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Fred Teixeira
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Página inaugurada em 12/07/2005 |
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24
Poemas Editados
- Perfil
-
Declaração
- A
garrafa
- A
recusa
- Antes que cale
-
Cigarro
- Do Gehenna clamei
-
Enigma
- Estuporado mundo
- Eu me separei dele e
me tornei outro
- Forma
-
Frequencia
-
Hendecágono
-
Lembrem
- Lençol consciencioso
- Nota
- O
sinal
- O
verme
- Pequeno poema paranóico
-
Pneumania
- Presença do nada
- Soneto exilado
- Soneto
sacrificial
-
Sonho final
- Teu santo nome meu
- Um dia remunerado
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FRED TEIXEIRA

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Perfil
Fred Teixeira é uma
incógnita até para si mesmo. Quem sou eu? – costuma perguntar a
superfícies polidas e reflexivas. – Você me conhece? – e sacode negativa
e exaustivamente a cabeça, o boné voa, as idéias se aclaram e então diz,
os olhos brilhando: Eureka! Sou uma lacuna que progride no tempo e no
espaço! – Desenvolve toda uma teoria fundamentada no conceito de que o
futuro não existe, o presente é um nicho vazio e o passado uma fileira
interminável de nichos semelhantes, só que repletos de conversa fiada.
Nascido na capital paulista, no bairro da Liberdade, quase termina seus
dias numa barraca de yakissoba no fim dos anos oitenta. No início dos
noventa, já alfabetizado, leu Nietzsche e caiu de cama com febre
cerebral. Recuperado, escreveu seus primeiros poemas, todos queimados
durante um incêndio criminoso em seus arquivos (feitos, na época, de
papelão). Em seguida conseguiu emprego em certo curtume da Lapa, mas um
ataque de salmonela, quase fatal, o fez desistir da carreira. Mudou-se
para Extrema, onde arrumou trabalho braçal para fazer numa das inúmeras
empresas do Sul das Gerais. Burro, não estudou, não evoluiu e continua a
regredir para o estado de larva, pretendendo, após romper a crisálida,
rebrotar como uma maravilhosa mariposa negra, voar com as próprias asas
para a Europa e assim conhecer a França de Apollinaire, a Inglaterra de
Blake, a Alemanha de Goethe, a Espanha de Garcia Lorca e o Portugal de
Pessoa.
Nunca se apaixonou sem estar enganado, nunca ganhou dinheiro suficiente,
nunca entendeu as pessoas do sexo oposto e nunca, nunca mesmo, escreveu
sequer uma palavra da qual estivesse absolutamente convencido. Acredita
que o que hoje é encarado como certo pode estar errado amanhã, e
vice-versa. As coisas mudam – é a sua opinião.
Poeta crisexistencialista que apela para a ironia quase engraçada do
‘vida ou morte’, sendo pouco indicado para criaturas de compleição moral
retraída ou filosofias demasiado humanistas. Dois trabalhos concluídos:
O Calhamaço das Abstrações Concretas, reunião de contos, ensaios e
poemas (na qual inclui-se Sínfise do Absurdo) e Estadela na Hades, curto
romance poético (disponíveis em www.recantodasletras.com.br).
Apreciará viver enquanto existirem bons sebos de livros usados.
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DECLARAÇÃO
Estes poemas são dedicados a todos
Os poetas ignorados do planeta.
Espero que no futuro as musas inspirem
mais
E mais poetas a dizerem o que pensam e sentem,
Mesmo que os resultados sejam desagradáveis.
O compromisso da poesia é para com o
espírito humano.
Atemporal, imparcial e, acima de tudo, real.
Extrema, 06 de julho de 2005
Fred Teixeira
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A garrafa
Esperando dias pela chuva
Finalmente fui recompensado.
O granizo, meu velho, meu caro
Acabou com toda a lavoura.
E os pintores xingaram
E os pedreiros vociferaram
E os lavradores blasfemaram
Mas eu, meu caro, meu velho
Eu não.
Sedento como estava
Afoito como estava
Sinceramente enlouquecido
Como estava
Corri
Corri para o interior da casa
Buscando a garrafa.
A garrafa de brandy, meu
velho
Meu caro, a garrafa escondida
No abafado porão de minha
Embriagadora solidão.
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A recusa
Estava nu há dois
segundos. Agora
Camadas e mais camadas de tecido
Minha mortalha. Estou então morto
Sou cadáver já, haja fé no Paraíso
Que me faça ascender. No entanto
O peso da farda submerge o corpo
Da alma na fria lama do chão; assim
Afundo. Uma estrada margeada de dor
Partindo de árvores, cujos gemidos
Conduzem o espírito ao cume do monte
Onde sei, por alguma louca intuição
Que repousa a razão de minha vinda.
“O caminho para o Hades”,
diz o Alighieri.
No topo do monte há uma
cruz, e ali
Fixado por parafusos áureos de várias
Polegadas, eu, o amontoado de dúvidas
Encontro o crucial motivo da viagem.
“Virgílio, que cantou a
humanidade
Dos deuses, foi unicamente um poeta
Tristonho. Ora, tu, mortal, visitas meu
Reino tenebroso; vê pois, e anota teus
Dados e impressões. Volverás depois
À superfície, e dirás aos teus iguais
Que eu, Plutão, Senhor das Sombras
Decreto fechados os Campos Elísios
E demais dependências destes domínios
Para não contaminá-las, compreenda
Com o vazio atual de tua vã espécie.”
“Não dizes”, respondo,
“nada de novo
e creia-me, Grande Imperador
Dos Infernos, se de lá, da crosta
Vim (e creia que não viria sem
Ter antes certificado de me achar
Convenientemente trajado), digo
Que afinal, cá estando, não sou
Assediado pelo desejo de para lá
Tornar, pois cá sinto-me renovado
Ao finalmente poder comprovar
Com toda certeza vossa existência
Que também prova, conclusiva
E sem qualquer sombra de dúvida
Que não só eu, mas muitos outros
Encontravam-se certos, e seguros.”
“Perdoa-o”, diz o
Alighieri, “pois
Não sabe o que fala, Ó príncipe!”
“Vai-te, mortal!”, brada
Prosérpina.
“Aqui não és bem-vindo, nem ao fogo
Líquido ou gasoso, ou aos prazeres
Inenarráveis do Limbo tranqüilo!
Vai-te, antes que soltemos o Cérbero
Que faminto de substância anímica
Está! Volta aos teus, retorna urgente
À vida infeliz de teus dias vazios!”
Desperto... Em meus
ouvidos soando
A voz estridente da rainha do Hades.
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Antes que cale
Não, não... cala
Ou antes, imobiliza
A mão que por ti fala.
Escuta o silêncio...
Puro, cristaliza
Em veracidade o momento.
Sentimento...
Escuta o que diz
Antes de dizer algo.
Pois sim, no vendaval
De vozes ao redor
De teu próprio ser
Encontrar real, achar
Tua razão.
Não, não... cala
Ou antes, finaliza
Em silêncio tua fala.
Escuta em silêncio...
Puro, cristaliza
Em veracidade o tormento.
Sofrimento...
Escuta o que diz
Antes que cale.
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Cigarro
I – Fumando
Um pacote inteiro de cigarros
Por semana
Aonde irei, além
Do Além?
Aquém, bem sei
Do que sou
Não irei. Já fui
Além do aquém
Aquém do acaso
Além do ocaso.
Eu fui ao fundo
Do profundo, e lá
Me deparei estupefato
Com a amplidão
Do Nada.
Não digo que não senti
O baque psicológico da queda:
Acendi um cigarro
E fumei.
II – Negando-me cheguei ao
zero.
Não, nenhum conto de fadas
Poderia equacionar
O sentimento sem causa
Da osteoporose da alma.
Assim, sem a moral
parabólica
De um sermão enfumaçado
Esfarelando lentamente
Como um grilo seco na teia
Da aranha
Eu, em coma, amassei o maço
E comprei outro.
Ali, na esquina
Onde jovens e esbeltos modelos
Soerguem o melhor de si
Por algumas pratas.
Eu desci ao Inferno,
apenas
Para num ato de desespero
Ascender um cigarro.
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Do Gehenna clamei...
“Eu quero saber o que vai
acontecer depois que eu apodrecer
Pois já estou apodrecendo”
Allen Ginsberg – Mescalina
Aqui jogado no chão
atulhado de frio do banheiro
Ó apodrecendo tal qual Ginsberg em seu
Túmulo aonde onde aonde estás Ó mestre
E eu que neguei-me a vida toda em toda vida aqui
Resumida na simplicidade de um nada sou
Um verme! Sou um verme! Um verme
E o banheiro e a latrina e a lixeira repleta de papel sujo
Ó magister do fôlego tranqüilo e inquieto, eterno
Escuta Ó das lânguidas e límpidas planícies
Aonde onde aonde foste declamar aos anjos
Recolhe esta lamúria em teus ouvidos
Teus ouvidos de protesto podres e angélicos
Sim Ó grande rei barbudo de lírica voz
Extática quimera soberba alegoria de saber
Responde a este canto despropositado e nulo
Das altas montanhas além das nuvens dai-me
Ó bardo barbado dai-me teu vivo parecer
Apesar de estares podre eu escuto
Teu silêncio.
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Enigma
A linfa, por seu calor
inquieto
Em paleáceo permutar queima.
O ósseo, qual lampeiro inseto
Esparge cálcio e, estéril, teima.
Nada fulge. Em pranto
carola
A carótida late, tremulenta
Desova de sangue. E atola
Dadivosa de frio. E esquenta.
Urticária de feto, que
crasso
Na coxilha de pele impele
O vergalhão em vil regaço.
Que, no coto de aço, o repele.
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Estuporado mundo
Estuporado mundo,
cadavérico
A definhar em cronológicas cadências
Por séculos a alma humana a chafurdar
Na ignorância.
Em logradouros sujos,
sujas crianças
De velhice e ócio cingidas, tão findas
Tão distantes do modelo, tão sozinhas, tão
Não salvas.
Anciões de pele alva,
cabeça calva
Choram em paupérrimos berçários, vários
Hereditários erros a recometer, e ser
É só um deles.
Nos becos secos que
abundam, ao léu
Sob um céu vazio e frio vagueiam cães
E mães a procurar comida, combustível
Da vida.
Existência porca, parca
consistência
Esquálidas figuras translucidam pelas ruas
Figuras da fome, exército mísero em luta
Consigo.
Estuporado mundo, e
cadavérico
No qual mais um dia estive, e estou
Não burle, não bula no minguado orgulho
Que me restou.
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Eu me separei dele e me
tornei outro
I – Eu me separei dele e
me tornei outro
Sendo o mesmo que sempre foi
Ele continuou sendo a senda
E no caminho de pedras
Pontiagudas que esfolam solas
Outros pés não mais sofreram
Pois haviam sido convenientemente
Calçados de abstração.
II – Continuou e seguiu a
ele o outro
Entre diálogos silenciosos
Do eco egocêntrico
E de páginas perdidas fez-se o dia
À noite, palavras de fundo falso
Alçapões de rumores cacofônicos
Que cintilavam por dentro
Como traidores lagos
De líquido insone.
III – No fim da
interminável trilha
Uma velha surpresa aguardava
A ambos. Uma encruzilhada
Reverberava indecisão, e o outro
Com sincera mágoa de veludo
Acariciante como embriaguez
De viagem, quedou sem retorno.
Eu me separei dele e me tornei outro
Seguindo por duplos caminhos
Deixando mais um para trás.
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Forma
Dúbia forma! Sei teus
meios, teus desvelos
Sei-te toda, e ainda assim
Sei-te pouco!
Importas-te com isso? Que
importa
Ao pouco que a conheço sei-te à porta
A minar-me, a encantar-me, como cobra
Que ao pássaro abocanha
Ou como barco, que no mar soçobra
Levando, em sua sanha
Os marinheiros que em si aloja...
Sei-te dúbia, sei-te forma
Embora informe, sei-te enorme
Sei-te forte, apesar de fraca
Ser tua figura inconforme...
Tendo sorte, és a Morte
No azar, és o penar
Na inconsciência, o sonhar
És do Sul o extremo Norte...
És um beijo, uma carícia
E também uma estultícia
O mal que alicia, a droga que vicia
O éter, o álcool, tabaco, religião
O vazio... És o fogo, que no frio
Surgindo, traz alívio... e no crivo
És areia muito grossa, que não passa
Como tempo que não houve...
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Freqüência
Assim morre o poeta:
À míngua de si mesmo
Sem conhecer-se
Sem nem ao menos saber
Seu real nome.
“Viste meu rosto?”
Pergunta a toda gente
Mas erra; não deveria
Indagar quem fora
Nem mesmo a si.
Devia apenas ir-se
Sem rodeios
Sem pestanejar
E encarar
O espelho.
Silêncio não mente
Não mente quem cala
(não sente)
Consente:
És tu.
És tu, poeta
Freqüência de dores
És tu, poeta
De dores freqüência
Tu és.
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Hendecágono
Hendecágono eu sou
Tenho ao todo onze lados
E sempre um está voltado
Para o interior se voltou.
Dez lados ando mostrando
Pelas ruas cheias de olhos
Mas não passam dos restolhos
Do um que está faltando.
Este um o tenho guardado
Como tesouro do Demônio
Insuflado de antimônio
Que mata ao ser encontrado.
Meu veneno, meu segredo
Minha forma de protestar
Contra o silêncio gritar
Meu voluntário degredo.
Tenho ao todo onze lados
Mas dez não são verdadeiros
São os meus lados inteiros
Por si sós já completados.
Mas o meu lado derradeiro
Que escreve e se derrama
E é consumido nas chamas
E que jamais será inteiro
Este não tem esperança...
Como uma velha criança
Definha, a brincar de morrer.
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Lembrem
“Salto dentre estas
páginas
Aos teus braços – a Morte
Traz-me à tona.”
Walt Whitman – Adeus!
Lembrem de mim, quando
ufanos
Ostentarem bebês nas maternidades
Lembrem de mim na névoa dos anos
Na bruma agonizante das grandes cidades.
Lembrem de mim nos dias
futuros
Quando assassinos não forem problema
Lembrem de mim e dos tempos tão duros
Que decerto verão na sessão de cinema.
Lembrem de mim ao gozarem
da paz
Que o futuro talvez para a raça reserve
Lembrem de mim e do frio que faz
Onde anteriormente fremiu esta verve.
Lembrem de mim, quando
ufanos
Exibirem seus filhos, sorridentes pais...
Lembrem de mim na poeira dos planos
Lembrem dos erros; e não errem mais.
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O lençol consciencioso
Foi-se ao vento o lençol
Que cobria o corpo morto;
Voa agora, todo torto
Na claridão do arrebol.
Em vão tentou quedar
Imóvel sobre o vil despojo;
Ignorando o próprio nojo
Em paz ali pretendeu ficar.
Mas a brisa se transformou
Em forte vendaval intenso;
Arrastado como simples lenço
Ao lençol não mais se achou.
E o corpo morto ali ficou
Desnudado, a descoberto
Sem pensar no destino incerto
Que o pobre lençol levou.
Mas o lençol, onde estiver
Estará certamente a pensar
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O sinal
Tive o sonho de ser poeta
Na aurora da conscientização
Entreguei-me ao sonho
E cá estou.
Confesso, nada sei
De mim. Embalei-me de música
E pontuação, e gramática
E quebrei amarras.
Não sou nada, nem mesmo
Niilista. Por demais oco para filosofias
Apenas vivo. Rendido à febre dos ossos
Que, cercados de carne, não param quietos.
Um dia estarei em paz.
Então
Clamando de camadas geológicas de pranto
Um verme, mordendo o espírito dormente
Despertará a lembrança.
E o esbranquiçado
esqueleto, murcho
De plasma e bile, se assenhorará
Do legado terrestre. Fúria de minhocas
Entrechocando, fogo-fátuo fluindo.
Na sepultura, poético
despojo
Restos líricos, último canto.
O bardo da lira torta
descansará
Nos braços cadavéricos do Olvido
Até que o sinal seja ouvido...
Então, do pó ressurgirá.
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O verme
Mote roubado
“ És um verme? Imagem da
fragilidade
Não és mais que um verme?
Vejo-te, como uma criança
Envolto na folha do lírio.
Ah! Não chores, pequena voz
Podes não falar, mas chorar podes.
É isto um verme? Vejo-te
Indefeso e nu, chorando
E ninguém para acudir, ninguém
Para confortá-lo com sorrisos maternais.”
William Blake – O Livro de
Thel
I – Roí a carcaça
Até apenas ossos restarem.
Dos ossos fiz
Meu aprazível castelo.
Ainda há carne
Pútrida carne algures.
Sinto o odor
Sentem também os abutres.
II – Buscarei
Na podridão parco alimento.
Sou o verme
Não me negueis vosso despojo.
Sou o sublime
Alvo e ávido devorador.
Vosso sobejo
É a razão de meu ser.
Sou o verme
Insaciável vos aguardo.
Não me negueis
Vosso parco último despojo.
III – Se choro
É por evitares entender.
Quero-vos bem
Amo-vos além, muito além.
Além da fome
Além do estômago que freme.
Amo-vos além
Da corrupção, da putridez.
Sou o verme
Não cabe a mim vos julgar.
Bons e maus
Sem parcimônia devoro.
E se choro
É por não ser compreendido.
Sou o verme
A todos piedosamente devoro.
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Pequeno poema paranóico
Há na substância nasalar
certo demônio
Que de receios insensatos se alimenta
Colapsos da alma, essência de estramônio
Visões do futuro em presente de tormenta.
Um inspirada e expia-se a
culpa inútil
Momento satisfatório de insanidade pura
Orgasmo mental indecorosamente fútil
Química fugidia de uma alma insegura.
O negro íncubo da alva
maquinação
Domina egoísta o organismo viciado
O medo invade o que antes foi razão
O pobre fantoche por fios controlado.
Não há na abstenção um
abrigo seguro
O desejo incontrolável açoita impiedoso
O mercador em seu sujo antro escuro
Espera que o autômato apareça ansioso.
Buscando o combustível de
sua realidade
Não tarda em chegar o servo da loucura
Pagando em dinheiro pela sua ansiedade
Acorrenta-se ao prazer que o tortura.
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Pneumania
Meu peito dói e tudo é dor
cercando ele.
Meu peito é dor. Idealizada e praticada dor.
O vento sopra e tusso. O vento tosse ao meu redor.
Ao redor é dor. Redolorindo. Redoma de dor.
Indolor somente a morte. Não morte-momento.
Morte-subjetivação. Morte-poesia. Morte-vida.
Morte-idéia indolor, morte incolor.
Morte-espectro diluída em luz.
Morte-escuridão radiante.
Morte-solidão...
Meu peito dói e tudo é cor
cercando ele.
Meu peito é cor. Idealizada e praticada cor.
O vento tosse e sopro. O vento sopra através.
Através é cor. Recolorindo. Recobrando cor.
Incolor somente a vida. Não vida-momento.
Vida-abnegação. Vida-prosa. Vida-morte.
Vida-ato incolor, vida indolor.
Vida-corpo fusão em negro.
Vida-clarão sombria.
Vida-companhia...
Meu peito dói e tudo é dor
e tudo é cor cercando ele.
Meu peito dor e cor.
Idealizada cor.
Praticada dor.
O vento sopra e tusso ao meu redor.
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Presença do Nada
Foi-se. O frio passou. O
medo
Detrás da máscara congelada
Derradeiro suspiro exalou.
A vaga, que estava estocada
No núcleo fremente da noite
Fluiu, não mais controlada
Não mais reprimida, liberta
Bailou enfim na presença
Faminta do Nada.
Foi-se. A madrugada
De guerra e fome retinta
De peste e morte pintada
Cavalga o céu, desvairada.
Sobre a mesa rascunha
A despedida ensaiada
Por toda uma vida: “Ainda
Não sei onde vou, não sei
O início da estrada...”
Foi-se. A chaga lacrada
Reluta em abrir. O medo
Do frio e da morte chegada
Só faz persistir. É fato
Que clemência demonstrada
Pelo corpo que agoniza
Estende a dura empreitada.
É triste. Porém, liberta
Que baile enfim na faminta
Presença do Nada.
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Nota
Escrever poesia é
Em parte, não absoluta
Ou conclusivamente falando
Uma forma um tanto quanto
Ou quase, digamos em tempo
Uma maneira modelada em gesso
Do ego supérfluo, bradando
Hendecassílabos não hiatados
Sinapses, sintaxes, solilóquios
Ou colóquios animosos sensatos
Selados em verbos estáticos
Filosofias fisiológicas, flatos
Fezes, enfim, do cérebro
Regurgitadas em cadernolas
Que clamam no silêncio
Das páginas em branco
Ansiando fonemas.
Sejamos estéticos:
Não venha
Com pedras
Não venha
Sem dedos.
Que o cadáver vai enojar
Quem por lá a passar vier...
Ó lençol consciencioso
Não te deixes perturbar
Pois o povo adora espiar
O que julgas monstruoso!
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Soneto exilado
Minha terra é o sabiá
E a palmeira onde se aninha
Mas é uma terra não minha
Pois nela terra não há.
Não há terra para todos
Os filhos desta nação
Exílio é tal condição
Exílio in situ; de modos
Que a esperança do povo
Quase acabada está
Pois não encontra renovo.
Logo nada restará:
Nem a palmeira, nem ovo
No ninho do sabiá.
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Soneto sacrificial
(à moda de Baudelaire)
Sou uma quimera e de
quimeras me sustenho
Como tolo que na própria tolice encontra apoio
E se acaso desejasse separar do trigo o joio
Ao fogo lançaria a inteligência que detenho.
Inimiga do corpo é a
razão; assim me perco
Na imensidão do espaço vago em meu peito
Compreendendo na gelada solidão do leito
Que mais valor teria sendo pó de esterco.
Tal pensamento de consolo
vibrar
Faz as fibras adoentadas do coração
E por instantes puro o sentimento...
Sonhando fomentar raízes
sob o chão
Participar da flor no triunfal momento:
Das pétalas moventes o desabrochar.
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Sono final
Vênus pairava no céu seu
brilho sinistro
E grilos e outros seres da noite chilravam
Sozinho no berço de folhas secas e galhos
Um silvo grunhido nos lábios fendidos e sujos.
Criatura nascida da noite
em noite de calma
Não freme em seus olhos um traço de vida
Não bate em seu peito o compasso cadente
Que açoitaria o sangue inerte nas veias.
Mãos que premem ar frio em
busca de força
Carregam cadeias de morte que prendem a nada
No frio funéreo que cobre a carne encoberta
Do vazio encarnado ardendo de ativa inércia.
Subjetivo objetivo
inscrito em negros miolos
Decadência e luxúria cruel e estranhas vontades
Sangue e morte o alimento vil em demanda
Insana mania de gemidos agônicos suster-se.
Cresça homenzinho padeça o
tormento de ser
Cresça e se torne e torne a tornar-se
Entorne-se por aí padeça homenzinho
Seja não mais do que é que é tudo que pode.
Vênus pairava no céu seu
brilho sinistro
E grilos e outros seres da noite chilravam
Sozinho no berço de galhos e secas folhas
Gelado na tumba imerso no sono final.
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Teu santo nome meu
Da solidão do poço gritei
o Teu nome
E era meu o Teu nome
E era eu
O Teu nome.
Ó, por que grito do fundo
escuro
Buscando a voz em meu peito
Teu peito em meu peito
Clamando e clamando
Através do vazio?
De uma solidão
imensurável, náufrago
Flutuando na jangada de carne
Em mares de sangue
Clamando e clamando
Através do vazio?
Vai-te, soturna veste
celular
Sorve esperança em meus olhos
Teus olhos em meus olhos
Rapina do olhar!
Fundou-se uma pedra na
esquina
Da razão com o senso.
Busquei da solidão a saída
Suspenso nas garras da Morte
Gritei no vazio e solucei
O eco de Tua voz
Retornando.
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Um
dia remunerado
Avisem Rimbaud
Nos desertos amplos
Que o Inferno não é
Um estado de espírito.
Avisem-no
Se acaso o virem
Nos desertos amplos
Da velha África.
Avisem-no
Se acaso o virem
Entre uma negociação
Ou outra qualquer.
Digam-lhe:
“O Inferno não é mais
Um estado de espírito.
Não é mais.”
Digam-lhe
Que o Inferno
É um dia; um dia
Remunerado.
E se ele quiser
Pagar pelo serviço
Simplesmente
Neguem-se a receber.
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