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Recanto do Tempo Eugénio de Sá |
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Página inaugurada em 02/03/2006 Ultima actualização 16/05/2007 |
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28 Poemas Editados
- Estas mãos que teimam em se
abrir
6 Crónicas Editadas
- À amizade que brota sem aviso sem regras
- A interiorização de uma maldição - No mundo conturbado em que vivemos
2 PARCERIAS
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Foto de: Sete Sois
Eugénio de Sá |
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Eugénio de Sá – Sumário de uma Vida
Eugénio de Sá, de seu nome completo Manuel Eugénio Angeja de Sá, nasceu em Lisboa, no típico e antigo bairro da Ajuda, em 29 de Março de 1945. Após concluir o curso comercial frequentou o instituto Comercial e ingressou como voluntário na Força Aérea Portuguesa. O curso de Radarista de Detecção permitiu-lhe servir nessa especialidade da aeronáutica militar o Centro de Operações de Radar em Monsanto. Em 1968, depois de uma breve passagem pela Ford Lusitana, junta-se a um grupo de jornalistas no arranque do Jornal A Capital, onde exerce sucessivamente as funções de redactor do serviço de estrangeiro e chefe da publicidade. Alguns anos depois, com Adriano Sequeira, José Pinto e outros jornalistas do automobilismo desportivo, inicia a publicação da Revista Automundo que vem depois a integrar o grupo de publicações da Intervoz, onde se distinguiam edições tão históricas como a Casa Viva, a Arquitectura e A Mulher d’Hoje, entre outras. Eugénio de Sá assume, então, a direcção comercial da área de publicações da Intervoz, cargo que desempenha durante sete anos, até à extinção da vertente editorial do Grupo. Em 1984, Eugénio de Sá inicia um novo ciclo na sua vida profissional e assume funções de supervisor de clientes e director do departamento de stands da Agência de Publicidade Comunicar (Grupo Publicis – France), tendo como cliente principal a Renault Portuguesa – entre outros - cuja conta gere até 1992. Ainda nesse ano, com o seu amigo José Rego, funda a Agência Rego+Associados, onde passa a assegurar as funções de Director de Clientes. Com o desaparecimento prematuro de José Rego a Agência encerra as suas portas. Entretanto reformado, Eugénio de Sá decide aceitar o convite do seu Amigo Padre José Maria Cortes, Pároco de Alverca, onde reside, para assegurar a assessoria de Comunicação, Imagem e Relações Publicas do Pároco enquanto durar a construção da primeira Igreja – no mundo – consagrada aos Pastorinhos de Fátima; A Igreja dos Pastorinhos, de Alverca. Em 2000, entusiasmado com o projecto, Eugénio de Sá desenvolve as bases para o lançamento dos patrocínio do grande carrilhão (o 2º maior da Europa) e organiza a venda 58 garagens no subsolo do grande empreendimento, parte substancial do financiamento da obra. Organiza o Leilão de Vinhos e diversas campanhas para recolhas do fundos. Estabelece uma corrente informativa com os meios de comunicação regionais e nacionais e habitua as populações da região a receber regularmente informações - com grafismo inovador - do andamento da obra e das iniciativas que vão tendo lugar. Desde a apresentação do projecto em "Power Point" à criação de um site na Internet, e da edição de um Boletim Informativo, passando pela criação do logótipo do conjunto religioso e da figura que decora a fachada do novo templo, Eugénio de Sá fez de tudo um pouco até à inauguração da Igreja dos Pastorinhos em 1 de Maio de 2005. De par com este trabalho assegurou, durante dois anos, a edição do Jornal "Despertar Cebi" – veículo de comunicação de uma das maiores instituições de solidariedade social do país e publicou no jornal "Vida Ribatejana" numerosas, crónicas e poesias. |
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Sonhei um dia ser cavaleiro cruzado Navegando no Mar mediterrâneo Deixando para trás a epopeia E o sepulcro de Cristo bem guardado
Godofredo Bulhão o chefe bem-amado Qual campeão de Deus, vitorioso Rei de um Jerusalém esplendoroso E o infiel a seus pés, já dominado
Desse medonho embate memórias tinha vivas Do bravo resfolgar dos corcéis de batalha Ao cruzar das espadas no assalto da armada E os prenúncios de morte e armaduras fendidas
Cingida ao peito tinha a Santa cruz E a protegê-la malha e armadura Com elas se chocaram setas e a metralha E as cimitarras mouras chispando como luz
Já o elmo caíra a golpes de machado E o punhal sarraceno descia vingador Quando ferido e sem força que dominasse a dor Vi de uma só lançada o mouro trespassado
Senti o Seu milagre naquele dia de preito Cristo estava comigo na contenda Ditando a minha sorte nessa manhã tremenda E a cruz incólume pendia-me do peito
Jerusalém ardia p’las muralhas abertas Nos gemidos dos feridos esbatia-se o fragor Da vitória por Cristo dos mortos por amor Drapejavam bandeiras nas ameias desertas
Da costa de Israel já ao não vejo o recorte A barca segue lesta com a brisa a soprar Cavaleiros cansados de tanto pelejar Encostam-se à amurada que lhes ampara o porte
Acordo desse sonho mas não perco o registo Dos defensores da fé; bravura e a glória E a nobreza dos que souberam conquistar a história A golpes de montante; Os cavaleiros de Cristo.
Eugénio de Sá
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Passear minha mão, assim, quisera Roçando o teu pescoço levemente Descer por esse colo brando e quente A caminho de um ventre à minha espera. Quisera, meu amor, aconchegar-te a mim Acariciar-te as coxas e os seios E deixar aos sentidos doces devaneios Ate te sentir trémula num espasmo sem fim. Depois, com o desejo ainda a fermentar Fazendo latejar os nossos corações Beijava-te o cabelo húmido de amar Dormíamos em paz guardando as emoções.
Eugénio de Sá
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Como posso aninhar-me Se o teu seio está ausente…
Como posso dormir Se a saudade me acorda… Como posso fugir Se o teu cheiro permanece…
Como posso esquecer-te Se tu és o meu vício… Como posso aceitar Se amar é tão penoso…
Como posso salvar-me De me esquecer de mim?
Porque quando se ama A interrogação dói demais!
Eugénio de Sá
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Estas mãos que teimam em se abrir
À porta escancarada desta alma Espera a esperança de te ver chegar Virás tu decidida, fria e calma Ou beijando a manhã, voando em vez de andar? Será que ganha a estúpida razão Embotada de receios inertes Ou deixarás que vença o coração Abrindo-o à ventura que despertes? Porque hesitas, amor, Que males te podem vir Das carícias guardadas no calor Destas mãos que teimam em se abrir?
Eugénio de Sá
Ouça este poema declamado por João Moutinho
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No silêncio, a casa parece querer acomodar-se ao desassossego de quem a habita.
L á fora, a noite
Espero que a manhã se deixe anunciar pintando a claras cores a escuridão anseio desta mágoa a omissão que a luz do dia possa consumar. E se a mente não se recusar a aceitar, por troca, outras memórias saiba eu recuperar fantásticas estórias que a razão mais adulta não quis aceitar. Mas funda é, demais, a soez dor para que a frágil luz possa adiar desesperos emersos, peados de brotar silenciado, a custo, o íntimo fragor. Chega tímida, enfim, a gélida alvorada prenhe de (vãs) esperanças de libertação que depressa se esbatem, e volve a maldição deste desassossego que não esquece nada.
Eugénio de Sá Fevereiro de 2005
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Onde moras, amor?
Alado fosse este meu amor E tomaria os céus no teu encalço E voaria com frio ou com calor Até posar exausto de cansaço E pairaria cego à luz do sol Sem contar os minutos nem as horas E usaria a lua qual farol Até descortinar onde tu moras
Eugénio de Sá
Ouça este poema declamado por João Moutinho
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Memórias já hoje não quisera Desse teu corpo amado que foi meu Um tormento que fez de mim ateu E me faz renegar esse que eu era Em ti voguei, feliz, como num rio Á cadência suave das remadas No teu leito dormi as longas madrugadas Ajeitado ao teu jeito, quente no teu estio Lembro afagos, carícias, ternuras no olhar O sabor desses beijos, dos tantos que trocámos E os cheiros de amar no ar que respirámos Nostalgia penosa que me faz penar Sinto-te a falta, amor, queres voltar?
Eugénio de Sá
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Os dramas que conheço e que não quero assumi-los na alma, quais espadas vêm, na mesma tecer suas meadas volvendo o que é tranquilo em desespero. Pudesse eu converter vidas perdidas moldá-las à quietude desejada traria então a paz assim tratada ao tormento da dor que fere e deixa feridas. Busco nas madrugadas o deleite de um sono perpassado de cores alvas mas as recordações disparam secas salvas forçando a negritude a ser aceite. Turbo espírito este que se debate em mim fadiga de quem sou exigindo descanso bravura de pinheiro ansiando ser manso em vez disso clausura num casulo ruim.
Eugénio de Sá Maio de 2005
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De tanto desespero, desesperei Sem valia ou orgulho cansei de tanta andança Em frustrações frustrou-se o que sonhei E do muito esperar morreu-me a esperança Foram assaz amargos os anos que passei Tentando encher de vida o meu viver Procurei o sabor e não saboreei Amizades de amigos que provaram não ser No vazio, forçado, caminhei Sem poder optar pelo caminho Perdi-me em soluções e não solucionei Senti a solidão sem estar sozinho Subitamente, sem se anunciar Alguém surgiu da sombra de uma cruz Foi-me estendida a mão que me fez acordar Da triste nostalgia que tanta dor induz … e voltei para mim.
Ao drama dos desempregados
Eugénio de Sá Dez.2000
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Pena inerte na mão dormência de papel Calmarias da alma ideias sem tropel Vagamente um vazio sem imaginação Cansaço de ralhar com a apática razão Desespero de criar expor credos e medos Manifesto de amar ou um mar de segredos Finalmente um ruído que sacode o torpor É o sonho a fluir é um riso sem rir Anima-se o talento e sai a criação E acontece a poesia !
Eugénio de Sá
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O poeta sabe que o seu destino é esgrimir com as palavras num mundo cada vez mais insensível ao sentido lírico da vida e das coisas que dela fazem parte. Não há moldes para as palavras, nem fórmulas alquímicas para o cadinho das ideias de um poeta. São os seus sentimentos que lhe fazem brotar as metáforas com a espontânea força da sua exaltação criativa. Ora ferindo e desassossegando, ora acariciando o seu leitor. Isso é a poesia; - amarga ou doce, aveludada ou rude mas sempre, sempre, indomável.
Eugénio de Sá
Ouça este poema declamado por João Moutinho
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E a caneta, hesitante, então parou Sem saber que escrever sobre o papel Até que a tinta, no aparo, secou Porque o dono da mão que a segurava De verbo fácil, outrora eloquente Não é mais que uma sombra dormente P’lo abandono da mulher que amava A dor imensa carrega-lhe o semblante Tamanho o desespero e a saudade Que aperta o coração do pobre amante Incapaz de sentir a poesia Fluir ligeira contando sentimentos Deixa-se dominar pela apatia São mais fortes que ele os seus tormentos E o poeta desiste de criar Apagada na mágoa a sua exaltação Verga-se, enfim, cansado, à exaustão Deixa que o sono aquiete o seu penar
Eugénio de Sá
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Se alguém pudesse decantar Como um bom vinho, a vida que tivemos Degustaria os bons e os maus anos Conhecendo os reveses nos taninos E as glórias nas castas que criámos Sabendo, assim, de nós como de nós falar
Na alegria radiosa da manhã outonal Ou nas melancolias do nosso entardecer Residem os aromas, as razões conhecidas Que marcam as encostas destas nossas vidas A tons de ouro as venturas, a negro o padecer Ao esgotarmos a essência, na vindima final
Ergamos nesta taça o brinde que mereçamos De um néctar bom ou mau p’lo que deixámos feito alguém dirá um dia desse vinho que herda que é uma triste zurrapa ou uma grande reserva depende só de nós, se soubemos ter jeito de ganhar a memória daqueles a quem amamos
Tal como a história de uma vida A memória da nobreza de uma boa colheita sobrevive à sua natural extinção.
Eugénio de Sá
Ouça este poema declamado por João Moutinho
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Tanta esta dor que dói e dilacera Da beira da loucura estou bem perto Já não digo coisa que ainda tenha acerto Tão pouco sou aquele que d’antes era
Tantas as alegrias que vivemos Nenhuma é a razão que a morte encerra Longas as madrugadas, sozinho, nesta terra E tão poucas as noites que tivemos
Tanto percurso neste caminho d’ébrio Com a saudade a minar sem conforto ou parança Tão pouco, este sumário de vida sem esperança Vivi à beira-amor e morro à beira-tédio
Eugénio de Sá
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Rua da Madalena, não posso esquecer As alegres manhãs calçada acima E ouvir o pregão: “viva da costa” Na esganiçada voz de uma varina Havia lá melhor? – Nem santola ou lagosta! Nem pescada, que era vendida à posta E era ver as freguesas a correr Que vaga nostalgia esse tempo me traz D’outro pregão, famoso, de Lisboa: “Fava rica, quem quer almoçar” E sabiam todos que era coisa boa S. Mamede saía a licitar As moedas na mão, esperteza no olhar Alguma discussão e favas ao cabaz E já nos fins de dia, ali ao Castelo Bicicleta a reboque, mão no guiador: “Amola tesouras e navalhas” Um assobio de gaita, pregão de amolador Consertava-se tudo, as bocas e as falhas Lisboa era isto, os corvos e… as gralhas E comiam-se à noite iscas no Cotovelo Eugénio de Sá
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Isto morre um e é como se, com ele,morresse um pedaço de cada um dos outros, que ficaram.
Quando alguém morre na aldeia, toda a população entra em vigília, pelo respeito aos mortos e pela amizade aos vivos, companheiros de anos e de desgostos.
O abandono pelos seus, pelas duas gerações que os sucederam e que se foram embora, uma a reboque da outra - entretanto ocupados em gastar o que ganham na grande cidade - torna-os mais unidos. E a perda de um deles não se confina aos que lhe são chegados por família. É perda colectiva, é mais um vazio nas suas vidas já tão esvaziadas de objectivos e de alegrias.
Anciãos, trôpegos, quase todos, pelos forçados descuidos do trabalho sem tréguas, parecem ainda mais velhos do que são. Lá se vão arrastando pelas ruas do povoado, num ruído surdo de bengalas gastas, em triste convergência para a pequena igreja onde os leva a obrigação e o respeito. É lá que começa a despedida ao finado, cumprindo-se o respeitável ritual do desfilar de memórias e de sentimentos, ao longo de toda a noite, em alternância com grandes e eloquentes silêncios, até que o dia chegue. É lá que prossegue o ciclo imparável do despovoamento. As flores acumulam-se, compradas com o pouco de quem nada tem. E ainda se reza na Aldeia, ainda se confia a Deus, com fé, a alma do que parte. Já não serão todos primos e primas – como verseja a popular cantiga – mas todos se conhecem e (quase) todos se respeitam, estimam e entreajudam, num exemplo inútil aos ausentes. Falta-lhes tudo; os remédios e o médico a horas e até o Pároco, que lhes ouça os pecados e as queixas, que reparta, com eles, o pão e o sangue de Cristo e que, ao menos na morte, os acompanhe e os encomende a Deus, como deve ser. Ao fim e ao cabo são eles os últimos bastiões da defesa e da prática dos valores mais altos alguma vez conquistados por esta decadente civilização, cujas motivações colectivas maiores são... aquelas que justificam as maiores audiências das Televisões. Que se pense nisto com respeito pela nobre gente que resiste ainda nas Aldeias abandonadas do interior deste país.
Eugénio de Sá
... "Avante! -Os mortos ficarão sepultos mas os vivos que sigam sacudindo como o pó da estrada, os velhos cultos".
Antero de Quental ( in: "Sonetos Completos" )
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Crónica de viagem
Baguetes estaladiças; foi a minha primeira visão ao entrar na cafetaria daquela Área de Serviço. Curiosamente, não se tratava de nenhuma informação fixada na parede. O anúncio movia-se na T-shirt preta envergada por uma jovem da mesma cor que, após recolher uma bandeja deixada numa mesa, rapidamente retomou o seu posto atrás do balcão daquele snack-bar de estrada. Por cima dela, alinhadas em prateleiras, lá estavam as baguetes estaladiças, aguardando decisão para se abrirem ao recheio preferido dos apressados viajantes ocasionais, amantes daquela modalidade gastronómica ou que a instituem, casual ou repetidamente, por limitação da parca bolsa, esvaziada ao alucinante ritmo das exigências do quotidiano. Decididamente, não estava nos meus dias. Pedi um café e mergulhei nas cogitações deprimentes de quem tem de pagar os exageros de um injusto custo de vida. E sem perspectivas próximas de qualquer mudança para melhor, face ao deserto de ideias e de soluções de quem deveria patentear umas e promover outras. Olhava, vagamente absorto, o fumo cigarro, quando a imagem próxima da laboriosa mocinha me chamou, de novo, a atenção. De um ângulo apertado, por imposição de uma coluna de permeio, reparei que ela se movia em direcção à porta. Um rapaz, também ele negro, de boa compleição física, gesticulava do exterior, chamando-a. Vai haver sarilho, pensei, dominado pelo mau humor que me marcava o dia. Mas não, transposta a porta, a jovem quase se atirou ao pescoço do autor do veemente apelo, com uma jovialidade própria de quem mata saudades, de há muito sufocadas por forçada separação. Levantei-me da mesa que ocupara e, ao passar por eles, escutei-lhes um tagarelar crioulo; um alegre palavreado, completamente ininteligível para mim, mas, certamente, autentica música para eles, que vibravam, emocionados, com as mutuas revelações. Dirigi-me ao carro para retomar a estrada e o destino, pensando que aqueles dois, mesmo com dificuldades, porventura maiores que as minhas, ainda tinham alegria para viver... e sonhar. E o que somos nós sem o sonho?
Eugénio de Sá
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À amizade
(À amizade que brota sem aviso nem regras)
Porque nada há de mais de mais belo, de mais intrinsecamente humano, que a fraterna generosidade de uma mão estendida.
Confissão de amigo
Estas palavras que imploram por ser escritas, não serão as mais acertadas, as mais sólidas, as mais esclarecidas. Mas são, certamente, as mais sinceras que encontrei para esta difícil interpretação de sentidos.
A vida não te tem sido fácil. Soube-o por ti, pelos teus olhos húmidos de prantos, novos e antigos.
Não posso ver-te sofrer porque já sou teu amigo. Mas, por mais que rebusque a minha experiência, persiste a ignorância do que devo ensinar-te.
Por ti, procurarei minorar - com imaginação - a mágoa que te afoga o riso. Afirmo-o com a certeza que me dá a força da emoção que sinto.
Só te peço que me deixes partilhar os teus momentos mais sombrios. Em silêncio, a teu lado. Ainda que …só esses.
Sabes? – Soube-me bem conversar contigo. Sei que sentiste que gostaria de te dar as mãos. Foi a ternura a trair-me! Mas não me vou permitir perder-te por ter deixado emergir outra atitude que não seja a que possas esperar de mim. Porque quero que saibas que tens mais um amigo. Seguramente não o mais importante, por certo não o mais desejado mas, mesmo assim, almejo ser um dos mais dedicados, que se encantaria de poder vir a merecer-te a reciprocidade desse sentimento.
Eugénio de Sá
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O movimento repetido do limpa pára-brisas, afastando a chuva que cai, miúda mas persistentemente, a sucessão ritmada dos traços brancos - intermitentes - do auto estrada, o ruído abafado da borracha rolando no asfalto molhado, vão, lentamente, provocando em mim uma descontracção propícia ao afago de doces memórias antigas, sempre boas companheiras. Coisas velhas, saídas do baú do tempo, evocações da ternura de momento vividos, ainda menino. Parece que estou vendo: a minha avó paterna, vergada pela artrite, pegando-me carinhosamente na mão e recomendando-me cuidado ao atravessar a rua. Quase que consigo sentir o cheiro daquele bolinho que ela fazia no fim da tarde e que comia-mos juntos, enlevados pelo gosto e pela companhia enquanto esperámos que no Rádio Clube tivesse início o nosso programa preferido; as Lendas da Nossa Terra. Lembro-me do meu cão, o "catita", um rafeiro que recolhera, ainda bébé, que depois de aceite pela família, foi o meu primeiro parceiro de brincadeiras e silencioso confidente durante quase catorze anos. A nossa empregada doméstica, uma moça sadia, de bochechas rosadas, nascida e criada em terras de Monforte, que executava, com eficácia, as tarefas da casa, solícita e carinhosa cúmplice das minhas pequenas maldades e partidas. O seu silêncio poupou-me uns quantos castigos e talvez um ou outro justificado puxão de orelhas. Ah!, como me lembro, parece que foi ontem, do dia do temporal. Foi uma espécie de ciclone, ou talvez tornado, que durou uns (intermináveis) dois ou três minutos. Eu e a Avó assistimos a tudo à janela da saleta que dava para o quintal; o uivo do vento era temível. De súbito, a oliveira – a única que tínhamos – vergou-se até ao chão e partiu-se, incapaz de resistir às violentas rajadas. A barraca do catita, que deveria pesar uma boas dezenas de quilos, passou, voando, diante da janela. - Felizmente que o animal havia sido solto pela manhã. Depois, com enorme fragor, desabou a grande chaminé do padeiro. Enfim, um pandemónio. E o que me custou, depois, olhar a figueirinha que eu plantara havia dois anos arrancada pela raiz, jazendo na terra que a erguera. E as memórias continuavam a chegar-me como "alma que desliza sobre o éter de um instante"; a escola, os meus companheiros... e o senhor Mimoso, o barbeiro da Vila, responsável pelo meu corte "à inglesa curto", como era sempre recomendado pela minha tia, ao deixar-me sentado na imponente cadeira enquanto ia às compras. As primeiras namoradas... Quase com uma sensação de culpa de, por momentos, haver conseguido afastar as preocupações que me apertavam o peito, remexi-me, inquieto, no banco do carro. O patrão tinha sido claro na última reunião; dera-nos um mês para preparar a vida para o inevitável: ia apresentar falência e passar-nos o papel para o desemprego. E o pior é que eu, e que quase todos os meus colegas, já passámos os quarenta o que, nos dias que correm, equivale a dizer que é praticamente impossível conseguir outro emprego. Como fazer, então, quando se tem filhos adolescentes e a estudar, ainda completamente dependentes de nós?
O acidente Entregue, de novo, a esta amargura, mal me apercebi de que me aproximava, a grande velocidade da carrinha que me precedia. Travei de chofre, com quanta força tinha e, vendo que mesmo assim, deslizava no piso molhado e ia bater, desviei o carro para a esquerda. Só deu tempo para alguém que vinha a ultrapassar - e, também, a travar - passar a escassos centímetros do meu carro. Quase de seguida, já na outra faixa, consegui parar. Pelo retrovisor e, atrás de mim, vi que já todos haviam parado também. Escapara, por um triz, como que ajudado por mão invisível que me levara a executar, por instinto, aquela manobra. Abri a porta, ergui-me do assento, e pude ver que, à minha frente, se estendia um imenso choque em cadeia, onde ardiam algumas viaturas com gente ainda lá dentro. Um horror! Todo eu tremia. Os gritos, os lamentos e os cheiros misturados com a chuva que continuava a cair, tornavam dantesco aquele triste espectáculo. E eu que, lembrado do meu drama, me sentia já vitimizado! - Face ao que assistia, o meu problema perdera importância, comparado com aquela tragédia. Entretanto chegaram as primeiras ambulâncias. Duas horas depois, volvidos poucos quilómetros, cheguei ao meu destino; Alverca. Na portagem, enquanto esperava a devolução do cartão multibanco que estendera ao portagista, levantei os olhos e fiquei perplexo; à minha frente, do outra lado da Rotunda, lia-se a toda a largura de um cartaz que anunciava a próxima inauguração de uma Igreja: O Milagre de Alverca !
Eugénio de Sá
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Vêm de geração em geração Estas balelas espalhadas p’lo planeta E uma alminha simplória desde que ao mundo vem Cedo se torna badalo de sineta Chucha logo a mentira na chupeta E cresce a propagá-la aqui e além. Aprende a transmitir as loas do passado E os exemplos da vida que convém; Como os antigos discos, cheios de pó e riscos vão moendo e moendo o triste fado: O do trabalho dito "louvado e santo" À bigorna e ao malho interpretado Pingado de suor, de sangue e pranto. Sejamos realistas e concretos Porque isso do trabalho ser virtude Ou coisa que se busque de vontade Por ter nobre o carácter ou salva a castidade É peta que já ninguém ilude Nem move quem tem olhos bem abertos. E o que é, realmente, a natureza da frágil criatura que nos somos; qual a sua postura e natural tendência? - Certamente que o ócio e o descanso letargia e sossego, pleno de moleza aparentando um ar de eloquência mas gozando as delicias do ripanço.
Eugénio de Sá (*)
(*) baseado num texto original de Adhémaro Gomes de Azevedo
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Eu queria ser diferente Quando te vejo O meu desejo Era olhar-te sem ver Simples lampejo Do teu corpo ondulante. Queria passar por ti Tranquilo, calmamente Mesmo distante Como de tanta gente Por quem passo; E Intuir-te a graça Mas sem olhar p’ra ti. Queria apartar de mim O pensamento Qual tormento Do teu falar cantado O doce acento E a tua boca Onde o sorriso brinca E resplandece; Como posso esquecer O que não esquece? Quem dera não parecer que vou enlouquecer por querer sentir-me imune ao teu encanto; Prouvera eu te ligasse tanto Como me importa O odor perfumado Deste cigarro Que fumo e logo esqueço Quando se apaga o lume. Mas só ando a fingir Que não me iludo Ganhei cisma em não querer E queria tudo Só que não sei mentir-me Sou sincero, E não posso fingir o que não sou. Sei que é estranha em mim Esta dúbia atitude De querer afastar a quem venero por não poder esquecer o que não sei se quero: - quem nunca, de si, um pouco me quis dar.
Eugénio de Sá
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A interiorização de uma maldição
Habituámo-nos a ver, pelas televisões, países de outras paragens serem açoitados por violentos furacões, varridos por ondas gigantes ou sacudidos por terramotos. Mas nós, os do hemisfério norte, a quem alguém já chamou: "os privilegiados senhores da prosperidade", temos estado a salvo de tudo isso. Temos pena do que vimos, comentamos com a família e os amigos, mas a vida continua, tranquila. Todavia, face aos desenvolvimentos conhecidos no médio oriente e nalguns outros países do mundo árabe, parece estranho que ainda não tenhamos todos interiorizado o facto de que temos uma ameaça cada vez maior à nossa porta, a qual ninguém está, realmente, preparado para enfrentar. Nada nem ninguém nos poderá proteger contra bárbaros atentados como os de Nova York, Londres, Madrid ou Bali (Indonésia), ou outros que, porventura, venham a ocorrer numa escalada alargada e previsível. Parece, pois, ser tempo de nos mentalizarmos que podemos vir em breve a ser, também nós, vitimas das consequências de um rancor que não conhece limites, que procura encontrar justificação no fanatismo religioso mas cujas verdadeiras raízes se afundam na perpetuação da miséria e da injustiça em que estão imersas largas fatias da população deste (agredido) planeta em que vivemos. Essa bandeira é hoje desfraldada por alguns auto-proclamados representantes dos povos de Alá que, em seu nome, promovem carnificinas pelos quatro cantos do mundo. Não se trata de uma mera encenação para efeitos mediáticos de uns quantos extremistas islâmicos, para tentar impingir as suas ideias ao mundo. O terror dispõe hoje de organizações quase perfeitas, constituídas por células estanques, disseminadas estrategicamente. De nada serve pensar que este combate se pode travar de uma forma convencional, atacando este ou aquele país com mísseis ou invadindo-o com exércitos. Os estigmas do ódio estão à solta e são incontroláveis. Nós, os dos países desenvolvidos, que aos olhos dos novos inimigos somos a imagem do poder e da arrogância, somos, agora, alvos a seleccionar de acordo com sinistras prioridades que desconhecemos. Há quem defenda que todos os terrorismos são iguais e que, consequentemente, devem ser combatidos de idêntica forma. Mas não, não é possível comparar conflitos como os que configuram as acções da ETA, em Espanha ou configuraram as do IRA, na Irlanda do Norte, que têm objectivos específicos de disputa politica-territorial, com esta nova violência que parece constituir um fim em si mesma. À luz do que é invocado pelos seus mentores, as suas motivações e objectivos não são deste mundo, mas de outro, quiçá ainda mais impiedoso.
Eugénio de Sá
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No mundo conturbado em que hoje vivemos
Acanhamo-nos de confessar ou até de falar no amor, vamos ao ponto de subalternizar os afectos. Nos nossos dias, já houve quem afirmasse que "o amor-afectuoso está a agonizar, à escala universal". Será isto um excesso? No decurso do século passado o culto das amizades foi-se tornando produto cada vez mais raro. Para isso, tem contribuído, em muito, o isolamento das pessoas face à comunidade que as cerca, fechando-se nos seus minúsculos apartamentos, virados para os seus mundos e para os seus preconceitos. A tudo isto acresce o que lhes chega pelos telejornais, cuja carga de violência mediática vai instalando, gradualmente, mas de vez, a chamada "crise do medo" nos elementos mais frágeis da sociedade, com o seu cortejo de sentimentos negativistas, o mais visível dos quais é consequência dos outros; a baixa auto-estima, tão falada ultimamente pelos governantes. As constantes ameaças ao estilo de vida de cada um, ditadas pelas consequências das sucessivas crises nacionais e internacionais são outro factor relevante de desequilíbrio social.
O amor-afecto A importância de um sentimento regenerador
As pessoas que apresentam sintomas deste tipo de patologia tornam-se emocionalmente inseguras, sentindo-se parcas em recursos internos de auto protecção. E não são, necessariamente, as que não recebem ou não receberam amor, mas também as que, mesmo recebendo-o, não foram capazes de o interiorizar e fazer dele uma fonte mobilizadora de fé e de esperança. Quem não recebe (ou não aceita) o amor, o respeito, a solidariedade, a compaixão na sua vida, tornar-se um ser incrédulo, amargo, rude ou mesmo violento. Não acredita mais em si mesmo quanto mais nos outros.
As regras de conduta social estável, que todos aprendemos, vêm sendo postas em causa por cada geração que começa a pensar e a agir por si própria. Resta saber as que as virão a substituir, perante o egoísmo crescente e egocêntrico que vem marcando a parte adquirida da personalidade de cada um: o carácter.
Eugénio de Sá
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Não existem distâncias para que a magia aconteça. Dois autores separados por mais de três mil milhas de Mar escrevem em parceria
Deixara para trás a costa portuguesa havia 17 dias. O Gaivota, o meu pequeno veleiro de 12 metros, mostrara-se eficaz na travessia Atlântica, com ventos favoráveis de norte e nordeste que, felizmente, não tinham excedido as trinta nós. Alguma ondulação de três a quatro metros ao largo da Ilha da Madeira ainda me havia perturbado um pouco o andamento, mas nada que assustasse. Há já uma semana que uma suave brisa e um mar chão permitem ao Gaivota deslizar em mar aberto e a todo-o-pano, a uma velocidade constante que ronda as doze milhas; o que é muito bom para uma embarcação pesada, de madeira, e com um razoável calado para o seu tamanho, mas que se explica pela excedente saída de água conseguida pelo desenho esguio do barco e pela pintura recente. Desci ontem para ver o lastro e se havia qualquer entrada de água no casco; continua tudo bem, o que prova que a última calafetagem foi bem feita. Também, cara como foi! - É que hoje em dia há poucos profissionais desta arte. Já quase só se constrói em fibra e, nesse material, as técnicas de manutenção e recuperação são bastante diferentes. Avisto, agora, ainda longe, a Ilha de Fernando Noronha, uma beleza tropical declarada área protegida pelo governo Brasileiro. Diz-se que o mergulho ali é controlado e previamente autorizado. Por isso a fauna e flora aquáticas devem estar no apogeu e deve ser uma maravilha lá mergulhar. Mas nem vou parar. Tenho viveres que cheguem e vou aproveitar a brisa para continuar até ao Rio de Janeiro. O amor dá-me pressa…
Algo me toma, como uma atracção, como uma energia a atraír a minha embarcação numa direcção precisa que nem eu mesmo conheço. Deixo que a corrente do mar se encarregue deste meu destino. Um pouco mais próximo da costa, apenas sigo admirando as belezas naturais. Posso ver a fauna marinha abaixo de mim; cardumes de peixes, corais, a transparência que transmite frescura aos meus olhos. De repente....
...Um pouco mais a frente, golfinhos saltam como a brincar entre eles. Talvez tentem avisar-me que estou na rota certa. A beleza deles é fascinante. Dizem até que se relacionam por amor, são fieis quando macho e fêmea se envolvem. Seriam eles símbolos desse sentimento? Quem sabe… Continua a corrente a levar-me como que por desígnio e eu penso se, ao chegar, saberei o que procuro! - O que posso fazer é esperar a hora da chegada.
O dia está por terminar. Sento-me numa cadeira de descanso perto da cabine, fito o horizonte e tenho a minha frente o mais lindo pôr do sol. Já o tinha admirado em fotos, mas fazer parte dele enche-me o peito de vida. O fraco calor do sol já adormecendo, a brisa morna que me toca, uma ou outra gaivota a aproveitar uma camada de ar quente para planar e aproveitar aquela tela natural pintada por Deus. Quando a noite caiu, entrei na cabine, fiz uma refeição leve, revi algumas rotas nas cartas de navegação; tudo seguia bem. Deitei-me e pus-me a ler um livro para passar o tempo, mas acho que nem cheguei a começar; adormeci. Acordei com o ele sobre meu peito e nem mesmo lembro de haver lido algum trecho daquela página.
(Passaram-se dias naquele mesmo quotidiano, e eu apenas a pensar no coração que me esperava)
A cada dia sinto-me mais próximo; a sensação do ponto de chegada cada vez mais presente. Meu Deus! Seria eu louco, a desbravar um oceano nesse buscar que o meu coração tanto pediu?
Corro as cartas, faço cálculos e, de volta ao convés, vem-me a certeza que aquela terra que avisto é o meu porto. A vejo como de braços abertos a me receber. A euforia toma-me, por completo. Cardumes, aves marinhas, o vento, todos a receber-me, avisando que a minha viagem estava ponto de terminar em questão de algumas horas.
Baixei as velas, âncora ao mar, meu bote pronto para me levar as margens daquela terra. O coração não consegue manter um ritmo normal, ele bate em ritmo acelerado, quando, já mais próximo daquela praia, vislumbro alguém à minha espera, olhando atentamente o meu bote, com as mãos em pala sobre os olhos. Eu vejo-a ali, parada, o seu corpo expressando a certeza que aquele que esperava sou eu. Já bem próximo, desligo o pequeno motor do bote e deixo que a corrente e as ondas me levem, até que posso saltar e pisar terra.
Aquele mar brasileiro, parecia ter cumprido a sua missão. - Caminho em direcção a ela e podemos sentir ambos que ali se concretizam os nossos sonhos. Tomo-a nos meus braços, olhamo-nos como se nos fotografássemos um ao outro. E, entre as poucas palavras proferidas, trocámos um longo beijo. Naquele beijo, todas as palavras foram ditas. E o amor aconteceu!
Eugénio de Sá e Anna Muller (em parceria)
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Não existem distâncias para que a poesia aconteça. Dois autores separados por mais de três mil milhas de Mar escrevem poesia em parceria
Foi perdição, ou talvez, menor fortuna Haver-te conhecido nesse dia Por receber de ti tanta agonia E uma mão cheia de coisa nenhuma. Vivesse eu mais cem anos Nunca esqueceria A traição por detrás da euforia Que escondia mentiras e enganos Cegueira que me tomaste por completo Envenenou-me sem dó nem piedade Transformou-me na falsa alteridade E acreditar nesse amor inepto. Pudera eu apagar da memória Este fatídico sentimento Rever cada página dessa história Triste, a cada vão momento.
Eugénio de Sá e Anna Muller (em parceria) |
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- Agradeço aos poetas Que me emprestaram o aroma da sua poesia, Que fizeram correr a sua inspiração nestas veias, Que deixaram que respirasse o ar dos seus encantamentos…
- Agradeço aos poetas O testemunho da dor que consolida a tristeza, A sabedoria da expressão dramática dos sentimentos, O jeito que me dota a mão desta força imensa da comunicação metafórica, A capacidade de saber reconhecer a beleza numa palavra, num gesto, numa intenção…
- Agradeço aos poetas O pregão da justiça, o louvor ao amor, o apelo ao perdão.
- Agradeço aos poetas Terem-me feito um deles.
Eugénio de Sá
( dedicado à minha amiga a poetisa Anna Muller )
Ouça este poema declamamado por João
Moutinho
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Pó de Estrelas Noite límpida esta que fito deslumbrado E as constelações enfeitam-me o olhar Cassiopeia à direita, Scorpio d’outro lado Vejo o Cruzeiro do Sul ali mesmo a brilhar Qual visão sobreposta foca-se a tua imagem Nas estrelas que apontam o teu doce caminho Desse lado do mundo onde tu és miragem Neste lado da vida onde ainda há carinho Procuro nas estrelas uma resposta à dor Pergunto a Sirius, questiono Alfa Centauri Mas não leio sinais que me tragam o amor Nem ouço ecos no céu que me falem de ti Só o pó das estrelas de uma estrela cadente Pode testemunhar esta tristeza Que encontra fundamento no silêncio eloquente Negando-me aos sentidos sentir tanta beleza Eugénio de Sá Abril 2006 |
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A cancela Olho tristemente a cancela partida Onde outrora passou o meu passado E revejo em saudades ternos laços Marcados por carinhos e abraços Daquela Avó velhinha minha amiga Que trôpega e doente me mantinha cuidado Sem se poupar a esforços nessa lida Outrora tão branquinha essa cancela É agora um destroço podre e tosco Como a vida que passa e atinge o fim Lembrada nas memórias que se chegam a mim À vista da cancela que deixou de ser bela São as marcas do tempo que me marcam o rosto de mágoas e ausências que deixaram mazela Eugénio de Sá
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“Com mãos se faz a paz, se faz a guerra Com mãos tudo se faz e se desfaz” Com mãos Com mãos faz-se expressão Com mãos se faz o pão que Deus nos dá Com mãos se pede a Ele p’lo nosso irmão Com mãos se reivindica o que a vida não dá E se é com mãos que se bate em alguém É com as mesmas mãos que se pede perdão E é pena que as mãos sejam também Culpadas se as lavamos, negando a redenção Com mãos se renega o amor que nos dão Com mãos se abraça, com mãos se acaricia Com mãos se trai quem já nos deu a mão Com mãos se busca o pão de cada dia E se é com mãos que se limpam os olhos Se as lágrimas de dor ganham o apogeu Também é com as mãos que se removem escolhos Propiciando o sonho a quem já o perdeu Eugénio de Sá |
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Luar de verão Noite límpida esta brilhando na janela Do quarto onde me deito e tu te deitas É nosso o leito onde tu me rejeitas É minha a dor ou o que resta dela Campeia a indiferença neste espaço Onde te chamei minha e fui o teu senhor Era a festa da vida vivida com amor De tanto que nos demos não permanece traço Nesta noite estival é frio o meu pesar Ao lembrar a doçura experimentada Conhecendo-te a ausência embora aqui deitada E assumo a almofada cansado de lembrar Eugénio de Sá |
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O Relógio de Sala Sou relógio de sala, há tanto tempo Que nem lembro quando aqui cheguei Mas puseram-me aqui e aqui fiquei Neste canto da sala, a meu contento Sou de fina madeira, a verniz acabada De um tronco africano fizeram-me estas tábuas Que já testemunharam alegrias e mágoas E casos de família nobre e abastada Tenho por coração um pêndulo comprido Como extensão de uma máquina antiga Estou limpo e dá-me brilho mão amiga Com a consideração que merece o antigo Sou músico prendado, toco a Avé Maria E mais um quantos trechos tão famosos Quem me dá corda escolhe os mais gostosos Que eu executo sempre, noite e dia Ainda ontem nesta sala, lá no outro canto Um par de namorados se abraçaram Longos beijos e afagos se trocaram E não vos conto mais, sou de pau…santo! Eugénio de Sá Lisboa Portugal Abril 2006 |
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Trova de amor em sol maior Da longínqua distância imaginada No outro lado desse imenso Atlântico Chegam ecos de uma trova encantada São os sons do amor no embalo desse cântico És trova em sol maior nesta visão amada. E solta-se o pudor, cresce o desejo em mim De abraçar e beijar esse corpo que adoro Apertar-te ao meu peito num amplexo sem fim Fazer amor contigo até tremer de choro. Depois sentir-te calma, aconchegada e terna E ouvir nos teus lábios os sons da doce trova Enchendo a minha alma como luz em lucerna Aquietando o desejo que sempre se renova. Com o cair da noite renasce em mim a esperança De voltar a ouvir a trova em sol maior E ser eu a levar-te deste enlevo a lembrança Ou seres tu a trazer-me a prova deste amor. Eugénio de Sá
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A Batalha Real Já por terras de Almeida entram os cavaleiros Da hispânica Castela são senhores oriundos Marechais e Álferes-Mor entre os muitos se contam Drapejam estandartes dos seus mundos E em torno do rei todos se juntam
Deixando fundas marcas nos esteiros E pela margem norte do Mondego Prossegue marcha a hoste deslumbrante Estendida em nove léguas sobre vales e montes À cinta trazem espada, na montada o montante E à frente almocádens batendo os horizontes
Abrem caminho ao rei guardando-lhe
sossego D. João I de Castela ordena o arraial Estende-se acampamento, acomodam-se arneses Carroças e bandejas despojam-se de cargas Descansam os peões, os nobres e os reveses Acendem-se os archotes p’ra iluminar as guardas
Quebrando a escuridão nesta noite estival Em solo lusitano desponta o alvorecer Alça-se a hoste inteira ao rufar do tambor Ganha corpo o vigor nos corpos repousados E os homens armados partem com despudor A caminho de espaços com passos mais ousados
Na terra que os recebe sem os reconhecer Coimbra ultrapassada prossegue a progressão Dos esquadrões de guerra do altivo invasor Mas Leiria permeia o feérico percurso E a gente portuguesa tem por justo penhor Defender Portugal do seu intruso
Travando o passo a tão ingente acção O Mestre d’Avis a D. Nuno confia A nobreza do reino e as Ordens militares Agregam-se os vassalos e os mesteirais E os peões com lanças contam-se aos milhares Arqueiros d’Inglaterra estão nas forças leais
Que preparam defesa a quem neles se fia É Portugal unido a D. João I Que promete um mosteiro à Virgem p’la vitória E em Porto-de-Mós se remói a estratégia Que vai contar em campo com se faz a história Apresta-se o exército para a batalha régia
Sem medo ao castelhano que se exibe
altaneiro Neste Agosto marcado por tórrido calor Dispõe-se a lusa gente p’ra enorme gesta Do lobo as covas cava em forma engenhosa Como se ser herói fosse uma festa Ou a provável morte lhes pareça garbosa
Ao dar o peito em preito p’lo seu rei e
senhor Dos oponentes a desigualdade é esmagadora Oito mil, em S. Jorge, preparam a peleja Contra uma imensa força, um ror de gente Brilhando ao sol e ao vento seu orgulho drapeja Mas da própria vitória talvez menos crente Porque a razão que a move é redutora
Ganha jus no terreno o fero contendor São mais de trinta mil os invasores armados Entre tantos cavalga o orgulho da Gália Cumprindo pacto firmado de aliados Para cumprida a guerra repartir herança
Do que ficar prestável por penhor Mas cedo é ainda tempo de cantar vitória Porque o Mestre d’Avis e o seu Condestável Prometem assumir defesa intransigente Da colina onde o ataque parece mais provável E a força castelhana mesmo tão potente
Contorna o declive adiando glória Os bravos portugueses invertem posição Viram-se a sul as Alas indomáveis Mem Rodrigues, Rui Mendes, são p’la dos Namorados Nos gibões volteiam lenços adoráveis Das donzelas do reino mostram os recados
Do amor delas o sonho, da esperança, a
exaltação A Ala a poente Madressilva é chamada Montferrat e Antão Vasques comandam os arqueiros Que vão determinar uma sólida frente Garantida também p’lo poder dos besteiros A visão castelhana é temerosa mas d’ela não temente
O luso defensor da pátria bem amada São seis horas da tarde, tomba o astro rei no horizonte Inicia-se o ataque aos brados de vitória ou morte Os cavaleiros franceses galopam sobre o morro Lançados estão os dados que irão ditar a sorte D’uns a ávida odisseia, d’outros o promissor socorro
Erguem-se lanças espadas e montantes na
defesa do monte Dos castelhanos os trons ferozes troam E a tiro as cerradas fileiras cindir tentam Mas lanças dos infantes nas covas eriçadas Malogram esse intento e logo entram Nos ventres das montadas onde são mergulhadas
Machados fendem elmos enquanto os gritos
soam Deixam no terreno um rio de sangues Normandos e Bretões de Castela alinhados Porque os flancos lusitanos cruzam chuva de setas E antes que atinjam a defesa os tem já dizimados Da chacina os que restam debandam sem ter metas
Ou deixam-se apressar confusos e exangues
Ganha a ladeira a força substancial Em algazarra ferida de sentido Peões e cavaleiros lançam-se p’la colina Mas o seu porte é torpe e desunido E a portentosa hoste cujo rei encima
Da organização perdeu o ritual O Mestre d’Avis manda então avançar A inteira reserva da força portuguesa As alas estão intactas e garantem os flancos Concentra-se na frente o poder da defesa Executam-se os presos para ganhar destreza
Com a gente disponível disposta p’ros
matar Investe em desespero o invasor enorme Num embate frontal ao imposto quadrado Que bem organizado se deixa penetrar Fechando-se em tenaz determinado Envolvendo aquela mole armada até a esmagar
Tornando-lhe o orgulho em vergonha
disforme Repousam os mangualdes e as achas de armas Retiram-se armaduras, escudos e adagas Descansam-se os cansaços de tanto pelejar E erguem-se os sorrisos na colina e nas fragas Dos heróis portugueses que souberam ganhar
O penhor de um país que não desarma E ali mesmo D. Nuno Álvares Pereira Agradecendo à Virgem reza pela vitória Dobra joelho em terra e com ele toda a armada E na face dos homens resplandesce a glória Que há-de brilhar p´ra sempre nesta pátria amada
Por séculos que passem liberta de poeira Eugénio de Sá
Junho de 2006
Este poema é dedicado à minha estimada
amiga, a poetisa Anna Muller
Notas: Em 1383, el-rei D. Fernando morreu sem deixar um filho varão que herdasse a coroa. A sua única filha era a Infanta D. Beatriz, casada com o rei D. João I de Castela. A burguesia portuguesa mostrava-se, entretanto, insatisfeita com a regência da Rainha D. Leonor Teles e do seu favorito, o conde Andeiro e com a ordem de sucessão, uma vez que isto significava anexação de Portugal por Castela. As gentes alvoroçaram-se em Lisboa, o conde Andeiro foi morto e o povo pediu ao mestre de Avis, filho natural de D. Pedro I de Portugal, que ficasse como regedor e defensor do Reino. O período de interregno que se seguiu ficou conhecido como crise de 1383-1385. Finalmente, a 6 de Abril de 1385, D. João, mestre da Ordem de Avis, é aclamado rei pelas cortes reunidas em Coimbra. Mas o rei de Castela não desistiu do direito à coroa de Portugal, que entendia advir-lhe do casamento. Em Junho desse ano invade Portugal à frente da totalidade do seu exército, a que se juntara um contingente de cavalaria francesa. A Batalha de Aljubarrota teve lugar em 14 de Agosto de 1385 no local de S. Jorge, entre Leiria e Alcobaça. No sangrento combate pereceram cerca de 9 500 Castelhanos entre mortos e combate directo e pelas milícias que os perseguiram em fuga e os foram dizimando. Consta que as ribeiras em torno da base da colina onde se deu a batalha ficaram de tal modo juncadas de cadáveres que os corpos barraram completamente o curso das águas. As baixas portuguesas não ultrapassaram 1 000 homens. No local da Batalha foi erigido o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, correspondendo à vontade de D. João I, o Mestre de Avis.
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Pedir a um português que não fale do mar, que apague as brumas que lhe bordam os sonhos, que esqueça as fomes de longe, as sedes de azul e que ignore a salgada e hídrica força da sua matriz, é retirar-lhe a poesia das veias,
exilando-o num cais onde só há
chegadas. Quilhas no lodo
Eugénio de Sá Quilhas sedentas d’água e tombadas Naufragadas nos lodos de uma ria São bolores de uma mágoa assaz sombria
Marinhagens de sonhos desgraçadas Porque é preciso navegar-se a vida Acordar nas bravuras de uma proa erguida
E anoitecer num fado que nos dê guarida Viver a nostalgia desses horizontes Onde a glória do sol emerge lentamente
Saber saborear as cores do seu poente É feito disto o sonho português De doiradas areias e um mar de navegantes E não de lodos vis, agonizantes
Em negação a tudo o que se fez A Portugal
Agosto de 2006 |
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Fado Maior É lá, nesse recanto da saudade Que mora o fado antigo, marinheiro Aquele fado de sempre sem idade Que numa voz maruja foi primeiro Do Gama as caravelas foram palco Dessa canção tristonha, emocionada Que brota das gargantas em socalco Com em soluços d'alma esfarrapada Falo de Portugal, emocionado De lá trouxe o meu fado, alegremente Numa esperança de vida, engalanado E inda o escuto ao longe, sobre o mar Como se os ecos seus fossem presentes No luso coração nele a vibrar Eugénio de Sá |
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Ensaio sobre a tristeza Sextilhas De estio vestiu-se o dia e eu gelado Implacável a dor manteve-me acordado Até que com promessas de calor O sol vem sacudir-me a letargia Mas esta mão inerte nega a guia Do meu frio coração morto de dor E assim renego o verso salvador Que a tristeza é demais e o desamor Inda me zurze a alma desumano Fustigando-me a esperança envergonhada De nada serve quere-la alevantada Na frustração lhe pesa o desengano Horas passam imunes à razão Que teima que a poesia é solução Na tarde já emerge o sol poente E o olhar volta a cair na pena Mas a dor inda não é pequena P’ra que me dote o gesto tão dormente Cai a noite e o seu manto estrelado Cobre de brilho novo este meu fado E a mão ligeira como por encanto Faz alçar-se da mesa a pena leve Que desliza num verso inda que breve Para contar a história deste pranto Brasil Maio de 2007 Eugénio de Sá Voltar ao índice |
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