Delta de Vênus

 Índice

Página inaugurada em 14/07/2005

Última actualização 15/07/2005

Agenda  As esquinas da lua  Contos  Crónicas da Net  Entrevista Galeria de arte  Livro de visitas  Ecos do Ressoa

  Os poetas do canal  Página Inicial Poemar na escola  Poemas ditos  Ressoa Página pessoal

27 Poemas Editados

- Adágio

- Alívio

- Alvorada

- Arritmia

- Ausência

- Capela

- Delta de Vênus

- Desejo

- Dorme Sofia

- Éter

- Graal

- Guardiã

- Levântico

- Me ame

- Os loucos

- Personificando o Ego

- Por amor

- Porto de sonhos

- Réquiem

- Sedução

- Sinal

- Tempo do fim

- Um sonho

- Vertente

- Viajante

- Vida

- Visão

 

 

 

 

 

 

 

Adágio

 

Só agora me avisaram que a noite desce em sinfonia,

recebo as notas da música da vida recriadas qual composição.

Só corda de lira perdida em uma nota qualquer.

Dó!

Sol, n'uma cítara afinada, lá uma orquestra em harmonia.

Só agora respiro a face da lua de encontro ao meu ponto de fusão,

partículas de mim  afrontando a seca, unindo meus restos e meu pó.

Desafio a platéia e carrego o rei para a dança da vida,

regendo do início enlevo a velha mãe ao êxtase da maestria.

 

Só agora o adágio traz ao escuro a mais nobre melodia,

e o sol agora desponta sublime e prossegue a andança.

Só sonata sem dó, na busca do sol uma andante mulher.

Dó!

Lá, a lua tão criminosa ré, cai em si e dança.

Só agora o adágio traz ao escuro a mais nobre melodia,

toada em solo n'um revesso conserto ao concerto convida.

O sol agora desponta sublime e prossegue a andança,

astro regente, renasce em meu berço, e me encontro em nova sintonia.

 

Sandra Ravanini

28/06/2005

Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Alívio
 

Despeço-me do fel como quem foge do frio,

acompanha-me a alvorada em tons e cores,

caminho sozinha e sigo o destino dos desertores,

correnteza acima remo, agora, em meu enorme vazio.
 

Dobrei-me sobre o peso que criei,

livro do que me impede de trilhar minha sentença,

deixo as conquistas como minha pobre herança,

na bagagem levo os erros que não enfrentei.
 

Levo as pedras em que tropecei...

serão os alicerces da  nova conduta segura;

levo as marcas e as cicatrizes das quais não me curei,

vou de cara limpa, nua e de alma pura.
 

Não levo nada, nem levarei um nome,

vou despida de mágoas, de sonhos e de quimeras,

não levo o medo e nem a fome de vida que me consome,

levo o sorriso de sempre, irei sorrir em outras terras.

 

Sandra Ravanini

09/05/2005


Voltar ao ìndice

 

 

 

ALVORADA
 

Rompe-se o véu que desnuda a alvorada em duelos de fogo,

um clima se propaga na dança que aquece as manhãs em transparência,

arco-da-aliança em elevada alquimia no aconchego de corpos,

mutantes em sofreguidão, fenda efêmera em orgasmo de vida e urgência.
 

Fogo-fátuo num dilúvio inconstante trazendo a realidade fria,

palavras amanhecidas no inconsciente do ontem ao relento,

revoada de sentimentos num carrossel sem infância,

e na distância do hoje o princípio revestido em final do tempo.

E ficamos excitados no caminho que ressurge em nova escalada,

sempre um hoje vazio melhor que o ontem, igual amanhã,

conduzindo, agora, a mesma sina e a mesma cruz na encruzilhada,

renovamos do nada n'uma entrega ímpar nessa insana ausência vã.

Alimento transitório no desfecho qual espera de solstícios,

busca incessante de eternizar-se no inacabado em oposto que se trai,

atendendo ao incontrolável impulso de corpos e de vícios,

ascender o momento na permuta  da entrega em alvorada que se esvai.

 

Sandra Ravanini

27/06/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

ARRITMIA

 

Assim sou,

movida ao extremo descompasso em meu ritmo alucinado,

altitonante... em minha rouquidão entrego-me em caixa de relicário,

e caio de mim em profundezas qual pássaro fulminado,

e assim saio de mim e saio do sim e saio do imaginário.
 

Assim estou,

arritmia completa que explode em rima complexa,

altiplanura... entrecortada na grande extensão da exata inexistência.

Ao encontro do vale secreto entro em labirintos complexos,

e assim, fujo de mim, e fujo do sim, e fujo da minha essência.
 

Assim vou,

 em elétricas correntes encontro-me em meu desfecho,

altissonante... elipse paralela ao meu inverso na curva da reta,

de saída, na chegada e na vinda da partida, perco-me em meu despacho,

e assim parto de mim, e parto do sim e parto para a meta.
 

Assim fui,

do nada busquei-me e no nada encontrei o meu princípio,

alternativa... opção sem escolha em revés do avesso,

no final de mim, em meu precipício ao encontro do meu início,

e assim acho-me em mim, e acho-me no sim e acho o meu começo.

 

Sandra Ravanini

29/05/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

AUSÊNCIA
 

Reflete a noite na imensidão do mar,

e no encontro de ondas revoltas sinto sua ausência.

Comunga a natureza perfeita sem medo de se entregar,

deito-me na areia e no refluxo das águas sinto sua presença.
 

Preciso dizer que te amo,

olhar nos seus olhos como se fosse o último encontro,

preciso sair desse sono e mostrar que o meu abandono

é somente o medo de ver em você apenas espanto.
 

Preciso dizer tudo antes de lhe perder,

mas deixo-me conduzir pela sua voz tranqüila e amena,

apenas quero assimilar tudo o que você tem a oferecer,

e de olhos fechados sinto ao meu lado sua presença serena.

Dias... distantes de você faz-me entender que preciso mudar;

meu coração está pesado e ouço uma triste canção,

é hora de dizer a verdade e não deixar a emoção calar,

preciso dizer que lhe amo nesse momento de reflexão.
 

Sandra Ravanini  02/03/2005

 

Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Capela
 

Tão pequena capela que desterra,

pedras sepulcrais entoando flautas,

tão grande abrindo-se sincera,

abrigando o aflito em suas faltas.
 

Conqüanto lhe confessem o bem,

tão linda capela em branco,

posto que o amor lhe convém,

singela capela acalanta o meu pranto.
 

E da torre, tão linda janela

aberta em pares a resguardar a chegada;

vasto coração um sinal espera,

serena presença em brisa ancorada.
 

Capela quão forte e singela,

frágil por fora e de interior sem fim,

em cruz o seu ombro espera,

vem ao encontro a capela dentro de mim.
 

A vida em mausoléu não se encerra,

faça-me morada em sua nobre aceitação,

abriga a minh’ alma em sua calma tão bela,

capela que toca sinos em hinos de amores e de devoção.
 

Sandra Ravanini

24/05/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

DELTA DE VÊNUS
 

Triângulo perfeito,

percorrendo a vida em águas de Nilo.

Fertilizando seus vales,

subjugo canais,

desertos e montanhas,

desaguando influências,

encontro-me em seus mananciais,

preenchendo seus estreitos...
 

Sou estrela de Vênus

guiando pastores,

vespertina em seu caminho.

Sou constelação complexa,

deflagrando chamas de vida,

alegria, consolo e amplexo.

Sou templo, sou tempo, sou alimento,

sou mineral, sou vegetal e sou animal...
 

Sou sua origem

viajando em meu universo,

teoria que acalanta inspiração,

buraco negro, invasão, sua conspiração,

 lapidada esfinge imortalizada,

em seu fogo e seu ar,em sua terra e sua água.

Sou descendência de sua filiação,

o verbo, a semente e a ascensão...
 

Sou átomo,

construindo seu universo,

ação produzindo um novo corpo,

fração de uma parte de seu todo,

elemento em correntes elétricas,

núcleo de minha terra,

massa de sua esfera.

Sou reação, sou atração e união,

sou sua imagem, a sua semelhança e a sua perfeição,

sou a criatura, sou a filha da divina criação...
 

Sandra Ravanini

23/04/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Desejo
 

Pérola negra da noite em véu de estrela desnuda,

desponta imortal e orvalhada a rosa de fogo em cascatas de chamas,

desabrocha a orquídea selvagem, abrindo-se e brindando o sol.

Sensualidade em cálice transbordando aroma e flama,

verte da hasta mavioso perfume da fruta túmida.
 

Prenhe de luz inundam o Éden de erotismo ardente,

escravizados corações cingindo feixes e irradiando feitiços,

derradeiro esplendor afinal consumado em ato.

Desponta no horizonte o filho de corpos enrediços,

lascivo é o gozo e a colheita é o abandono do ventre.
 

Orvalho divino escorre da lua em euforia rasgada,

a espada tesa, incansável, jorrando da fonte o líquido morno,

venerada estação que se renova em cio intenso.

Pôr-do-sol trazendo à vida outra vida em eterno retorno,

e mais... o prazer saciado da entrega total na paixão consagrada.
 

Sandra Ravanini

02/07/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Dorme Sofia
 

Que faço eu agora que a confiança foi-se embora?
 

Mãos em oração sem mais aquela esperança,

de que me serve o riso de uma alegre lembrança.

Com essas lágrimas antecipadamente derramadas,

e mais, essa dor que consome minhas horas e meus dias,

que faço eu sem a poesia que havia em Sofia...
 

Que faço eu com o pedaço que vai-se embora e mais a dor que fica agora?
 

Choro a palavra não dita e a vida que definha,

choro as dores suas que são as mesmas dores minhas.

O vazio já se faz....Ah! meu Deus, para quem escrevo eu aqui sozinha.

Lágrimas ao tempo tão quentes quanto o calor do seu olhar,

e a impotência de não mais poder meus olhos te encontrar...
 

Que faço eu com esse frio n'alma que aflora?
 

Choro a sua luta e a força que vence o cansaço,

 queria eu poder mais uma vez descansar em seu braços.

Quem vai abrir o portão e o sorriso se a porta vai se fechar.

Dorme ela em sua cama fria, dorme linda Sofia,

que minhas lágrimas te aqueçam nessa noite vazia...

 

Que faço eu agora se é chegada a hora?
 

Sandra Ravanini

05/07/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Éter

Eterna harpista do sol florindo primaveras de luz,

sabedoria ancestral na veia a pulsar mares de sal,

e do sangue escorre o fel, e escorre o mel, e escorre ao léu,

invertendo o mito, cura o mau, inverte o sal, destrona o mal.

Temperança e tempo, ternura e tormento traduz.
 

Éter resplandecente em sua morada azul reluz,

silenciosa à contemplar seus filhos matando um irmão d'alma,

e verte a lágrima em vão, inverte o coração em chuvas de lágrimas no chão,

vertendo a dor, vocifera a fera, aclamar o clã à clamar a calma.

Templário tempestivo, tempo-será de templos e de cruz.
 

Égide da grande mãe protegendo a natureza e sua nação,

sinfonia celestial comemorando a volta do filho ao seio da terra,

e volta o homem ao pó, revolvido a lágrimas e mel, de volta o homem do céu,

transformando a água em vinho, multiplicando o pão, purificação que não se
encerra.

Ternura eterna transpirando utopia, Uno em etnia unificada na recriação
 

Sandra Ravanini

06/07/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Graal

Sorvi do cálice a gota derradeira em prece desacreditada,

quisera eu me libertar da dúvida cruel que consome os meus dias.

Infortúnio meu, até quando devo eu esperar o sinal de Sua chegada?
 

Desejo o encontro como quem espera o chamado da Sua voz,

pudera eu encontrar a paz na palavra pelo homem pregada.

Comunhão d'alma, o que mais existirá além dessa dúvida atroz?
 

Dá-me o gole inebriante da fé cega e inabalada,

deixa-me beber do cálice sagrado que de Suas mãos se estende.

Até quando devo eu permanecer incrédula qual alma penada?
 

Graal santificado, ressuma o sangue da fé e da ressurreição,

dá-me o pão e dá-me o vinho, contanto que eu possa alimentar meu espírito.

Até quando, Pai, devo eu vagar entre a luz e a escuridão?
 

Sandra Ravanini

03/07/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Guardiã
 

Sou o silêncio que evoca a tristeza no olhar,

a água cristalina que escorre para o mar,

faço-me guardiã dos sentidos

e ouço o triste eco de minha voz,

sou meu cadafalso e sou meu próprio algoz.
 

Sou bandeira que hasteia um mudo hino,

evocando almas que se atraem sem destino,

sou a sina e o sou o cimo sufocados nesse ar,

a pedra atirada e o pecado sem o pecador,

sou o remédio quando deveria ser a dor.
 

Sou beata sem religião e anjo sem altar,

sou portadora das mensagens que não consigo decifrar,

lavo as feridas quando a minha está exposta e sangra,

sou a doação quando deveria ser a devastação,

sou a raiva hoje e amanhã o perdão.
 

Sou a cabeça e a sentença, o juiz e a desavença,

sou a doutrina fiel na crença e na descrença,

dou meu alimento sem ter feito a ceia,

já não sou mais nada... invisível e sem cor

impalpável e inconstante, eu sou o amor.
 

Sandra Ravanini

04/07/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

LEVÂNTICO
 

Em branco e em preto ressurjo do nada,

de um mundo sem cor refaço a cena,

e, em pincéis, sigo criando novos semblantes.

Retiro de um único impulso que vaga

o melhor da criação em sua pureza plena,

absorvo em cores o melhor de cada semelhante.
 

Redenção unificada em laço,

de forma única e universal,

redimindo a mim e a todos na total aceitação,

concretizo a minha volta e retiro do aço,

rompendo sorrisos n'uma linguagem celestial,

unifico em elos a engrenagem da vida na recriação.
 

Assim, na transparência de águas límpidas,

encaro o encontro do Todo dentro do Eu,

retiro do branco e do negro uma nova matiz,

são pedaços do Único em projeção infinda,

capturando a humanidade e re-criando do breu,

renasço em mil tons no mais lindo arco-íris
 

SANDRA RAVANINI

22/05/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Me ame
 

Nos amaremos agora

e por longas horas ,

n'uma cavalgada avassaladora.
 

O desejo é forte, e já não me controlo,

Ei! Me embala nesse ritmo alucinante

porque já não sinto mais meus pés no solo.
 

Sinta, agora, que é a hora,

enlaçados nossos corpos molhados, vem...

é chegando o momento da explosão que aflora.
 

Sonhos de outrora, me segura agora,

beijos e sussuros e gemidos aflitos,

o gozo afinal, vem, não demora.
 

Explosões pela aurora afora!
 

SANDRA RAVANINI

02/04/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

OS LOUCOS
 

Só os loucos são brilhantes

para sentir as alterações constantes,

entender as cores vibrantes
da aura das pessoas mesmo que distantes.
 

Amá-las descompromissadamente...

E são sensíveis o suficiente,

para sofrer por alguém  loucamente.
 

E amar de verdade,

mesmo que no silêncio das palavras,

mesmo que na ausência de gestos,

amar com sinceridade.
 

Aceitar...vagar...ouvir

e se calar,

apenas o olhar no olhar,

e captar...

e ir além

na terra do ninguém,

e ver os cômodos vazios,

o vazio incômodo,

o vale deserto dos deserdados,

dos vivos mortos em vida,

dos vivos zumbis já enterrados.
 

Sim, os loucos são felizes!

Sonham acordados,

são seres de visão,

por isso vivem despreocupados.
 

Sandra Ravanini – 25/10/2004


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Personificando o Ego.
 

Estou com medo do Eu,

em disputa eterna com o meu,

medo de sou eu que difere do eu sou,

medo da primeira pessoa sem o nós que restou.

Medo do Ser Eu, incompatível com o Eles.

Medo do seu medo que não mede consequência,

não um medo meu, mas seu medo resistência.

Medo não tenho Eu do eu seu Ser interferência,

seu Ser só é EU e meu eu é só deles.

Sou o eu, verbo, conjugado no tempo,

não sou o Eu sou, sou singular, somos plural,

é Ele, pronome jogado ao relento?

Mas, mais não Eu, eu não mais Seu não,

Eu sem o vós, sem razão, Ser sem voz,

seu Eu é razão, verdade única e atroz.

Vaidade seu eu, liberdade Eu, Tu e Nós.

Eu aceito ser ,seu Eu rejeito o sou,

sou sim, és não.

Eu não ao não.
 

Sandra Ravanini - 05/02/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Por Amor
 

Pego-me vazia de mim por um amor que me toca, enfim.

Completo-me em invernos, outonos e em lareiras

do calor que arde na chama que reside em mim.
 

Pego-me ardente em febre com a espera sem fim,

trajada em flores das primaveras e dos verões,

espalhando rajadas na noite de perfume do meu jasmim.
 

Pego-me enfeitiçada, absinto que embriaga igual nota de flautim,

acalantando nascidos sentimentos em areias fertilizadas,

esculpindo amores ternos do jardim que habita em mim.
 

Pego-me excitada, abandonada em pele, em seda e em cetim.

Por amor, vejo-me entregue, agora, afoita serpente deslizante,

seu corpo brotando em meu corpo, sua boca em minha boca carmim.
 

Sandra Ravanini

18/04/2005

Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Porto de sonhos

 

Atemporal como quem não espera o desembarque,

presença que se faz no convés de um retirante,

segregação interior qual fragata que ao vento parte,

atracando em minha praia e invadindo meu coração itinerante.
 

Desembarcam em mim as estrelas no aconchego de seu ombro,

serena noite enluarada no mar que reflete o brilho do cais,

n’uma imagem que se forma em meu ponto de encontro,

na maré desemboco em meu porto de sonhos que se faz.
 

Luar que enaltece ávidos apaixonados embebidos nesse sal,

viajar em seu leme imaginário que desata em minhas ondas a velejar,

amores impregnados de brisa romântica no castelo em sua nau

que aportam em meu porto, afogando-se em meu mar.

Mar que se encontra em areias embriagadas de sol e de sedução,

e pela noite lhe acompanham o farol que encandeia o corpo;

ser a âncora  que mergulha em seu porto de ilusão,

e a corrente que desencadeia o ímpeto de retornar ao cais de meu porto.

 

Sandra Ravanini

17/06/2005

 

Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Réquiem
 

Pedaço de mim desgastado de crenças voltei

deixei no caminho o sangue do meu sudário,

desci a colina carregando o meu calvário,

chorei para a vida que eu mesma matei.
 

Matei a fogueira na qual me queimei,

queimando o sudário, a colina e queimando o calvário,

baixando o capuz, eu chorei ao contrário,

irônica, matei a esperança que eu mesma criei.
 

Criei na criança que outrora eu mesma embalei,

a ferro e fogo, vestida no aço, a criança moldei.

Confesso com prazer: matei a criança com as minhas mãos.
 

Vazia de morte e nas mãos o sangue que eu derrubei,

à procura da pegada e da trilha que eu nunca encontrei.

Prostrada e pária, a fé em mim eu matei, matando a própria criação.
 

Sandra Ravanini

29/06/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Sedução
 

Ventania que me eleva ao altar dos seduzidos,

exteriorizo o brilho no riso e no jogo

a rodar na dança de corações incontidos,

queima-me a pele  na dança sagrada do fogo.
 

Vermelho na noite e um ritual de corpos em ondas,

suave perfume  espalha-se  a cada entonação

cigana a seduzir entregue ao embalo de notas e de rendas,

e na cadência dos corpos o sopro da sedução.
 

Enlaçados prosseguem na permuta desse instante,

ao tom da doce guitarra em mágica noite moldada ,

rondando e chamando ouço seu toque insinuante,

dança comigo agora, sou Eva nessa dança imaculada.
 

SANDRA RAVANINI

20/05/2005

Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Sinal
 

Posso ser conectiva? Posso?

Posso ser sensitiva? Ou melhor, destoante...

Agora já pressinto o que já não sinto,

de volta ao inconsciente inconstante.
 

Abismo profundo e legiões do norte,

em terras que eu não queria estar.

Distância que se faz na calmaria da morte,

no santuário de pedra um coração a chorar.
 

Vinho d'alma... meu sangue a derramar,

solidão assim em imensa reclusão.

Quando não mais puder eu ligar,

devo eu parar de beber ou devo eu beber sua solidão?
 

Sangue de Cristo, tira-me a dor da hora,

se me ouves, porque não abranda a Tua Lei?

Em Tuas mãos uma vida implora.

Se tudo sabes, se sou Sua imagem, por que eu nada sei?

 

Sandra Ravanini

24/06/2005

 

Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Tempo do fim
 

Foi um tempo que o tempo antes de mim,

tempo que era a Era do começo e do fim,,

E no templo que o tempo ruiu num dia ruim

libertei-me de asas e de cruzes e de anjos de marfim.
 

Nas ruínas antes do início do meio e do fim,

lançaram-se lanças ao vento apontadas contra mim,

caindo na noite, investindo e vestidos de serafins,

sangraram minh’alma, calaram meu não e calaram meu sim.
 

Algum tempo fiquei perdida dentro de mim,

vagando no templo distante do tempo e do lugar de onde vim,

e no túnel do tempo dentro do fim afastei-me, assim,

qual condenada galé acorrentada em meu  estopim.
 

Por entre fronteiras e em muros, limitada em meu próprio motim,

e na loucura das auroras do extremo longínquo de almas afins,

em perplexa orgia, encarei a distância in absentia  invadindo confins,

criei-me na lenda e, em lua absíntica, refletindo-me enfim.
 

Sandra Ravanini

20/06/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Um sonho
 

Nada mais que um sonho que se faz,

em letras e em rimas, um sonho em melodia;

deleito-me acordada quebrando a monotonia,

em restos de insônia n'um quadro apraz.
 

Levito em ares e já nem posso respirar,

quase naufrago no amar, um mar em arrebentação

sonhando em sonhar, na voracidade do mar, na rebatação,

e afogar-se em mar e, de tanto amar, perpetuar.
 

Assim, paro o tempo e paro o pensamento;

faz-se o dia em oração de sol e em lareira outonal,

e mais o beijo de luz da lua espalha-se em arrebol;

e enfim, na veracidade do sonho, acordo o dia e o tempo.
 

E lá vem a eternidade em ventos que me faz retroceder,

e, na velocidade voraz, jamais mais sonhar, mas sonhar

acordada no sonho, vivenciando a explosão do mar a amar;

e fico, assim, em oásis de lucidez, esperando o sonho acontecer.
 

Sandra Ravanini

23/05/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Vertente
 

Uma nova sensação impregna meu ser,

clareia minha visão outrora coberta de nuvens,

assimilo agora o perfume da nova vida,

novos sonhos vivenciados no hoje, escalando colinas,

vertendo em espírito, retiro d’alma o medo de viver.
 

Resguardo o amanhã, um novo mistério

dourando a surpresa tal qual criança em festa,

resquício de inocência seqüestrada outrora,

herança esquecida em um cenário na floresta,

estilhaços de luzes vibrantes respirando o etéreo.
 

Já não carrego o dia, leva-me o dia ao destino final,

fertilizando meu caminho com sentimentos sublimes,

elevo meus olhos em longínquos imaginários

libertada em névoas, essência em acme, sensações uniformes,

em atmosfera implexa, renasço, enfim, para a vida total.
 

SANDRA RAVANINI

14/04/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Viajante

Caminho sob o fogo, em busca do meu calor,

que se esvai aos poucos em cinzas deixadas

pelos caminhos nos quais queimei por amor,

cinzas  foram as marcas de minhas pegadas.
 

Caminho sob a água em busca de minhas lágrimas sorrateiras,

às quais já não as derrubo mais, pois choro com os olhos vazios.

Pelos mares onde um dia derrubei a gota derradeira,

líquidas foram as marcas de minhas pegadas em mares frios.
 

Caminho pelo vento em busca de temporais de harmonia

que se fez outrora, e só agora sinto seu acanhamento.

Pelos ventos, quando um dia eu fui a própria ventania,

invisíveis foram as marcas de minhas pegadas no tempo.
 

Caminho pela terra como vestal em carruagem,

que em infância fez-se um sonho em trilhas de candeia.

Pelas terras, onde um dia fui uma parte da paisagem,

transparentes foram as marcas de minhas pegadas na areia.
 

Viageira sem destino, rumando em clareiras,

visitante enveredando por vales de sendas altaneiras.

Pelas viagens onde um dia deixei marcas na poeira,

indeléveis serão as marcas que deixarei nessa vida passageira.
 

Sandra Ravanini

04/06/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

VIDA
 

Eu vi a vida lutando pela vida,

vi a vida face à face com a morte,

vi a vida brotando da ferida,

e, em vida, uma vida jogando contra a sorte.
 

Vi a sombra da morte ao lado do leito,

e a luz da vida recolhendo seus seixos,

a seiva suprema adentrando o peito,

enganando o breu, rodeando o eixo.
 

Vi parte de mim na vida que se escorria,

quisera eu poder voltar no tempo,

pedaços de mim em lágrimas caíam,,

pudera Deus eu amenizar o sofrimento.
 

Vi a vida frágil, tão pequena quanto passageira,

impotente em sua obra li os lábios em derradeiro suspiro,

e tal era a luta na febre, em medida derradeira,

que os prantos levarei para meu impotente retiro...
 

e vi a filha da vida em seu triste lamento,

e a sina mostrando o caminho a trilhar,

e a grande força da  fé  pedindo ao tempo,

e vi a morte deixando mais um dia a vida ficar.
 

SANDRA RAVANINI

05/06/2005


Voltar ao ìndice

     

 

 

 

Visão
 

Olhares que se cruzam nas esquinas da incerteza,

perdidos nos caminhos trilhados outrora em dia de glória,

errantes e vazios expressando agonia e tristeza,

e hoje só resta um olhar  insustentável e sem memória.
 

De quem são esses olhos querendo morrer?
 

Olhar que um dia acreditou no ideal da liberdade,

e hoje apenas uma lágrima escorre num rosto disforme,

ainda ontem desfilava a sentença e a soberba da vaidade,

e hoje, olhando em seus olhos, perco-me na visão da sua fome.
 

De quem são esses olhos querendo crer?
 

Conquanto reste uma réstia finita de brilho,

doe seu olhar mesmo que doa qual cárcere e escravidão,

se nas brumas procura os olhos do Pai, do Espírito e do Fi