugal ao alimentar-se. Por trás dos longos cílios, os olhos pareciam deixar filtrar todas as cores do espaço. Foi crescendo bonita e manhosa até descobrir os mistérios da rua e as delícias de um amor libertino. Não houve carinho que Ana não fizesse para prendê-la em casa. Deixou-se conquistar pelo primeiro falso amor que lhe surgiu no jardim. Depois veio o segundo, o terceiro, inúmeros outros. E eram gritos loucos e impudicos rasgando a noite, que aos poucos iam se transformando em sussurros indecorosos aos ouvidos de Ana, que tapava os ouvidos e pedia, como a rezar: meu Deus, faça-os parar, faça-os parar... quando tudo serenava, Brigite voltava tímida, os olhos meigos e cansados a implorar perdão. Em poucas horas estava a trocar carícias com sua dona, esquecida de tudo. As noites orgíacas de Brigite, passaram a ser o suplício de Ana.
Foi só quando a gata começou a andar triste pelos cantos, balançando o rabo e baixando os olhos, que Ana percebeu que tudo estava definitivamente perdido. Notou que a amiga tentava esconder as manchas de sangue que iam caindo pelos locais onde deitava. Não raras vezes deixava escapar um gemido doído.
Urgente dissipar o pesadelo.
Ana dormiu o dia todo. Ao despertar alimentou os gatos, à exceção de Brigite, que recusou o alimento, não obstante a barriga lhe doesse pela fome do dia. Inquieta, adivinhava algo no ar. Caminhava de um lado a outro, inchava o corpo, eriçava os pelos como se diante de um raivoso cão. Ana tentou segurá-la, mas ela esquivou-se, rápida. Correu para o quarto e pulou sobre a cama. Aconchegou-se ao travesseiro, deixou-se quieta, fingindo dormir. Miava baixinho e Ana lembrou-se dos gritos desavergonhados que emporcalhavam o telhado. Fuzilou a gata com os olhos, deixando transparecer um desejo obstinado de vingança.
Na sala, o silêncio foi rompido pelas unhas de um dos gatos, a arranharem o assoalho. Tinha finalmente conseguido desfazer a teia do canto e a aranha agora se enroscava e tremia nos últimos estertores.
À noite, a voz de Ana soou mais fina e estridente, semelhante a um longo miado de tristeza e dor.

Nilze Costa e Silva

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