O provador de vidas

 

Eugénio de Sá

 

Se alguém pudesse decantar

Como um bom vinho, a vida que tivemos

Degustaria os bons e os maus anos

Conhecendo os reveses nos taninos

E as glórias nas castas que criámos

Sabendo, assim, de nós como de nós falar

Na alegria radiosa da manhã outonal

Ou nas melancolias do nosso entardecer

Residem os aromas, as razões conhecidas

Que marcam as encostas destas nossas vidas

A tons de ouro as venturas, a negro o padecer

Ao esgotarmos a essência, na vindima final

Ergamos nesta taça o brinde que mereçamos

De um néctar bom ou mau p’lo que deixámos feito

alguém dirá um dia desse vinho que herda

que é uma triste zurrapa ou uma grande reserva

depende só de nós, se soubemos ter jeito

de ganhar a memória daqueles a quem amamos

 

 

Tal como a história de uma vida

A memória da nobreza de uma boa colheita

sobrevive à sua natural extinção.

 

Eugénio de Sá

 

 

Declamação de João Moutinho