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Recanto do Tempo Eugénio de Sá |
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Página inaugurada em 02/03/2006 Ultima actualização 16/05/2007 |
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28 Poemas Editados
- Estas mãos que teimam em se
abrir
6 Crónicas Editadas
- À amizade que brota sem aviso sem regras
- A interiorização de uma maldição - No mundo conturbado em que vivemos
2 PARCERIAS
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Foto de: Sete Sois
Eugénio de Sá |
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Eugénio de Sá – Sumário de uma Vida
Eugénio de Sá, de seu nome completo Manuel Eugénio Angeja de Sá, nasceu em Lisboa, no típico e antigo bairro da Ajuda, em 29 de Março de 1945. Após concluir o curso comercial frequentou o instituto Comercial e ingressou como voluntário na Força Aérea Portuguesa. O curso de Radarista de Detecção permitiu-lhe servir nessa especialidade da aeronáutica militar o Centro de Operações de Radar em Monsanto. Em 1968, depois de uma breve passagem pela Ford Lusitana, junta-se a um grupo de jornalistas no arranque do Jornal A Capital, onde exerce sucessivamente as funções de redactor do serviço de estrangeiro e chefe da publicidade. Alguns anos depois, com Adriano Sequeira, José Pinto e outros jornalistas do automobilismo desportivo, inicia a publicação da Revista Automundo que vem depois a integrar o grupo de publicações da Intervoz, onde se distinguiam edições tão históricas como a Casa Viva, a Arquitectura e A Mulher d’Hoje, entre outras. Eugénio de Sá assume, então, a direcção comercial da área de publicações da Intervoz, cargo que desempenha durante sete anos, até à extinção da vertente editorial do Grupo. Em 1984, Eugénio de Sá inicia um novo ciclo na sua vida profissional e assume funções de supervisor de clientes e director do departamento de stands da Agência de Publicidade Comunicar (Grupo Publicis – France), tendo como cliente principal a Renault Portuguesa – entre outros - cuja conta gere até 1992. Ainda nesse ano, com o seu amigo José Rego, funda a Agência Rego+Associados, onde passa a assegurar as funções de Director de Clientes. Com o desaparecimento prematuro de José Rego a Agência encerra as suas portas. Entretanto reformado, Eugénio de Sá decide aceitar o convite do seu Amigo Padre José Maria Cortes, Pároco de Alverca, onde reside, para assegurar a assessoria de Comunicação, Imagem e Relações Publicas do Pároco enquanto durar a construção da primeira Igreja – no mundo – consagrada aos Pastorinhos de Fátima; A Igreja dos Pastorinhos, de Alverca. Em 2000, entusiasmado com o projecto, Eugénio de Sá desenvolve as bases para o lançamento dos patrocínio do grande carrilhão (o 2º maior da Europa) e organiza a venda 58 garagens no subsolo do grande empreendimento, parte substancial do financiamento da obra. Organiza o Leilão de Vinhos e diversas campanhas para recolhas do fundos. Estabelece uma corrente informativa com os meios de comunicação regionais e nacionais e habitua as populações da região a receber regularmente informações - com grafismo inovador - do andamento da obra e das iniciativas que vão tendo lugar. Desde a apresentação do projecto em "Power Point" à criação de um site na Internet, e da edição de um Boletim Informativo, passando pela criação do logótipo do conjunto religioso e da figura que decora a fachada do novo templo, Eugénio de Sá fez de tudo um pouco até à inauguração da Igreja dos Pastorinhos em 1 de Maio de 2005. De par com este trabalho assegurou, durante dois anos, a edição do Jornal "Despertar Cebi" – veículo de comunicação de uma das maiores instituições de solidariedade social do país e publicou no jornal "Vida Ribatejana" numerosas, crónicas e poesias. |
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Sonhei um dia ser cavaleiro cruzado Navegando no Mar mediterrâneo Deixando para trás a epopeia E o sepulcro de Cristo bem guardado
Godofredo Bulhão o chefe bem-amado Qual campeão de Deus, vitorioso Rei de um Jerusalém esplendoroso E o infiel a seus pés, já dominado
Desse medonho embate memórias tinha vivas Do bravo resfolgar dos corcéis de batalha Ao cruzar das espadas no assalto da armada E os prenúncios de morte e armaduras fendidas
Cingida ao peito tinha a Santa cruz E a protegê-la malha e armadura Com elas se chocaram setas e a metralha E as cimitarras mouras chispando como luz
Já o elmo caíra a golpes de machado E o punhal sarraceno descia vingador Quando ferido e sem força que dominasse a dor Vi de uma só lançada o mouro trespassado
Senti o Seu milagre naquele dia de preito Cristo estava comigo na contenda Ditando a minha sorte nessa manhã tremenda E a cruz incólume pendia-me do peito
Jerusalém ardia p’las muralhas abertas Nos gemidos dos feridos esbatia-se o fragor Da vitória por Cristo dos mortos por amor Drapejavam bandeiras nas ameias desertas
Da costa de Israel já ao não vejo o recorte A barca segue lesta com a brisa a soprar Cavaleiros cansados de tanto pelejar Encostam-se à amurada que lhes ampara o porte
Acordo desse sonho mas não perco o registo Dos defensores da fé; bravura e a glória E a nobreza dos que souberam conquistar a história A golpes de montante; Os cavaleiros de Cristo.
Eugénio de Sá
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Passear minha mão, assim, quisera Roçando o teu pescoço levemente Descer por esse colo brando e quente A caminho de um ventre à minha espera. Quisera, meu amor, aconchegar-te a mim Acariciar-te as coxas e os seios E deixar aos sentidos doces devaneios Ate te sentir trémula num espasmo sem fim. Depois, com o desejo ainda a fermentar Fazendo latejar os nossos corações Beijava-te o cabelo húmido de amar Dormíamos em paz guardando as emoções.
Eugénio de Sá
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Como posso aninhar-me Se o teu seio está ausente…
Como posso dormir Se a saudade me acorda… Como posso fugir Se o teu cheiro permanece…
Como posso esquecer-te Se tu és o meu vício… Como posso aceitar Se amar é tão penoso…
Como posso salvar-me De me esquecer de mim?
Porque quando se ama A interrogação dói demais!
Eugénio de Sá
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Estas mãos que teimam em se abrir
À porta escancarada desta alma Espera a esperança de te ver chegar Virás tu decidida, fria e calma Ou beijando a manhã, voando em vez de andar? Será que ganha a estúpida razão Embotada de receios inertes Ou deixarás que vença o coração Abrindo-o à ventura que despertes? Porque hesitas, amor, Que males te podem vir Das carícias guardadas no calor Destas mãos que teimam em se abrir?
Eugénio de Sá
Ouça este poema declamado por João Moutinho
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No silêncio, a casa parece querer acomodar-se ao desassossego de quem a habita.
L á fora, a noite
Espero que a manhã se deixe anunciar pintando a claras cores a escuridão anseio desta mágoa a omissão que a luz do dia possa consumar. E se a mente não se recusar a aceitar, por troca, outras memórias saiba eu recuperar fantásticas estórias que a razão mais adulta não quis aceitar. Mas funda é, demais, a soez dor para que a frágil luz possa adiar desesperos emersos, peados de brotar silenciado, a custo, o íntimo fragor. Chega tímida, enfim, a gélida alvorada prenhe de (vãs) esperanças de libertação que depressa se esbatem, e volve a maldição deste desassossego que não esquece nada.
Eugénio de Sá Fevereiro de 2005
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Onde moras, amor?
Alado fosse este meu amor E tomaria os céus no teu encalço E voaria com frio ou com calor Até posar exausto de cansaço E pairaria cego à luz do sol Sem contar os minutos nem as horas E usaria a lua qual farol Até descortinar onde tu moras
Eugénio de Sá
Ouça este poema declamado por João Moutinho
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Memórias já hoje não quisera Desse teu corpo amado que foi meu Um tormento que fez de mim ateu E me faz renegar esse que eu era Em ti voguei, feliz, como num rio Á cadência suave das remadas No teu leito dormi as longas madrugadas Ajeitado ao teu jeito, quente no teu estio Lembro afagos, carícias, ternuras no olhar O sabor desses beijos, dos tantos que trocámos E os cheiros de amar no ar que respirámos Nostalgia penosa que me faz penar Sinto-te a falta, amor, queres voltar?
Eugénio de Sá
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Os dramas que conheço e que não quero assumi-los na alma, quais espadas vêm, na mesma tecer suas meadas volvendo o que é tranquilo em desespero. Pudesse eu converter vidas perdidas moldá-las à quietude desejada traria então a paz assim tratada ao tormento da dor que fere e deixa feridas. Busco nas madrugadas o deleite de um sono perpassado de cores alvas mas as recordações disparam secas salvas forçando a negritude a ser aceite. Turbo espírito este que se debate em mim fadiga de quem sou exigindo descanso bravura de pinheiro ansiando ser manso em vez disso clausura num casulo ruim.
Eugénio de Sá Maio de 2005
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De tanto desespero, desesperei Sem valia ou orgulho cansei de tanta andança Em frustrações frustrou-se o que sonhei E do muito esperar morreu-me a esperança Foram assaz amargos os anos que passei Tentando encher de vida o meu viver Procurei o sabor e não saboreei Amizades de amigos que provaram não ser No vazio, forçado, caminhei Sem poder optar pelo caminho Perdi-me em soluções e não solucionei Senti a solidão sem estar sozinho Subitamente, sem se anunciar Alguém surgiu da sombra de uma cruz Foi-me estendida a mão que me fez acordar Da triste nostalgia que tanta dor induz … e voltei para mim.
Ao drama dos desempregados
Eugénio de Sá Dez.2000
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Pena inerte na mão dormência de papel Calmarias da alma ideias sem tropel Vagamente um vazio sem imaginação Cansaço de ralhar com a apática razão Desespero de criar expor credos e medos Manifesto de amar ou um mar de segredos Finalmente um ruído que sacode o torpor É o sonho a fluir é um riso sem rir Anima-se o talento e sai a criação E acontece a poesia !
Eugénio de Sá
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O poeta sabe que o seu destino é esgrimir com as palavras num mundo cada vez mais insensível ao sentido lírico da vida e das coisas que dela fazem parte. Não há moldes para as palavras, nem fórmulas alquímicas para o cadinho das ideias de um poeta. São os seus sentimentos que lhe fazem brotar as metáforas com a espontânea força da sua exaltação criativa. Ora ferindo e desassossegando, ora acariciando o seu leitor. Isso é a poesia; - amarga ou doce, aveludada ou rude mas sempre, sempre, indomável.
Eugénio de Sá
Ouça este poema declamado por João Moutinho
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E a caneta, hesitante, então parou Sem saber que escrever sobre o papel Até que a tinta, no aparo, secou Porque o dono da mão que a segurava De verbo fácil, outrora eloquente Não é mais que uma sombra dormente P’lo abandono da mulher que amava A dor imensa carrega-lhe o semblante Tamanho o desespero e a saudade Que aperta o coração do pobre amante Incapaz de sentir a poesia Fluir ligeira contando sentimentos Deixa-se dominar pela apatia São mais fortes que ele os seus tormentos E o poeta desiste de criar Apagada na mágoa a sua exaltação Verga-se, enfim, cansado, à exaustão Deixa que o sono aquiete o seu penar
Eugénio de Sá
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Se alguém pudesse decantar Como um bom vinho, a vida que tivemos Degustaria os bons e os maus anos Conhecendo os reveses nos taninos E as glórias nas castas que criámos Sabendo, assim, de nós como de nós falar
Na alegria radiosa da manhã outonal Ou nas melancolias do nosso entardecer Residem os aromas, as razões conhecidas Que marcam as encostas destas nossas vidas A tons de ouro as venturas, a negro o padecer Ao esgotarmos a essência, na vindima final
Ergamos nesta taça o brinde que mereçamos De um néctar bom ou mau p’lo que deixámos feito alguém dirá um dia desse vinho que herda que é uma triste zurrapa ou uma grande reserva depende só de nós, se soubemos ter jeito de ganhar a memória daqueles a quem amamos
Tal como a história de uma vida A memória da nobreza de uma boa colheita sobrevive à sua natural extinção.
Eugénio de Sá
Ouça este poema declamado por João Moutinho
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Tanta esta dor que dói e dilacera Da beira da loucura estou bem perto Já não digo coisa que ainda tenha acerto Tão pouco sou aquele que d’antes era
Tantas as alegrias que vivemos Nenhuma é a razão que a morte encerra Longas as madrugadas, sozinho, nesta terra E tão poucas as noites que tivemos
Tanto percurso neste caminho d’ébrio Com a saudade a minar sem conforto ou parança Tão pouco, este sumário de vida sem esperança Vivi à beira-amor e morro à beira-tédio
Eugénio de Sá
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Rua da Madalena, não posso esquecer As alegres manhãs calçada acima E ouvir o pregão: “viva da costa” Na esganiçada voz de uma varina Havia lá melhor? – Nem santola ou lagosta! Nem pescada, que era vendida à posta E era ver as freguesas a correr Que vaga nostalgia esse tempo me traz D’outro pregão, famoso, de Lisboa: “Fava rica, quem quer almoçar” E sabiam todos que era coisa boa S. Mamede saía a licitar As moedas na mão, esperteza no olhar Alguma discussão e favas ao cabaz E já nos fins de dia, ali ao Castelo Bicicleta a reboque, mão no guiador: “Amola tesouras e navalhas” Um assobio de gaita, pregão de amolador Consertava-se tudo, as bocas e as falhas Lisboa era isto, os corvos e… as gralhas E comiam-se à noite iscas no Cotovelo Eugénio de Sá
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Isto morre um e é como se, com ele,morresse um pedaço de cada um dos outros, que ficaram.
Quando alguém morre na aldeia, toda a população entra em vigília, pelo respeito aos mortos e pela amizade aos vivos, companheiros de anos e de desgostos.
O abandono pelos seus, pelas duas gerações que os sucederam e que se foram embora, uma a reboque da outra - entretanto ocupados em gastar o que ganham na grande cidade - torna-os mais unidos. E a perda de um deles não se confina aos que lhe são chegados por família. É perda colectiva, é mais um vazio nas suas vidas já tão esvaziadas de objectivos e de alegrias.
Anciãos, trôpegos, quase todos, pelos forçados descuidos do trabalho sem tréguas, parecem ainda mais velhos do que são. Lá se vão arrastando pelas ruas do povoado, num ruído surdo de bengalas gastas, em triste convergência para a pequena igreja onde os leva a obrigação e o respeito. É lá que começa a despedida ao finado, cumprindo-se o respeitável ritual do desfilar de memórias e de sentimentos, ao longo de toda a noite, em alternância com grandes e eloquentes silêncios, até que o dia chegue. É lá que prossegue o ciclo imparável do despovoamento. As flores acumulam-se, compradas com o pouco de quem nada tem. E ainda se reza na Aldeia, ainda se confia a Deus, com fé, a alma do que parte. Já não serão todos primos e primas – como verseja a popular cantiga – mas todos se conhecem e (quase) todos se respeitam, estimam e entreajudam, num exemplo inútil aos ausentes. Falta-lhes tudo; os remédios e o médico a horas e até o Pároco, que lhes ouça os pecados e as queixas, que reparta, com eles, o pão e o sangue de Cristo e que, ao menos na morte, os acompanhe e os encomende a Deus, como deve ser. Ao fim e ao cabo são eles os últimos bastiões da defesa e da prática dos valores mais altos alguma vez conquistados por esta decadente civilização, cujas motivações colectivas maiores são... aquelas que justificam as maiores audiências das Televisões. Que se pense nisto com respeito pela nobre gente que resiste ainda nas Aldeias abandonadas do interior deste país.
Eugénio de Sá
... "Avante! -Os mortos ficarão sepultos mas os vivos que sigam sacudindo como o pó da estrada, os velhos cultos".
Antero de Quental ( in: "Sonetos Completos" )
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Crónica de viagem
Baguetes estaladiças; foi a minha primeira visão ao entrar na cafetaria daquela Área de Serviço. Curiosamente, não se tratava de nenhuma informação fixada na parede. O anúncio movia-se na T-shirt preta envergada por uma jovem da mesma cor que, após recolher uma bandeja deixada numa mesa, rapidamente retomou o seu posto atrás do balcão daquele snack-bar de estrada. Por cima dela, alinhadas em prateleiras, lá estavam as baguetes estaladiças, aguardando decisão para se abrirem ao recheio preferido dos apressados viajantes ocasionais, amantes daquela modalidade gastronómica ou que a instituem, casual ou repetidamente, por limitação da parca bolsa, esvaziada ao alucinante ritmo das exigências do quotidiano. Decididamente, não estava nos meus dias. Pedi um café e mergulhei nas cogitações deprimentes de quem tem de pagar os exageros de um injusto custo de vida. E sem perspectivas próximas de qualquer mudança para melhor, face ao deserto de ideias e de soluções de quem deveria patentear umas e promover outras. Olhava, vagamente absorto, o fumo cigarro, quando a imagem próxima da laboriosa mocinha me chamou, de novo, a atenção. De um ângulo apertado, por imposição de uma coluna de permeio, reparei que ela se movia em direcção à porta. Um rapaz, também ele negro, de boa compleição física, gesticulava do exterior, chamando-a. Vai haver sarilho, pensei, dominado pelo mau humor que me marcava o dia. Mas não, transposta a porta, a jovem quase se atirou ao pescoço do autor do veemente apelo, com uma jovialidade própria de quem mata saudades, de há muito sufocadas por forçada separação. Levantei-me da mesa que ocupara e, ao passar por eles, escutei-lhes um tagarelar crioulo; um alegre palavreado, completamente ininteligível para mim, mas, certamente, autentica música para eles, que vibravam, emocionados, com as mutuas revelações. Dirigi-me ao carro para retomar a estrada e o destino, pensando que aqueles dois, mesmo com dificuldades, porventura maiores que as minhas, ainda tinham alegria para viver... e sonhar. E o que somos nós sem o sonho?
Eugénio de Sá
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À amizade
(À amizade que brota sem aviso nem regras)
Porque nada há de mais de mais belo, de mais intrinsecamente humano, que a fraterna generosidade de uma mão estendida.
Confissão de amigo
Estas palavras que imploram por ser escritas, não serão as mais acertadas, as mais sólidas, as mais esclarecidas. Mas são, certamente, as mais sinceras que encontrei para esta difícil interpretação de sentidos.
A vida não te tem sido fácil. Soube-o por ti, pelos teus olhos húmidos de prantos, novos e antigos.
Não posso ver-te sofrer porque já sou teu amigo. Mas, por mais que rebusque a minha experiência, persiste a ignorância do que devo ensinar-te.
Por ti, procurarei minorar - com imaginação - a mágoa que te afoga o riso. Afirmo-o com a certeza que me dá a força da emoção que sinto.
Só te peço que me deixes partilhar os teus momentos mais sombrios. Em silêncio, a teu lado. Ainda que …só esses.
Sabes? – Soube-me bem conversar contigo. Sei que sentiste que gostaria de te dar as mãos. Foi a ternura a trair-me! Mas não me vou permitir perder-te por ter deixado emergir outra atitude que não seja a que possas esperar de mim. Porque quero que saibas que tens mais um amigo. Seguramente não o mais importante, por certo não o mais desejado mas, mesmo assim, almejo ser um dos mais dedicados, que se encantaria de poder vir a merecer-te a reciprocidade desse sentimento.
Eugénio de Sá
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O movimento repetido do limpa pára-brisas, afastando a chuva que cai, miúda mas persistentemente, a sucessão ritmada dos traços brancos - intermitentes - do auto estrada, o ruído abafado da borracha rolando no asfalto molhado, vão, lentamente, provocando em mim uma descontracção propícia ao afago de doces memórias antigas, sempre boas companheiras. Coisas velhas, saídas do baú do tempo, evocações da ternura de momento vividos, ainda menino. Parece que estou vendo: a minha avó paterna, vergada pela artrite, pegando-me carinhosamente na mão e recomendando-me cuidado ao atravessar a rua. Quase que consigo sentir o cheiro daquele bolinho que ela fazia no fim da tarde e que comia-mos juntos, enlevados pelo gosto e pela companhia enquanto esperámos que no Rádio Clube tivesse início o nosso programa preferido; as Lendas da Nossa Terra. Lembro-me do meu cão, o "catita", um rafeiro que recolhera, ainda bébé, que depois de aceite pela família, foi o meu primeiro parceiro de brincadeiras e silencioso confidente durante quase catorze anos. A nossa empregada doméstica, uma moça sadia, de bochechas rosadas, nascida e criada em terras de Monforte, que executava, com eficácia, as tarefas da casa, solícita e carinhosa cúmplice das minhas pequenas maldades e partidas. O seu silêncio poupou-me uns quantos castigos e talvez um ou outro justificado puxão de orelhas. Ah!, como me lembro, parece que foi ontem, do dia do temporal. Foi uma espécie de ciclone, ou talvez tornado, que durou uns (intermináveis) dois ou três minutos. Eu e a Avó assistimos a tudo à janela da saleta que dava para o quintal; o uivo do vento era temível. De súbito, a oliveira – a única que tínhamos – vergou-se até ao chão e partiu-se, incapaz de resistir às violentas rajadas. A barraca do catita, que deveria pesar uma boas dezenas de quilos, passou, voando, diante da janela. - Felizmente que o animal havia sido solto pela manhã. Depois, com enorme fragor, desabou a grande chaminé do padeiro. Enfim, um pandemónio. E o que me custou, depois, olhar a figueirinha que eu plantara havia dois anos arrancada pela raiz, jazendo na terra que a erguera. E as memórias continuavam a chegar-me como "alma que desliza sobre o éter de um instante"; a escola, os meus companheiros... e o senhor Mimoso, o barbeiro da Vila, responsável pelo meu corte "à inglesa curto", como era sempre recomendado pela minha tia, ao deixar-me sentado na imponente cadeira enquanto ia às compras. As primeiras namoradas... Quase com uma sensação de culpa de, por momentos, haver conseguido afastar as preocupações que me apertavam o peito, remexi-me, inquieto, no banco do carro. O patrão tinha sido claro na última reunião; dera-nos um mês para preparar a vida para o inevitável: ia apresentar falência e passar-nos o papel para o desemprego. E o pior é que eu, e que quase todos os meus colegas, já passámos os quarenta o que, nos dias que correm, equivale a dizer que é praticamente impossível conseguir outro emprego. Como fazer, então, quando se tem filhos adolescentes e a estudar, ainda completamente dependentes de nós?
O acidente Entregue, de novo, a esta amargura, mal me apercebi de que me aproximava, a grande velocidade da carrinha que me precedia. Travei de chofre, com quanta força tinha e, vendo que mesmo assim, deslizava no piso molhado e ia bater, desviei o carro para a esquerda. Só deu tempo para alguém que vinha a ultrapassar - e, também, a travar - passar a escassos centímetros do meu carro. Quase de seguida, já na outra faixa, consegui parar. Pelo retrovisor e, atrás de mim, vi que já todos haviam parado também. Escapara, por um triz, como que ajudado por mão invisível que me levara a executar, por instinto, aquela manobra. Abri a porta, ergui-me do assento, e pude ver que, à minha frente, se estendia um imenso choque em cadeia, onde ardiam algumas viaturas com gente ainda lá dentro. Um horror! Todo eu tremia. Os gritos, os lamentos e os cheiros misturados com a chuva que continuava a cair, tornavam dantesco aquele triste espectáculo. E eu que, lembrado do meu drama, me sentia já vitimizado! - Face ao que assistia, o meu problema perdera importância, comparado com aquela tragédia. Entretanto chegaram as primeiras ambulâncias. Duas horas depois, volvidos poucos quilómetros, cheguei ao meu destino; Alverca. Na portagem, enquanto esperava a devolução do cartão multibanco que estendera ao portagista, levantei os olhos e fiquei perplexo; à minha frente, do outra lado da Rotunda, lia-se a toda a largura de um cartaz que anunciava a próxima inauguração de uma Igreja: O Milagre de Alverca !
Eugénio de Sá
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Vêm de geração em geração Estas balelas espalhadas p’lo planeta E uma alminha simplória desde que ao mundo vem Cedo se torna badalo de sineta Chucha logo a mentira na chupeta E cresce a propagá-la aqui e além. Aprende a transmitir as loas do passado E os exemplos da vida que convém; Como os antigos discos, cheios de pó e riscos vão moendo e moendo o triste fado: O do trabalho dito "louvado e santo" À bigorna e ao malho interpretado Pingado de suor, de sangue e pranto. Sejamos realistas e concretos Porque isso do trabalho ser virtude Ou coisa que se busque de vontade Por ter nobre o carácter ou salva a castidade É peta que já ninguém ilude Nem move quem tem olhos bem abertos. E o que é, realmente, a natureza da frágil criatura que nos somos; qual a sua postura e natural tendência? - Certamente que o ócio e o descanso letargia e sossego, pleno de moleza aparentando um ar de eloquência mas gozando as delicias do ripanço.
Eugénio de Sá (*)
(*) baseado num texto original de Adhémaro Gomes de Azevedo
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Eu queria ser diferente Quando te vejo O meu desejo Era olhar-te sem ver Simples lampejo Do teu corpo ondulante. Queria passar por ti Tranquilo, calmamente Mesmo distante Como de tanta gente Por quem passo; E Intuir-te a graça Mas sem olhar p’ra ti. Queria apartar de mim O pensamento Qual tormento Do teu falar cantado O doce acento E a tua boca Onde o sorriso brinca E resplandece; Como posso esquecer O que não esquece? Quem dera não parecer que vou enlouquecer por querer sentir-me imune ao teu encanto; |