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Recanto do Tempo

Eugénio de Sá

Página inaugurada em 02/03/2006

Ultima actualização

16/05/2007

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Biografia

28 Poemas Editados

- A cancela

- ad majoren Dei glorian

- Aljubarrota

- Amar-te assim, quisera

- Apologia do descanso

- Com mãos

- Consumição

- Desespero de criar

- Ensaio sobre a tristeza

- Esquecido até de mim

- Estas mãos que teimam em se abrir

- Fado maior

- Lá fora a noite

- Ladaínha de sentidos

- Luar de Verão

- No dia da poesia

- O destino do poeta

- O poeta abandonado

- O provador de vidas

- O relógio de sala

- Onde moras, amor

- Pó de estrelas

- Pregoeiro da nostalgia

- Quilhas no lodo

- Sinto-te a falta, amor

- Tanto e tão pouco

- Teia de espinhos

- Trova de amor em Sol Maior

 

6 Crónicas Editadas

 

- À amizade que brota sem aviso sem regras

 

- A interiorização de uma maldição

- Dia de chuva

- Morte na aldeia

- No mundo conturbado em que vivemos

- Pedaços da vida

 

2 PARCERIAS

- Viagem virtual

- Perdição

 

 

Foto de: Sete Sois

Eugénio de Sá

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eugénio de Sá – Sumário de uma Vida

 

Eugénio de Sá, de seu nome completo Manuel Eugénio Angeja de Sá, nasceu em Lisboa, no típico e antigo bairro da Ajuda, em 29 de Março de 1945.

Após concluir o curso comercial frequentou o instituto Comercial e ingressou como voluntário na Força Aérea Portuguesa. O curso de Radarista de Detecção permitiu-lhe servir nessa especialidade da aeronáutica militar o Centro de Operações de Radar em Monsanto.

Em 1968, depois de uma breve passagem pela Ford Lusitana, junta-se a um grupo de jornalistas no arranque do Jornal A Capital, onde exerce sucessivamente as funções de redactor do serviço de estrangeiro e chefe da publicidade.

Alguns anos depois, com Adriano Sequeira, José Pinto e outros jornalistas do automobilismo desportivo, inicia a publicação da Revista Automundo que vem depois a integrar o grupo de publicações da Intervoz, onde se distinguiam edições tão históricas como a Casa Viva, a Arquitectura e A Mulher d’Hoje, entre outras. Eugénio de Sá assume, então, a direcção comercial da área de publicações da Intervoz, cargo que desempenha durante sete anos, até à extinção da vertente editorial do Grupo.

Em 1984, Eugénio de Sá inicia um novo ciclo na sua vida profissional e assume funções de supervisor de clientes e director do departamento de stands da Agência de Publicidade Comunicar (Grupo Publicis – France), tendo como cliente principal a Renault Portuguesa – entre outros - cuja conta gere até 1992.

Ainda nesse ano, com o seu amigo José Rego, funda a Agência Rego+Associados, onde passa a assegurar as funções de Director de Clientes. Com o desaparecimento prematuro de José Rego a Agência encerra as suas portas.

Entretanto reformado, Eugénio de Sá decide aceitar o convite do seu Amigo Padre José Maria Cortes, Pároco de Alverca, onde reside, para assegurar a assessoria de Comunicação, Imagem e Relações Publicas do Pároco enquanto durar a construção da primeira Igreja – no mundo – consagrada aos Pastorinhos de Fátima; A Igreja dos Pastorinhos, de Alverca. Em 2000, entusiasmado com o projecto, Eugénio de Sá desenvolve as bases para o lançamento dos patrocínio do grande carrilhão (o 2º maior da Europa) e organiza a venda 58 garagens no subsolo do grande empreendimento, parte substancial do financiamento da obra. Organiza o Leilão de Vinhos e diversas campanhas para recolhas do fundos. Estabelece uma corrente informativa com os meios de comunicação regionais e nacionais e habitua as populações da região a receber regularmente informações - com grafismo inovador - do andamento da obra e das iniciativas que vão tendo lugar.

Desde a apresentação do projecto em "Power Point" à criação de um site na Internet, e da edição de um Boletim Informativo, passando pela criação do logótipo do conjunto religioso e da figura que decora a fachada do novo templo, Eugénio de Sá fez de tudo um pouco até à inauguração da Igreja dos Pastorinhos em 1 de Maio de 2005.

De par com este trabalho assegurou, durante dois anos, a edição do Jornal "Despertar Cebi" – veículo de comunicação de uma das maiores instituições de solidariedade social do país e publicou no jornal "Vida Ribatejana" numerosas, crónicas e poesias.

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ad majorem Dei gloriam

 

Sonhei um dia ser cavaleiro cruzado

Navegando no Mar mediterrâneo

Deixando para trás a epopeia

E o sepulcro de Cristo bem guardado

Godofredo Bulhão o chefe bem-amado

Qual campeão de Deus, vitorioso

Rei de um Jerusalém esplendoroso

E o infiel a seus pés, já dominado

Desse medonho embate memórias tinha vivas

Do bravo resfolgar dos corcéis de batalha

Ao cruzar das espadas no assalto da armada

E os prenúncios de morte e armaduras fendidas

Cingida ao peito tinha a Santa cruz

E a protegê-la malha e armadura

Com elas se chocaram setas e a metralha

E as cimitarras mouras chispando como luz

Já o elmo caíra a golpes de machado

E o punhal sarraceno descia vingador

Quando ferido e sem força que dominasse a dor

Vi de uma só lançada o mouro trespassado

Senti o Seu milagre naquele dia de preito

Cristo estava comigo na contenda

Ditando a minha sorte nessa manhã tremenda

E a cruz incólume pendia-me do peito

Jerusalém ardia p’las muralhas abertas

Nos gemidos dos feridos esbatia-se o fragor

Da vitória por Cristo dos mortos por amor

Drapejavam bandeiras nas ameias desertas

Da costa de Israel já ao não vejo o recorte

A barca segue lesta com a brisa a soprar

Cavaleiros cansados de tanto pelejar

Encostam-se à amurada que lhes ampara o porte

Acordo desse sonho mas não perco o registo

Dos defensores da fé; bravura e a glória

E a nobreza dos que souberam conquistar a história

A golpes de montante; Os cavaleiros de Cristo.

 

 

Eugénio de Sá

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Amar-te assim, quisera

 

 

Passear minha mão, assim, quisera

Roçando o teu pescoço levemente

Descer por esse colo brando e quente

A caminho de um ventre à minha espera.

Quisera, meu amor, aconchegar-te a mim

Acariciar-te as coxas e os seios

E deixar aos sentidos doces devaneios

Ate te sentir trémula num espasmo sem fim.

Depois, com o desejo ainda a fermentar

Fazendo latejar os nossos corações

Beijava-te o cabelo húmido de amar

Dormíamos em paz guardando as emoções.

 

 

Eugénio de Sá

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ESQUECIDO ATÉ DE MIM

 

 

 

Como posso aninhar-me

Se o teu seio está ausente…

Como posso dormir

Se a saudade me acorda…

Como posso fugir

Se o teu cheiro permanece…

Como posso esquecer-te

Se tu és o meu vício…

Como posso aceitar

Se amar é tão penoso…

Como posso salvar-me

De me esquecer de mim?

 

 

Porque quando se ama

A interrogação dói demais!

 

Eugénio de Sá

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Estas mãos que teimam em se abrir

 

 

À porta escancarada desta alma

Espera a esperança de te ver chegar

Virás tu decidida, fria e calma

Ou beijando a manhã, voando em vez de andar?

Será que ganha a estúpida razão

Embotada de receios inertes

Ou deixarás que vença o coração

Abrindo-o à ventura que despertes?

Porque hesitas, amor,

Que males te podem vir

Das carícias guardadas no calor

Destas mãos que teimam em se abrir?

 

Eugénio de Sá

 

Ouça este poema declamado por João Moutinho

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Lá fora a noite

No silêncio, a casa parece

querer acomodar-se

ao desassossego de quem a habita.

 

 

Lá fora, a noite

 

Espero que a manhã se deixe anunciar

pintando a claras cores a escuridão

anseio desta mágoa a omissão

que a luz do dia possa consumar.

E se a mente não se recusar

a aceitar, por troca, outras memórias

saiba eu recuperar fantásticas estórias

que a razão mais adulta não quis aceitar.

Mas funda é, demais, a soez dor

para que a frágil luz possa adiar

desesperos emersos, peados de brotar

silenciado, a custo, o íntimo fragor.

Chega tímida, enfim, a gélida alvorada

prenhe de (vãs) esperanças de libertação

que depressa se esbatem, e volve a maldição

deste desassossego que não esquece nada.

 

Eugénio de Sá

Fevereiro de 2005

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Onde moras, amor?

Onde moras, amor?

 

Alado fosse este meu amor

E tomaria os céus no teu encalço

E voaria com frio ou com calor

Até posar exausto de cansaço

E pairaria cego à luz do sol

Sem contar os minutos nem as horas

E usaria a lua qual farol

Até descortinar onde tu moras

 

Eugénio de Sá

 

Ouça este poema declamado por João Moutinho

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Sinto-te a falta, amor

 

 

Memórias já hoje não quisera

Desse teu corpo amado que foi meu

Um tormento que fez de mim ateu

E me faz renegar esse que eu era

Em ti voguei, feliz, como num rio

Á cadência suave das remadas

No teu leito dormi as longas madrugadas

Ajeitado ao teu jeito, quente no teu estio

Lembro afagos, carícias, ternuras no olhar

O sabor desses beijos, dos tantos que trocámos

E os cheiros de amar no ar que respirámos

Nostalgia penosa que me faz penar

Sinto-te a falta, amor, queres voltar?

 

 

Eugénio de Sá

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Teia de espinhos

 

 

Os dramas que conheço e que não quero

assumi-los na alma, quais espadas

vêm, na mesma tecer suas meadas

volvendo o que é tranquilo em desespero.

Pudesse eu converter vidas perdidas

moldá-las à quietude desejada

traria então a paz assim tratada

ao tormento da dor que fere e deixa feridas.

Busco nas madrugadas o deleite

de um sono perpassado de cores alvas

mas as recordações disparam secas salvas

forçando a negritude a ser aceite.

Turbo espírito este que se debate em mim

fadiga de quem sou exigindo descanso

bravura de pinheiro ansiando ser manso

em vez disso clausura num casulo ruim.

 

Eugénio de Sá

Maio de 2005

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CONSUMIÇÃO

 

De tanto desespero, desesperei

Sem valia ou orgulho cansei de tanta andança

Em frustrações frustrou-se o que sonhei

E do muito esperar morreu-me a esperança

Foram assaz amargos os anos que passei

Tentando encher de vida o meu viver

Procurei o sabor e não saboreei

Amizades de amigos que provaram não ser

No vazio, forçado, caminhei

Sem poder optar pelo caminho

Perdi-me em soluções e não solucionei

Senti a solidão sem estar sozinho

Subitamente, sem se anunciar

Alguém surgiu da sombra de uma cruz

Foi-me estendida a mão que me fez acordar

Da triste nostalgia que tanta dor induz

… e voltei para mim.

 

Ao drama dos desempregados

Eugénio de Sá

Dez.2000

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Desespero de criar

 

 

Pena inerte na mão

dormência de papel

Calmarias da alma

ideias sem tropel

Vagamente um vazio

sem imaginação

Cansaço de ralhar

com a apática razão

Desespero de criar

expor credos e medos

Manifesto de amar

ou um mar de segredos

Finalmente um ruído

que sacode o torpor

É o sonho a fluir

é um riso sem rir

Anima-se o talento

e sai a criação

E acontece a poesia !

 

 

Eugénio de Sá

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O destino do poeta

.

 

O poeta sabe

que o seu destino

é esgrimir com as palavras

num mundo cada vez mais insensível

ao sentido lírico da vida

e das coisas que dela fazem parte.

Não há moldes para as palavras,

nem fórmulas alquímicas

para o cadinho das ideias de um poeta.

São os seus sentimentos

que lhe fazem brotar as metáforas

com a espontânea força

da sua exaltação criativa.

Ora ferindo e desassossegando,

ora acariciando o seu leitor.

Isso é a poesia;

- amarga ou doce, aveludada ou rude

mas sempre, sempre, indomável.

 

Eugénio de Sá

 

Ouça este poema declamado por João Moutinho

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O Poeta Abandonado

 

E a caneta, hesitante, então parou

Sem saber que escrever sobre o papel

Até que a tinta, no aparo, secou

Porque o dono da mão que a segurava

De verbo fácil, outrora eloquente

Não é mais que uma sombra dormente

P’lo abandono da mulher que amava

A dor imensa carrega-lhe o semblante

Tamanho o desespero e a saudade

Que aperta o coração do pobre amante

Incapaz de sentir a poesia

Fluir ligeira contando sentimentos

Deixa-se dominar pela apatia

São mais fortes que ele os seus tormentos

E o poeta desiste de criar

Apagada na mágoa a sua exaltação

Verga-se, enfim, cansado, à exaustão

Deixa que o sono aquiete o seu penar

 

Eugénio de Sá

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O provador de vidas

 

 

Se alguém pudesse decantar

Como um bom vinho, a vida que tivemos

Degustaria os bons e os maus anos

Conhecendo os reveses nos taninos

E as glórias nas castas que criámos

Sabendo, assim, de nós como de nós falar

Na alegria radiosa da manhã outonal

Ou nas melancolias do nosso entardecer

Residem os aromas, as razões conhecidas

Que marcam as encostas destas nossas vidas

A tons de ouro as venturas, a negro o padecer

Ao esgotarmos a essência, na vindima final

Ergamos nesta taça o brinde que mereçamos

De um néctar bom ou mau p’lo que deixámos feito

alguém dirá um dia desse vinho que herda

que é uma triste zurrapa ou uma grande reserva

depende só de nós, se soubemos ter jeito

de ganhar a memória daqueles a quem amamos

 

 

Tal como a história de uma vida

A memória da nobreza de uma boa colheita

sobrevive à sua natural extinção.

 

Eugénio de Sá

 

Ouça este poema declamado por João Moutinho

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Tanto e tão pouco

 

 

Tanta esta dor que dói e dilacera

Da beira da loucura estou bem perto

Já não digo coisa que ainda tenha acerto

Tão pouco sou aquele que d’antes era

Tantas as alegrias que vivemos

Nenhuma é a razão que a morte encerra

Longas as madrugadas, sozinho, nesta terra

E tão poucas as noites que tivemos

Tanto percurso neste caminho d’ébrio

Com a saudade a minar sem conforto ou parança

Tão pouco, este sumário de vida sem esperança

Vivi à beira-amor e morro à beira-tédio

 

Eugénio de Sá

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Pregoeiro da nostalgia


Rua da Madalena, não posso esquecer
As alegres manhãs calçada acima
E ouvir o pregão: “viva da costa”
Na esganiçada voz de uma varina
Havia lá melhor? – Nem santola ou lagosta!
Nem pescada, que era vendida à posta
E era ver as freguesas a correr

Que vaga nostalgia esse tempo me traz
D’outro pregão, famoso, de Lisboa:
“Fava rica, quem quer almoçar”
E sabiam todos que era coisa boa
S. Mamede saía a licitar
As moedas na mão, esperteza no olhar
Alguma discussão e favas ao cabaz

E já nos fins de dia, ali ao Castelo
Bicicleta a reboque, mão no guiador:
“Amola tesouras e navalhas”
Um assobio de gaita, pregão de amolador
Consertava-se tudo, as bocas e as falhas
Lisboa era isto, os corvos e… as gralhas
E comiam-se à noite iscas no Cotovelo
 
                                                                       
Eugénio de Sá

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 MORTE NA ALDEIA

 

 

 

Isto morre um e é como se, com ele,morresse um pedaço de cada um dos outros, que ficaram.

 

Quando alguém morre na aldeia, toda a população entra em vigília, pelo respeito aos mortos e pela amizade aos vivos, companheiros de anos e de desgostos.

 

O abandono pelos seus, pelas duas gerações que os sucederam e que se foram embora, uma a reboque da outra - entretanto ocupados em gastar o que ganham na grande cidade - torna-os mais unidos. E a perda de um deles não se confina aos que lhe são chegados por família. É perda colectiva, é mais um vazio nas suas vidas já tão esvaziadas de objectivos e de alegrias.

 

Anciãos, trôpegos, quase todos, pelos forçados descuidos do trabalho sem tréguas, parecem ainda mais velhos do que são. Lá se vão arrastando pelas ruas do povoado, num ruído surdo de bengalas gastas, em triste convergência para a pequena igreja onde os leva a obrigação e o respeito.

É lá que começa a despedida ao finado, cumprindo-se o respeitável ritual do desfilar de memórias e de sentimentos, ao longo de toda a noite, em alternância com grandes e eloquentes silêncios, até que o dia chegue. É lá que prossegue o ciclo imparável do despovoamento.

As flores acumulam-se, compradas com o pouco de quem nada tem. E ainda se reza na Aldeia, ainda se confia a Deus, com fé, a alma do que parte.

Já não serão todos primos e primas – como verseja a popular cantiga – mas todos se conhecem e (quase) todos se respeitam, estimam e entreajudam, num exemplo inútil aos ausentes.

Falta-lhes tudo; os remédios e o médico a horas e até o Pároco, que lhes ouça os pecados e as queixas, que reparta, com eles, o pão e o sangue de Cristo e que, ao menos na morte, os acompanhe e os encomende a Deus, como deve ser.

Ao fim e ao cabo são eles os últimos bastiões da defesa e da prática dos valores mais altos alguma vez conquistados por esta decadente civilização, cujas motivações colectivas maiores são... aquelas que justificam as maiores audiências das Televisões.

Que se pense nisto com respeito pela nobre gente que resiste ainda nas Aldeias abandonadas do interior deste país.

 

Eugénio de Sá

 

... "Avante! -Os mortos ficarão sepultos

mas os vivos que sigam sacudindo

como o pó da estrada, os velhos cultos".

Antero de Quental ( in: "Sonetos Completos" )

 

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Pedaços da vida

Crónica de viagem

Baguetes estaladiças; foi a minha primeira visão ao entrar na cafetaria daquela Área de Serviço. Curiosamente, não se tratava de nenhuma informação fixada na parede. O anúncio movia-se na T-shirt preta envergada por uma jovem da mesma cor que, após recolher uma bandeja deixada numa mesa, rapidamente retomou o seu posto atrás do balcão daquele snack-bar de estrada.

Por cima dela, alinhadas em prateleiras, lá estavam as baguetes estaladiças, aguardando decisão para se abrirem ao recheio preferido dos apressados viajantes ocasionais, amantes daquela modalidade gastronómica ou que a instituem, casual ou repetidamente, por limitação da parca bolsa, esvaziada ao alucinante ritmo das exigências do quotidiano.

Decididamente, não estava nos meus dias. Pedi um café e mergulhei nas cogitações deprimentes de quem tem de pagar os exageros de um injusto custo de vida. E sem perspectivas próximas de qualquer mudança para melhor, face ao deserto de ideias e de soluções de quem deveria patentear umas e promover outras.

Olhava, vagamente absorto, o fumo cigarro, quando a imagem próxima da laboriosa mocinha me chamou, de novo, a atenção. De um ângulo apertado, por imposição de uma coluna de permeio, reparei que ela se movia em direcção à porta. Um rapaz, também ele negro, de boa compleição física, gesticulava do exterior, chamando-a. Vai haver sarilho, pensei, dominado pelo mau humor que me marcava o dia. Mas não, transposta a porta, a jovem quase se atirou ao pescoço do autor do veemente apelo, com uma jovialidade própria de quem mata saudades, de há muito sufocadas por forçada separação.

Levantei-me da mesa que ocupara e, ao passar por eles, escutei-lhes um tagarelar crioulo; um alegre palavreado, completamente ininteligível para mim, mas, certamente, autentica música para eles, que vibravam, emocionados, com as mutuas revelações.

Dirigi-me ao carro para retomar a estrada e o destino, pensando que aqueles dois, mesmo com dificuldades, porventura maiores que as minhas, ainda tinham alegria para viver... e sonhar. E o que somos nós sem o sonho?

 

Eugénio de Sá

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  À amizade

 

(À amizade que brota sem aviso nem regras)

 

Porque nada há de mais de mais belo,

de mais intrinsecamente humano,

que a fraterna generosidade de uma mão estendida.

 

 

Confissão de amigo

 

Estas palavras que imploram por ser escritas, não serão as mais acertadas, as mais sólidas, as mais esclarecidas. Mas são, certamente, as mais sinceras que encontrei para esta difícil interpretação de sentidos.

 

A vida não te tem sido fácil. Soube-o por ti, pelos teus olhos húmidos de prantos, novos e antigos.

 

Não posso ver-te sofrer porque já sou teu amigo. Mas, por mais que rebusque a minha experiência, persiste a ignorância do que devo ensinar-te.

 

Por ti, procurarei minorar - com imaginação - a mágoa que te afoga o riso. Afirmo-o com a certeza que me dá a força da emoção que sinto.

 

Só te peço que me deixes partilhar os teus momentos mais sombrios. Em silêncio, a teu lado. Ainda que …só esses.

 

Sabes? – Soube-me bem conversar contigo. Sei que sentiste que gostaria de te dar as mãos. Foi a ternura a trair-me! Mas não me vou permitir perder-te por ter deixado emergir outra atitude que não seja a que possas esperar de mim. Porque quero que saibas que tens mais um amigo. Seguramente não o mais importante, por certo não o mais desejado mas, mesmo assim, almejo ser um dos mais dedicados, que se encantaria de poder vir a merecer-te a reciprocidade desse sentimento.

 

Eugénio de Sá

 

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Dia de chuva

 

O movimento repetido do limpa pára-brisas, afastando a chuva que cai, miúda mas persistentemente, a sucessão ritmada dos traços brancos - intermitentes - do auto estrada, o ruído abafado da borracha rolando no asfalto molhado, vão, lentamente, provocando em mim uma descontracção propícia ao afago de doces memórias antigas, sempre boas companheiras. Coisas velhas, saídas do baú do tempo, evocações da ternura de momento vividos, ainda menino.

Parece que estou vendo: a minha avó paterna, vergada pela artrite, pegando-me carinhosamente na mão e recomendando-me cuidado ao atravessar a rua. Quase que consigo sentir o cheiro daquele bolinho que ela fazia no fim da tarde e que comia-mos juntos, enlevados pelo gosto e pela companhia enquanto esperámos que no Rádio Clube tivesse início o nosso programa preferido; as Lendas da Nossa Terra.

Lembro-me do meu cão, o "catita", um rafeiro que recolhera, ainda bébé, que depois de aceite pela família, foi o meu primeiro parceiro de brincadeiras e silencioso confidente durante quase catorze anos.

A nossa empregada doméstica, uma moça sadia, de bochechas rosadas, nascida e criada em terras de Monforte, que executava, com eficácia, as tarefas da casa, solícita e carinhosa cúmplice das minhas pequenas maldades e partidas. O seu silêncio poupou-me uns quantos castigos e talvez um ou outro justificado puxão de orelhas.

Ah!, como me lembro, parece que foi ontem, do dia do temporal. Foi uma espécie de ciclone, ou talvez tornado, que durou uns (intermináveis) dois ou três minutos. Eu e a Avó assistimos a tudo à janela da saleta que dava para o quintal; o uivo do vento era temível. De súbito, a oliveira – a única que tínhamos – vergou-se até ao chão e partiu-se, incapaz de resistir às violentas rajadas. A barraca do catita, que deveria pesar uma boas dezenas de quilos, passou, voando, diante da janela. - Felizmente que o animal havia sido solto pela manhã. Depois, com enorme fragor, desabou a grande chaminé do padeiro. Enfim, um pandemónio. E o que me custou, depois, olhar a figueirinha que eu plantara havia dois anos arrancada pela raiz, jazendo na terra que a erguera.

E as memórias continuavam a chegar-me como "alma que desliza sobre o éter de um instante"; a escola, os meus companheiros... e o senhor Mimoso, o barbeiro da Vila, responsável pelo meu corte "à inglesa curto", como era sempre recomendado pela minha tia, ao deixar-me sentado na imponente cadeira enquanto ia às compras. As primeiras namoradas...

Quase com uma sensação de culpa de, por momentos, haver conseguido afastar as preocupações que me apertavam o peito, remexi-me, inquieto, no banco do carro. O patrão tinha sido claro na última reunião; dera-nos um mês para preparar a vida para o inevitável: ia apresentar falência e passar-nos o papel para o desemprego. E o pior é que eu, e que quase todos os meus colegas, já passámos os quarenta o que, nos dias que correm, equivale a dizer que é praticamente impossível conseguir outro emprego. Como fazer, então, quando se tem filhos adolescentes e a estudar, ainda completamente dependentes de nós?

O acidente

Entregue, de novo, a esta amargura, mal me apercebi de que me aproximava, a grande velocidade da carrinha que me precedia. Travei de chofre, com quanta força tinha e, vendo que mesmo assim, deslizava no piso molhado e ia bater, desviei o carro para a esquerda. Só deu tempo para alguém que vinha a ultrapassar - e, também, a travar - passar a escassos centímetros do meu carro. Quase de seguida, já na outra faixa, consegui parar. Pelo retrovisor e, atrás de mim, vi que já todos haviam parado também. Escapara, por um triz, como que ajudado por mão invisível que me levara a executar, por instinto, aquela manobra.

Abri a porta, ergui-me do assento, e pude ver que, à minha frente, se estendia um imenso choque em cadeia, onde ardiam algumas viaturas com gente ainda lá dentro. Um horror!

Todo eu tremia. Os gritos, os lamentos e os cheiros misturados com a chuva que continuava a cair, tornavam dantesco aquele triste espectáculo.

E eu que, lembrado do meu drama, me sentia já vitimizado! - Face ao que assistia, o meu problema perdera importância, comparado com aquela tragédia.

Entretanto chegaram as primeiras ambulâncias.

Duas horas depois, volvidos poucos quilómetros, cheguei ao meu destino; Alverca. Na portagem, enquanto esperava a devolução do cartão multibanco que estendera ao portagista, levantei os olhos e fiquei perplexo; à minha frente, do outra lado da Rotunda, lia-se a toda a largura de um cartaz que anunciava a próxima inauguração de uma Igreja: O Milagre de Alverca !

Eugénio de Sá

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APOLOGIA DO DESCANSO

 

Vêm de geração em geração

Estas balelas espalhadas p’lo planeta

E uma alminha simplória

desde que ao mundo vem

Cedo se torna badalo de sineta

Chucha logo a mentira na chupeta

E cresce a propagá-la aqui e além.

Aprende a transmitir as loas do passado

E os exemplos da vida que convém;

Como os antigos discos, cheios de pó e riscos

vão moendo e moendo o triste fado:

O do trabalho dito "louvado e santo"

À bigorna e ao malho interpretado

Pingado de suor, de sangue e pranto.

Sejamos realistas e concretos

Porque isso do trabalho ser virtude

Ou coisa que se busque de vontade

Por ter nobre o carácter ou salva a castidade

É peta que já ninguém ilude

Nem move quem tem olhos bem abertos.

E o que é, realmente, a natureza

da frágil criatura que nos somos;

qual a sua postura e natural tendência?

- Certamente que o ócio e o descanso

letargia e sossego, pleno de moleza

aparentando um ar de eloquência

mas gozando as delicias do ripanço.

 

Eugénio de Sá (*)

 

(*) baseado num texto original

de Adhémaro Gomes de Azevedo

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LADAÍNHA DE SENTIDOS

 

 

Eu queria ser diferente

Quando te vejo

O meu desejo

Era olhar-te sem ver

Simples lampejo

Do teu corpo ondulante.

Queria passar por ti

Tranquilo, calmamente

Mesmo distante

Como de tanta gente

Por quem passo;

E Intuir-te a graça

Mas sem olhar p’ra ti.

Queria apartar de mim

O pensamento

Qual tormento

Do teu falar cantado

O doce acento

E a tua boca

Onde o sorriso brinca

E resplandece;

Como posso esquecer

O que não esquece?

Quem dera não parecer

que vou enlouquecer

por querer sentir-me imune

ao teu encanto;

Prouvera eu te ligasse tanto

Como me importa

O odor perfumado

Deste cigarro

Que fumo e logo esqueço

Quando se apaga o lume.

Mas só ando a fingir

Que não me iludo

Ganhei cisma em não querer

E queria tudo

Só que não sei mentir-me

Sou sincero,

E não posso fingir

o que não sou.

Sei que é estranha em mim

Esta dúbia atitude

De querer afastar

a quem venero

por não poder esquecer

o que não sei se quero:

- quem nunca, de si, um pouco me quis dar.

 

Eugénio de Sá

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A interiorização de uma maldição

 

Habituámo-nos a ver, pelas televisões, países de outras paragens serem açoitados por violentos furacões, varridos por ondas gigantes ou sacudidos por terramotos. Mas nós, os do hemisfério norte, a quem alguém já chamou: "os privilegiados senhores da prosperidade", temos estado a salvo de tudo isso. Temos pena do que vimos, comentamos com a família e os amigos, mas a vida continua, tranquila.

Todavia, face aos desenvolvimentos conhecidos no médio oriente e nalguns outros países do mundo árabe, parece estranho que ainda não tenhamos todos interiorizado o facto de que temos uma ameaça cada vez maior à nossa porta, a qual ninguém está, realmente, preparado para enfrentar.

Nada nem ninguém nos poderá proteger contra bárbaros atentados como os de Nova York, Londres, Madrid ou Bali (Indonésia), ou outros que, porventura, venham a ocorrer numa escalada alargada e previsível.

Parece, pois, ser tempo de nos mentalizarmos que podemos vir em breve a ser, também nós, vitimas das consequências de um rancor que não conhece limites, que procura encontrar justificação no fanatismo religioso mas cujas verdadeiras raízes se afundam na perpetuação da miséria e da injustiça em que estão imersas largas fatias da população deste (agredido) planeta em que vivemos. Essa bandeira é hoje desfraldada por alguns auto-proclamados representantes dos povos de Alá que, em seu nome, promovem carnificinas pelos quatro cantos do mundo.

Não se trata de uma mera encenação para efeitos mediáticos de uns quantos extremistas islâmicos, para tentar impingir as suas ideias ao mundo. O terror dispõe hoje de organizações quase perfeitas, constituídas por células estanques, disseminadas estrategicamente.

De nada serve pensar que este combate se pode travar de uma forma convencional, atacando este ou aquele país com mísseis ou invadindo-o com exércitos. Os estigmas do ódio estão à solta e são incontroláveis.

Nós, os dos países desenvolvidos, que aos olhos dos novos inimigos somos a imagem do poder e da arrogância, somos, agora, alvos a seleccionar de acordo com sinistras prioridades que desconhecemos.

Há quem defenda que todos os terrorismos são iguais e que, consequentemente, devem ser combatidos de idêntica forma. Mas não, não é possível comparar conflitos como os que configuram as acções da ETA, em Espanha ou configuraram as do IRA, na Irlanda do Norte, que têm objectivos específicos de disputa politica-territorial, com esta nova violência que parece constituir um fim em si mesma.

À luz do que é invocado pelos seus mentores, as suas motivações e objectivos não são deste mundo, mas de outro, quiçá ainda mais impiedoso.

 

Eugénio de Sá

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No mundo conturbado em que hoje vivemos

 

Acanhamo-nos de confessar ou até de falar no amor, vamos ao ponto de subalternizar os afectos.

Nos nossos dias, já houve quem afirmasse que "o amor-afectuoso está a agonizar, à escala universal". Será isto um excesso?

No decurso do século passado o culto das amizades foi-se tornando produto cada vez mais raro. Para isso, tem contribuído, em muito, o isolamento das pessoas face à comunidade que as cerca, fechando-se nos seus minúsculos apartamentos, virados para os seus mundos e para os seus preconceitos. A tudo isto acresce o que lhes chega pelos telejornais, cuja carga de violência mediática vai instalando, gradualmente, mas de vez, a chamada "crise do medo" nos elementos mais frágeis da sociedade, com o seu cortejo de sentimentos negativistas, o mais visível dos quais é consequência dos outros; a baixa auto-estima, tão falada ultimamente pelos governantes.

As constantes ameaças ao estilo de vida de cada um, ditadas pelas consequências das sucessivas crises nacionais e internacionais são outro factor relevante de desequilíbrio social.

O amor-afecto

A importância de um sentimento regenerador

As pessoas que apresentam sintomas deste tipo de patologia tornam-se emocionalmente inseguras, sentindo-se parcas em recursos internos de auto protecção. E não são, necessariamente, as que não recebem ou não receberam amor, mas também as que, mesmo recebendo-o, não foram capazes de o interiorizar e fazer dele uma fonte mobilizadora de fé e de esperança.

Quem não recebe (ou não aceita) o amor, o respeito, a solidariedade, a compaixão na sua vida, tornar-se um ser incrédulo, amargo, rude ou mesmo violento. Não acredita mais em si mesmo quanto mais nos outros.

As regras de conduta social estável, que todos aprendemos, vêm sendo postas em causa por cada geração que começa a pensar e a agir por si própria.

Resta saber as que as virão a substituir, perante o egoísmo crescente e egocêntrico que vem marcando a parte adquirida da personalidade de cada um: o carácter.

Eugénio de Sá

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Viagem virtual

Não existem distâncias para que a magia aconteça.

Dois autores separados por mais de três mil milhas de Mar

escrevem em parceria

 

Deixara para trás a costa portuguesa havia 17 dias.

O Gaivota, o meu pequeno veleiro de 12 metros, mostrara-se eficaz na travessia Atlântica, com ventos favoráveis de norte e nordeste que, felizmente, não tinham excedido as trinta nós. Alguma ondulação de três a quatro metros ao largo da Ilha da Madeira ainda me havia perturbado um pouco o andamento, mas nada que assustasse.

Há já uma semana que uma suave brisa e um mar chão permitem ao Gaivota deslizar em mar aberto e a todo-o-pano, a uma velocidade constante que ronda as doze milhas; o que é muito bom para uma embarcação pesada, de madeira, e com um razoável calado para o seu tamanho, mas que se explica pela excedente saída de água conseguida pelo desenho esguio do barco e pela pintura recente.

Desci ontem para ver o lastro e se havia qualquer entrada de água no casco; continua tudo bem, o que prova que a última calafetagem foi bem feita. Também, cara como foi! - É que hoje em dia há poucos profissionais desta arte. Já quase só se constrói em fibra e, nesse material, as técnicas de manutenção e recuperação são bastante diferentes.

Avisto, agora, ainda longe, a Ilha de Fernando Noronha, uma beleza tropical declarada área protegida pelo governo Brasileiro. Diz-se que o mergulho ali é controlado e previamente autorizado. Por isso a fauna e flora aquáticas devem estar no apogeu e deve ser uma maravilha lá mergulhar.

Mas nem vou parar. Tenho viveres que cheguem e vou aproveitar a brisa para continuar até ao Rio de Janeiro. O amor dá-me pressa…

Algo me toma, como uma atracção, como uma energia a atraír a minha embarcação numa direcção precisa que nem eu mesmo conheço. Deixo que a corrente do mar se encarregue deste meu destino. Um pouco mais próximo da costa, apenas sigo admirando as belezas naturais. Posso ver a fauna marinha abaixo de mim; cardumes de peixes, corais, a transparência que transmite frescura aos meus olhos. De repente....

...Um pouco mais a frente, golfinhos saltam como a brincar entre eles. Talvez tentem avisar-me que estou na rota certa. A beleza deles é fascinante. Dizem até que se relacionam por amor, são fieis quando macho e fêmea se envolvem. Seriam eles símbolos desse sentimento? Quem sabe…

Continua a corrente a levar-me como que por desígnio e eu penso se, ao chegar, saberei o que procuro! - O que posso fazer é esperar a hora da chegada.

O dia está por terminar. Sento-me numa cadeira de descanso perto da cabine, fito o horizonte e tenho a minha frente o mais lindo pôr do sol. Já o tinha admirado em fotos, mas fazer parte dele enche-me o peito de vida. O fraco calor do sol já adormecendo, a brisa morna que me toca, uma ou outra gaivota a aproveitar uma camada de ar quente para planar e aproveitar aquela tela natural pintada por Deus.

Quando a noite caiu, entrei na cabine, fiz uma refeição leve, revi algumas rotas nas cartas de navegação; tudo seguia bem. Deitei-me e pus-me a ler um livro para passar o tempo, mas acho que nem cheguei a começar; adormeci. Acordei com o ele sobre meu peito e nem mesmo lembro de haver lido algum trecho daquela página.

(Passaram-se dias naquele mesmo quotidiano, e eu apenas a pensar no coração que me esperava)

A cada dia sinto-me mais próximo; a sensação do ponto de chegada cada vez mais presente. Meu Deus! Seria eu louco, a desbravar um oceano nesse buscar que o meu coração tanto pediu?

Corro as cartas, faço cálculos e, de volta ao convés, vem-me a certeza que aquela terra que avisto é o meu porto. A vejo como de braços abertos a me receber. A euforia toma-me, por completo. Cardumes, aves marinhas, o vento, todos a receber-me, avisando que a minha viagem estava ponto de terminar em questão de algumas horas.

Baixei as velas, âncora ao mar, meu bote pronto para me levar as margens daquela terra. O coração não consegue manter um ritmo normal, ele bate em ritmo acelerado, quando, já mais próximo daquela praia, vislumbro alguém à minha espera, olhando atentamente o meu bote, com as mãos em pala sobre os olhos. Eu vejo-a ali, parada, o seu corpo expressando a certeza que aquele que esperava sou eu.

Já bem próximo, desligo o pequeno motor do bote e deixo que a corrente e as ondas me levem, até que posso saltar e pisar terra.

Aquele mar brasileiro, parecia ter cumprido a sua missão. - Caminho em direcção a ela e podemos sentir ambos que ali se concretizam os nossos sonhos. Tomo-a nos meus braços, olhamo-nos como se nos fotografássemos um ao outro. E, entre as poucas palavras proferidas, trocámos um longo beijo.

Naquele beijo, todas as palavras foram ditas. E o amor aconteceu!

Eugénio de Sá e Anna Muller

(em parceria)

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PERDIÇÃO

 

 

Não existem distâncias para que a poesia aconteça.

Dois autores separados por mais de três mil milhas de Mar

escrevem poesia em parceria

 

Foi perdição, ou talvez, menor fortuna

Haver-te conhecido nesse dia

Por receber de ti tanta agonia

E uma mão cheia de coisa nenhuma.

Vivesse eu mais cem anos

Nunca esqueceria

A traição por detrás da euforia

Que escondia mentiras e enganos

Cegueira que me tomaste por completo

Envenenou-me sem dó nem piedade

Transformou-me na falsa alteridade

E acreditar nesse amor inepto.

Pudera eu apagar da memória

Este fatídico sentimento

Rever cada página dessa história

Triste, a cada vão momento.

 

Eugénio de Sá e Anna Muller

(em parceria)

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No dia da Poesia

 

- Agradeço aos poetas

Que me emprestaram o aroma da sua poesia,

Que fizeram correr a sua inspiração nestas veias,

Que deixaram que respirasse o ar dos seus encantamentos…

 

- Agradeço aos poetas

O testemunho da dor que consolida a tristeza,

A sabedoria da expressão dramática dos sentimentos,

O jeito que me dota a mão

desta força imensa da comunicação metafórica,

A capacidade de saber reconhecer a beleza

numa palavra, num gesto, numa intenção…

 

- Agradeço aos poetas

O pregão da justiça, o louvor ao amor, o apelo ao perdão.

 

- Agradeço aos poetas

Terem-me feito um deles.

 

Eugénio de Sá

 

( dedicado à minha amiga

a poetisa Anna Muller )

 

Ouça este poema declamamado por João Moutinho

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Pó de Estrelas


Noite límpida esta que fito deslumbrado
E as constelações enfeitam-me o olhar
Cassiopeia à direita, Scorpio d’outro lado
Vejo o Cruzeiro do Sul ali mesmo a brilhar

Qual visão sobreposta foca-se a tua imagem
Nas estrelas que apontam o teu doce caminho
Desse lado do mundo onde tu és miragem
Neste lado da vida onde ainda há carinho

Procuro nas estrelas uma resposta à dor
Pergunto a Sirius, questiono Alfa Centauri
Mas não leio sinais que me tragam o amor
Nem ouço ecos no céu que me falem de ti

Só o pó das estrelas de uma estrela cadente
Pode testemunhar esta  tristeza
Que encontra fundamento no silêncio eloquente
Negando-me aos sentidos sentir tanta beleza


Eugénio de Sá
Abril 2006

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A cancela

Olho tristemente a cancela partida
Onde outrora passou o meu passado
E revejo em saudades ternos laços
Marcados por carinhos e abraços
Daquela Avó velhinha minha amiga
Que trôpega e doente me mantinha cuidado
Sem se poupar a esforços nessa lida

Outrora tão branquinha essa cancela
É agora um destroço podre e tosco
Como a vida que passa e atinge o  fim
Lembrada nas memórias que se chegam a mim
À vista da cancela que deixou de ser bela
São as marcas do tempo que me marcam o rosto
de mágoas e ausências que deixaram mazela

Eugénio de Sá

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                           “Com mãos se faz a paz, se faz a guerra 
                                          Com mãos tudo se faz e se desfaz”


Com mãos

Com mãos faz-se expressão
Com mãos se faz o pão que Deus nos dá
Com mãos se pede a Ele p’lo nosso irmão
Com mãos se reivindica o que a vida não dá
E se é com mãos que se bate em alguém
É com as mesmas mãos que se pede perdão
E é pena que as mãos sejam também
Culpadas se as lavamos, negando a redenção
Com mãos se renega o amor que nos dão
Com mãos se abraça, com mãos se acaricia
Com mãos se trai quem já nos deu a mão
Com mãos se busca o pão de cada dia
E se é com mãos que se limpam os olhos
Se as lágrimas de dor ganham o apogeu
Também é com as mãos que se removem escolhos
Propiciando o sonho a quem já o perdeu

Eugénio de Sá

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Luar de verão


Noite límpida esta brilhando na janela
Do quarto onde me deito e tu te deitas
É nosso o leito onde tu me rejeitas
É minha a dor ou o que resta dela
Campeia a indiferença neste espaço
Onde te chamei minha e fui o teu senhor
Era a festa da vida vivida com amor
De tanto que nos demos não permanece traço
Nesta noite estival é frio o meu pesar
Ao lembrar a doçura experimentada
Conhecendo-te a ausência embora aqui deitada
E assumo a almofada cansado de lembrar

Eugénio de Sá

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O Relógio de Sala


Sou relógio de sala, há tanto tempo
Que nem lembro quando aqui cheguei
Mas puseram-me aqui e aqui fiquei
Neste canto da sala, a meu contento
Sou de fina madeira, a verniz acabada
De um tronco africano fizeram-me estas tábuas
Que já testemunharam alegrias e mágoas
E casos de família nobre e abastada
Tenho por coração um pêndulo comprido
Como extensão de uma máquina antiga
Estou limpo e dá-me brilho mão amiga
Com a consideração que merece o antigo
Sou músico prendado, toco a Avé Maria
E mais um quantos trechos tão famosos
Quem me dá corda escolhe os mais gostosos
Que eu executo sempre, noite e dia
Ainda ontem nesta sala, lá no outro canto
Um par de namorados se abraçaram
Longos beijos e afagos se trocaram
E não vos conto mais, sou de pau…santo!


Eugénio de Sá
Lisboa
Portugal
Abril 2006

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Trova de amor em sol maior

Da longínqua distância imaginada
No outro lado desse imenso Atlântico
Chegam ecos de uma trova encantada
São os sons do amor no embalo desse cântico
És trova em sol maior nesta visão amada.
E solta-se o pudor, cresce o desejo em mim
De abraçar e beijar esse corpo que adoro
Apertar-te ao meu peito num amplexo sem fim
Fazer amor contigo até tremer de choro.
Depois sentir-te calma, aconchegada e terna
E ouvir nos teus lábios os sons da doce trova
Enchendo a minha alma como luz em lucerna
Aquietando o desejo que sempre se renova.
Com o cair da noite renasce em mim a esperança
De voltar a ouvir a trova em sol maior
E ser eu a levar-te deste enlevo a lembrança
Ou seres tu a trazer-me a prova deste amor.

                           
Eugénio de Sá

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Aljubarrota

A Batalha Real

 

Já por terras de Almeida entram os cavaleiros

Da hispânica Castela são senhores oriundos

Marechais e Álferes-Mor entre os muitos se contam

Drapejam estandartes dos seus mundos

E em torno do rei todos se juntam

Deixando fundas marcas nos esteiros
 

E pela margem norte do Mondego

Prossegue marcha a hoste deslumbrante

Estendida em nove léguas sobre vales e montes

À cinta trazem espada, na montada o montante

E à frente almocádens batendo os horizontes

Abrem caminho ao rei guardando-lhe sossego
 

D. João I de Castela ordena o arraial

Estende-se acampamento, acomodam-se arneses

Carroças e bandejas despojam-se de cargas

Descansam os peões, os nobres e os reveses

Acendem-se os archotes p’ra iluminar as guardas

Quebrando a escuridão nesta noite estival
 

Em solo lusitano desponta o alvorecer

Alça-se a hoste inteira ao rufar do tambor

Ganha corpo o vigor nos corpos repousados

E os homens armados partem com despudor

A caminho de espaços com passos mais ousados

Na terra que os recebe sem os reconhecer
 

Coimbra ultrapassada prossegue a progressão

Dos esquadrões de guerra do altivo invasor

Mas Leiria permeia o feérico percurso

E a gente portuguesa tem por justo penhor

Defender Portugal do seu intruso

Travando o passo a tão ingente acção
 

O Mestre d’Avis a D. Nuno confia

A nobreza do reino e as Ordens militares

Agregam-se os vassalos e os mesteirais

E os peões com lanças contam-se aos milhares

Arqueiros d’Inglaterra estão nas forças leais

Que preparam defesa a quem neles se fia
 

É Portugal unido a D. João I

Que promete um mosteiro à Virgem p’la vitória

E em Porto-de-Mós se remói a estratégia

Que vai contar em campo com se faz a história

Apresta-se o exército para a batalha régia

Sem medo ao castelhano que se exibe altaneiro
 

Neste Agosto marcado por tórrido calor

Dispõe-se a lusa gente p’ra enorme gesta

Do lobo as covas cava em forma engenhosa

Como se ser herói fosse uma festa

Ou a provável morte lhes pareça garbosa

Ao dar o peito em preito p’lo seu rei e senhor
 

Dos oponentes a desigualdade é esmagadora

Oito mil, em S. Jorge, preparam a peleja

Contra uma imensa força, um ror de gente

Brilhando ao sol e ao vento seu orgulho drapeja

Mas da própria vitória talvez menos crente

Porque a razão que a move é redutora

Ganha jus no terreno o fero contendor

São mais de trinta mil os invasores armados

Entre tantos cavalga o orgulho da Gália

Cumprindo pacto firmado de aliados

Para cumprida a guerra repartir herança

Do que ficar prestável por penhor
 

Mas cedo é ainda tempo de cantar vitória

Porque o Mestre d’Avis e o seu Condestável

Prometem assumir defesa intransigente

Da colina onde o ataque parece mais provável

E a força castelhana mesmo tão potente

Contorna o declive adiando glória
 

Os bravos portugueses invertem posição

Viram-se a sul as Alas indomáveis

Mem Rodrigues, Rui Mendes, são p’la dos Namorados

Nos gibões volteiam lenços adoráveis

Das donzelas do reino mostram os recados

Do amor delas o sonho, da esperança, a exaltação
 

A Ala a poente Madressilva é chamada

Montferrat e Antão Vasques comandam os arqueiros

Que vão determinar uma sólida frente

Garantida também p’lo poder dos besteiros

A visão castelhana é temerosa mas d’ela não temente

O luso defensor da pátria bem amada
 

São seis horas da tarde, tomba o astro rei no horizonte

Inicia-se o ataque aos brados de vitória ou morte

Os cavaleiros franceses galopam sobre o morro

Lançados estão os dados que irão ditar a sorte

D’uns a ávida odisseia, d’outros o promissor socorro

Erguem-se lanças espadas e montantes na defesa do monte
 

Dos castelhanos os trons ferozes troam

E a tiro as cerradas fileiras cindir tentam

Mas lanças dos infantes nas covas eriçadas

Malogram esse intento e logo entram

Nos ventres das montadas onde são mergulhadas

Machados fendem elmos enquanto os gritos soam
 

Deixam no terreno um rio de sangues

Normandos e Bretões de Castela alinhados

Porque os flancos lusitanos cruzam chuva de setas

E antes que atinjam a defesa os tem já dizimados

Da chacina os que restam debandam sem ter metas

Ou deixam-se apressar confusos e exangues
 

Ganha a ladeira a força substancial

Em algazarra ferida de sentido

Peões e cavaleiros lançam-se p’la colina

Mas o seu porte é torpe e desunido

E a portentosa hoste cujo rei encima

Da organização perdeu o ritual
 

O Mestre d’Avis manda então avançar

A inteira reserva da força portuguesa

As alas estão intactas e garantem os flancos

Concentra-se na frente o poder da defesa

Executam-se os presos para ganhar destreza

Com a gente disponível disposta p’ros matar
 

Investe em desespero o invasor enorme

Num embate frontal ao imposto quadrado

Que bem organizado se deixa penetrar

Fechando-se em tenaz determinado

Envolvendo aquela mole armada até a esmagar

Tornando-lhe o orgulho em vergonha disforme
 

Repousam os mangualdes e as achas de armas

Retiram-se armaduras, escudos e adagas

Descansam-se os cansaços de tanto pelejar

E erguem-se os sorrisos na colina e nas fragas

Dos heróis portugueses que souberam ganhar

O penhor de um país que não desarma
 

E ali mesmo D. Nuno Álvares Pereira

Agradecendo à Virgem reza pela vitória

Dobra joelho em terra e com ele toda a armada

E na face dos homens resplandesce a glória

Que há-de brilhar p´ra sempre nesta pátria amada

Por séculos que passem liberta de poeira

 

Eugénio de Sá

Junho de 2006
 

Este poema é dedicado à minha estimada amiga, a poetisa Anna Muller

 

Notas:
 

Em 1383, el-rei D. Fernando morreu sem deixar um filho varão que herdasse a coroa. A sua única filha era a Infanta D. Beatriz, casada com o rei D. João I de Castela. A burguesia portuguesa mostrava-se, entretanto, insatisfeita com a regência da Rainha D. Leonor Teles e do seu favorito, o conde Andeiro e com a ordem de sucessão, uma vez que isto significava anexação de Portugal por Castela. As gentes alvoroçaram-se em Lisboa, o conde Andeiro foi morto e o povo pediu ao mestre de Avis, filho natural de D. Pedro I de Portugal, que ficasse como regedor e defensor do Reino.

O período de interregno que se seguiu ficou conhecido como crise de 1383-1385.

Finalmente, a 6 de Abril de 1385, D. João, mestre da Ordem de Avis, é aclamado rei pelas cortes reunidas em Coimbra. Mas o rei de Castela não desistiu do direito à coroa de Portugal, que entendia advir-lhe do casamento. Em Junho desse ano invade Portugal à frente da totalidade do seu exército, a que se juntara um contingente de cavalaria francesa.

A Batalha de Aljubarrota teve lugar em 14 de Agosto de 1385 no local de S. Jorge, entre Leiria e Alcobaça. No sangrento combate pereceram cerca de 9 500 Castelhanos entre mortos e combate directo e pelas milícias que os perseguiram em fuga e os foram dizimando.

Consta que as ribeiras em torno da base da colina onde se deu a batalha ficaram de tal modo juncadas de cadáveres que os corpos barraram completamente o curso das águas.

As baixas portuguesas não ultrapassaram 1 000 homens.

No local da Batalha foi erigido o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, correspondendo à vontade de D. João I, o Mestre de Avis.

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Quilhas no lodo


Pedir a um português que não fale do mar,

que apague as brumas que lhe bordam os sonhos,

que esqueça as fomes de longe, as sedes de azul

e que ignore a salgada e hídrica força da sua matriz,

é retirar-lhe a poesia das veias,

exilando-o num cais onde só há chegadas.


 

Quilhas no lodo

Eugénio de Sá

 

Quilhas sedentas d’água e tombadas

Naufragadas nos lodos de uma ria

São bolores de uma mágoa assaz sombria

Marinhagens de sonhos desgraçadas
 

Porque é preciso navegar-se a vida

Acordar nas bravuras de uma proa erguida

E anoitecer num fado que nos dê guarida
 

Viver a nostalgia desses horizontes

Onde a glória do sol emerge lentamente

Saber saborear as cores do seu poente
 

É feito disto o sonho português

De doiradas areias e um mar

de navegantes

E não de lodos vis, agonizantes

Em negação a tudo o que se fez

 

A Portugal

Agosto de 2006
Eugénio de Sá
 

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Fado Maior 

É lá, nesse recanto da saudade 
Que mora o fado antigo, marinheiro 
Aquele fado de sempre sem idade 
Que numa voz maruja foi primeiro 
 
Do Gama as caravelas foram palco 
Dessa canção tristonha, emocionada 
Que brota das gargantas em socalco 
Com em soluços d'alma esfarrapada 
 
Falo de Portugal, emocionado 
De lá trouxe o meu fado, alegremente 
Numa esperança de vida, engalanado 
E inda o escuto ao longe, sobre o mar 
 
Como se os ecos seus fossem presentes 
No luso coração nele a vibrar

Eugénio de Sá 

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Ensaio sobre a tristeza
 
Sextilhas

De estio vestiu-se o dia e eu gelado
Implacável a dor manteve-me acordado
Até que com promessas de calor
O sol vem sacudir-me a letargia
Mas esta mão inerte nega a guia
Do meu frio coração morto de dor

E assim renego o verso salvador
Que a tristeza é demais e o desamor
Inda me zurze a alma desumano
Fustigando-me a esperança envergonhada
De nada serve quere-la alevantada
Na frustração lhe pesa o desengano 

Horas passam imunes à razão
Que teima que a poesia é solução
Na tarde já emerge o sol poente
E o olhar volta a cair na pena
Mas a dor inda não é pequena
P’ra que me dote o gesto tão dormente

Cai a noite e o seu manto estrelado
Cobre de brilho novo este meu fado
E a mão ligeira como por encanto
Faz alçar-se da mesa a pena leve
Que desliza num verso inda que breve
Para contar a história deste pranto

Brasil
Maio de 2007

Eugénio de Sá
 
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