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COMO É FÁCIL SORRIR Num campo verdejante, sopé de uma grande montanha, onde havia muitos animais, que viviam sempre felizes e por isso com imensa alegria e um sorriso permanente nos lábios, porque não acreditavam em lobos maus, existiam duas meninas e um menino. Embora tanto as meninas como os meninos sejam perfeitamente iguais no contexto social, com os mesmos direitos e obrigações, manda a ética da boa conduta que deve dar-se o primeiro lugar às meninas em todos os eventos onde os dois géneros se cruzem; mas vamos à história, embora um poucochinho de maneirismos nos ajude a poder evitar momentos desconfortáveis em algumas situações que sempre existirão no decorrer da nossa vida em sociedade.
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Estava a Madalena, muito
descansada da sua atarefada vida, a pensar na morte da bezerra, quando, de
repente, sentiu ao seu redor um ruído muito estranho, sussurrante, mas que
a envolvia como se tratasse de uma estereofonia vinda de todos os lados da
atmosfera e cujo som se identificava com o de um enxame de abelhas dos
mais populosos, mas também dos mais disciplinados, onde não existia a
mínima desafinação. E como com estes simpáticos insectos não se brinca,
sob pena de uma aferroada a pedir enfermeiro, ali se manteve inerte, sem
pestanejar sequer. De súbito uma aterragem um pouco barulhenta num muro
existente por trás de si, fê-la desviar a atenção e deixar de pensar nas
picadelas. E eis senão quando...
Quem haveria de ser? A
abelha mestra Carolina, a sua priminha de Braga, que ali voara para lhe
pedir ajuda sobre um assunto muito importante e inadiável: Os bichos do
monte Picoto andavam com manias e todos queriam ser chefes. Ninguém
aceitava ordens de ninguém e então os de raças inferiores como as
toupeiras, os sapos, os ratos e outros ainda mais pequenos já nem podiam
sair das suas tocas pois logo seriam vandalizados pelos maiores. Nem mesmo
o lendário Harry Potter cá do sítio,
o famoso António Hugo, que
tão logo soube da determinação da abelha Carolina em solucionar o
problema, pôs a vassoura voadora em movimento e lá foi parar também, não
sem antes informar a rainha picoteira Marta Regina, que já havia reunido
de urgência com a abelha Carolina, conseguiu colocar um ponto final no
descalabro montesino.
A ideia de que a solução
estaria algures em Lisboa, surgiu da parte de outro dos primos, o corredor
de fundo, o automobilista de super fórmula, o grande entusiasta da
primeira historinha, que não queria ver os bichinhos sem o sorriso nos
lábios, o nosso conhecidíssimo Afonso “Fom-Fom”.
Sabendo das influências
africanas da Madalena Figueiredo e porque a única hipótese para
ultrapassar esta guerra que se avizinhava provável estaria naquelas
paragens, devido à convivência com animais de grande envergadura e que já
há muito ultrapassaram estas mesquinhas quezílias, achou por bem pôr a
questão a votos, achando, porém, que a reunião em Lisboa devia ter a
presença de todos. Mas como ele não tinha fotografia com os outros primos
resolveu seguir para o Picoto, a fim de verificar como decorriam as
relações inter-bichos, não sem antes entrar em contacto telefónico com o
Harry Potter para se deslocar a Braga, via vassoura mágica, e transportar
a rainha Marta para deliberarem em conjunto com a Madalena sobre a decisão
final a tomar, o que efectivamente aconteceu num ápice.
Numa fracção de segundos aí
estão eles espreitando a Madalena, que agora já não pensava mais na morte
da bezerra.
Encimados no poleiro, pois
se descessem ao jardim acabava-se a magia (é preciso não esquecer que o
Harry é apenas aprendiz de mágico e por isso ainda não tem todos os
poderes) escutavam a africanista, que lhes expunha o que iria ser feito,
mas que o narrador não diz agora para fazer render o peixe. De seguida
aconselhou-os a regressar ao Picoto e ela partiu imediatamente para o
reino da bicharada, a fim de tomar algumas medidas antes de iniciar uma
longa caminhada.
Junto dos seus elefantes
meditou. E enquanto pensava “como era possível meia dúzia de bichotes a
quem um pouco de vento mais forte os leva pelos ares andarem sem rei nem
roque, quando toneladas de carne ambulante no meio das densas matas
africanas obedecem à racionalidade da paz. Sim, porque as guerras
acabaram!...Sem pensar duas vezes, entra no seu escritório (agora já não
se diz “cristório” porque sabemos falar, nem andamos de chupeta no bolso,
porque esses tempos já lá vão...) e envia um E-mail com destino que já
vamos saber.
Segura do seu raciocínio
veloz e coerente chama o seu conselheiro e manda que lhe tragam roupas
apropriadas para uma viagem longa e penosa. Todavia como nós aqui
facilitamos sempre as coisa vamos arranjar-lhe um camelo a turbo e não
daqueles pachorrentos que estamos habituados a ver na televisão.
E aí vai ela a caminho do
continente africano à procura de solução para a guerra da bicharada, quase
a instalar-se no monte do Picoto, que por sinal ela nem conhece. Apesar da
velocidade do camelo (este é mesmo um camelo; há os outros só com uma
bossa, são os seus primos dromedários e esta fotografia é autêntica, foi
mesmo tirada em África) a viagem ainda demorou uns dias, à volta de cinco,
findos os quais se foi encontrar com o sultão, que era o que mais sabia
destas guerras, e a recebeu com toda a pompa e circunstância, como os
jornais gostam de escrever. Após uns dias de negociações, sim porque estas coisas metem sempre uns banquetes, mesmo em África, lá se chegou a uma conclusão, que ela de imediato, como excelente colaboradora, transmitiu ao Conselho Superior da Paz Picoteira – CSPP (era preciso arranjar uma sigla, de contrário nem parecia verdadeira a guerra):
Iria seguir no primeiro
transatlântico um rei leão para pôr cobro à indisciplina reinante e ai de
quem não cumprisse. Ele tem umas garras muito afiadas e uns dentes
tratados a Sensodyne... E como iria para uma terra sem lei e já há muitos
anos que não comia uns petiscos, porque na sua era proibido... Quem quiser
que entenda!
Punha-se, porém, um
problema.
O leão, que não é o do
Sporting, esse até se deixava comer por um rato, tão fraquinho anda, não
devia fazer transbordo em qualquer porto. Como viajava incógnito não podia
ser identificado pelos serviços secretos de qualquer bicharada
internacional. Então a única solução foi arranjar uma máquina submarina
que o retirou do transatlântico em Leixões, seguiu até à foz do Cávado,
deste passou para o Homem, até encontrar o famoso rio Este que o deixaria
mesmo debaixo da ponte na Avenida da Liberdade, em frente ao monte do
Picoto.
Como estamos na era do
instantâneo (esta está a ser inventada agora) em que é só pensar e logo os
factos se concretizam, facilmente o assunto ficou resolvido. Aqui foi
muito importante a vassoura mágica e a acção do seu detentor, Harry
António Potter Hugo, que acompanhou de perto o percurso do rei Leão até o
fazer penetrar na imensidão da selva, onde de imediato fez reinar a paz,
tranquila e duradoura, tão necessária à boa harmonia de qualquer ser vivo,
seja ele bicho do mato ou homem (que parece continuar a querer ser) das
cavernas. Se? ficou tudo resolvido?
O leão adaptou-se muito bem
ao? Ficou, sim senhor. ? ambiente, mesmo climático. Não queria voltar para
a selva dele, mas estes tratados internacionais não se compadecem. Ao fim
de uns dias logrou verificar que os seus novos amigos já viviam em paz,
deixando-se de armar aos chefes. Tiraram dele uma lição muito proveitosa:
É mais fácil obedecer do que mandar. Foi até por não haver ninguém
voluntário para chefiar o Picoto que o leão teve de ficar mais tempo do
que o necessário. Por fim lá se arranjou um cabrito malhado, que aceitou e
ainda hoje se senta na cadeira dourada do trono. Os nossos amigos, depois
duma festa em conjunto, lá seguiram para a rotina do dia a dia nos seus
colégios, onde continuam a estudar, sempre com o propósito de serem os
verdadeiros chefes de amanhã.
E assim se tentou fazer uma
aproximação dos primos, que vivem tão distantes, ao mesmo tempo que
ficaram todos a saber como foram as fantasias do Carnaval de 2003. Fim
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(Pum!...)
“Fui atingido”.
Continuou a andar
resguardado pelo capim seco e cortante.
“Devo ter-me afastado do
grupo quando rebentou a primeira granada. Há quantas horas isto começou?”
(Pum!...)
“Os gajos não param a
morteirada”...
Mal conseguia deslocar-se.O
camuflado transformara-se numa couraça penosa pela aderência da terra, ora
barrenta ora negra, ao lago vagueante em que o seu corpo se convertera. O
quépi há muito havia desaparecido da cabeça e agora sentia as ferroadas
dos milhentos insectos que povoavam a atmosfera. O calor, dum céu
encoberto e pesado, e a humidade visível e percuciente, asfixiavam; as
forças começavam a faltar-lhe.
(Pum!...)
Cada vez mais perto ouvia o
ribombar dos petardos do inimigo, conhecia-o bem, e não entendia a falta
de réplica dos seus camaradas.
“Será que foram todos
dizimados? Não pode ser”.
O medo apoderava-se de si,
não obstante ufanar-se de ser um “comando” experiente com um baptismo de
fogo perdido no tempo. Alistara-se como voluntário. Não tanto pela sua
índole beligerante, mais pelas dificuldades em conseguir empregar-se na
pequena aldeia onde nascera. Afinal antecipara em dois anos o seu ingresso
no exército. Ninguém escapava ao serviço militar e com o curso do liceu
concluído não vislumbrou outra alternativa para se iniciar na vida como
independente. Sabia do sacrifício dos pais, pequenos lavradores caseiros,
para o manterem nos estudos. Concorrera a copista da Câmara do concelho,
mas à pergunta sacramental sobre a situação militar, viu de imediato
fechar-se-lhe a porta sem quaisquer explicações.
Tentou descansar, sentiu,
porém, o restolho de algo que deslizava atrás. Desviou-se um pouco, não
podia arriscar. O denso capim impedia-o de identificar o que quer que
fosse. Poderia tratar-se do inimigo na sua peugada. As forças estavam a
abandoná-lo irremediavelmente. Já não pensava; apenas um instinto de
sobrevivência o animava. A razão fugia-lhe.
“Mais um esforço”, parecia
ouvir.
E aquela massa pícea
arrastando-se agora na bolanha que dava continuidade ao capinzal,
estagnou. O lamaçal que se seguia era aterrador, mas um certo frescor de
humidade sob o corpo devolveu-lhe algum alento. Escorregou para o arrozal
e chafurdou-se no húmus. Tinha sede! Já com as mãos em forma de concha
para beber aquele pestilento líquido lembrou-se pela primeira vez do
cantil. Apalpou-se. Ali estava, decomposto na sua forma, mas intacto no
conteúdo. Virou-se de costas e tentou soerguer a cabeça. O pescoço não
correspondia; achava-se hirto.
“Estou estropiado, devem
ter-me atingido na coluna”.
Num esforço desesperante
alcançou-o com a mão direita e o que encontrou fê-lo entreabir os lábios
numa espécie de sorriso, amargo como o fel, um esgar de dor e confusão,
contudo indelével atenuante ao atroz sofrimento que o envolvia. A barrenta
terra havia aderido ao suor em camadas sucessivas e juntamente com a lama
em contacto com o quente ar tropical formara-se um grotesco colar cervical
que lhe paralisava os movimentos da parte superior do corpo. Ciente da
situação enterrou a seu lado, de pé, a coronha da “G-3” e encetou alguns
movimentos laterais contra o cano da arma, que logo fragmentou a matéria.
Então bebeu! Não
sofregamente, de acordo com os conhecimentos adquiridos, mas com a
possível parcimónia duma ressequida garganta à beira da sufocação.
Deixou-se ficar uns instantes naquela posição de descanso, todavia...
(Pum!...)
“Mas isto não tem mais fim?”
Preparou-se para iniciar um penoso engatinhar, joelhos e cotovelos na lama, a “G-3” à deriva numa e noutra mãos, o cantil, até ali incógnito, começava a estorvar-lhe o já de si caricato deslocamento. Olhou à sua frente mais uma vez, mas naquela peculiar postura de quadrúpede desalentado, via-se unicamente como um ser abjecto, entregue ao seu próprio destino.
Circundavam-no gigantescos
caules amarelecidos à espera de foice ou catana e rematados por frondosas
espigas de arroz, espessa cortina a desorientar a mais ténue estimativa
sobre o caminho que o levasse a porto seguro. Fixou-se naquelas gramíneas
e deixou deambular o seu pensamento pelas origens, pelos campos abundantes
do seu Ribatejo. E pensou nos pais, nos irmãos, nos amigos; no seu amigo
“Barca”, companheiro e confidente de tropa, destacado como ele em terras
da Guiné, um melancólico que lhe falava tanto na terra e lha descrevia com
tais pormenores que ele próprio já a conhecia sem nunca ali ter assomado.
Depois de se deliciar com uns dias na sua aldeia e extasiar-se com a
convivência da família e amigos a primeira visita seria para o “Barca”, já
lho havia prometido, e para a irmã deste, a Tocas, sua madrinha de guerra
por apresentação do irmão. Escolheria a altura das festas, que o amigo lhe
dizia serem das mais bonitas do Minho. Mas isso ainda demoraria. A
comissão, a segunda, estava a meio. Pensou... pensou... Pensou naquela
maldita guerra, que já lhe levara alguns amigos, e invectivou a decisão do
seu voluntariado.
“Estou a ficar maluco”...
Nunca lhe acudiram tantas
reflexões e o seu depauperado intelecto era agora albergue das mais
estapafúrdias fantasias. Tentou desprezá-las, mas sobreveio-lhe, para
maior infortúnio, uma certeza por demais evidente: Sentia fome! O cérebro,
manhoso como só ele, consegue maneira de esquivar-se a pressões externas,
mas o hipotálamo não lhe dava hipóteses. Há muito que o estômago reclamava
e agora passava a constituir permanente obsessão. Havia perdido a noção do
tempo, todavia há largas horas que sobrevivia à fatal emboscada. A ração
de combate desaparecera na sofreguidão dos primeiros tiros, quando foi
necessário abandonar a mochila e ainda supunha que, como de costume, eram
favas contadas o rápido controle das operações. Só que desta vez as forças
inimigas, além de numerosas, foram demasiado velozes na tomada de posições
deixando-lhe, e aos seus homens, providencialmente, apenas uma nesga de
terreno com alguma segurança. Gritara ordens para abrigo e a partir daí
nunca mais ouvira o metralhar das suas armas. Era a batalha mãe da sua
vida, com o inimigo poderosamente armado e técnica de guerrilha avançada.
Voltou a sentir o mesmo
rastejo a seu lado, a uns dez metros de distância. Por não correr a mais
leve brisa facilmente se apercebia do cuidadoso deslocamento do ser que
lhe pedia meças.
“Querem apanhar-me vivo”...
Lembrou-se então dos
horrores passados por outros camaradas capturados pelo inimigo e mais uma
vez se arrependeu não ter seguido o caminho dos que se negaram, fugindo,
ao cumprimento do serviço nas fileiras.
“Parar será o meu fim”.
Prestes a desmaiar
arrastou-se mais uns metros bolanha adentro, até que encontrou terreno
seco. Começava a floresta; densa, misteriosa, intransponível, contudo
paradigma de oásis para a sua recuperação. Conhecia toda a espécie de
raízes e frutos silvestres capazes de o revigorar. A noite aproximava-se.
“Que é o que vejo? Estou
perdido, nada me salvará”.
A escassos vinte metros, em
posição de investida, entre o tronco e o galho mais baixo de um copioso
ébano, a temível onça-preta preparava-se para uma lauta refeição.
Acompanhara-o em todo o percurso; paciente, traiçoeira. O perspicaz e
velhaco felídeo conhecia o terreno que pisava. Estava no seu habitat. Não
deixaria escapar a sua presa.
Completamente abandonado,
sem forças, a mente confusa, o miliciano Abecassis, num primeiro impulso,
levou a mão à “G-3” e preparou-se para apontar.
“Não faças isso! Não vês que
logo serás descoberto?”, gritou-lhe o subconsciente.
Recordou a última carta da
madrinha de guerra, que considerava há muito a sua namorada, não obstante
pretender formalizar essa situação numa visita pessoal a terras do Minho
se conseguisse voltar a Portugal; a ternura com que lhe falava nas últimas
festas da sua vila, verdadeiro manancial literário de narrativa, quais
figuras impressas na celulóide dos grandes realizadores. Como devia ser
bonita a terra do “Barca”. A ênfase que a Tocas colocava na “majestosa” ,
como ela dizia, procissão em honra de Santo...
“Santo Quê?”...
Não conseguia recordar.
Salvo o nome dos santos mais populares, o Abecassis não conhecia nada de
Igreja.
“Mas é a esse Santo sem nome
que eu peço a sua intercepção para me salvar, com a promessa de me
converter”.
E pediu com fé,
ajoelhando-se num supremo esforço, acto que praticava pela primeira vez na
sua vida.
(Pum!...)
Estávamos em Agosto. O
despertador tocou! O Abecassis sobressaltou-se na cama da pensão onde se
hospedara na noite anterior. Meio estremunhado passou as mãos pelo rosto,
coberto de suores frios.
“Maldito pesadelo, que
voltou a apoquentar-me”.
Tinha chegado da Guiné há
cinco dias e depois duma passagem pelo Ribatejo ali estava na terra do
“Barca” para pedir a mão da Tocas e agradecer a S.Bartolomeu. (Pum!...)
Era o último foguete da salva anunciadora da famosa romaria.
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A bolanha ficara para trás.
Começara a marcha quando os últimos pára-quedistas pisaram terra firme e
dissimularam os seus apetrechos. Era o fim de um dia de Maio. O horizonte,
matizado entre o rubro e o laranja, a indiciar mais calor, emoldurava o
disco solar, enorme, a esconder-se lá bem longe por detrás daquela vintena
de homens que ora corriam em ziguezague, oram abaixavam e paravam para de
novo recomeçarem rastejando, pernas e cotovelos no chão, segurando as
“G-3” em posição de atirar.
O ar que se respirava era
sufocante, um calor insuportável envolvia-os até à medula. Debaixo dos
camuflados sentiam a viscosidade do suor misturado com o pó fino daquela
avermelhada terra, que se infiltrava pelos mais ínfimos orifícios dos
uniformes. Nuvens de mosquitos embatiam contra os rostos pegajosos
daqueles intrépidos soldados, provocando uma sensação indescritível de
doloroso mal-estar.
Mas iam... iam... e assim
continuaram por duas longas e terrificantes horas. Sabiam que o inimigo se
acoitava algures na densa mata do Oio. Tinham de ser desalojados. E eram
eles, sempre os bravos pára-quedistas a fazerem o reconhecimento do
terreno. Informações recentes diziam que a região estava infestada de
casamatas com sofisticado material bélico. A artilharia concentrava-se a
cinco quilómetros de distância para avançar. Previa-se um combate
violento. A floresta quase impenetrável aumentava sobremaneira as
dificuldades e os riscos eram inimagináveis, com a agravante de não
poderem contar com a Força Aérea, pela falta de visibilidade no solo. O
comandante do pelotão, tenente Fernandes, homem abnegado e óptimo
estratego, conhecedor profundo da guerrilha nas matas, experiente condutor
de tropas com uma brilhante carreira em comissões efectuadas em Angola e
Moçambique, seguia na frente acompanhado pelo furriel Macias. Este tivera
o condão de o conhecer como instrutor desde o tempo de recruta. Aprendera
com ele todos os subterfúgios a que o pára-quedista deve recorrer no campo
de batalha. “E esta seria uma missão como tantas outras”, pensava o
furriel, enquanto atentava à folhagem das bananeiras que enchiam a bolanha.
Tornaram-se amigos. O
tenente já tentara convencê-lo a seguir a carreira militar. O Macias era
miliciano e, se quisesse, poderia frequentar a Academia. Gostava de acção,
mas uma comissão, na Guiné, chegava. Pela enésima vez saíam em missão.
Travaram muitos combates, mas a sua companhia continuava, graças a Deus,
sem baixas. Era até apontada como exemplo.
Não se podia queixar. Até
tinha o privilégio de, de quando em vez, ser visitado pela esposa em
Bissau, o que, por coincidência, acontecia agora e seria a última, pois
estava a dois meses de passar à “peluda”…
Haviam-se embrenhado na
parte mais densa da floresta...
Salvo o gorjear das
incontáveis espécies de aves que em bandos procuravam as copas mais altas
das árvores para passar a noite e os uivos irritantes dos chacais, tudo o
resto era silêncio, aquele silêncio atroz que prenuncia um cataclismo
iminente.
— Calma Macias! Fique aqui.
Ordens à rapaziada para esconder-se, mas de modo que cada um saiba a
posição do camarada que se segue. Eu vou continuar mais uns cem metros
para norte e tentar descobrir o que se passa. De facto ouvi uns sons
estranhos nessa direcção — confirmou o tenente.
Mal tinha acabado de
proferir tais palavras e um tiroteio infernal ecoa por todo o lado.
— Estamos emboscados —
gritou! — Aos seus postos e mensagem a Mansoa.
Foram quinze minutos de luta
insidiosa, dantesca, com os rebentamentos das granadas a misturarem-se com
o metralhar das “G-3” e os estampidos das espingardas inimigas.
Pela primeira vez, ao fim de
vinte e dois meses, os gritos de raiva daqueles corajosos soldados
substituíram os cânticos de vitória.
_ Reagrupem-se. - Ordenou o
tenente. - Há muitas baixas? - Perguntou.
_ Está o telefonista ferido,
mas parece não ser grave - responderam-lhe.
_ O nosso furriel? -
Continuou.
_ Foi com cinco homens no
encalço de um grupo - retorquiu o cabo.
_ Agrupe mais cinco e dê-lhe
apoio pelo flanco direito. Os restantes venham comigo.
Acto contínuo duas enormes
explosões, quais crateras vulcânicas em erupção, cortando cerce dezenas e
dezenas de majestosas árvores indicam a posição do furriel que, com a
mini-secção, acabara de destruir as casamatas que serviam de
quartel-general ao inimigo.
Adormeceu! Não via, não
ouvia, não sentia. Sonhava! … Não tinha percepção do que lhe acontecera.
Mas sonhava! … Sonhava com a sua aldeia, com os pais, com a mulher…
Faltavam dois meses para terminar a comissão e não queria voltar à guerra.
Iria para a Metrópole e passaria à disponibilidade. Voltava a sonhar: “Vou
ser lavrador. Vou ajudar os meus pais, que passaram uma vida de trabalho.
Vou dirigir o tractor; vou ampliar a vacaria; vou comprar mais turinas…” E
foi sonhando… Reviu a sua infância, a sua juventude, o seu casamento… Como
a Júlia ia linda no seu alvo vestido de cambraia… Fora por causa dela que
ele deixara o seminário… E o Tonho? Esse tinha que lhe vender aquela vinha
ao pé do Salgueiral…
- Enfermeiro! Enfermeiro! -
Chamou a Júlia, que há dez dias não saía de junto da U.C.I. do Hospital
Militar de Bissau. - O meu marido abriu os olhos e quer falar! Acordou,
meu Deus, acordou! …
Acordara, efectivamente… O
furriel Macias havia passado onze dias em estado comatoso. Salvara-o o
soldado Pimenta, arrancando-o às chamas do inferno oinca, com as pernas
esfaceladas por uma mina.
Como sonhara no seu letargo,
iria para Portugal; não voltaria para a guerra. O tractor, porém, esse
seria substituído… por uma cadeira de rodas. |
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