Índice

 

 

 

Dionísio Teles

 

Página Inaugurada em 22/05/2006

Ultima actualização 16/05/2006

Agenda  As esquinas da lua  Contos  Crónicas da Net  Entrevista Galeria de arte  Livro de visitas  Ecos do Ressoa

  Os poetas do canal  Página Inicial Poemar na escola  Poemas ditos  Ressoa Página pessoal

5 Poemas Editados

Biografia

- Ah! Se algum deles te visse

- Balada para um amor antigo (ou antigo amor)

- Do Olimpo ao Pelourinho

- É madrugada plena

- Requien para os pobres versos

Contos

- Num boteco qualquer

Crónicas

- Amor recluso

- Champanhe

- Não quero mais ser imortal

 

Dionísio Teles

     

 

 

 

Pequena Biografia

 

Formado em Administração de Empresas, é empresário da área metalúrgica em Barueri – SP e tem 53 anos de idade.

Escreve artigos para revistas da região sobre administração e indústria. Escreve crônicas e poesias para o jornal "Correio do Sul" da cidade de Varginha em Minas Gerais.
 

Participou de um livro de antologia poética publicado pela Editora Jangada, lançado em São Paulo e outro na Câmara Brasileira de Jovens Escritores, do Rio de Janeiro
 

Foi designado Cônsul para a cidade de Barueri-SP, do movimento internacional “Poetas Del Mundo”, com sede em Santiago do Chile.
 

Venceu o concurso nacional de poesias de Carnaval, do site Autores & Leitores.

Voltar ao índice


 

 

 

AH! SE ALGUM DELES TE VISSE

 

Ah! Se Jorge Amado te visse

antes que eu te encontrasse.

Talvez ele não escrevesse

os romances que escreveu.

Talvez se apaixonasse

e, por paixão ou por medo

mudasse todo o enredo,

tirasse o cravo e a canela

colocando no lugar dela,

você, mulher - Dona Flor.

Quem sabe até – numa heresia !

mudasse de Salvador.
 

Ah! Se Caymmi te visse

antes que eu te encontrasse.

Talvez ele não compusesse.

Marina, teria outro nome,

e na certa seria o seu.

E ele, homem de fé

talvez se tornasse um ateu,

indo ao Bonfim à pé

somente para proclamar :

João Valentão fraquejou,

e o “doce morrer no mar”

morreu ao te encontrar.
 

Ah! Se Caribé te visse

antes que eu te encontrasse.

Talvez ele não pintasse

as cabeças de filho-de-santo.

E ele que era inquieto

talvez se acostasse num canto

clamando a Iemanjá, seu afeto.

Talvez não pintasse as mulheres,

negras esculturais

talvez só pintasse você.

Outra mulher, nunca mais

turista algum há de ver.
 

Ah! Se Mário Cravo te visse

antes que eu te encontrasse.

Talvez ele não esculpisse

no cobre, no ferro ou latão.

A sua obra-prima seria

somente buscar a moldura

arrancar toda a luz do dia,

e você seria a escultura,

eternizando o momento

na lente da fotografia,

a sua segunda paixão.

Congelando assim, a emoção.
 

Ah! Se Vinicius te visse

antes que eu te encontrasse.

Talvez ele não poetasse.

Seria impossível um poema,

não mais a Garota de Ipanema,

não sairia nem mesmo um fonema.

Tudo porque sua manha

inibia o Canto de Ossanha,

e o poetinha de Arrastão

louco, se poria a declamar:

Sei lá...a vida tem sempre razão,

eu sei que vou te amar.
 

Ah! Se algum deles te visse

antes que eu te encontrasse.

Talvez eu não existisse !
 

Dionísio Teles

Voltar ao índice

     

 

 

 

DO OLIMPO AO PELOURINHO

 

Hermes trouxe a notícia !

A sentença foi decretada

Provocaram a ira de Zeus

Por causa de uma mulher amada

Dioniso, seu filho, enlouqueceu

Despiu-se das vestes de deus

E assim como Prometeu

Que deu o fogo para os homens

Abandonou Ariadne no Olimpo

E em meio a sátiros, ninfas, bacantes

Amou como nunca dantes

Essa mulher perdição.
 

A sentença vai ser cumprida

Dioniso endoideçeu !

Convoquem depressa Morfeu

E Geia, a dona da vida.

Expulsem os dois deste mundo

Os coloquem num sono profundo

Juntos como queriam

Ébrios de vinho e de amor

E que somente milênios depois

Se livrem desse torpor

MILÊNIOS DEPOIS :
 

- Êpa babá !

O chefe supremo da corte celestial

o pai, o rei Oxalá

aquele que afasta todo o mal

se compadece do "fio" e da "fia"

Que estão num sono de um "trabáio feito"

e agora vai ser desfeito.

- Aqui nesta terra eu mando

aqui não é Grécia, é Bahia

eu quero esses dois sambando

até o raiar do dia

nas cordas de um afoxé.
 

Saravá !

E assim renascem os amantes

na terra de Salvador.

Agora não são mais bacantes.

são Filhos de Gandhi – turbantes,

carnaval, cerveja e suor.

Ele, agora semi-deus

ela, agora semi-nua

gemem debaixo da lua

na praia de Amaralina

ou será mesmo em Ondina ?

Uma odisséia de amor !
 

Esta história real

forjada em metal de Ogum

começa neste momento

passeia no dengo de Oxum

termina em Iemanjá sensual.
 

Saravá !
 

Mizifio ainda tem

"muita históra prá contá"
 

Dionísio Teles
 

Voltar ao índice

 

     

 

 

NUM BOTECO QUALQUER

 

Transcorria mais um domingo qualquer. Daqueles, que são mais qualquer ainda, quando acontecem em um bairro pobre na periferia da cidade de São Paulo.

Era também, um boteco qualquer. Não muito limpo, com um balcão frigorífico antigo onde através do vidro rachado, e fosco pelo tempo, viam-se algumas cervejas sendo mal geladas. Em cima do balcão, o indefectível pano branco. Na parede, um enorme pôster do Palmeiras campeão paulista de 1996 e, na prateleira ao lado, alguns troféus do Ameriquinha - o time do bairro.

Mais de uma dezena de fregueses – todos moradores das redondezas – consumiam umas louras e umas branquinhas. O assunto predominante: futebol !

Na mesinha do canto estava seu Rafael. Um senhor de 60 anos de idade, com aparência cansada e trajando um moleton surrado. Como já estava aposentado era um habitué do bar.

Ninguém mais dava crédito às suas conversas sobre o passado futebolista. Quando tomava umas a mais, dizia que aos 17 anos, havia jogado no juvenil do Corinthians e que era considerado a maior promessa do clube, tendo sido indicado para o time profissional. Gostava de narrar alguns lances das partidas onde ele teria sido o astro principal.

O pessoal ria com o que chamavam de delírio do véio Rafa. Tinha até quem o insultasse bradando que nunca tinha visto um velho tão mentiroso.

- Porque você não virou profissional, velho? - inquiria alguém, sorrindo

- Bebida. A bebida foi a minha desgraça ! – afirmava com voz impassível.

Sua resposta não convencia a ninguém – e a gozação recrudescia.

Num domingo qualquer, naquele boteco qualquer e com pessoas quaisquer, algo inusitado estava para acontecer.

Do outro lado da rua parou um carro importado com vidros escuros.Um senhor de meia idade saiu do veículo e tomou a direção do bar. Ao adentrar, os presentes transformaram-se – alguns ficaram boquiabertos. Fitavam o cidadão como se vissem uma assombração. O silencio tomou conta do bar.

- Boa tarde, pessoal. Vocês sabem onde encontro o Rafael Arruda? – indagou o inesperado visitante

Os, antes falastrões agora pareciam crianças autistas. Até que, alguém saiu do torpor e apontou para a mesa onde estava o véio Rafa.

- Meu amigo Rafael, há quanto tempo eu te procuro. Você sumiu, cara ! Vim te dar um abraço e te convidar para trabalhar comigo na escolinha de futebol – dava para sentir a emoção na voz do recém chegado.

Ato seguinte, houve um forte e demorado abraço entre os dois. Os mais próximos da cena juram ter visto lágrimas brotando nos olhos de ambos.

- Aí, pessoal obrigado, hein! Olha, esse cara aqui jogava mais do que eu - enfiou tanta bola debaixo das minhas canetas. Era um cracão! – disse o visitante antes de ir para o carro juntamente com o amigo.

Todos sorriram para ele, respeitosamente. Alguns deram tapinhas nas costas, outros queriam apertar sua mão. E o Jorge dá farmácia – corinthiano roxo - não resistiu:

- Ô Rivelino, me dá um autografo? Pode assinar aqui mesmo, na camisa do timão.

 

Diotel

Voltar ao índice

     

 

 

 

É MADRUGADA PLENA

 

 

É madrugada plena !

Uma daquelas noites autistas

onde o único som e movimento existente,

são pequenos tremores no meu peito.

Devem provir do meu coração - mas não tenho certeza !

A cama, onde me escondo do dia que promete chegar,

transforma-se num Oficial de Justiça

exigindo imediatamente o meu despejo.

E eu, com medo de realmente estar acordado,

reajo à esta expulsão como um sem-teto que esta sendo desalojado.

Procuro ao meu redor, uma muleta qualquer

não querendo endoidecer, pensando na morte.

Fito meu pequeno radinho de pilhas

implorando a sua voz - o seu acalanto,

mas ele dorme um sono profundo

e não acorda com o meu chamado telepático.

Encaro então, dois livros - um de contos, outro de crônicas

esparramados ao lado da cama, como dois gatos manhosos.

Eles retribuem com um olhar, acompanhado de um largo sorriso

e, como se lessem meus pensamentos - sabiam dos meus temores,

deram-me as costas e continuaram a sua conversa pausada

indiferentes à minha ânsia de companhia. Até vocês livros !

Era uma daquelas noites onde o silencio casou-se com a solidão.

Um vazio, onde qualquer pingo d'água da torneira

onde qualquer estalo de um galho de árvore, lá fora

onde qualquer sirene de viatura policial ao longe

onde qualquer choro de um recém nascido no apartamento ao lado :

fariam-me companhia - seriam como uma amante.

Mas, nada acontece !

Até que eu, num último esforço de lucidez

assim como um louco de hospício recorda-se da sua infância feliz

lembrei-me de uma caneta ao meu lado - uma BIC sem graça !

Abracei-a, como a uma filha perdida há anos e que agora reencontro.

Ato seguinte, seqüestro duas folhas tristonhas de papel sulfite

que encontravam-se enclausuradas numa gavetinha do armário.

Transmuto-me, agora - sou outro ser - pareço um titã.

Exorciso todos os medos - como um ator quando pisa no palco.

A caneta passa a ser uma cimitarra alardeando minha força

e o sulfite torna-se um escudo trabalhado na forja de um ferreiro.

Então, escrevo mais uma poesia.

Agora, já tenho uma companhia para passar a noite.

Dionísio Teles
 

Voltar ao índice

 

     

 

 

 

BALADA PARA UM AMOR ANTIGO (ou antigo amor)

 

Prepara teu corpo

repara tua alma

tudo com calma

porque eu vou te encontrar
 

Gaste o esmalte

penteie o cabelo

com muito desvelo

porque eu vou te encontrar
 

Desligue a TV

aumente o som

- um jazz de bom tom

porque eu vou te encontrar
 

Perfuma tua pele

com essência de rosa

e me aguarde fogosa

porque eu vou te encontrar
 

Apague as luzes

acenda uma vela

e feche a janela

porque eu vou te encontrar
 

Incense o quarto

arrume a cama

te faças de dama

porque eu vou te encontrar
 

E, quando eu te encontrar

o tempo vai ceder

e parar de correr

porque eu vou te amar

Dionisio  Teles
 

Voltar ao índice


     

 

 

 

RÉQUIEM PARA OS POBRES VERSOS

“requiem aeternam dona eis”

 

O poeta comete injustiças e finge que não vê.

Somente, expõe na vitrine da sua loja de fantasias

aquilo que lhe parece belo - um exibicionista!

Almeja uma construção poética, lírica

e descarta, humilha, assassina alguns versos

que lhe parecem indevidos – perverso,

e atira-os no lixo como um restolho qualquer.

Pobres palavras !

São chamadas á vida, arrancadas do seu espaço etéreo,

invocadas a trabalhar para o feiticeiro das rimas

e, não se enquadrando nos propósitos do rufião literato

são devolvidas a um tempo qualquer – um nada maior.

São substituídas por possíveis atores mais cênicos

- não recebem, sequer um: - obrigado !

Concluída a obra final – uma escultura de letras

nem mesmo para pedestal elas servem,

- são tangidas para longe como escravos indolentes.

Como é cruel o poeta – indecente, diria

aproveita-se da fidelidade canina destas serviçais

que, mesmo escorraçadas, banidas

retornam, ao primeiro chamado do farsante

e voltam a servi-lo na ânsia de serem úteis.

Perdoem-me letras não empregadas

perdoem-me frases destroçadas

perdoem-me estrofes defenestradas

perdoem-me versos descartados

perdoem-me poemas inacabados.

Nas noites de insônia pressinto a presença de vocês

rodeando-me e rangendo correntes como zumbis

- mortos-vivos, a me impor castigos e medos.

 

Dionisio  Teles
 

Voltar ao índice

     

 

 

 

CHAMPAGNE
 

Alguns dias atrás recebi um email de um amigo, enviando uma poesia sua e que estava formatada com música. Tocava um antigo sucesso italiano da década de 60, chamado Champagne, com Peppino di Capri. Foi só começar a escutar e, imediatamente o pensamento se transportou para meus tempos de rapaz, em Salvador – essa música era minha paixão.

A maioria dos bares e boates da época, possuíam umas “machines”, envidraçadas e com várias luzes piscantes que, mediante a inserção de uma moeda, tocavam grandes sucessos musicais através de discos compactos. Explicação para os mais novos: compactos são aqueles filhotes dos LP’s – os famosos “bolachões”.

Eu cursava o “científico” no Colégio Central da Bahia e, algumas vezes por mês – quando sobrava uns “caraminguás” no bolso - freqüentava um desses barzinhos na Av. Sete de Setembro. Após certo tempo de assiduidade no estabelecimento, bastava eu adentrar no bar, e um dos garçons se adiantava:

- Me dá uma ficha aí, quem lá vem o rapaz do Champagne - berrava para o responsável pelo balcão.

Ele introduzia a ficha na máquina e, sem que eu pedisse, colocava para tocar Champagne, com Peppino di Capri, é claro. Não era incomum, durante uma noite, eu gastar umas 5 ou 6 fichas – todas com Champagne. Alguns freqüentadores do bar, chegavam a fazer cara de muxoxo com a minha insistência em escutar aquele hino ao amor, em italiano.

Foi lá que conheci a Graça – com o passar do tempo, seria Gracinha. Ela freqüentava aquele, e mais alguns bares da redondeza, oferecendo seus préstimos a homens carentes de sexo e afeto. Era uma mocinha nova – deveria ter seus 23 anos – proveniente do interior da Bahia, e tinha um sorriso franco e uma conversa agradável e inteligente.

Em sendo um estudante secundarista e de família pobre, os meus recursos financeiros eram - na proporção - piores que o PIB do Haiti. Por isso mesmo eu nunca tinha condições para pleitear a prestação de serviços da referida moça de vida difícil.

Numa bela noite, quando o movimento do bar e dela própria, estavam bem fracos, nos sentamos para comentar sobre maiores detalhes das nossas vidas. Ela me falou que seu maior sonho era passar no vestibular da UFBA e, inclusive já estava estudando bastante nas horas vagas. Confessou-me, quase chorosa, que o seu terror era a matemática – tinha horror à matéria e parece que a recíproca era verdadeira.

Quase que despretensiosamente, notamos que poderíamos fazer um escambo de serviços, interessante aos dois. Eu sabia razoavelmente bem matemática e, segundo se dizia no boteco, ela conhecia extremamente bem a arte de proporcionar prazer a um homem na cama. Naquele mesmo dia – escutando Champagne – decidimos implementar a nossa “joint venture” num apartamento de um amigo meu – na verdade, um “muquifo” perto dali. Ao terminar a noite eu já tinha o meu primeiro débito em conta-corrente com Gracinha.

Foram muitas aulas – de parte a parte – e cumprimos regularmente as nossas obrigações contratuais, até nos afastarmos naturalmente.

Não sei se ela aproveitou tão bem minhas aulas matemática, porém tenho certeza absoluta que devo ter levado vantagem com aquela parceria pois aprendi muito com os ensinamentos da querida amiga. Espero, sinceramente, que ela tenha passado no vestibular.

Dionisio  Teles
 

Voltar ao índice

 

     

 

 

 

NÃO QUERO MAIS SER IMORTAL

 

 

Pronto, agora é sério! Desisti de ser imortal – não quero mais, mesmo.
E não falo sobre a imortalidade, como alguns super-heróis de quadrinhos, tais como o Fantasma. Aquele que andava num cavalo branco, morava numa ilha deserta, tinha uma paixão secreta chamada Diana, e que nunca morria. Quem tem mais de 50 anos sabe – saudosisticamente – do que estou falando.

Não! Eu não quero mais ser mais imortal da ABL – Academia Brasileira de Letras. Aquela instituição secular, com sede na Cidade Maravilhosa e que congrega alguns mortos e vivos famosos para o tradicional chazinho com biscoitinhos de laranja.

Digo isso – que não desejo mais ser imortal – com muito pesar, porque depois que acompanhei a admissão na ABL de autores como José Sarney, Ivo Pitangui, e especialmente Paulo Coelho, sinceramente, sempre acreditei que até eu seria admitido um dia. Acreditava que as minhas poesias seriam melhores que o "Marimbondos de Fogo" de Zé Sarney (ou Sir Ney). Achava que as minhas crôniquinhas seriam melhores que aqueles livros de auto-ajuda travestidos de filosofia oriental barata, do David Cooperfield das letras – aquele que sempre tira coelho da cartola. Sim, sempre tive esperança !

Na verdade, o que desancou de vez a minha pretensão de ser eterno, foi uma reportagem publicada no "Estadão", onde aparecia uma foto do recém imortal - o empresário José Mindlin – provando o seu traje para a vida eterna num alfaiate de altíssimo nível, especializado em fazer os "fardões" da vetusta academia.

O texto do jornal, citava que o traje era confeccionado em "cambraia inglesa" – ou seria ingleza, com "z" – e custava a bagatela de R$ 35.000,00. Este aspecto pecuniário, transtornou-me... R$ 35.000,00 para ser imortal ? Meu Deus, é uma grana preta.

Tomei a decisão depois de ler aquilo. Se eu conseguir vender todas das minhas poesias e crônicas e conseguir juntar R$ 35.000,00, vou ser é MORTAL mesmo, e gastar toda esta grana viajando e jogando conversa fora em alguns barzinhos aqui de Salvador, onde me encontro neste instante à passeio. Não vale à pena ser imortal - é caro prá chuchu !

 

Dionisio  Teles
 

Voltar ao índice

 

     

 

 

 

AMOR RECLUSO

Ontem, foi o Dia das Mães. A cidade de São Paulo aparentava um misto de feriado com um dia de festa nacional. A entrada dos restaurantes fervilhava de pessoas em filas de espera, onde se notava a predominância de famílias com alguma senhora idosa sendo conduzida para o indefectível almoço de gratidão anual por parte dos filhos.

Muitas floriculturas espreitavam os tradicionais retardatários para a compra dos últimos vasos com flores bem comportadas e arrumadinhas. Para aqueles com poder aquisitivo mais combalido, vendedores de plantão se postavam em algumas ruas da metrópole fazendo da calçada o balcão para os seus artigos vegetais devidamente enrolados em celofanes coloridos.

Seguramente, feijoadas, macarronadas, peixadas e churrascadas deslanchavam dentro dos lares apinhados de parentes próximos - e os nem tão próximos assim – com tios conhecendo os novos sobrinhos; com priminhos brigando entre si (a mesma coisa do ano passado); com as cunhadas discutindo o novo penteado ou o desfecho da doença da sua vizinha. Enfim, tudo familiar e ao som de do programa do Silvio Santos ou de algum jogo de futebol do campeonato espanhol ou inglês. Os sorrisos eclodem pelos cantos, motivados por piadinhas infames contadas pelo tiozão que no dia-a-dia é até meio “casca de ferida”.

No dia de ontem eu tive uma outra visão do Dia das Mães. Dirigia o meu carro pela Rodovia Raposo Tavares, em Cotia e, ao passar pelo Cadeião Feminino, deparei com aquele aglomerado de pessoas – na sua grande maioria mulheres – na frente do portão de acesso da penitenciária. Uma imensa fila de senhoras e moças – algumas com crianças a tira-colo - com embrulhos nas mãos que pareciam as oferendas para as reclusas .

Parei o carro a uma certa distância e me quedei a olhar o semblante, as expressões nos rostos daquelas criaturas. Faces tristes e sombrias, na sua grande maioria. Não existiam sorrisos e um silêncio sofrido prevalecia no ambiente, antes da revista que seria feita por parte dos agentes penitenciários – sabe-se bem como estas cenas são humilhantes e deprimentes para os visitantes.

Fiquei ali tentando imaginar como seria o encontro dentro do cárcere de cada mãe daquela com a suas respectivas filhas – talvez mães também de algumas daquelas crianças.

- Feliz Dia das Mães,minha filha – diria a visitante com a voz embargada

– Prá você também, mãe - redargüiria a anfitriã

Haveria uma troca de beijos. E depois seriam sorrisos ou um choro íntimo e discreto¿

Juntamente com um sentimento de tristeza pelas vicissitudes que aquela gente passava, tive a vontade de saltar do veículo e escutar o drama de cada uma delas – não sei por carinho e respeito ou mesmo pelo interesse peculiar de quem escreve crônicas.

Carreguei aquele monte de gente no meu pensamento até o final do dia, tentando montar o quebra-cabeça das relações humanas entre mães libertas e suas filhas-mães presidiárias.

Tentei forjar algumas histórias para cada um daqueles personagens – daria um bom conto. Por enquanto saiu somente esta pequena crônica.

 

Dionisio  Teles
 

Voltar ao índice

 

Agenda  As esquinas da lua  Contos  Crónicas da Net  Entrevista Galeria de arte  Livro de visitas  Ecos do Ressoa

  Os poetas do canal  Página Inicial Poemar na escola  Poemas ditos  Ressoa Página pessoal