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Filipe Monteiro

 

Última actualização 09/07/2005

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8 Poemas Editados

- Biografia

- Prefácio

- A tarde enfim

- Barril para renascer

- Calor de ti

- Doces de Tavira

- Em cima das pontes

- Lisboa-Tavira

- Na Praça da República

- No fundo dos olhos

- Palavras de Sul

- Porta de Reixa

- Sobre a morte dos seis e do judeu

 


ASPAS

DE

MADRE

TAVIRA E POEMAS

     

 

 

PREFÁCIO
 

Se a poesia assenta numa subjectividade que, perante o mundo conhecido, lhe empresta cambiantes inusitados de cores e emoções, se a poesia constitui a aliança intemporal entre a alma do poeta e a alma que pulsa em cada elemento da natureza, se a poesia denuncia o equilíbrio necessário entre as palavras e os sentimentos que nos devolvem uma realidade mais próxima do fulgor primordial, então, estamos, com Aspas De Madre, na presença de uma poesia que integra todos estes elementos, e porventura outro, o que a eleva ao domínio de um ser completo e vivo que nos subjuga. Quando a poesia se manifesta, há sempre um espaço inquietante de procura e/ou encontro com uma realidade que, por ser objecto de conquista e transformação, se anuncia como revelação. Há sempre um espaço de sedução a que o poeta, neste caso, nos conduz.
Na verdade, a sua escrita envolve e penetra o secretismo mais ousado de Tavira e ela, mulher-água, mulher-luz, sob o olhar rendido do poeta, revela-se, desnuda-se, em tons de sul e branco, mais sensual e serena do que nunca. É uma fisionomia permanente de água que, solta, ensina o rumo do amor. É uma respiração silenciosa que, tentacular, desperta todas as sensações e abre espaços de vivências. É o branco, sempre o branco, que prolonga a livre circulação do olhar no sentido da intimidade . É um abraço sempre quente que define o contorno exacto do próprio sentir do poeta.
Filipe Monteiro, com uma voz muito própria, com uma escrita moderna e de grande riqueza imagística, vive a cidade que se deixa viver. Os dois formam um todo. Sedimentado nas horas calmas do entendimento.

Manuela Beato
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Biografia

Filipe Monteiro nasceu em 1953 na cidade do Porto. No início dos anos 70, publicou textos poéticos, em páginas jovens de alguns jornais e em antologias de jovens poetas. Em 1973, passou a viver na cidade de Lisboa e a passar períodos de tempo no Algarve.

Tem uma filha.

Depois de ser "enchutado" de lugares algarvios então bonitos, há muitos anos, adoptou, Tavira como "mãe quente de sossego e ternura", onde cresce, pensa e disfruta.

Em 1978, licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.

A partir desta data, foi professor de Filosofia no ensino particular e oficial. Em 1985, abandonou esta actividade, mantendo a sua actividade profissional como assessor e consultor em várias áreas de Apoio à Gestão em várias empresas de comunicações.

Além de escrever, come tripas enfarinhadas, xarém, caracóis, estupeta e muxama de atum e papas de sarrabulho.

Publica agora o seu primeiro livro "Aspas de Madre" fruto da relação que mantém com a cidade de Tavira e com o incentivo de outras pessoas que também amam e vivem esta cidade.

Com 51 anos, é fácil encontrá-lo. Anda à procura de si ou do mundo, meditando ao som dos timbres e dos silêncios, pelas praias, pelos bons restaurantes, pelo centro ou nas bordas de tudo o que lhe trouxer mais-valias.

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A TARDE EM FIM

Vives da vida,
Que há em mim.
Mas repousas
Ao fim da tarde
A ver o sol que adormece,
Dum sereno vermelho,
Nos meus braços,
Nos meus olhos,
Ou sei lá,
Em mim.

Pintas-te de branco
Adornada
Por mil e um campanários
E o teu sentido religioso
Está na estética da paisagem,
Que sinto.

Como que a lembrar
Que de ti
Partiram homens
Que não voltaram.

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AS QUATRO ÁGUAS DE NÓS
 

Dá-me a tua mão
Feita da força
De sonhares,
E vem ver o sonho.

Vamos saltar
As margens
Por onde navegas,
E vem ver o sonho.

Vamos buscar a força
Do rio de inverno
E saltar margens
E saltar morros.

Dá-me a tua mão
E vamos viver
Em flores de crescer,
A partir das quatro águas.

Com as mãos muito juntas,
Vamos descobrir o infinito
Dum mar de sermos
A partir do ombro
Que somos.

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BARRIL PARA RENASCER
 

Nessa praia nasce o peixe e a vida,
Em que, de todos os lados,
Sabe a mar.
E uma História de homens e atuns
Bordeja o sossego dos veraneantes.

Nessa praia nasce o peixe e a vida
Nas cadelinhas que eles apanham.

Lá atrás,
Há âncoras
Crescendo nas dunas,
Em sentido único
De brisas e marés.

Sossegadamente imperativas,
Como quem assina
O seu nome único no Atlântico,
A rubricas de ferro.

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CALOR DE TI
 

Soube que o tempo
Tem o calor
Dum sul de nós,
Ao vaguear-te.

Soube que o tempo
Tem o silêncio
Que em ti bebo,
Nestes caminhos
De arte.

Soube que o tempo
Tem o sentido
De aqui estar,
Ao te trazer
Da cidade,
A impossível ira.

Soube
Que sossego em ti,
Tavira.

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DOCES DE TAVIRA
 

Branqueou por aqui
Uma claridade de estar
Como se tivesses saído
do meu coração.

Branqueou por aqui
Uma paz de me sentir,
Como se acordasse agora
Contigo no meu ombro.

Contigo, abelha obreira
A sabor de mel.

Branqueou por aqui
A tua presença,
Nas histórias que me recordo
Quando te saboreio
A sabor de Ezequiel.

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EM CIMA DAS PONTES
 

Vejo-te a cores de ti,
Que te pintei a sonhar,
A passar a ponte nova
Para o outro lado de estar.

Vejo-te a cores de ti

Vejo-te pintada
De sépia, ponte romana,
Prenha de história
Onde me encontro.

Vejo-te
No sonho
De seres corrente
Em pensares de frente

Vejo-te
Agora
A lutar,
Comigo presente
No somente
De te desejar.

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LISBOA-TAVIRA
 

Sei, neste tempo gasto,
Um espaço de ir para parar
A sentidos duma cor de fugir,
Para ter ondas vivas
Dum viver familiar.

Sei, neste tempo gasto,
Um espaço de me sentir
Sossegar,
Num interior de força de sair,
Para Chegar.

Sei, neste tempo gasto,
O percurso das minhas veias,
Para sentir-te praia,
Para me renascer
Na tua areia.

Sei, neste espaço gasto,
Ventos de me sentir
Em buscas de te amar
Para te ter,
Para me sentir
Nas ondas do teu mar.

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NA PRAÇA DA REPUBLICA
 

Presto-me
Num sentido de me raiar,
Sentado, calmamente vivo,
Num espaço de sonhar.

Em frente,
Há arcadas
De estar,
A brilhos do Gilão
Que me chegou,
Para me levar até aqui.

Porque este rio
Feito de serras e raivas,
É feito do condão
De me levar até mim.

Presto-me
Num sentido de me raiar,
Ouvindo a musica
Das tuas águas,
Feitas gente
Que sinto,
Neste espaço de sonhar.

Contigo,
No interior deste mundo inteiro.

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NO FUNDO DOS OLHOS
 

No fundo dos olhos,
Tenho a alma
Deste mar de quatro águas,
Que incendeia os meus braços.

No fundo dos olhos,
Tenho o brilho cromado,
A tempo de me ser,
Dos desejos chegados,
Em desenhos aleatórios
Que as aves traçam.

No fundo dos olhos,
Tenho os ninhos
Que construo nos meus beirais,
Ao som dum chilrear de avisos.

No fundo dos olhos,
Espio o mar
Que trago dentro de mim.

Então,
Rebento o alcatruz
Em que, só agora,
Sei que estava.


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PALAVRAS DE SUL
 

Desenho as palavras seduzidas
Pelo teu sabor quente e calmo,
Onde te saboreio.

Desenho as palavras seduzidas
Pelo teu corpo de figo maduro,
Que provo de manhã
Quando o tempo é meu.

Desenho as palavras seduzidas
Pelo movimento de quatro águas,
Que libertam
O meu sentir em ti.

Desenho as palavras seduzidas
Pela tua voz,
Ao som do meu crescer.

Nessa praia
Onde estás ancorada,
E eu vagueio a minha força
De te viver.

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PORTA DE REIXA

Arejas o teu espaço
A veres-me de dentro
Na minha direcção,
Quando a claridade te ilumina.

E eu ainda não te vi.

Arejas em renda
Os ares do meu sossego,
Quando te sinto
E julgo que te senti.

E eu ainda não te vi.

Já sei que és
Rendilhada no meio,
Como se fosse o teu coração,

A dois planos bordada.

E me vês
Sem te abrires,
Toda.

E eu ainda não te vi.

Mas sei
Que no topo
Tens um espaço
De respirar.

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SOBRE A MORTE DOS SEIS E DO JUDEU
 

Era um estar de paz,
Porque tu sossegas
Mas eles não.

Era um estar de nos viver
Nós seis,
Cavaleiros de vencer.

Num espaço que era teu
E nos mataram.

Era um estar de nos viver.

Morremos
Nós, cavaleiros,
E o judeu
Para vivermos ao desfraldar
Das bandeiras,
Para vivermos o que é teu.

Era um estar de nos viver
De pinturas sem palete,
Nestes campos de sobreiros
Éramos seis.

Somos sete
Cavaleiros.

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