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Débora Denadai

Página inaugurada em 19/07/2005

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18 Poemas Editados

- A palavra é um gato

- Ao norte de mim estou eu mesma

- Aprende a amar o amor

- Básico e simples assim

- Comunhão de bens e de males

- Contrato de ajuntamento

- Cortes

- Do meu jeito

- Dúvida cruel

- Então é isso: Sou poeta do acaso

- Ferida aberta

- Fogo

- Leveza

- Mulher bonita

- No me toca

- No meio da madrugada

- Poema da mulher muito amada

- Poemar

 

Débora Denadai

 

 

 

 

A PALAVRA É UM GATO

A palavra é um gato.
Soberana de sua vontade,
arromba o peito e salta,
vitoriosa, pela boca e pelos dedos.
Na falta daqueles, impõe seu desejo
e vara, mundo afora, pelos olhos.
Felina e temperamental, adormece
quando bem desejar,
por longos períodos ou pequenos cochilos.
Não importa: inútil bater-lhe à porta.
Como um gato, não tem dono,
apenas acompanha alguém que escolhe.
Não se rende, não se subordina,
não se encolhe.
Salta de um ponto a outro,
de uma idéia à seguinte
e aquele a quem segue,
segue a buscá-la,
como se fora um pedinte.
A palavra é um gato,
que ora se estica preguiçosa
por versos a fio,
hora se enrola e se esconde,
adormece em si mesma.
E como um gato,
determina a hora de sair.
A nós, cabe apenas aceitar
suas idas e seus retornos.

Débora Denadai


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AO NORTE DE MIM ESTOU EU MESMA

Ao norte de mim estou eu mesma.
E, ainda que caminhe, relutante,
a passos de lesma;
ainda que por vezes sem fim,
eu siga, indecisa,
e que os ventos não sejam assim
propriamente uma brisa,
e que a paisagem não seja
necessariamente de beleza,
que mal se possa ver o chão
onde se pisa,
ainda está ao meu norte
aquela que fez a rota,
mesmo imprecisa.
Ainda que mais ao sul
haja nascentes,
de água salgada,
temperadas pela dor ou emoção pungentes;
que elas corram descontroladas,
outras vezes mais calmas, clementes;
que carreguem-me sempre para o poente,
que subtraiam-me à revelia toda a certeza:
ainda assim,
ao meu norte, estou eu mesma.
Nada a buscar em locais diversos,
nada a fazer, buscar alívio ou defesa:
qualquer que seja a estrada,
paisagem com flores, montanha escarpada...
Ao norte de mim,
estou eu mesma.

Débora Denadai

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APRENDE A AMAR O AMOR
 

Aprende a amar o amor,
que ele não te dará outra escolha.
Mas deves antes lembrar-te
que ele voa, qual folha,
entre vales de sol e neve,
que corre solto pelos sulcos
das estradas por que segues;
que pulsa vivo e ardente
sob a noite faz-se quente.
Agarra-se às árvores
e impregna o ambiente
com o odor que mais lhe agrada,
que é sempre o da tua amada.
De nada te adianta
tentar espantá-lo
como quem manda embora
um mau pensamento:
terás que escutá-lo!
E ele fala uma língua forte, vibrante,
e suave e doce ao mesmo tempo,
de tímidos pedidos
e falas imperativas.
Não gastes com ele tua saliva,
nem te valem gestos duros
ou cenhos franzidos:
terás que dar-lhe abrigo!
O amor tem ares de patrão,
tuas desculpas não lhe abrandam o temperamento.
Quebra vasos e rompe geleiras
e de nada vale dizer-lhe que o recusas:
terás que abrigar-lhe a contento!
Suas respostas são cheias de sutileza
e guardam certo refinamento;
tem argumentos de filósofo,
mas fala com voz feminina.
De nada te valerão
a ciência dos homens 
ou a sabedoria divina.
Nele porás tua fé.
Te venda os olhos 
com finos panos de seda
e tu, sem perceber,
mais que depressa, as aceita.
Ele te estenderá um braço amigo
e dele não saberás fugir.
Sairá andando à tua frente,
e enfeitiçado, irás,
sem saber aonde ir,
ainda que no fundo saibas,
que por destino, azar ou sorte,
isso só acaba na morte. 
Débora Denadai 

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BÁSICO E SIMPLES ASSIM

Um tempo sem hora ou minuto;
um espaço sem limites,
a luz no meio do escuro:
não é muito o que é preciso
pra achar o que procuro.
O silêncio em meio ao barulho,
a satisfação sem a busca,
o nada, no meio de tudo:
a clareza, a que não ofusca.
Não é denso, nem profundo.
É apenas o básico, o simples.
E é tudo o que falta no mundo.

Débora Denadai

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COMUNHÃO DE BENS E DE MALES

Divide-se por muito tempo
(ou por pouco, tanto faz)
amor, cama, rotina
e outras coisas iguais.
Divide-se por tempo demais
a sangria da alma,
pouca paciência, nenhuma calma,
e desinteresse demais.
Um dia alguém rói a corda,
pede água, baixa a guarda,
deixa de ir à forra,
não divide mais nada,
abana as mãos e até mais:
comungados os males,
após múltiplos sinais,
subtrai-se à revelia,
nem bens, nem males:
até nunca mais.

Débora Denadai

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CONTRATO DE AJUNTAMENTO
 

Casar não me caso
que a palavra me cai mal
mas faço contigo um contrato
que seja menos banal:
Rejeito que o amor
se pendure no cabide atrás da porta,
rejeito o sangue coagulado
em carícias meio mortas.
Não abro mão da ternura,
mesmo se o dia é incerto
ou se a noite é muito escura.
Dane-se se o caminho está reto
ou se de um momento entorta,
repudio lamentos pingando do teto
ou despedidas em meia-volta.
Exijo tapetes vermelhos
estendidos à beira da cama
para os amores que ainda faremos.
Na cama também rejeito
histórias mal resolvidas,
brigas não terminadas
ou carinhos mais ou menos.
Se você achar que não pode,
que lhe foge à competência,
vá esquecendo as cenas
de beijos apaixonados,
poesia de muita eloqüência
que não dão bons resultados.
Devolva-me o tempo e o tema,
desligue a música e rasgue o poema.
Estando assim acertados,
você e eu, acordados,
ou guardamos os sonhos
lá na área de serviço
ou tocamos como estamos
que vamos ficando bons nisso.

Débora Denadai

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CORTES

Andei cortando caminhos
entre as vontades e a alma.
Os caminhos assim cortados
não me saciaram desejos
e ainda tiraram-me a calma.
Andei cortando caminhos
entre o que sou e o desejo
daquela que não sabia ser.
Os caminhos assim forjados
cortaram-me fundo a carne
e eu não aprendi a viver.
Andei cortando caminhos
entre meu amor e o outro.
Os atalhos assim traçados
destroçaram o meu amor
e o que restou foi tão pouco.
Andei cortando caminhos
entre o saber e o conhecimento.
Os caminhos que aprendi,
cortando assim apressada,
não me ganharam tempo
e não me ensinaram nada.
Cortei tantos caminhos,
construí tantos atalhos,
saí tanto da estrada,
fabriquei tanto desvio,
que o resultado foi nada.
Guardei as minhas facas,
aposentei minhas foices,
não consulto mais os mapas,
e o que passou, foi-se.
Em minhas entradas e saídas,
um único aviso existe,
como um guia para a vida -
"Atalhos, desvios, picadas,
me esqueçam. Cortei relações.
Vou pra estrada."

Débora Denadai

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DO MEU JEITO

Eu não entendo nada de política.
Só quando passo pelas ruas esburacadas
pelo descaso das malfadadas autoridades
todas elas muito ocupadas
em fazer levantamentos esdrúxulos
e inventar desculpas esfarrapadas.
Eu não entendo nada de História,
nem da Antiga, Medieval, Contemporânea.
E se eu for bem sincera,
nem mesmo sei se tenho uma.
Mas anoto alguma coisa do que vejo
num verso ou outro, bem depressa,
antes que a minha memória
brevemente se consuma.
Também não entendo nada, nadinha,
de Arte (Pintura, Escultura, Cinema)...
Até hoje ninguém conseguiu me dizer
como eu sei o que é arte ou
o que é falta do que fazer...
Não entendo nada de Poesia:
absolutamente nada.
Não sei qual é a regra pra rimar,
ouvi falar em alexandrinos,
redondilhas, hai-kais, tercetos,
poesia concreta (que diabo é isso?
sempre pensei que poesia era
algo tão abstrato...)
Não sei nada de métrica,
disso só conheço a fita,
mas vou escrevendo assim mesmo
no ritmo e rumo que
a própria palavra me dita.
E quer saber?
Nada disso me faz falta.
Deixo a palavra correr,
descer liquidamente a ladeira
entre minha cabeça e meu peito,
ir lavando o caminho,
e certeira,
ir saindo do meu jeito.

Débora Denadai

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DÚVIDA CRUEL

DÚVIDA CRUEL

Pensei em virar vegetariana.
Mas o que faço
com tua carne,
que me inflama?

Débora Denadai

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ENTÃO É ISSO: SOU POETA DO ACASO

Então é isso:
agora que aqui estou
eu
sozinha
e apenas.
Eu
e o teu sorriso
abusado a minha frente,
me enrosco no aconchego
deste espaço de silêncio.
E penso,
e decido
e reflito.
Não te farei mais verso
nem falarei mais deste amor
escancarado e bendito.
Então é isso:
sou poeta por acaso,
poeta do acaso,
do pode ser
se puder...
Então é isso:
estou sem pauta,
estou muito puta...
Não, também não é isso,
(que isto serei mais tarde
quando chegares).
Então é isso:
não te direi mais "bonito"
que me levaste a poesia por ora
e por ora, então, me demito.

Débora Denadai

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FERIDA ABERTA

A cada linha que escrevo
vira estátua um desejo,
uma pedra também vira
uma parte minha que escrevo.
E assim, eu sei que devo,
mas não posso e nem consigo,
parar sem nem começar,
fingir mesmo que não ligo,
deixar a poesia passar.
Mas ela passa
e eu vejo.
E assim,
a cada linha que escrevo,
uma parte minha eu vejo
virar pedra, cinza, pó
mas a outra
líquida e certa,
eu já sei que vai sangrar
feito ferida aberta,
e vira poesia no ar.

Débora Denadai
 

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FOGO

Morna,
tua mão vagueia
outra curva,
outra linha,
a visão turva,
tua mão, morna,
se avizinha
curvas,
linhas,
montes e florestas,
incendeia.
Morna,
tua mão passeia:
curvas se agitam,
mar revolto,
molha a areia.
Areia molhada
e a tua mão
que incendeia.

Débora Denadai

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LEVEZA

No silêncio de nossas bocas
sua palavra me chega:
completa, precisa, correta.
Como um som que aconchega,
embriaga, desperta.
E acende pensamentos
que não censuro ou condeno.
E absorta, saboreio
estes pecados pequenos
cujos sons há muito não ousava.
Sons propícios,
que tudo dizem em silêncio,
que criam vício
e feitos pra quem se joga
sem medo do precipício,
sem tentar medir o risco,
sem preocupar-se com o laço.
Deixemos durar este abraço.
Pelo bem que ele faz,
pela paz que ele nos traz,
pela esperança fincada
no centro de sua existência,
pelo quê de bonança,
por sua simples presença.
Depois de ler seus sons,
suporto minha rotina.
Do calor da sua boca
chegam palavras sem grafia.
E eu entendo todas.
Ganhou leveza o meu dia...

Débora Denadai

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MULHER BONITA

Neste dia inominável
em que a tua ausência
deixa um espaço filho da puta
entre a sanidade e a demência,
esta mulher desmiolada
tem um ataque de inconsciência
e resolve faxinar a casa.
Limpa prateleiras, revira gavetas,
olha escritos antigos,
murmura e faz caretas
e segue na estupidez mórbida
de desenterrar os mortos.
Assombrada por almas-penadas
e outras tantas sem pena,
de tudo reduz-se a nada
e acaba saindo um poema.
E descobre que é verdade
o que tu vives dizendo:
é bela, em realidade
e este é um peso tremendo.
Descobre-se assim, bonita,
e não tem graça a história.
Esta coisa é meio esquisita
e de acordo com a memória
não foi lá grande vantagem.
Só uma mulher bonita
consegue entender a outra.
Sempre acham que faz fita,
que é sonsa, meio tonta.
Temporária, transitória.
Só uma mulher bonita
sabe a merda que é
não conseguir ficar quieta,
deixada num canto qualquer.
Só sendo mesmo bonita
a gente descobre
que a beleza dói até.
Se a gente nega o que é,
é pura falsa modéstia.
Se assume a beleza que tem
vira metida a besta.
Ser bonita pode ser muito bom.
Pra quem ganha algum com isso.
De resto, é muito melhor ser comum.

Débora Denadai

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NÃO NASCI PARA ANJO

Meu compromisso com a vida
resume-se a vivê-la além de suas portas.
Da vida, não saio nem morta.
Meu compromisso com o mundo
consiste em aceitá-lo, sem pretender mudá-lo.
(Até porque, Carlos, não me chamo Raimundo)
Meu compromisso comigo
é ser tão somente a que amo.
Sem rédeas.
Alguns coices podem ser necessários.
Por vezes indispensáveis.
Mas são as regras.
Não me dêem teto.
Dêem-me campo aberto.
Dêem-me estrada,
mas sem o rumo certo.
Não quero raízes.
Dêem-me asas.
De pássaros.
Que não nasci para anjo.

Débora Denadai

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NO ME TOCA

Aunque más quiera
ya lo sé, no me toca
caminar por la calle
llena de álamos de otoño
así amarillos de tu ausencia,
así amarillos como yo.
Ya lo sé, no me toca.
No te puedo olvidar,
porque a mi me toca
solo recordarte
en cada una de las
amarrillas hojas de nostalgia
que van cubriendo las calles
ante mis pisadas
y a mi corazón amarillo
de lo mucho que te extraño.
Solo puedo seguir como ahora
que ya sé, no me toca
Echarte de menos,
No me toca
olvidarme de ti.

Débora Denadai
(SANTIAGO DE CHILE, OTOÑO DE 2005)

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NO MEIO DA MADRUGADA

No meio da madrugada
as horas frias congelam-se
nos dígitos do relógio.
Nelas, congelam-se também
os discursos mais calorosos,
que adormecem.
Ficam entre as palavras
intermináveis vãos
de um silêncio
que congela, entorpece.
Nestas horas congeladas
a santa da luz do dia
ou perde logo os pudores
ou desvaria, enlouquece.
Nestas horas congeladas,
no meio da madrugada,
em que tudo o mais adormece
meu coração acorda
ao som da tua voz e
a minha,
emudece.

Débora Denadai

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POEMA DA MULHER MUITO AMADA

Aquela mulher alada
que voa ao redor de nada,
conheço aquela mulher:
é a mulher muito amada.
Amada não por muito bela,
e não que bela não seja:
ainda assim muito amada
e não porque assim deseja.
Amada por muito bela,
amada não pela beleza,
amada por muitos, ela,
foge das mãos que a desejam.
Amada não por desejada,
e não que não a desejem,
não se quer assim amada,
não busca lábios que a beijem.
Amada não por amável,
e não que seja o contrário,
quer apenas o razoável:
voar trancada no armário.
Voar em seu próprio mundo,
sozinha na multidão,
descer a abismos profundos,
mergulhada no coração.
Aquela mulher alada
cujos passos conheço
é uma mulher cansada:
tanto amor lhe custa um preço.
Aquela mulher amada
que alada, voa, flutua,
não quer viver adornada:
quer simplesmente estar nua.
Nua, mesmo vestida,
amada, por razão nenhuma;
livre, mesmo contida,
ela é muitas e é só uma.

Débora Denadai

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POEMAR

 

POEMAR

Fazer poesia
é lavar a alma
fazendo sangria

Débora Denadai

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PUDERA

Pobre deste poema
que ficou no passado,
por falta de pena
ou por pouco caso.
Pobre poema este
que dizia tanto
mas a quem não deste
nenhum sonho, encanto.
Pobre deste poema
que no passado era
e que agora, pena,
só virou "pudera"...

Débora Denadai

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