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1 Conto Editado

- Helen

Quadro de: Lucy Berenguer

LUZ

 

 

 

HELEN

HELEN

 

Ainda era cedo quando Helen acordou. Levou algum tempo para se localizar e identificar todos os últimos acontecimentos. Engraçado, pensou, isto já havia acontecido antes, anos atrás, quando foi operada. Ao voltar da anestesia, na sala da UTI, ficou se esforçando para se lembrar do que tinha acontecido e até quem era. Agora havia sido mais rápido. Sim, sou Helen e este é o primeiro dia de minha nova vida. Ficou assim deitada de lado, temendo se mover e perder todo o raciocínio. Precisava pensar, relembrar. Não havia pressa em sair da cama, fazer ginástica ou se preparar para o trabalho. Estava de férias, os filhos não moravam mais com ela e este era seu primeiro dia separada de fato e de direito de seu marido. Esta é a minha nova cama, meu novo quarto e minha nova casa. A princípio não queria nada que pudesse lembrar sua vida de antes, mas logo percebeu que tinha que ser objectiva, deixar as emoções de lado. Montar uma casa não se faz da noite para o dia e acabou trazendo muita coisa de sua antiga casa. Mas a cama fez questão de comprar nova. A cama simbolizava sua separação. Sou livre, sou uma mulher sozinha, não pode deixar de esboçar um sorriso. Mordeu os lábios, uma mania antiga e tornou a sorrir. Estava feliz. Não havia sido fácil, nada é, tudo tem um preço, parecia estar ouvindo estas palavras de sua amiga, mas enfim tudo passa. Era uma mulher de 44 anos e foi preciso coragem para romper com um casamento de quase 24 anos. Fechou os olhos e suspirou, precisava segurar um pouco aquele momento, aquela sensação de liberdade. Lembrou-se do filme "Um sonho de liberdade", em que o acor principal, quando finalmente consegue fugir da prisão, fica de joelhos, com os braços erguidos para o alto, sentindo a chuva cair sobre ele. É isto, pensou, é isto o que estou sentindo. Há muitos anos que seu casamento não existia mais, mas como todas as mulheres de sua geração, ou quase todas, esperou, não era corajosa o bastante para tomar esta decisão. Pensou no ex-marido. Casaram-se bem jovens. Nada conheciam de si nem do mundo. Nunca conhecera outro homem. Agora, separada dele, não sentia mágoa, nem raiva. Sentia quase uma ternura, como se ele fosse um filho. Toda a dor provocada pelas acusações havia desaparecido. Acabou. Ficou reflectindo. Quando exactamente a separação havia começado? Não se lembrava. Há muito tempo, acordava com uma sensação de que lhe faltava algo. Havia uma necessidade de sentir mais a vida. É verdade que lhe faltava o companheirismo do marido, mas não era bem isto o que procurava, estava certa. Procurava por uma realização própria, por uma afirmação de sua própria identidade. Tinha o seu trabalho, seu próprio dinheiro e foi então que resolveu voltar aos estudos. Pagou um preço alto por isto. Trabalhava o dia todo, administrava a casa e corria para a faculdade todas as noites. No início quase chegou a desistir. Sentia-se estranha. Os colegas eram mais novos. Sentar-se em uma carteira de escola nesta altura de sua vida! Quando era interrogada sobre alguma questão, a voz custava a sair. Depois foi sentindo um imenso prazer. Percebeu que os colegas sentiam mais medo do que ela. Passou a arriscar mais. As duas últimas aulas, sempre as mais interessantes eram um suplício, pois o sono chegava impiedoso. Leu livros, fez trabalhos. Ouviu relatos surpreendentes. Aprendeu. Mais do que isto. Fez novos amigos. Gente mais nova, gente mais velha. Percebeu que seu mundo podia ser maior do que aquele de antes, de seu trabalho e família. Muitas vezes, mexeu a panela com um livro na mão e enquanto dirigia para o trabalho, ia rememorando em voz alta o que ia dizer na aula daquela noite. Sentiu que era uma pessoa diferente, dona de si, que era bom ter um próprio lugar, algo que ninguém lhe podia tirar. Surpreendia-se com os conhecimentos novos. Ah! A cultura, que tesouro! Passou a se interessar por história também. A formatura tinha sido um acontecimento surpreendente em sua vida. Tinha absoluta certeza do que significava. Observava os colegas e sabia que para ela, aquele dia era uma verdadeira vitória. Não parou de estudar. Aí veio a pós-graduação. Analisava mais as situações. Suas conversas não eram mais as mesmas e também por isto teve que pagar um preço. Algumas amigas se afastaram. Não se sentia culpada. Já havia aprendido que quando a gente muda, as pessoas não gostam. Acostumam-se com o que sempre fomos. Era algo que não podia evitar. Sim, era uma nova pessoa. Até nem tinha mais enxaquecas. Estranho como elas tinham cessado quando decidiu voltar a estudar. Sua vida era muito mais agitada mas sua energia redobrada. O marido não aceitou, não compreendeu. Não podia ser de outra forma. A distância entre eles foi se alargando. Ela tinha consciência de que havia tentado salvar este casamento. Procurou fazê-lo compreender todas as emoções novas que sentia. Queria mesmo que ele pudesse compartilhar tudo isto com ela. Mas foi inútil. Em casa quase não se falavam. Ela tinha necessidade de comentar sobre os estudos e assim incluiu novos amigos em sua vida. Descobriu uma coisa maravilhosa. Gostava de poesia! Como nunca pode perceber isto? É verdade, pensou, quando era menina, gostava de recitar poesias, mas achava que todas as meninas também gostavam! Passou a frequentar uma sala de poesia e se sentia tão reanimada espiritualmente que mal conseguia dormir. Teimava em ficar relembrando os versos daquela noite...O marido cada vez mais a olhava com estranheza. Tudo isto Helen pensava ainda na mesma posição desde que acordara. De repente seus pensamentos voltaram-se para sua família, seus irmãos. Lembrou-se de sua infância difícil, pobre. Lembrou-se da mãe que perdera ainda criança. Ficou imaginando se ainda fosse viva, o que diria sobre sua separação. Pouco conheceu dela. Se foi feliz em seu casamento. As mulheres naquela época pouco pensavam, apenas cumpriam seu papel. Quando ouvia as amigas queixando-se de suas mães, ficava silenciosa, sem omitir nenhuma opinião. Teimava em pensar em sua mãe como uma mulher doce. Desejou deitar sua cabeça no colo dela. Mãe é sempre mãe. Pensou nos irmãos. Lembrou-se de sua luta por uma vida melhor. Sabia ser uma mulher batalhadora. Com seu primeiro salário, havia comprado uma bota da última moda para ela e sua irmã. Agora seus pensamentos voltaram-se novamente para o ex-marido. Lembrou-se do dia de em que ganhou uma nomeação no trabalho e foi cumprimentada por todos, menos por ele. Depois que terminou os estudos, sentiu-se mais forte para ambicionar uma posição melhor no trabalho. Decidiu viajar. Optou por fazê-lo sozinha. Precisava desta prova. E como foi bom, pensou, sorrindo. Lembrou-se de como havia percorrido a pé ruas de cidades da Europa, com uma estranha sensação de ser dona do mundo. E como visitou museus, admirando sem pressa, cada quadro, cada peça, com uma preciosa curiosidade. Foi depois da viagem que tomou a irrevogável decisão de se separar. Não havia outro homem em sua vida. Talvez no futuro, quem sabe. É claro que seria bemvindo. Mas não agora. Agora precisava estar com ela mesma. Ainda queria mais. Muito, muito mais. Lembrou-se de Cecília Meireles..."eu quero sempre mais do que vem nos milagres..." agora chorava. As lágrimas finalmente vieram, quentes, doces. Helen acordava naquele dia sentindo o pulsar de uma nova vida.

 

Maria Luiza

Índíce  
     

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