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   J. D. Lima Oliveira

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Página Inaugurada em 21/003/2007

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COMO É FÁCIL SORRIR


Num campo verdejante, sopé de uma grande montanha, onde havia muitos animais, que viviam sempre felizes e por isso com imensa alegria e um sorriso permanente nos lábios, porque não acreditavam em lobos maus, existiam duas meninas e um menino. Embora tanto as meninas como os meninos sejam perfeitamente iguais no contexto social, com os mesmos direitos e obrigações, manda a ética da boa conduta que deve dar-se o primeiro lugar às meninas em todos os eventos onde os dois géneros se cruzem; mas vamos à história, embora um poucochinho de maneirismos nos ajude a poder evitar momentos desconfortáveis em algumas situações que sempre existirão no decorrer da nossa vida em sociedade.


Aquelas três crianças eram muitíssimo amigas, além de serem dois irmãos e uma prima, e brincavam sempre juntos, principalmente aos domingos e quando havia festas. Andavam de triciclo, de "trotinete", de carro, de escorrega, de chupeta, jogavam à bola, entretinham-se com bonecas, ao esconde-esconde, com a mangueira da água, enfim, faziam trinta por uma linha, como se costuma dizer. Além destes, havia um quarto personagem de quem ainda não falei, de propósito, porque vai ser o primeiro a entrar em cena: É o Afonso, que chega ofegante, sem camisa, da montanha, e sem mais delongas vai logo ter com o chefão:
- Sabes António, venho lá de cima (da montanha, claro!) e estou muito aborrecido…


- Porquê? – perguntou o chefe sem deixar explicar-se.


- Os esquilos, as lebres e os coelhos hoje não riem; estão muito chateados – respondeu o Afonso – porque ouviram uns tiros ao longe e estão com medo. Acho que é o avô Tonito que anda à caça.


- Não pode ser – retorquiu o António. – O avô Tonito já deixou a caça; e também nunca caçou por aqui. Para caçar ele ia sempre para Trás-os-Montes.


Entretanto apareceram as duas meninas, que os leitores desde logo souberam quem são. (Aqui, como não há fotografias identificam-se: São a Marta e a Carolina). Vinham de um passeio pelas margens do rio Este. Tinham ido à Bracalândia e depois de se recrearem nos carrosséis e na montanha russa e de visitarem o recinto, onde desfrutaram do comboio fantasma, do castelo da bruxa e apreciarem o dragão, como era cedo foram deleitar-se com a sombra das árvores no parque de desportos, logo em frente, e descido o rio para molharem os pés nas suas límpidas, embora tumultuosas águas, e dispostas a prepararem umas cadeiras deixadas para a segunda época, com vista a melhoria de notas, para ingresso na faculdade de Direito Europeu.


- Onde passastes a tarde? – Quis saber o António. – Estive à vossa espera para brincar, mas agora temos coisas sérias a tratar. "Sou mesmo um poeta. Isto vai longe…", pensou para consigo. "A rima não vem nada a propósito, mas por agora fica".


- O que aconteceu? – perguntaram em simultâneo a Marta e a Carolina.


A resposta foi dada pelo "Fom-Fom", o Afonso, nos mesmos termos que havia demonstrado a sua repulsa ao grande chefe António.


- Mas isso não pode ser – ripostaram as duas. – Vamos já reunir e tomar as decisões que o gravíssimo caso requer. Vou telefonar para o "cristório" (leia-se escritório) da mamã e pedir-lhe a sua opinião – salientou a Carolina.


- Não vale a pena – disseram os restantes a uma só voz. – Eu sou de opinião – acrescentou o António – que devíamos ir à casa do avô Lima, a fim dele documentar com fotografias a nossa reunião e se possível gravá-la e de lá falamos com a mamã.


- Também acho que é melhor – interveio a Marta – porque a "ma-inha" ia para o tribunal.


- Pois é – esclareceu a Carolina. – Ela ia no carro com o papá. Eu até vi que levava junto ao vidro de trás a "mánica" das fotografias. O papá, a caminho do banco, deixava-a lá porque ela tem o carro a fazer a revisão. Eu ouvi uma conversa qualquer à hora do almoço em que ela disse que precisava da "mánica" para fotografar um copo de leite ou coisa parecida.


- Não é copo de leite – intrometeu-se o António – é corpo delito. Isso também está no código da bicharada e significa o facto material de um crime. Mas vocês falaram em "fias" e esse é mesmo o meu fraco..


- Não entendo porque o avô Lima está a colocar na nossa boca palavras tão arrevesadas para a nossa idade e pelo meio mete outras como "cristório", "mánicas" e "fias" – ironizou a Carolina.


(É para vos lembrardes mais tarde dos vocábulos que mais graça vos dava na idade própria de os empregar – esclarece o narrador. E conclui: Pois é ou "pu-jé" como diria o vosso pai, tio e "pa-inho" na vossa idade. Estais metidos numa história, onde simultaneamente tendes dois, quatro, vinte ou oitenta anos…)


- Então pés ao caminho até à Quinta da Capela – ordenou a Marta Regina.


Assim, nos mais variados meios de transporte, o António de triciclo e de chupeta na boca (pochinha como dizia o pai dele) que a não largava, e com o biberão devidamente acondicionado, a Marta de trotineta e com a chupeta escondida no bolso… para não haver problemas quando se for deitar, a Carolina numa belíssima moto de fibra, accionada a bateria, com o indispensável biberão de água a seu lado e o Afonso num invejável bólide a pedais, sempre de dedo na boca, lá chegaram à casa do avô Lima, que logo os introduziu no "cristório", desculpem, escritório, a fim dos nossos venturosos aventureiros resolverem em plenário o intrincado dilema dos bichinhos que deixaram de sorrir.


De computador na mão e apressado, tomou a presidência o justo e implacável, mas sorridente António Hugo, que se fez ladear das vogais Marta Regina e Maria Carolina, ficando à sua frente, a secretariar, o astuto Afonso "Fom-Fom".


Antes de iniciar os trabalhos e depois de puxar por um genuíno havano, mas só para fazer ares de importante, porque sabe que não se deve fumar pelos graves problemas que traz à saúde, tanto que o meteu na boca sem lhe retirar o resguardo de celofane, o António fez pose para os jornais.


Enquanto a Carolina encolhia os ombros, a Marta ouvia com interesse o que a plateia ruidosa, à espreita por uma vedação, ladrava, porque a cadela Pitucha, a querer entrar no ambiente da reunião, resmungava com um focinho de poucos amigos, "que não havia direito dos homens matarem os animais indefesos só pelo prazer do desporto". E como podemos entrar no pensamento dos outros membros do júri, sabemos que eles estavam cientes, e por isso o seu à vontade, de que o douto presidente António Hugo logo que despachasse os jornalistas encaminharia o assunto com toda a dignidade para uma solução apaziguadora e sobretudo favorável aos bichinhos da montanha, para contentamento dos defensores dos animais e segurança dos próprios ditos cujos.


Não foi de ânimo leve que o "leader" se desenvencilhou dos homens das notícias e só depois de anuir em fazer alguns comentários para a "Rádio Felina" é que conseguiu debruçar-se em pleno sobre o aborrecido problema, camuflando o seu nervosismo sob a protecção benéfica de uns azulados óculos de sol, que manteria até ao final da sessão.


Assim, após consultar o "Código da Bicharada" e analisar profundamente o seu "Capítulo dos Leporídeos", com os poderes dos acordos estabelecidos entre homens e animais, dirigiu-se aos outros membros da mesa, agora atentos apenas às palavras do chefe, pois a reunião continuava à porta fechada, nos seguintes termos:


"Minhas amigas e meu amigo: O "Código" não permite, ou melhor, condena, duma maneira geral, que se matem os animais. Eles têm os seus direitos muito específicos no que concerne à protecção que lhes é devida por parte dos homens, todavia no grupo dos leporídeos, isto é, no das lebres e coelhos em determinadas circunstâncias e em certa época do ano havia efectivamente permissão para os caçar. Já vem de tempos remotos em que as pessoas eram obrigadas a persegui-los para poderem alimentar-se, mas como o narrador nos permitiu actuarmos nos mais diversos estágios temporais, fácil é transpormo-nos para a segunda metade do século XXI e assumirmos que vai longe o tempo dessas barbaridades. Ademais os esquilos nunca serviram para alimentação e não são obrigados a ouvir tiros que ferem demasiado os seus sensíveis tímpanos de bichinho pequeno.


Simultaneamente pegou na calculadora, "porque isto não podia ficar só no palavreado", e em duas ou três operações aritméticas concluiu que a coima prevista pela infracção aos direitos dos animais era de elevado valor, havendo, por isso, necessidade de informar os Serviços da Venatória, o que aconteceu logo a seguir, mediante um telefonema através do seu inseparável telemóvel.


Satisfeito por ter resolvido mais um caso deu por encerrados os trabalhos entre aplausos e muitos vivas dos outros elementos do grupo, que aproveitaram a oportunidade para lhe oferecerem um bonito ramo de flores, corolário dos óptimos serviços prestados ao reino da bicharada.


Entretanto o Afonso seguiu no seu descapotável, movido a energia solar, para a montanha, a fim de acalmar os seus amiguinhos, que o receberam em verdadeiro ambiente de festa. O António, depois de uma rica sesta e de ter mudado de roupa, dirigiu-se para o quintal, a fim de se recrear com uma das suas brincadeiras privilegiadas: A mangueira da "aba".


Por que puderam voltar a sorrir, ainda hoje os descendentes daqueles animais saltam e riem de alegria quando vêem os netinhos dos heróis desta história, que por lá continuam a passear como sempre fizeram os seus antepassados.

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AS AVENTURAS CONTINUAM...

 

Estava a Madalena, muito descansada da sua atarefada vida, a pensar na morte da bezerra, quando, de repente, sentiu ao seu redor um ruído muito estranho, sussurrante, mas que a envolvia como se tratasse de uma estereofonia vinda de todos os lados da atmosfera e cujo som se identificava com o de um enxame de abelhas dos mais populosos, mas também dos mais disciplinados, onde não existia a mínima desafinação. E como com estes simpáticos insectos não se brinca, sob pena de uma aferroada a pedir enfermeiro, ali se manteve inerte, sem pestanejar sequer. De súbito uma aterragem um pouco barulhenta num muro existente por trás de si, fê-la desviar a atenção e deixar de pensar nas picadelas. E eis senão quando...
 

Quem haveria de ser? A abelha mestra Carolina, a sua priminha de Braga, que ali voara para lhe pedir ajuda sobre um assunto muito importante e inadiável: Os bichos do monte Picoto andavam com manias e todos queriam ser chefes. Ninguém aceitava ordens de ninguém e então os de raças inferiores como as toupeiras, os sapos, os ratos e outros ainda mais pequenos já nem podiam sair das suas tocas pois logo seriam vandalizados pelos maiores. Nem mesmo o lendário Harry Potter cá do sítio,
 

o famoso António Hugo, que tão logo soube da determinação da abelha Carolina em solucionar o problema, pôs a vassoura voadora em movimento e lá foi parar também, não sem antes informar a rainha picoteira Marta Regina, que já havia reunido de urgência com a abelha Carolina, conseguiu colocar um ponto final no descalabro montesino.
 

A ideia de que a solução estaria algures em Lisboa, surgiu da parte de outro dos primos, o corredor de fundo, o automobilista de super fórmula, o grande entusiasta da primeira historinha, que não queria ver os bichinhos sem o sorriso nos lábios, o nosso conhecidíssimo Afonso “Fom-Fom”.
 

Sabendo das influências africanas da Madalena Figueiredo e porque a única hipótese para ultrapassar esta guerra que se avizinhava provável estaria naquelas paragens, devido à convivência com animais de grande envergadura e que já há muito ultrapassaram estas mesquinhas quezílias, achou por bem pôr a questão a votos, achando, porém, que a reunião em Lisboa devia ter a presença de todos. Mas como ele não tinha fotografia com os outros primos resolveu seguir para o Picoto, a fim de verificar como decorriam as relações inter-bichos, não sem antes entrar em contacto telefónico com o Harry Potter para se deslocar a Braga, via vassoura mágica, e transportar a rainha Marta para deliberarem em conjunto com a Madalena sobre a decisão final a tomar, o que efectivamente aconteceu num ápice.
 

Numa fracção de segundos aí estão eles espreitando a Madalena, que agora já não pensava mais na morte da bezerra.
 

Encimados no poleiro, pois se descessem ao jardim acabava-se a magia (é preciso não esquecer que o Harry é apenas aprendiz de mágico e por isso ainda não tem todos os poderes) escutavam a africanista, que lhes expunha o que iria ser feito, mas que o narrador não diz agora para fazer render o peixe. De seguida aconselhou-os a regressar ao Picoto e ela partiu imediatamente para o reino da bicharada, a fim de tomar algumas medidas antes de iniciar uma longa caminhada.
 

Junto dos seus elefantes meditou. E enquanto pensava “como era possível meia dúzia de bichotes a quem um pouco de vento mais forte os leva pelos ares andarem sem rei nem roque, quando toneladas de carne ambulante no meio das densas matas africanas obedecem à racionalidade da paz. Sim, porque as guerras acabaram!...Sem pensar duas vezes, entra no seu escritório (agora já não se diz “cristório” porque sabemos falar, nem andamos de chupeta no bolso, porque esses tempos já lá vão...) e envia um E-mail com destino que já vamos saber.
 

Segura do seu raciocínio veloz e coerente chama o seu conselheiro e manda que lhe tragam roupas apropriadas para uma viagem longa e penosa. Todavia como nós aqui facilitamos sempre as coisa vamos arranjar-lhe um camelo a turbo e não daqueles pachorrentos que estamos habituados a ver na televisão.
 

E aí vai ela a caminho do continente africano à procura de solução para a guerra da bicharada, quase a instalar-se no monte do Picoto, que por sinal ela nem conhece. Apesar da velocidade do camelo (este é mesmo um camelo; há os outros só com uma bossa, são os seus primos dromedários e esta fotografia é autêntica, foi mesmo tirada em África) a viagem ainda demorou uns dias, à volta de cinco, findos os quais se foi encontrar com o sultão, que era o que mais sabia destas guerras, e a recebeu com toda a pompa e circunstância, como os jornais gostam de escrever.
 

Após uns dias de negociações, sim porque estas coisas metem sempre uns banquetes, mesmo em África, lá se chegou a uma conclusão, que ela de imediato, como excelente colaboradora, transmitiu ao Conselho Superior da Paz Picoteira – CSPP (era preciso arranjar uma sigla, de contrário nem parecia verdadeira a guerra):

Iria seguir no primeiro transatlântico um rei leão para pôr cobro à indisciplina reinante e ai de quem não cumprisse. Ele tem umas garras muito afiadas e uns dentes tratados a Sensodyne... E como iria para uma terra sem lei e já há muitos anos que não comia uns petiscos, porque na sua era proibido... Quem quiser que entenda!
 

Punha-se, porém, um problema.
 

O leão, que não é o do Sporting, esse até se deixava comer por um rato, tão fraquinho anda, não devia fazer transbordo em qualquer porto. Como viajava incógnito não podia ser identificado pelos serviços secretos de qualquer bicharada internacional. Então a única solução foi arranjar uma máquina submarina que o retirou do transatlântico em Leixões, seguiu até à foz do Cávado, deste passou para o Homem, até encontrar o famoso rio Este que o deixaria mesmo debaixo da ponte na Avenida da Liberdade, em frente ao monte do Picoto.
 

Como estamos na era do instantâneo (esta está a ser inventada agora) em que é só pensar e logo os factos se concretizam, facilmente o assunto ficou resolvido. Aqui foi muito importante a vassoura mágica e a acção do seu detentor, Harry António Potter Hugo, que acompanhou de perto o percurso do rei Leão até o fazer penetrar na imensidão da selva, onde de imediato fez reinar a paz, tranquila e duradoura, tão necessária à boa harmonia de qualquer ser vivo, seja ele bicho do mato ou homem (que parece continuar a querer ser) das cavernas.
 

Se? ficou tudo resolvido?

O leão adaptou-se muito bem ao? Ficou, sim senhor. ? ambiente, mesmo climático. Não queria voltar para a selva dele, mas estes tratados internacionais não se compadecem. Ao fim de uns dias logrou verificar que os seus novos amigos já viviam em paz, deixando-se de armar aos chefes. Tiraram dele uma lição muito proveitosa: É mais fácil obedecer do que mandar. Foi até por não haver ninguém voluntário para chefiar o Picoto que o leão teve de ficar mais tempo do que o necessário. Por fim lá se arranjou um cabrito malhado, que aceitou e ainda hoje se senta na cadeira dourada do trono. Os nossos amigos, depois duma festa em conjunto, lá seguiram para a rotina do dia a dia nos seus colégios, onde continuam a estudar, sempre com o propósito de serem os verdadeiros chefes de amanhã.
 

E assim se tentou fazer uma aproximação dos primos, que vivem tão distantes, ao mesmo tempo que ficaram todos a saber como foram as fantasias do Carnaval de 2003.
 

Fim

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O CONVERTIDO

 

(Pum!...)
 

“Fui atingido”.
 

Continuou a andar resguardado pelo capim seco e cortante.
 

“Devo ter-me afastado do grupo quando rebentou a primeira granada. Há quantas horas isto começou?”
 

(Pum!...)
 

“Os gajos não param a morteirada”...
 

Mal conseguia deslocar-se.O camuflado transformara-se numa couraça penosa pela aderência da terra, ora barrenta ora negra, ao lago vagueante em que o seu corpo se convertera. O quépi há muito havia desaparecido da cabeça e agora sentia as ferroadas dos milhentos insectos que povoavam a atmosfera. O calor, dum céu encoberto e pesado, e a humidade visível e percuciente, asfixiavam; as forças começavam a faltar-lhe.
 

(Pum!...)
 

Cada vez mais perto ouvia o ribombar dos petardos do inimigo, conhecia-o bem, e não entendia a falta de réplica dos seus camaradas.
 

“Será que foram todos dizimados? Não pode ser”.
 

O medo apoderava-se de si, não obstante ufanar-se de ser um “comando” experiente com um baptismo de fogo perdido no tempo. Alistara-se como voluntário. Não tanto pela sua índole beligerante, mais pelas dificuldades em conseguir empregar-se na pequena aldeia onde nascera. Afinal antecipara em dois anos o seu ingresso no exército. Ninguém escapava ao serviço militar e com o curso do liceu concluído não vislumbrou outra alternativa para se iniciar na vida como independente. Sabia do sacrifício dos pais, pequenos lavradores caseiros, para o manterem nos estudos. Concorrera a copista da Câmara do concelho, mas à pergunta sacramental sobre a situação militar, viu de imediato fechar-se-lhe a porta sem quaisquer explicações.
 

Tentou descansar, sentiu, porém, o restolho de algo que deslizava atrás. Desviou-se um pouco, não podia arriscar. O denso capim impedia-o de identificar o que quer que fosse. Poderia tratar-se do inimigo na sua peugada. As forças estavam a abandoná-lo irremediavelmente. Já não pensava; apenas um instinto de sobrevivência o animava. A razão fugia-lhe.
 

“Mais um esforço”, parecia ouvir.
 

E aquela massa pícea arrastando-se agora na bolanha que dava continuidade ao capinzal, estagnou. O lamaçal que se seguia era aterrador, mas um certo frescor de humidade sob o corpo devolveu-lhe algum alento. Escorregou para o arrozal e chafurdou-se no húmus. Tinha sede! Já com as mãos em forma de concha para beber aquele pestilento líquido lembrou-se pela primeira vez do cantil. Apalpou-se. Ali estava, decomposto na sua forma, mas intacto no conteúdo. Virou-se de costas e tentou soerguer a cabeça. O pescoço não correspondia; achava-se hirto.
 

“Estou estropiado, devem ter-me atingido na coluna”.
 

Num esforço desesperante alcançou-o com a mão direita e o que encontrou fê-lo entreabir os lábios numa espécie de sorriso, amargo como o fel, um esgar de dor e confusão, contudo indelével atenuante ao atroz sofrimento que o envolvia. A barrenta terra havia aderido ao suor em camadas sucessivas e juntamente com a lama em contacto com o quente ar tropical formara-se um grotesco colar cervical que lhe paralisava os movimentos da parte superior do corpo. Ciente da situação enterrou a seu lado, de pé, a coronha da “G-3” e encetou alguns movimentos laterais contra o cano da arma, que logo fragmentou a matéria.
 

Então bebeu! Não sofregamente, de acordo com os conhecimentos adquiridos, mas com a possível parcimónia duma ressequida garganta à beira da sufocação. Deixou-se ficar uns instantes naquela posição de descanso, todavia...
 

(Pum!...)
 

“Mas isto não tem mais fim?”
 

Preparou-se para iniciar um penoso engatinhar, joelhos e cotovelos na lama, a “G-3” à deriva numa e noutra mãos, o cantil, até ali incógnito, começava a estorvar-lhe o já de si caricato deslocamento. Olhou à sua frente mais uma vez, mas naquela peculiar postura de quadrúpede desalentado, via-se unicamente como um ser abjecto, entregue ao seu próprio destino.

 

Circundavam-no gigantescos caules amarelecidos à espera de foice ou catana e rematados por frondosas espigas de arroz, espessa cortina a desorientar a mais ténue estimativa sobre o caminho que o levasse a porto seguro. Fixou-se naquelas gramíneas e deixou deambular o seu pensamento pelas origens, pelos campos abundantes do seu Ribatejo. E pensou nos pais, nos irmãos, nos amigos; no seu amigo “Barca”, companheiro e confidente de tropa, destacado como ele em terras da Guiné, um melancólico que lhe falava tanto na terra e lha descrevia com tais pormenores que ele próprio já a conhecia sem nunca ali ter assomado. Depois de se deliciar com uns dias na sua aldeia e extasiar-se com a convivência da família e amigos a primeira visita seria para o “Barca”, já lho havia prometido, e para a irmã deste, a Tocas, sua madrinha de guerra por apresentação do irmão. Escolheria a altura das festas, que o amigo lhe dizia serem das mais bonitas do Minho. Mas isso ainda demoraria. A comissão, a segunda, estava a meio. Pensou... pensou... Pensou naquela maldita guerra, que já lhe levara alguns amigos, e invectivou a decisão do seu voluntariado.
 

“Estou a ficar maluco”...
 

Nunca lhe acudiram tantas reflexões e o seu depauperado intelecto era agora albergue das mais estapafúrdias fantasias. Tentou desprezá-las, mas sobreveio-lhe, para maior infortúnio, uma certeza por demais evidente: Sentia fome! O cérebro, manhoso como só ele, consegue maneira de esquivar-se a pressões externas, mas o hipotálamo não lhe dava hipóteses. Há muito que o estômago reclamava e agora passava a constituir permanente obsessão. Havia perdido a noção do tempo, todavia há largas horas que sobrevivia à fatal emboscada. A ração de combate desaparecera na sofreguidão dos primeiros tiros, quando foi necessário abandonar a mochila e ainda supunha que, como de costume, eram favas contadas o rápido controle das operações. Só que desta vez as forças inimigas, além de numerosas, foram demasiado velozes na tomada de posições deixando-lhe, e aos seus homens, providencialmente, apenas uma nesga de terreno com alguma segurança. Gritara ordens para abrigo e a partir daí nunca mais ouvira o metralhar das suas armas. Era a batalha mãe da sua vida, com o inimigo poderosamente armado e técnica de guerrilha avançada.
 

Voltou a sentir o mesmo rastejo a seu lado, a uns dez metros de distância. Por não correr a mais leve brisa facilmente se apercebia do cuidadoso deslocamento do ser que lhe pedia meças.
 

“Querem apanhar-me vivo”...
 

Lembrou-se então dos horrores passados por outros camaradas capturados pelo inimigo e mais uma vez se arrependeu não ter seguido o caminho dos que se negaram, fugindo, ao cumprimento do serviço nas fileiras.
 

“Parar será o meu fim”.
 

Prestes a desmaiar arrastou-se mais uns metros bolanha adentro, até que encontrou terreno seco. Começava a floresta; densa, misteriosa, intransponível, contudo paradigma de oásis para a sua recuperação. Conhecia toda a espécie de raízes e frutos silvestres capazes de o revigorar. A noite aproximava-se.
 

“Que é o que vejo? Estou perdido, nada me salvará”.
 

A escassos vinte metros, em posição de investida, entre o tronco e o galho mais baixo de um copioso ébano, a temível onça-preta preparava-se para uma lauta refeição. Acompanhara-o em todo o percurso; paciente, traiçoeira. O perspicaz e velhaco felídeo conhecia o terreno que pisava. Estava no seu habitat. Não deixaria escapar a sua presa.
 

Completamente abandonado, sem forças, a mente confusa, o miliciano Abecassis, num primeiro impulso, levou a mão à “G-3” e preparou-se para apontar.
 

“Não faças isso! Não vês que logo serás descoberto?”, gritou-lhe o subconsciente.
 

Recordou a última carta da madrinha de guerra, que considerava há muito a sua namorada, não obstante pretender formalizar essa situação numa visita pessoal a terras do Minho se conseguisse voltar a Portugal; a ternura com que lhe falava nas últimas festas da sua vila, verdadeiro manancial literário de narrativa, quais figuras impressas na celulóide dos grandes realizadores. Como devia ser bonita a terra do “Barca”. A ênfase que a Tocas colocava na “majestosa” , como ela dizia, procissão em honra de Santo...
 

“Santo Quê?”...
 

Não conseguia recordar. Salvo o nome dos santos mais populares, o Abecassis não conhecia nada de Igreja.
 

“Mas é a esse Santo sem nome que eu peço a sua intercepção para me salvar, com a promessa de me converter”.
 

E pediu com fé, ajoelhando-se num supremo esforço, acto que praticava pela primeira vez na sua vida.
 

(Pum!...)
 

Estávamos em Agosto. O despertador tocou! O Abecassis sobressaltou-se na cama da pensão onde se hospedara na noite anterior. Meio estremunhado passou as mãos pelo rosto, coberto de suores frios.
 

“Maldito pesadelo, que voltou a apoquentar-me”.
 

Tinha chegado da Guiné há cinco dias e depois duma passagem pelo Ribatejo ali estava na terra do “Barca” para pedir a mão da Tocas e agradecer a S.Bartolomeu.
 

(Pum!...)

 

Era o último foguete da salva anunciadora da famosa romaria.

 

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O TRACTOR

 

A bolanha ficara para trás. Começara a marcha quando os últimos pára-quedistas pisaram terra firme e dissimularam os seus apetrechos. Era o fim de um dia de Maio. O horizonte, matizado entre o rubro e o laranja, a indiciar mais calor, emoldurava o disco solar, enorme, a esconder-se lá bem longe por detrás daquela vintena de homens que ora corriam em ziguezague, oram abaixavam e paravam para de novo recomeçarem rastejando, pernas e cotovelos no chão, segurando as “G-3” em posição de atirar.
 

O ar que se respirava era sufocante, um calor insuportável envolvia-os até à medula. Debaixo dos camuflados sentiam a viscosidade do suor misturado com o pó fino daquela avermelhada terra, que se infiltrava pelos mais ínfimos orifícios dos uniformes. Nuvens de mosquitos embatiam contra os rostos pegajosos daqueles intrépidos soldados, provocando uma sensação indescritível de doloroso mal-estar.
 

Mas iam... iam... e assim continuaram por duas longas e terrificantes horas. Sabiam que o inimigo se acoitava algures na densa mata do Oio. Tinham de ser desalojados. E eram eles, sempre os bravos pára-quedistas a fazerem o reconhecimento do terreno. Informações recentes diziam que a região estava infestada de casamatas com sofisticado material bélico. A artilharia concentrava-se a cinco quilómetros de distância para avançar. Previa-se um combate violento. A floresta quase impenetrável aumentava sobremaneira as dificuldades e os riscos eram inimagináveis, com a agravante de não poderem contar com a Força Aérea, pela falta de visibilidade no solo. O comandante do pelotão, tenente Fernandes, homem abnegado e óptimo estratego, conhecedor profundo da guerrilha nas matas, experiente condutor de tropas com uma brilhante carreira em comissões efectuadas em Angola e Moçambique, seguia na frente acompanhado pelo furriel Macias. Este tivera o condão de o conhecer como instrutor desde o tempo de recruta. Aprendera com ele todos os subterfúgios a que o pára-quedista deve recorrer no campo de batalha. “E esta seria uma missão como tantas outras”, pensava o furriel, enquanto atentava à folhagem das bananeiras que enchiam a bolanha.
 

Tornaram-se amigos. O tenente já tentara convencê-lo a seguir a carreira militar. O Macias era miliciano e, se quisesse, poderia frequentar a Academia. Gostava de acção, mas uma comissão, na Guiné, chegava. Pela enésima vez saíam em missão. Travaram muitos combates, mas a sua companhia continuava, graças a Deus, sem baixas. Era até apontada como exemplo.
 

Não se podia queixar. Até tinha o privilégio de, de quando em vez, ser visitado pela esposa em Bissau, o que, por coincidência, acontecia agora e seria a última, pois estava a dois meses de passar à “peluda”…
 

Haviam-se embrenhado na parte mais densa da floresta...
 

Salvo o gorjear das incontáveis espécies de aves que em bandos procuravam as copas mais altas das árvores para passar a noite e os uivos irritantes dos chacais, tudo o resto era silêncio, aquele silêncio atroz que prenuncia um cataclismo iminente.

— Não ouviu, meu tenente? — Perguntou o furriel.
 

— Calma Macias! Fique aqui. Ordens à rapaziada para esconder-se, mas de modo que cada um saiba a posição do camarada que se segue. Eu vou continuar mais uns cem metros para norte e tentar descobrir o que se passa. De facto ouvi uns sons estranhos nessa direcção — confirmou o tenente.
 

Mal tinha acabado de proferir tais palavras e um tiroteio infernal ecoa por todo o lado.
 

— Estamos emboscados — gritou! — Aos seus postos e mensagem a Mansoa.
 

Foram quinze minutos de luta insidiosa, dantesca, com os rebentamentos das granadas a misturarem-se com o metralhar das “G-3” e os estampidos das espingardas inimigas.
 

Pela primeira vez, ao fim de vinte e dois meses, os gritos de raiva daqueles corajosos soldados substituíram os cânticos de vitória.
 

_ Reagrupem-se. - Ordenou o tenente. - Há muitas baixas? - Perguntou.
 

_ Está o telefonista ferido, mas parece não ser grave - responderam-lhe.
 

_ O nosso furriel? - Continuou.
 

_ Foi com cinco homens no encalço de um grupo - retorquiu o cabo.
 

_ Agrupe mais cinco e dê-lhe apoio pelo flanco direito. Os restantes venham comigo.
 

Acto contínuo duas enormes explosões, quais crateras vulcânicas em erupção, cortando cerce dezenas e dezenas de majestosas árvores indicam a posição do furriel que, com a mini-secção, acabara de destruir as casamatas que serviam de quartel-general ao inimigo.
 

Adormeceu! Não via, não ouvia, não sentia. Sonhava! … Não tinha percepção do que lhe acontecera. Mas sonhava! … Sonhava com a sua aldeia, com os pais, com a mulher… Faltavam dois meses para terminar a comissão e não queria voltar à guerra. Iria para a Metrópole e passaria à disponibilidade. Voltava a sonhar: “Vou ser lavrador. Vou ajudar os meus pais, que passaram uma vida de trabalho. Vou dirigir o tractor; vou ampliar a vacaria; vou comprar mais turinas…” E foi sonhando… Reviu a sua infância, a sua juventude, o seu casamento… Como a Júlia ia linda no seu alvo vestido de cambraia… Fora por causa dela que ele deixara o seminário… E o Tonho? Esse tinha que lhe vender aquela vinha ao pé do Salgueiral…
 

- Enfermeiro! Enfermeiro! - Chamou a Júlia, que há dez dias não saía de junto da U.C.I. do Hospital Militar de Bissau. - O meu marido abriu os olhos e quer falar! Acordou, meu Deus, acordou! …
 

Acordara, efectivamente… O furriel Macias havia passado onze dias em estado comatoso. Salvara-o o soldado Pimenta, arrancando-o às chamas do inferno oinca, com as pernas esfaceladas por uma mina.
 

Como sonhara no seu letargo, iria para Portugal; não voltaria para a guerra. O tractor, porém, esse seria substituído… por uma cadeira de rodas.

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