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Hideraldo Montenegro (contos) |
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5 Contos Editados - 1 + 1 Novo - Cárcere Novo - Era uma vez... Novo - Imaginação Novo - O Bibelô Novo |
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Era uma vez um homem e um homem. Não, não há nenhum engano. Eram dois homens mesmo. Eles viviam num planeta distante. Só que um deles era tão grande, tão grande e, o outro, tão pequeno, tão pequeno, que nenhum deles, apesar de viverem lado-a-lado, sabiam da existência do outro. Assim, embora vivendo no mesmo mundo, estavam solitários. Em virtude desta forma de viver, eles, diríamos, tinham, de vez em quando, algumas inquietações filosóficas. Pensavam: seria bom que tivesse alguém aqui para compartilhar comigo deste mundo. Poderíamos trocar idéias, informações, nos divertir, etc. O pequeno, por exemplo, em algum lugar distante, encontrou um de sua altura que afirmava acreditar que existiam outros seres diferentes deles. Mas o pequeno, em seu firme ceticismo, não acreditava em tal bobagem. Ora, ele nunca, jamais, em tempo algum viu outra criatura senão as do seu tamanho. E, isso, quando viajava para lugares distantes! Ele já estava conformado. Sabia que iria passar o resto de sua existência naquele lugar sozinho mesmo. Fazer o quê? Agora - dizia ele - vem cá, como alguém pode acreditar que existam outros seres diferentes? Ele não era bobo. Não iria acreditar numa besteira dessa. Aquele outro pequeno, que ele conheceu numa viagem a um outro lugar, só podia ser um lunático, um fantasioso. Ora, onde já se viu...! O mais engraçado, e talvez vocês não acreditem, é que o grandão pensava também a mesma coisa. É lógico que vocês devem estar pensando que esses dois eram uns tolos. Puro engano. Eles eram muitos espertos, inteligentes e sensíveis. Como assim, perguntarão vocês? Os caras viviam lado-a-lado e sequer percebiam a presença um do outro, como podiam ser espertos?! Ah, mas nada fica oculto. E foi isso que aconteceu. Embora, tenha passado muito tempo para eles filosofarem, questionarem e, enfim, só aumentarem as suas dúvidas, aconteceu um fato que mudou toda a estória. Um belo dia, uma lupa que o grandão usava, caiu no chão e quebrou. Em mil pedaços esta lupa se transformou. Para o pequenininho, estes pedaços de lente eram como estrelas e o barulho de sua queda foi tão alto, mas tão alto que o pequenininho não escutou, pois, como todos sabem, um ultra-som - que era o caso para o baixinho - não é audível. O fato é que o grandão, ao ver sua lupa em mil pedaços, se agachou para apanhar os cacos, como se pudesse depois, num reflexo de ingenuidade, juntá-los novamente. O grandão (quer dizer, grandão para o pequenininho) tomou um susto quando foi pegar um dos cacos e notou que alguma coisa se mexia. Claro, ele percebeu isso através da lente. Era alguma coisa minúscula. Ele aproximou a lente dos olhos e tentou ver o que era aquilo. Ah, quase ele cai para trás ao perceber que aquela coisa era um homem igualzinho a ele, só que infinitamente menor! Caramba! - disse ele - essa coisinha pequena está falando! A conclusão do grandão foi que, quem fala, pensa. Não sei se concordo com ele, pois, conheço muita gente daqui que fala sem pensar. Bom, o grandão improvisou um ampliador de sons. Não importa como ele conseguiu isso. O importante é que o fez. Mas, ele pensou também em fazer uma lente invertida para que aquele homenzinho o visse também. E, assim, foi feito o contato entre eles. O pequenininho tomou um susto danado. Temeu logo que aquela coisa monstruosa o devorasse. Enfim, ele pensava igualzinho a gente diante destas situações novas. Também não era para menos. Imaginem vocês se depararem com uma coisa enorme, incomensurável?! Também não iriam tremer nas bases até se acostumarem? Bom, depois de tudo se acalmar e ter havido explicações de lá e de cá, o pequenininho exclamou: como você é tão grande! O grandão disse a mesma coisa, só que o contrário: como você é pequenininho! E, assim, foram apresentados. Para o grandão, o pequenininho não era normal, era pequenininho. A mesma coisa pensava o pequenininho do grandão. Mas, em pouco tempo eles estavam trocando ideias, contando piadas (claro, de preferência sobre a condição do outro) e filosofando. No final, eles chegaram à mesma conclusão. Disseram eles: pôxa, nossas consciências são iguais! Não há, apesar dos nossos tamanhos, diferenças entre nós! Mas, é óbvio que isso vocês já tinham adivinhado que eles iam concluir, não é? *Inspirado num conto de Voltaire |
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Fazia muitos anos que estava preso. A barba tinha crescido. Os filhos tinham crescido. Há muito tempo que não se comunicava com ninguém. Nem mesmo a sua esposa, sua amada, fazia mais parte da sua vida. Não conseguia sonhar, pois, nem mesmo conseguia dormir. Quando tudo começou? Nem mais se lembrava. Sequer lembrava-se do motivo. Os pensamentos eram muitos, talvez demais. Mas, a sua vida tinha se paralisado de histórias. Só lembranças, vagas, às vezes desconexas. Não cobrava compreensão de ninguém, pois, nem mesmo ele já se compreendia. Agora passava horas nutrindo um único pensamento. Às vezes, um pensamento passava semanas sendo carregado por ele. Parava, de vez em quando, com os olhos distantes. Dava impressão que conseguiríamos ver a imagem de sua esposa impressa neles. Ficava calmo, suave. Dava um sorriso e dizia o nome dela. Mas, não demorava muito e já a tinha esquecido novamente. Pensava em dizer uma coisa e dizia outra. Queria fazer uma coisa e fazia outra. Ficava desesperado com aquilo. Às vezes, precisavam de força para controlá-lo. Tinha sido uma pessoa generosa. Por que aquilo estava acontecendo com ele? Um belo dia, quando o sol apareceu, um sorriso se estampou em sua face. Todo o seu rosto se iluminou. -Meu Deus - exclamou ele - Como pude passar tanto tempo agarrado a uma única idéia?!
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O homem tem a mania de tentar engessar acontecimentos e guardá-los em sua memória como um bloco, fechado, pesado, hermético. Mas, será o acúmulo destes blocos que irá vergar as suas costas e entorpecer e emparedar a sua mente. Depois de um tempo eles serão tantos, para ser carregados, que o paralisarão. Assim, o homem chega à velhice cansado, exausto de tantas memórias que precisa carregar. Por isso, ele tenta vomitá-las. Descarrega nos ouvidos alheios todos aqueles fantasmas que vivem ocupando seus momentos. Encharcado, de tanto passado, não consegue mais viver o presente. Não há mais espaço. Se, ao contrário, ele tratasse os acontecimentos como passarinhos, leves, soltos, livres, ele chegaria à velhice mais suave. Mas, o homem é teimoso e solidifica aquilo que deve ser passageiro: o tempo. A cadeira agora é uma necessidade. Ele precisa repousar nela a carga de sua história. O tempo está aprisionado dentro dele e isto lhe pesa horrores. Não é fácil caminhar levando rancores, frustrações, arrependimentos e ódios nas costas. É verdade que não é o fato de estar em pé que determina que alguém esteja vivendo plenamente. É a mente livre, aberta e absorvente que define o aproveitamento da vida e, tanto faz se se estar deitado, sentado ou em pé. Mas, o que obriga alguns homens, em determinada idade, sentarem-se é o peso das suas cabeças. Por isso, como idéias novas podem ser absorvidas por estes homens se eles se emparedaram mentalmente? Sabemos que aquilo que não evolui tende a se degenerar. Aí, era uma vez... Não se lembrava mais quando se sentou naquela cadeira. Nem ao menos sabia porque tinha se sentado nela. E, embora, seja verdade que ninguém precisa de um motivo para sentar-se numa cadeira, ele sempre o fazia por um, mesmo que fosse para apenas ruminar. Na verdade este era o seu único motivo. Seja lá como for, ele se indagava agora porque estava ali. Há quanto tempo estava ali? Às vezes, no meio desta pergunta ele mergulhava de novo em alguma lembrança e, então, tinha que refazê-la novamente. O fato é que não conseguiu sair mais daquela cadeira até quando, finalmente, o levaram para o cemitério.
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Chovia. Tudo estava em repouso, calmo. A vida era germinada em silêncio, sutilmente. Ele caminhava manso, com segurança. Havia uma altivez em seu porte. Entre os homens era o que mais demonstrava certeza. Estava convicto do seu estado. Tudo o que podia acontecer agora, inevitavelmente, era progredir. Ele andava como, em cada passo, progredisse. Tinha, portanto, prazer em caminhar. O quanto já havia andado na vida? Não conseguia se recordar da extensão. Seu prazer, em caminhar, era tamanho que não via aquilo como um espaço a ser vencido, percorrido. Na chuva ou no sol ele sempre estava ali na estrada. O olhar sempre à frente. Para ele, o passado não existia. Era só o presente, de estar ali, e o futuro que sempre se abria à sua frente. Era verdadeiramente um homem de perspectiva. Assim, estava sempre feliz e sorridente. Às vezes, é certo, haviam pedras em seu caminho, mas ele sabia que elas ficariam para trás. Às vezes, até sorria quando levava um tropeção. Tinha se adiantado mais. Agora, com a chuva, estava se sentindo mais calmo do que o normal. Estava feliz, satisfeito. Sentia que tinha vivido plenamente. Para ele, não eram os fatos que contavam. Ele mesmo não tinha uma história. Nunca viveu uma aventura. Nem mesmo, quando criança, tinha brigado com os colegas de escola. Não havia nada, em sua vida, para contar. Entretanto, viveu plenamente. Para ele, viver era sentir a vida e, isto, sempre sentiu. Assim, não tinha inveja de ninguém. Aliás, nem sabia o que significava inveja. Nunca disputou mulheres, jogos, empregos ou opiniões. Vivia a maior parte do tempo calado. Porém, sua mente era brilhante. Tinha uma lucidez e uma sabedoria admiráveis. O seu enterro foi no dia seguinte. Ainda chovia. Todos lamentavam a vida que ele tinha levado e não conseguiam entender aquele riso estampado em seu rosto. Afinal, desde que nasceu, nunca pôde andar com os seus próprios pés. Na verdade, nunca pôde andar realmente. Nasceu paraplégico, porém, tinha uma imaginação fabulosa. Entretanto, foi um exemplo de alegria e bom senso.
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Já estava aposentado. Mas, agora não conseguia ficar parado. Sua vida sempre fora uma atividade incessante. No princípio passou um tempo ansioso. Precisava encontrar um passatempo. Algo que desse sentido à sua vida. Dentro de casa não parava de vasculhar as coisas. Arrumava, desarrumava. Vivia trocando as coisas de lugar. Não se lembrava mais quando começou aquela mania de colecionar todo tipo de bugiganga. Talvez, fosse a diversidade das coisas que chamassem a sua atenção. Ficava maravilhado com as variações das coisas. Assim, saía a procurar, até no lixo, tudo que fosse diferente, exótico. Sua casa não cabia mais de tanto treco. O espaço dela foi diminuindo, diminuindo. Assim, já não recebia visitas. Não se tinha como entrar ali. Quanto mais havia coisas, em sua casa, para admirar, mais ficava maravilhado. Aquilo retratava a sua mente. Ela estava sempre entulhada, variando em pensamentos diversos. Naturalmente que não conseguia mais dormir. Vivia, como no passado, sempre ocupado, em atividade. E, aquilo justificava o seu viver. Nunca tivera filhos. Sequer tivera tempo para namorar e casar. Nunca parou para pensar se era feliz. Na verdade, para ele, estar vivendo era o que importava. E, para ele, estar vivendo era estar agindo e, isto, ele estava. Só saía de casa para vasculhar a redondeza e vê se encontrava alguma raridade e não se importava se ela estava no lixo ou numa lojinha. Assim, sua casa foi encolhendo, encolhendo. Quando se deu conta, não conseguia mais sair dela. Agora também não importava mais. Havia bastante coisa para arrumar, mexer e desarrumar. Os vizinhos estranharam porque já fazia muito tempo que não o viam sair de casa. Ficaram preocupados. Bateram na porta e não houve resposta. Tentaram várias e várias vezes, chamando o seu nome e nada. Ele jamais foi encontrado. O que a polícia conseguiu encontrar ali, naquela casa, foi apenas um monte de cacarecos.
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