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Recanto do Tempo

Eugénio de Sá

Página inaugurada em 02/03/2006

Ultima actualização

16/05/2007

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Biografia

28 Poemas Editados

- A cancela

- ad majoren Dei glorian

- Aljubarrota

- Amar-te assim, quisera

- Apologia do descanso

- Com mãos

- Consumição

- Desespero de criar

- Ensaio sobre a tristeza

- Esquecido até de mim

- Estas mãos que teimam em se abrir

- Fado maior

- Lá fora a noite

- Ladaínha de sentidos

- Luar de Verão

- No dia da poesia

- O destino do poeta

- O poeta abandonado

- O provador de vidas

- O relógio de sala

- Onde moras, amor

- Pó de estrelas

- Pregoeiro da nostalgia

- Quilhas no lodo

- Sinto-te a falta, amor

- Tanto e tão pouco

- Teia de espinhos

- Trova de amor em Sol Maior

 

6 Crónicas Editadas

 

- À amizade que brota sem aviso sem regras

 

- A interiorização de uma maldição

- Dia de chuva

- Morte na aldeia

- No mundo conturbado em que vivemos

- Pedaços da vida

 

2 PARCERIAS

- Viagem virtual

- Perdição

 

 

Foto de: Sete Sois

Eugénio de Sá

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eugénio de Sá – Sumário de uma Vida

 

Eugénio de Sá, de seu nome completo Manuel Eugénio Angeja de Sá, nasceu em Lisboa, no típico e antigo bairro da Ajuda, em 29 de Março de 1945.

Após concluir o curso comercial frequentou o instituto Comercial e ingressou como voluntário na Força Aérea Portuguesa. O curso de Radarista de Detecção permitiu-lhe servir nessa especialidade da aeronáutica militar o Centro de Operações de Radar em Monsanto.

Em 1968, depois de uma breve passagem pela Ford Lusitana, junta-se a um grupo de jornalistas no arranque do Jornal A Capital, onde exerce sucessivamente as funções de redactor do serviço de estrangeiro e chefe da publicidade.

Alguns anos depois, com Adriano Sequeira, José Pinto e outros jornalistas do automobilismo desportivo, inicia a publicação da Revista Automundo que vem depois a integrar o grupo de publicações da Intervoz, onde se distinguiam edições tão históricas como a Casa Viva, a Arquitectura e A Mulher d’Hoje, entre outras. Eugénio de Sá assume, então, a direcção comercial da área de publicações da Intervoz, cargo que desempenha durante sete anos, até à extinção da vertente editorial do Grupo.

Em 1984, Eugénio de Sá inicia um novo ciclo na sua vida profissional e assume funções de supervisor de clientes e director do departamento de stands da Agência de Publicidade Comunicar (Grupo Publicis – France), tendo como cliente principal a Renault Portuguesa – entre outros - cuja conta gere até 1992.

Ainda nesse ano, com o seu amigo José Rego, funda a Agência Rego+Associados, onde passa a assegurar as funções de Director de Clientes. Com o desaparecimento prematuro de José Rego a Agência encerra as suas portas.

Entretanto reformado, Eugénio de Sá decide aceitar o convite do seu Amigo Padre José Maria Cortes, Pároco de Alverca, onde reside, para assegurar a assessoria de Comunicação, Imagem e Relações Publicas do Pároco enquanto durar a construção da primeira Igreja – no mundo – consagrada aos Pastorinhos de Fátima; A Igreja dos Pastorinhos, de Alverca. Em 2000, entusiasmado com o projecto, Eugénio de Sá desenvolve as bases para o lançamento dos patrocínio do grande carrilhão (o 2º maior da Europa) e organiza a venda 58 garagens no subsolo do grande empreendimento, parte substancial do financiamento da obra. Organiza o Leilão de Vinhos e diversas campanhas para recolhas do fundos. Estabelece uma corrente informativa com os meios de comunicação regionais e nacionais e habitua as populações da região a receber regularmente informações - com grafismo inovador - do andamento da obra e das iniciativas que vão tendo lugar.

Desde a apresentação do projecto em "Power Point" à criação de um site na Internet, e da edição de um Boletim Informativo, passando pela criação do logótipo do conjunto religioso e da figura que decora a fachada do novo templo, Eugénio de Sá fez de tudo um pouco até à inauguração da Igreja dos Pastorinhos em 1 de Maio de 2005.

De par com este trabalho assegurou, durante dois anos, a edição do Jornal "Despertar Cebi" – veículo de comunicação de uma das maiores instituições de solidariedade social do país e publicou no jornal "Vida Ribatejana" numerosas, crónicas e poesias.

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ad majorem Dei gloriam

 

Sonhei um dia ser cavaleiro cruzado

Navegando no Mar mediterrâneo

Deixando para trás a epopeia

E o sepulcro de Cristo bem guardado

Godofredo Bulhão o chefe bem-amado

Qual campeão de Deus, vitorioso

Rei de um Jerusalém esplendoroso

E o infiel a seus pés, já dominado

Desse medonho embate memórias tinha vivas

Do bravo resfolgar dos corcéis de batalha

Ao cruzar das espadas no assalto da armada

E os prenúncios de morte e armaduras fendidas

Cingida ao peito tinha a Santa cruz

E a protegê-la malha e armadura

Com elas se chocaram setas e a metralha

E as cimitarras mouras chispando como luz

Já o elmo caíra a golpes de machado

E o punhal sarraceno descia vingador

Quando ferido e sem força que dominasse a dor

Vi de uma só lançada o mouro trespassado

Senti o Seu milagre naquele dia de preito

Cristo estava comigo na contenda

Ditando a minha sorte nessa manhã tremenda

E a cruz incólume pendia-me do peito

Jerusalém ardia p’las muralhas abertas

Nos gemidos dos feridos esbatia-se o fragor

Da vitória por Cristo dos mortos por amor

Drapejavam bandeiras nas ameias desertas

Da costa de Israel já ao não vejo o recorte

A barca segue lesta com a brisa a soprar

Cavaleiros cansados de tanto pelejar

Encostam-se à amurada que lhes ampara o porte

Acordo desse sonho mas não perco o registo

Dos defensores da fé; bravura e a glória

E a nobreza dos que souberam conquistar a história

A golpes de montante; Os cavaleiros de Cristo.

 

 

Eugénio de Sá

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Amar-te assim, quisera

 

 

Passear minha mão, assim, quisera

Roçando o teu pescoço levemente

Descer por esse colo brando e quente

A caminho de um ventre à minha espera.

Quisera, meu amor, aconchegar-te a mim

Acariciar-te as coxas e os seios

E deixar aos sentidos doces devaneios

Ate te sentir trémula num espasmo sem fim.

Depois, com o desejo ainda a fermentar

Fazendo latejar os nossos corações

Beijava-te o cabelo húmido de amar

Dormíamos em paz guardando as emoções.

 

 

Eugénio de Sá

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ESQUECIDO ATÉ DE MIM

 

 

 

Como posso aninhar-me

Se o teu seio está ausente…

Como posso dormir

Se a saudade me acorda…

Como posso fugir

Se o teu cheiro permanece…

Como posso esquecer-te

Se tu és o meu vício…

Como posso aceitar

Se amar é tão penoso…

Como posso salvar-me

De me esquecer de mim?

 

 

Porque quando se ama

A interrogação dói demais!

 

Eugénio de Sá

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Estas mãos que teimam em se abrir

 

 

À porta escancarada desta alma

Espera a esperança de te ver chegar

Virás tu decidida, fria e calma

Ou beijando a manhã, voando em vez de andar?

Será que ganha a estúpida razão

Embotada de receios inertes

Ou deixarás que vença o coração

Abrindo-o à ventura que despertes?

Porque hesitas, amor,

Que males te podem vir

Das carícias guardadas no calor

Destas mãos que teimam em se abrir?

 

Eugénio de Sá

 

Ouça este poema declamado por João Moutinho

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Lá fora a noite

No silêncio, a casa parece

querer acomodar-se

ao desassossego de quem a habita.

 

 

Lá fora, a noite

 

Espero que a manhã se deixe anunciar

pintando a claras cores a escuridão

anseio desta mágoa a omissão

que a luz do dia possa consumar.

E se a mente não se recusar

a aceitar, por troca, outras memórias

saiba eu recuperar fantásticas estórias

que a razão mais adulta não quis aceitar.

Mas funda é, demais, a soez dor

para que a frágil luz possa adiar

desesperos emersos, peados de brotar

silenciado, a custo, o íntimo fragor.

Chega tímida, enfim, a gélida alvorada

prenhe de (vãs) esperanças de libertação

que depressa se esbatem, e volve a maldição

deste desassossego que não esquece nada.

 

Eugénio de Sá

Fevereiro de 2005

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Onde moras, amor?

Onde moras, amor?

 

Alado fosse este meu amor

E tomaria os céus no teu encalço

E voaria com frio ou com calor

Até posar exausto de cansaço

E pairaria cego à luz do sol

Sem contar os minutos nem as horas

E usaria a lua qual farol

Até descortinar onde tu moras

 

Eugénio de Sá

 

Ouça este poema declamado por João Moutinho

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Sinto-te a falta, amor

 

 

Memórias já hoje não quisera

Desse teu corpo amado que foi meu

Um tormento que fez de mim ateu

E me faz renegar esse que eu era

Em ti voguei, feliz, como num rio

Á cadência suave das remadas

No teu leito dormi as longas madrugadas

Ajeitado ao teu jeito, quente no teu estio

Lembro afagos, carícias, ternuras no olhar

O sabor desses beijos, dos tantos que trocámos

E os cheiros de amar no ar que respirámos

Nostalgia penosa que me faz penar

Sinto-te a falta, amor, queres voltar?

 

 

Eugénio de Sá

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Teia de espinhos

 

 

Os dramas que conheço e que não quero

assumi-los na alma, quais espadas

vêm, na mesma tecer suas meadas

volvendo o que é tranquilo em desespero.

Pudesse eu converter vidas perdidas

moldá-las à quietude desejada

traria então a paz assim tratada

ao tormento da dor que fere e deixa feridas.

Busco nas madrugadas o deleite

de um sono perpassado de cores alvas

mas as recordações disparam secas salvas

forçando a negritude a ser aceite.

Turbo espírito este que se debate em mim

fadiga de quem sou exigindo descanso

bravura de pinheiro ansiando ser manso

em vez disso clausura num casulo ruim.

 

Eugénio de Sá

Maio de 2005

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CONSUMIÇÃO

 

De tanto desespero, desesperei

Sem valia ou orgulho cansei de tanta andança

Em frustrações frustrou-se o que sonhei

E do muito esperar morreu-me a esperança

Foram assaz amargos os anos que passei

Tentando encher de vida o meu viver

Procurei o sabor e não saboreei

Amizades de amigos que provaram não ser

No vazio, forçado, caminhei

Sem poder optar pelo caminho

Perdi-me em soluções e não solucionei

Senti a solidão sem estar sozinho

Subitamente, sem se anunciar

Alguém surgiu da sombra de uma cruz

Foi-me estendida a mão que me fez acordar

Da triste nostalgia que tanta dor induz

… e voltei para mim.

 

Ao drama dos desempregados

Eugénio de Sá

Dez.2000

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Desespero de criar

 

 

Pena inerte na mão

dormência de papel

Calmarias da alma

ideias sem tropel

Vagamente um vazio

sem imaginação

Cansaço de ralhar

com a apática razão

Desespero de criar

expor credos e medos

Manifesto de amar

ou um mar de segredos

Finalmente um ruído

que sacode o torpor

É o sonho a fluir

é um riso sem rir

Anima-se o talento

e sai a criação

E acontece a poesia !

 

 

Eugénio de Sá

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O destino do poeta

.

 

O poeta sabe

que o seu destino

é esgrimir com as palavras

num mundo cada vez mais insensível

ao sentido lírico da vida

e das coisas que dela fazem parte.

Não há moldes para as palavras,

nem fórmulas alquímicas

para o cadinho das ideias de um poeta.

São os seus sentimentos

que lhe fazem brotar as metáforas

com a espontânea força

da sua exaltação criativa.

Ora ferindo e desassossegando,

ora acariciando o seu leitor.

Isso é a poesia;

- amarga ou doce, aveludada ou rude

mas sempre, sempre, indomável.

 

Eugénio de Sá

 

Ouça este poema declamado por João Moutinho

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O Poeta Abandonado

 

E a caneta, hesitante, então parou

Sem saber que escrever sobre o papel

Até que a tinta, no aparo, secou

Porque o dono da mão que a segurava

De verbo fácil, outrora eloquente

Não é mais que uma sombra dormente

P’lo abandono da mulher que amava

A dor imensa carrega-lhe o semblante

Tamanho o desespero e a saudade

Que aperta o coração do pobre amante

Incapaz de sentir a poesia

Fluir ligeira contando sentimentos

Deixa-se dominar pela apatia

São mais fortes que ele os seus tormentos

E o poeta desiste de criar

Apagada na mágoa a sua exaltação

Verga-se, enfim, cansado, à exaustão

Deixa que o sono aquiete o seu penar

 

Eugénio de Sá

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O provador de vidas

 

 

Se alguém pudesse decantar

Como um bom vinho, a vida que tivemos

Degustaria os bons e os maus anos

Conhecendo os reveses nos taninos

E as glórias nas castas que criámos

Sabendo, assim, de nós como de nós falar

Na alegria radiosa da manhã outonal

Ou nas melancolias do nosso entardecer

Residem os aromas, as razões conhecidas

Que marcam as encostas destas nossas vidas

A tons de ouro as venturas, a negro o padecer

Ao esgotarmos a essência, na vindima final

Ergamos nesta taça o brinde que mereçamos

De um néctar bom ou mau p’lo que deixámos feito

alguém dirá um dia desse vinho que herda

que é uma triste zurrapa ou uma grande reserva

depende só de nós, se soubemos ter jeito

de ganhar a memória daqueles a quem amamos

 

 

Tal como a história de uma vida

A memória da nobreza de uma boa colheita

sobrevive à sua natural extinção.

 

Eugénio de Sá

 

Ouça este poema declamado por João Moutinho

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Tanto e tão pouco

 

 

Tanta esta dor que dói e dilacera

Da beira da loucura estou bem perto

Já não digo coisa que ainda tenha acerto

Tão pouco sou aquele que d’antes era

Tantas as alegrias que vivemos

Nenhuma é a razão que a morte encerra

Longas as madrugadas, sozinho, nesta terra

E tão poucas as noites que tivemos

Tanto percurso neste caminho d’ébrio

Com a saudade a minar sem conforto ou parança

Tão pouco, este sumário de vida sem esperança

Vivi à beira-amor e morro à beira-tédio

 

Eugénio de Sá

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Pregoeiro da nostalgia


Rua da Madalena, não posso esquecer
As alegres manhãs calçada acima
E ouvir o pregão: “viva da costa”
Na esganiçada voz de uma varina
Havia lá melhor? – Nem santola ou lagosta!
Nem pescada, que era vendida à posta
E era ver as freguesas a correr

Que vaga nostalgia esse tempo me traz
D’outro pregão, famoso, de Lisboa:
“Fava rica, quem quer almoçar”
E sabiam todos que era coisa boa
S. Mamede saía a licitar
As moedas na mão, esperteza no olhar
Alguma discussão e favas ao cabaz

E já nos fins de dia, ali ao Castelo
Bicicleta a reboque, mão no guiador:
“Amola tesouras e navalhas”
Um assobio de gaita, pregão de amolador
Consertava-se tudo, as bocas e as falhas
Lisboa era isto, os corvos e… as gralhas
E comiam-se à noite iscas no Cotovelo
 
                                                                       
Eugénio de Sá

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 MORTE NA ALDEIA

 

 

 

Isto morre um e é como se, com ele,morresse um pedaço de cada um dos outros, que ficaram.

 

Quando alguém morre na aldeia, toda a população entra em vigília, pelo respeito aos mortos e pela amizade aos vivos, companheiros de anos e de desgostos.

 

O abandono pelos seus, pelas duas gerações que os sucederam e que se foram embora, uma a reboque da outra - entretanto ocupados em gastar o que ganham na grande cidade - torna-os mais unidos. E a perda de um deles não se confina aos que lhe são chegados por família. É perda colectiva, é mais um vazio nas suas vidas já tão esvaziadas de objectivos e de alegrias.

 

Anciãos, trôpegos, quase todos, pelos forçados descuidos do trabalho sem tréguas, parecem ainda mais velhos do que são. Lá se vão arrastando pelas ruas do povoado, num ruído surdo de bengalas gastas, em triste convergência para a pequena igreja onde os leva a obrigação e o respeito.

É lá que começa a despedida ao finado, cumprindo-se o respeitável ritual do desfilar de memórias e de sentimentos, ao longo de toda a noite, em alternância com grandes e eloquentes silêncios, até que o dia chegue. É lá que prossegue o ciclo imparável do despovoamento.

As flores acumulam-se, compradas com o pouco de quem nada tem. E ainda se reza na Aldeia, ainda se confia a Deus, com fé, a alma do que parte.

Já não serão todos primos e primas – como verseja a popular cantiga – mas todos se conhecem e (quase) todos se respeitam, estimam e entreajudam, num exemplo inútil aos ausentes.

Falta-lhes tudo; os remédios e o médico a horas e até o Pároco, que lhes ouça os pecados e as queixas, que reparta, com eles, o pão e o sangue de Cristo e que, ao menos na morte, os acompanhe e os encomende a Deus, como deve ser.

Ao fim e ao cabo são eles os últimos bastiões da defesa e da prática dos valores mais altos alguma vez conquistados por esta decadente civilização, cujas motivações colectivas maiores são... aquelas que justificam as maiores audiências das Televisões.

Que se pense nisto com respeito pela nobre gente que resiste ainda nas Aldeias abandonadas do interior deste país.

 

Eugénio de Sá

 

... "Avante! -Os mortos ficarão sepultos

mas os vivos que sigam sacudindo

como o pó da estrada, os velhos cultos".

Antero de Quental ( in: "Sonetos Completos" )

 

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Pedaços da vida

Crónica de viagem

Baguetes estaladiças; foi a minha primeira visão ao entrar na cafetaria daquela Área de Serviço. Curiosamente, não se tratava de nenhuma informação fixada na parede. O anúncio movia-se na T-shirt preta envergada por uma jovem da mesma cor que, após recolher uma bandeja deixada numa mesa, rapidamente retomou o seu posto atrás do balcão daquele snack-bar de estrada.

Por cima dela, alinhadas em prateleiras, lá estavam as baguetes estaladiças, aguardando decisão para se abrirem ao recheio preferido dos apressados viajantes ocasionais, amantes daquela modalidade gastronómica ou que a instituem, casual ou repetidamente, por limitação da parca bolsa, esvaziada ao alucinante ritmo das exigências do quotidiano.

Decididamente, não estava nos meus dias. Pedi um café e mergulhei nas cogitações deprimentes de quem tem de pagar os exageros de um injusto custo de vida. E sem perspectivas próximas de qualquer mudança para melhor, face ao deserto de ideias e de soluções de quem deveria patentear umas e promover outras.

Olhava, vagamente absorto, o fumo cigarro, quando a imagem próxima da laboriosa mocinha me chamou, de novo, a atenção. De um ângulo apertado, por imposição de uma coluna de permeio, reparei que ela se movia em direcção à porta. Um rapaz, também ele negro, de boa compleição física, gesticulava do exterior, chamando-a. Vai haver sarilho, pensei, dominado pelo mau humor que me marcava o dia. Mas não, transposta a porta, a jovem quase se atirou ao pescoço do autor do veemente apelo, com uma jovialidade própria de quem mata saudades, de há muito sufocadas por forçada separação.

Levantei-me da mesa que ocupara e, ao passar por eles, escutei-lhes um tagarelar crioulo; um alegre palavreado, completamente ininteligível para mim, mas, certamente, autentica música para eles, que vibravam, emocionados, com as mutuas revelações.

Dirigi-me ao carro para retomar a estrada e o destino, pensando que aqueles dois, mesmo com dificuldades, porventura maiores que as minhas, ainda tinham alegria para viver... e sonhar. E o que somos nós sem o sonho?

 

Eugénio de Sá

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  À amizade

 

(À amizade que brota sem aviso nem regras)

 

Porque nada há de mais de mais belo,

de mais intrinsecamente humano,

que a fraterna generosidade de uma mão estendida.

 

 

Confissão de amigo

 

Estas palavras que imploram por ser escritas, não serão as mais acertadas, as mais sólidas, as mais esclarecidas. Mas são, certamente, as mais sinceras que encontrei para esta difícil interpretação de sentidos.

 

A vida não te tem sido fácil. Soube-o por ti, pelos teus olhos húmidos de prantos, novos e antigos.

 

Não posso ver-te sofrer porque já sou teu amigo. Mas, por mais que rebusque a minha experiência, persiste a ignorância do que devo ensinar-te.

 

Por ti, procurarei minorar - com imaginação - a mágoa que te afoga o riso. Afirmo-o com a certeza que me dá a força da emoção que sinto.

 

Só te peço que me deixes partilhar os teus momentos mais sombrios. Em silêncio, a teu lado. Ainda que …só esses.

 

Sabes? – Soube-me bem conversar contigo. Sei que sentiste que gostaria de te dar as mãos. Foi a ternura a trair-me! Mas não me vou permitir perder-te por ter deixado emergir outra atitude que não seja a que possas esperar de mim. Porque quero que saibas que tens mais um amigo. Seguramente não o mais importante, por certo não o mais desejado mas, mesmo assim, almejo ser um dos mais dedicados, que se encantaria de poder vir a merecer-te a reciprocidade desse sentimento.

 

Eugénio de Sá

 

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Dia de chuva

 

O movimento repetido do limpa pára-brisas, afastando a chuva que cai, miúda mas persistentemente, a sucessão ritmada dos traços brancos - intermitentes - do auto estrada, o ruído abafado da borracha rolando no asfalto molhado, vão, lentamente, provocando em mim uma descontracção propícia ao afago de doces memórias antigas, sempre boas companheiras. Coisas velhas, saídas do baú do tempo, evocações da ternura de momento vividos, ainda menino.

Parece que estou vendo: a minha avó paterna, vergada pela artrite, pegando-me carinhosamente na mão e recomendando-me cuidado ao atravessar a rua. Quase que consigo sentir o cheiro daquele bolinho que ela fazia no fim da tarde e que comia-mos juntos, enlevados pelo gosto e pela companhia enquanto esperámos que no Rádio Clube tivesse início o nosso programa preferido; as Lendas da Nossa Terra.

Lembro-me do meu cão, o "catita", um rafeiro que recolhera, ainda bébé, que depois de aceite pela família, foi o meu primeiro parceiro de brincadeiras e silencioso confidente durante quase catorze anos.

A nossa empregada doméstica, uma moça sadia, de bochechas rosadas, nascida e criada em terras de Monforte, que executava, com eficácia, as tarefas da casa, solícita e carinhosa cúmplice das minhas pequenas maldades e partidas. O seu silêncio poupou-me uns quantos castigos e talvez um ou outro justificado puxão de orelhas.

Ah!, como me lembro, parece que foi ontem, do dia do temporal. Foi uma espécie de ciclone, ou talvez tornado, que durou uns (intermináveis) dois ou três minutos. Eu e a Avó assistimos a tudo à janela da saleta que dava para o quintal; o uivo do vento era temível. De súbito, a oliveira – a única que tínhamos – vergou-se até ao chão e partiu-se, incapaz de resistir às violentas rajadas. A barraca do catita, que deveria pesar uma boas dezenas de quilos, passou, voando, diante da janela. - Felizmente que o animal havia sido solto pela manhã. Depois, com enorme fragor, desabou a grande chaminé do padeiro. Enfim, um pandemónio. E o que me custou, depois, olhar a figueirinha que eu plantara havia dois anos arrancada pela raiz, jazendo na terra que a erguera.

E as memórias continuavam a chegar-me como "alma que desliza sobre o éter de um instante"; a escola, os meus companheiros... e o senhor Mimoso, o barbeiro da Vila, responsável pelo meu corte "à inglesa curto", como era sempre recomendado pela minha tia, ao deixar-me sentado na imponente cadeira enquanto ia às compras. As primeiras namoradas...

Quase com uma sensação de culpa de, por momentos, haver conseguido afastar as preocupações que me apertavam o peito, remexi-me, inquieto, no banco do carro. O patrão tinha sido claro na última reunião; dera-nos um mês para preparar a vida para o inevitável: ia apresentar falência e passar-nos o papel para o desemprego. E o pior é que eu, e que quase todos os meus colegas, já passámos os quarenta o que, nos dias que correm, equivale a dizer que é praticamente impossível conseguir outro emprego. Como fazer, então, quando se tem filhos adolescentes e a estudar, ainda completamente dependentes de nós?

O acidente

Entregue, de novo, a esta amargura, mal me apercebi de que me aproximava, a grande velocidade da carrinha que me precedia. Travei de chofre, com quanta força tinha e, vendo que mesmo assim, deslizava no piso molhado e ia bater, desviei o carro para a esquerda. Só deu tempo para alguém que vinha a ultrapassar - e, também, a travar - passar a escassos centímetros do meu carro. Quase de seguida, já na outra faixa, consegui parar. Pelo retrovisor e, atrás de mim, vi que já todos haviam parado também. Escapara, por um triz, como que ajudado por mão invisível que me levara a executar, por instinto, aquela manobra.

Abri a porta, ergui-me do assento, e pude ver que, à minha frente, se estendia um imenso choque em cadeia, onde ardiam algumas viaturas com gente ainda lá dentro. Um horror!

Todo eu tremia. Os gritos, os lamentos e os cheiros misturados com a chuva que continuava a cair, tornavam dantesco aquele triste espectáculo.

E eu que, lembrado do meu drama, me sentia já vitimizado! - Face ao que assistia, o meu problema perdera importância, comparado com aquela tragédia.

Entretanto chegaram as primeiras ambulâncias.

Duas horas depois, volvidos poucos quilómetros, cheguei ao meu destino; Alverca. Na portagem, enquanto esperava a devolução do cartão multibanco que estendera ao portagista, levantei os olhos e fiquei perplexo; à minha frente, do outra lado da Rotunda, lia-se a toda a largura de um cartaz que anunciava a próxima inauguração de uma Igreja: O Milagre de Alverca !

Eugénio de Sá

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APOLOGIA DO DESCANSO

 

Vêm de geração em geração

Estas balelas espalhadas p’lo planeta

E uma alminha simplória

desde que ao mundo vem

Cedo se torna badalo de sineta

Chucha logo a mentira na chupeta

E cresce a propagá-la aqui e além.

Aprende a transmitir as loas do passado

E os exemplos da vida que convém;

Como os antigos discos, cheios de pó e riscos

vão moendo e moendo o triste fado:

O do trabalho dito "louvado e santo"

À bigorna e ao malho interpretado

Pingado de suor, de sangue e pranto.

Sejamos realistas e concretos

Porque isso do trabalho ser virtude

Ou coisa que se busque de vontade

Por ter nobre o carácter ou salva a castidade

É peta que já ninguém ilude

Nem move quem tem olhos bem abertos.

E o que é, realmente, a natureza

da frágil criatura que nos somos;

qual a sua postura e natural tendência?

- Certamente que o ócio e o descanso

letargia e sossego, pleno de moleza

aparentando um ar de eloquência

mas gozando as delicias do ripanço.

 

Eugénio de Sá (*)

 

(*) baseado num texto original

de Adhémaro Gomes de Azevedo

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LADAÍNHA DE SENTIDOS

 

 

Eu queria ser diferente

Quando te vejo

O meu desejo

Era olhar-te sem ver

Simples lampejo

Do teu corpo ondulante.

Queria passar por ti

Tranquilo, calmamente

Mesmo distante

Como de tanta gente

Por quem passo;

E Intuir-te a graça

Mas sem olhar p’ra ti.

Queria apartar de mim

O pensamento

Qual tormento

Do teu falar cantado

O doce acento

E a tua boca

Onde o sorriso brinca

E resplandece;

Como posso esquecer

O que não esquece?

Quem dera não parecer

que vou enlouquecer

por querer sentir-me imune

ao teu encanto;</