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Douglas Evangelista |
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Página inaugurada em 03/08/2005 |
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3 Obras Editadas |
Foto de: Sete Sois Lagoa Azul
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Ter testa de dar com ferro tinha, acontecia que, aceitando, seria mesmo testa de ferro, cúmplice - daria merda. Aceitou. Sem atinar pro próprio proveito, que: com morte não se brinca. À guisa de ausência de virtude – ou proteção -, falta de coragem, conhecida maldosamente como covardia, deteve-se em frente à capela, grudado em pai nosso que estais no céu. Resignado. Que diria o pai terreno, saudoso, pudesse vê-lo em tal estado? Sempre a espreitar a procura de falhas, por menor que fossem, as dos filhos inadmissíveis. Agora já havia mergulhado na pendenga e a maré puxava forte, disso entende, assuntos de pesca e de vida, a forma de viver, a medida exata entre manter-se vivo e bem viver, comer, sobreviver. Confusão armada de bom-coração, confundido por vezes, com panaquice. "De boas intenções o inferno está cheio" - dizia Dona Lazinha ao escutar comentários sobre as bondades e boas ações vicinais. Astuta, maliciosa demais a velha. Antes houvesse seguido os conselhos da avó. Meter-se em assuntos que não lhe dizem respeito, uma vez que tragado, a vaga só devolve esfolado, mordido de siri e de peixe, nunca falhara desde pequeno, a lei. Aceitou porque Cezarino é seu amigo de verdade, do tipo que em briga agride sem saber quem está certo ou errado, o canto da cama sempre dele, a bunda na parede, macho pra caralho. Surpresa foi, quando da chegada do amigo à sua morada, a contar de peleja perdida em defesa da honra com o vizinho da esquerda que, por incrível e irônico que pareça, capitão fascista reformado. Briguinha inocente, mas que Cezarino sangue quente tomou como julgada e culpada com dolo. Não dava mais pra aturar a mangueira, faceira que só, que insistia em serpentear pra dentro de seu terreno, seu lar, loteado e custeado a duras penas da venda de seus frangos – caseiros, nada supermetabolizados. Falar com o nazista de nada adiantava, e nunca fora homem de correr atrás de folga pra seu lado, o coração na ponta da faca e a porrada doída, atravessada, através de anos de embates em bares e clubes e lares (estes sim, para delinqüentes) pelos quais passou. A mulher sem entender. Chegaria o dia, se nada fizesse, em que ela, casuarina de seios fartos, estenderia seus braços frondosos e cresceria, o obrigando a bater continência – assim aos modos do dito injuriador capitão. Antes disso alguém morreria - ah, isso ia. O capitão, setentão ex-combatente, valente até no nome Valmir. Pinto do pai e Skora da mãe, européia de sangue tropical e libido fogosa, alemã ou escandinava, ninguém na região sabe. Nunca permitiu, nem mesmo veladas que fossem, liberdades com seu nome de guerra: "Capitão Skora Pinto... SENTIDO!" Do pai, caboclo tranqüilo, sensível às mudanças de lua assim como das marés, herdou o cabelo crespo e o gosto por pinga, mulatas e rede. Pára por aí. O sangue escandinavo/alemão – vai saber? – falando mais alto. Hierarquicamente pela cadeia de comando, no poder; na prática, Olga a comandante. A essa altura de calendários riscados, transcorridos há muito os dias de batalha, sua preocupação única: jardinagem. Frutíferas ou não, ornamentais, flores... a merda que fosse. Adubos, fertilizantes, pás; os antigos e arcaicos mosquetões trocados por molinetes, tarrafas e iscas. Sua luta agora só com as pragas e peixes. Castro tem boca e não fala. A testa de ferro, inabalável. Boa-praça a vida toda, as más línguas dizem que, talvez por isso Ritinha lhe tenha enfeitado a cabeça tão descarada – é a tal incompreensão do povo, a panaquice. Dormia tranqüilo depois do almoço e quase caiu de cima da varanda ao ouvir os passos apressados de Cezarino. Ouviu a história enfastiado e , pensando três vezes, achou por bem não se fazer de rogado, já que coisa pior não haveria de acontecer. Os tentáculos se estendiam por toda face do muro geminado, a ameaçar. Folhas e mais folhas varridas todos os dias, e a certeza de que cairiam cada vez mais, até não poder mais. A certeza viva da impunidade e desfaçatez com seus colhões. Cezarino com os nervos em ebulição, paciência desencapando fininha, fininha, pronta pra dar curto. Os dois pólos contrários tocavam-se no exato momento do assovio da mão no regador por cima do muro. A mulher lavava roupa na área, olhar distante, pensamento na novela, para Cezarino, a tramar uma ofensa. "Qualquer dia me põe pra fora de casa... Se deixar do jeito que está..." Pensava e rosnava entre os dentes, o córrego estreito de água passando para dentro de seu terreno, formando valeta comum às duas casas. Do lado de lá era Olga, megera, que dispensava a implicância lugar de honra no rol das picuinhas. Fosse o que fosse, não era bobagem o bastante para não ser reclamado: pregadores caídos, as crianças com a bola, as crianças pedindo frutas, roupas acidentais, todos incidentes sem devolução. As crianças... Com sua família já era demais. Os braços subiam, tesoura nas mãos, podando os excessos, que desabavam pesados em seu quintal. Seu quintal Cezarino. Territorial, na rua do boteco lugar certo pra mijar. O futuro não existia, cada dia por vez. Metia-se em brigas em que pouco importava o número de oponentes, a ferocidade a mesma. Casado e sossegado, não se reconhecia mais no espelho, amansado pela rotina do batente e vida certa. Antídoto infalível para acalmar os nervos o cheiro da mulher – sua fraqueza maior. E ela lá, dócil, um amor de esposa, manipuladora a sua maneira submissa, arrancaria o que quisesse de Cezarino. "Que água é essa aí filho?". Sem palavra dizer, tateou as paredes de chapisco da casa humilde em busca de seu facão. De platéia o filho mais novo e a serena mulher. Ganhou o muro e, num movimento rápido, estava de frente para o seu opressor. Capitão, olhos arregalados, ensaiou ralhar como fazia com suas tropas nos tempos de glória, "passar um sabão" – dizia. Pasmado com a audácia do vizinho, pois, a faca mesmo não tinha visto ainda. O facão riscou o ar tão rápido quanto bote de cobra, chegando a relar no bigode do Capitão: "Jesus! Que isso rapaz!" Cezarino, veia na testa saltada, irreconhecível. Desferiu o segundo golpe, desta vez perfurante, na altura das medalhas. O sangue jorrou tingindo o olho dágua do regador de vermelho espesso. O seguinte, de misericórdia, ou no ímpeto assassino o pé enfiado de vez na jaca, foi um golpe transversal, com toda extensão do fio da lâmina que, ao voltar, trouxe um souvenir do já defunto capitão. Nenhum balido. Morreu em silêncio. No tronco da mangueira respingos entalhavam o motivo. Castro depois da breve parada na igreja, encontrou-se com Cezarino e o corpo do cujo. Acharam por melhor enterrá-lo em um charco próximo. Munidos das ferramentas necessárias, amuletos e fé de que, baseado naquilo, a justiça dos homens havia sido feita. O vento frio dos mortos em suas orelhas. Sepultaram entre tantas plantas o jardineiro capitão. Até hoje Castro, quando sai pra pescar à noite, jura ouvir da praia uma voz abafada que diz: sentido. Não sabe se é o pai ressentido, ou o próprio dito, alma errante no luar. |
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Hoje meu pai veio me visitar. Já viu né, a velha história de sempre: comer bem, dormir cedo, fisioterapia etc. Um saco. - Ronaldo, isto que você está fazendo não é viver, é morrer. - Anjo, demônio, santo, mártir, inválido, deficiente... é tudo a mesma merda pai... - É, com você não adianta falar. - ... Papai é chegado a um dramazinho, meio mexicano, meio paraguaio muambeiro. Baixinho, robusto, troncudo, atende pelo nome de Sérgio Gomes. Sempre pronto a ajudar, a servir, produtos originais. Desde o trágico acontecimento que acidentalmente criou este meu lado, que já devia estar inerte em algum lugar de meu id ou ego, sei lá, a faculdade de psicologia também não costumava freqüentar, que não suporto mais essa sua disposição de soldado do exército da salvação. Vai ver por isso que Mamãe o chifrou com o síndico e com toda a "fúria alvinegra" – botafoguense doente que era, só para afrontar Papai, mengooo! O bar era meu lugar predileto, aulas assassinadas enquanto cheques eram assinados, mais um chopinho? Claro. Batatinhas mil, sacanagem ao vivo e em conserva, salsichas petit e Roberto Carlos no jukebox, patrocínio Sr. Gomes. Mamãe não, interessante como mulher, como pessoa: nula. Passava suas manhãs a chifrar e a fazer as unhas. Advogada que nunca advogou, indignava-se com a pouca vergonha vicejante no país, enquanto assistia ao noticiário de meio-dia num quarto de motel ao lado de seu amante do momento, Rubinho. Lembro-me de ter sido apresentado a ele, o amigo, das aulas de cerâmica ou porcelana, da Tia Augusta. De cara o que me chamou atenção naquele rapaz, como Mamãe dizia, foi seu enorme nariz, que despontava do centro de seu rosto assim como o mastro principal de uma antiga nau. "Que puta narigão!" Foi a única coisa que pude dizer quando consultado por Mamãe, isso sem mencionar, os risinhos e momentos de constrangimentos evidentes. Isso tudo foi antes. De lá pra cá tanto já aconteceu, que fica difícil identificar o momento exato da ruína de meu caráter. Na real, mau caratismo é hereditário, no já citado exemplo de conduta exemplar, batizado de D. Carla, vulgo Mamãe, ou Carlismo – o movimento. As Carlistas, ou os Carlistas, como em meu caso, vêm ao mundo a passeio, não se importando muito com quantos mortos e feridos são deixados para trás no caminho entre Madureira e Barra de São João, sem ar condicionado, claro, que é pra poupar combustível, em pleno horário de verão. Suór e mosquitos povoam minhas lembranças de infância. Ah, bolinhos de chuva também. Nos tempos idos de outrora, pegava o trem até a Central, para de lá tentar chegar à praia. Como era bom andar na praia da Urca. Que gente diferente crescia ali. O Pão de açúcar, ainda era de açúcar, antes de toda violência e favelização do Rio, que o tornou o pão que o Diabo amassou e papo para sociólogo. O que acontece é que toda esta questão de deficiente útil é besteira. Eu quero é mamar nas tetas do governo e dedicar-me ao que sempre fiz melhor... Falar mal de todo o mundo e não fazer porra nenhuma. Tem gente demais fazendo demais. Agora virou moda ter ong´s. Madames criam ong´s para aliviar o peso na consciência que não conseguiram perder nos spas de milhares de dólares. Eu quero que as ong´s se fodam! Eu estou fodido... Costão do Pão de açúcar, que beleza, fumando um baseadinho eu e Betinho da Pereira, puta visual, sentia como se fosse intocável, sensação parecida com a do segundo em que se é atropelado – por um caminhão de lixo, quem diria – sem ter o direito de saber que ficará aleijado: "Liga não filhão, isso passa". Ali, de pé, na pedra filosofal, cartão postal do carioca cabeça oca, olhando o mar, imaginando que peixes por ali estariam passando, e as pedras tão lindas, maciças, que traziam uma também maciça sensação de inutilidade premonitória. Betinho de costas; para mim, um convite a exercer uma gama de sentimentos reprimidos e latentes, para que lá eu tente me jogar - jogá-lo? Máquina fotográfica em mãos, o último fininho rolando e eu pensando que se eu o empurra-se, seu corpo iria rolando, e no que haveria de belo em tingir aquelas virgens pedras com o sangue de um virgem. Ritualístico seria, acho, achava. Quem sabe era uma tendência suicida minha mesmo, de repente, fruto dos adultérios de Mamãe, Freud explica, deve. Vai ver é a tal da sensibilidade, doença que assola a humanidade disfarçada de viadagem – nos dias de hoje o tal do metrossexual. Eu achava o Betinho da Pereira lindo. Mas algo me dizia que ele seria ainda mais belo enquanto dormisse, não havia dormido com ele ainda. Tinha uma beleza mortal. Não, não, uma beleza mórbida mesmo. Naquele dia fiquei tentado a beijá-lo ou a matá-lo, adolescentes que éramos. Beijá-lo, em um sentido pueril, quase sem maldade, no máximo uma meinha, ou troca-troca em São Paulo. Matá-lo, no sentido literal, romântico, deixá-lo sem vida, mas imortalizado, a pintar as pedras habitadas por gaivotas e siris e mariscos e tudo o mais. Na volta para casa, algo havia mudado. Nem comi o x-tudo do Paulinho de tão confuso que estava. Pensei no narigão do Rubinho, quanto de pó será que ele agüentava consumir, essas coisas. Uma vez, Betinho e eu rachamos cinco gramas, que um fulano irmão da empregada dele, arrumou no morro da Babilônia em Copacabana, porque nós éramos playboys de subúrbio, em pior situação que o Aldir Blanc, que se lamenta por ser tijucano. Eu morei em Madureira minha vida inteira, até o maldito acidente e o incidente divórcio de Mamãe x Papai ou Mengão x Fogão. Fomos morar no Méier, bem na época do vestibular, e quando o pai do Betinho foi transferido para Manaus... Meu mundo caiu. Um pedaço de mim se partiu, da mesma maneira que um parente distante se vai, ou seja, sem a menor percepção do resto da parentada. Marcou muito aquele dia, pois descobri minha vocação para "psicopata-teen", tanto que até hoje tenho momentos, como, por exemplo, quando vejo a novelinha Sandy e Júnior. Rubinho aparecia às vezes, sem avisar, e Mamãe não estava, é lógico; e esse era nosso momento mágico, pois podia observar aquele narigão sentado no nosso sofá dois lugares com uma paciência e curiosidade científicas, e até dar-me o luxo de, quem sabe, servir um chazinho. Ele achava-se artista e dizia-se escultor. Em uma dessas visitas inesperadas, em que acabava tendo por esperar Carlinha – assim ele a chamava – trouxe um álbum com seus trabalhos. Nada que prestasse, e desde esse tempo, meu senso estético na falta de algo melhor para fazer, apurou-se, e pensando em Rubens agora, basicamente o que ele fazia era merda. Hoje, da janela, vejo a Dias da Cruz e o trânsito caótico e nada disso me afeta. Hoje, não me formei, não me casei nem amei, masturbo-me com filmes gays escatológicos e coisinhas afins. Betinho nunca mais vi, Mamãe mora no Peru, louca até os ossos. Hoje, sou mais feliz... Acho.
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Ainda na rodoviária, amaldiçoava-se por ter aceitado proposta tão distante. Doze horas sacolejando no coletivo e, pior, longe da amada. Apesar de que Julia há muito o vem cozinhando, dizendo que o ama, mas sem deixar o marido. Tem lá suas razões, mas como o diria o poeta, o amor alimenta. Não vê tão simples, mulher cara, cheia das manias e bons modos, assim por mal dizer – fogosa que só. "Marido como esse não se acha meu bem. E fruta roubada é mais gostosa". Com esse discurso caíam por terra as ameaças de contar tudo ao gordo rico. Homem forte João, anos de trabalho em siderúrgica, soldador experiente, mãos fortes, aspecto másculo, gosta de trabalhar com ferro, gosta mesmo. Em sua cabecinha simplória não entende como Julia pode se entregar aquele gordo - daquela mesma maneira que faz com ele? Julia lasciva, pedaço de morena de acabar casamento. Menos com o dela, que boba nunca foi, adora boa vida: seu defeito – talvez também um sinalzinho na virilha, cheio de cabelos, nada que desagrade João. Eis que passadas as doze horas de viagem mais um ano de correspondência, Julia adoece. O João apreensivo sem notícias. Pensa em abandonar tudo, ir ver a querida, mas precisa do emprego. Ganha mais, já é chefe de solda, esporadicamente se alivia na zona, nada de traição, sem amor, tudo pago, estritamente negócio. Os dias passam e com eles a angústia não. Passado assim, tão presente, é difícil de esquecer. Um dia, triste e retraído, os amigos de trabalho a estranhar, descuidado e aéreo, acende o maçarico na própria mão. "CARALHO!!!!" Enfermaria. Queimadura semigrave sabe-se lá quantos graus. Melhor que ditado popular, os males vem sim para o bem, agora pode ver Julia. Compra passagem correndo. Na rodoviária o sentimento inverso da ida, agora na volta, o ciclo se fechando. Quer correr, se pudesse: voar. Algumas curvas sinuosas e paradas estratégicas depois, enfim seu destino. Não pode ir direto para casa da adorada. O que fazer? Corre-corre em agendas telefônicas e, graças, acha o da prima confidente. A derradeira notícia, Julia morta. Primeiro pensamento: negação; depois, atordoado, pergunta se é brincadeira de péssimo gosto. Chora como criança e põe a culpa no gordo, maldito. A prima, confidente e fofoqueira – em todos os casos, porém jamais revelaria o caso da prima em questão -, lhe diz que Julia estava grávida. Uma porrada na cara. Garganta seca. Olhos marejados. No peito uma confusão enorme. O porquê de não ter lhe contado está guardado na caixa grande de pinho, envernizada, com alças douradas, vaidosa até na morte, Julia. O ódio subindo pelo queixo quadrado de boxer, a cara inflamada. Gordo maldito, astuto e egoísta, sempre teve tudo e, não satisfeito, arrumou uma maneira de permanecer no poder, um pedacinho de Julia para sempre – Julinha. Não voltou para o emprego. Percorreu a via-crúcis dos cornos e rejeitados. Bebeu em todos os bares de que tinha recordação. Virou um trapo, acabado o dinheiro, alguns anos de poupança. Só se levantava para comprar cigarros e bebida, melancolia etílica, seu quadro, ou dor de cotovelo, na posição de amante – treco raro. A barba grande e espessa. Anos gastos, desperdiçados. Sem mais nem menos, resolveu se recompor. Juntou seus pedaços que estavam caídos por toda parte, sem esquecer o menor que fosse, a cicatriz lembrando-o da estimada, nunca esquecera, esqueceria. Barbeou-se e resolveu procurar emprego, tinha de ser mexendo com ferro, disso não abriria mão. Conseguiu em uma fábrica, indústria jovem, no setor de funilaria. Ia e voltava e bebia – com cautela – e comia e cagava, o pensamento, no travesseiro, às voltas com Julinha, seu sangue derramado e perdido. Belo dia bateu cartão e foi tomar o café da manhã junto dos outros no refeitório. O buxixo mais alto que o normal. Todos falavam da nova secretária, uma tremenda gostosa, os comentários. Há muito não olhava com os mesmos olhos as mulheres, alguns raros casinhos esparsos e visitas às meninas – só. Ignora, porém se lembra, curioso inveterado. Às onze ela chegou. No horário – pouco faltava para o almoço -, os operários aglomeraram-se para assistir o desfile diário da musa. Resolveu conferir. Moça bonita, alta, bem vestida, os cachos voando sob os grandes ventiladores do saguão. Quando ela mexeu no cabelo, matreira, teve certeza: Julinha. Já se vão anos a observando. Produto seu e da finada. Um dia toma coragem e conta tudo pra ela. O coração um ferro em brasa.
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