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Brites dos Santos

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30 Poemas Editados

- A Besta I

- A Besta II

- A Besta III

- A Besta IV

- A morte de um amigo

- A Noite! Ah! A noite

- As Calúnias

- Algo de muito mau fizemos às palavras

 

- As pessoas andam perdidas

 

- A vida é feita de coisas simples

 

- Certa noite numa casa de fado

- Cheguei

- Corpo Exposto

- Deixem-me estar sossegado

- Dois beijos na cara

- Estou a escrever neste papel cor de mel

- Eterno enredo

- Eu olho o monumento

- Fica para a história

- Morreu o Papa

- Nesta comédia há motivos para todos os gostos

- O homem do fatinho

- O que mais aprecio numa mulher

- Os silêncios

- Pediste-me uma rosa

- Quem me ajuda a responder-me

- Sei

- Sr. Director

- Sua Excelência...

- Tudo morreu

 

 

 

Algo de muito mau fizemos às palavras

Algo de muito mau fizemos às palavras

 

 

É minha opinião

Que algo de muito mau fizemos às palavras.

As palavras parecem estar em vias de extinção.

Não é possível que as palavras

Tenham sido sempre bem tratadas.

Até o verdadeiro significado têm perdido.

Até já há palavras sem sentido.

Até já há palavras que estão a deixar de ser palavras.

Gastámos as palavras?

Será que gastámos as palavras?

E o que é mais assustador

É que são as palavras mais belas

Aquelas

Que estão a ter menor valor.

Amizade,

Carinho,

Ternura,

Amor,

Paixão...

É minha opinião...

Não... não quero ter opinião....

É melhor deixar perguntas para reflexão...

Estamos a traficar as palavras?

Ou os sentimentos?

Há um mercado de palavras?

Ou de sentimentos?

O que fizemos às palavras?

E aos sentimentos?

 

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As pessoas andam perdidas

As pessoas andam perdidas

 

 

As pessoas andam perdidas

Lição de coisas – Octávio Paz

As pessoas andam perdidas,

Distraídas...

Muitas vezes!

As pessoas desencontram-se,

Odeiam-se...

Muitas vezes!

As pessoas ignoram-nos,

Nós ignoramos as pessoas...

Muitas vezes!

Às vezes

E isso já é uma arte

Que se cultiva,

As pessoas também se amam

E fazem a vida mais viva...

Eu quero amar-te!

 

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CERTA NOITE NUMA CASA DE FADO

CERTA NOITE NUMA CASA DE FADO

 

 

 

(Resposta a um certo fadista, daqueles que andam por ai a estragar o fado, numa certa noite, numa certa casa de fado de uma grande amiga minha.)

 

Certa noite numa casa de fado,

Um senhor muito aperaltado,

Com todo o desprezo

Que na altura escolheu,

Apresentou um poema meu.

Para minha grande surpresa

Da boca desse senhor importante

E muitíssimo elegante

Ali plantado no palco, em pé,

Saíram palavras espantosas

E ao mesmo tempo saborosas:

"Isto que vão ouvir é

um poema...uma prosa...ou lá o que isso é..."

Minhas senhoras e meus senhores,

Senti um frio gelado.

Fechei-me durante segundos arrasadores...

Consegui ficar calado!

São sempre assim

Esta raça de grandes conhecedores.

Escondem os intentos.

Brincam aos talentos.

Traficam os sentimentos.

Nunca tiveram nem nunca irão ter tempo

Para aprender

Que tudo se deve fazer com sentimento

Ou então mais vale não fazer.

Se se canta o fado

Não basta estar engravatado

Fechar os olhos, apagar as luzes, acender umas velas

E debitar umas tristes balelas

Que as leva facilmente qualquer vento.

Porque se se canta o fado

Tem de se cantar com sentimento.

 

Se se está com um amigo

Não basta falar e prometer

É preciso estar e perceber.

É preciso dar para receber

É preciso paz e tormento

E preciso rir e chorar

Tudo sem fingimento.

Porque se se está com um amigo

É preciso estar com sentimento.

Se se ama alguém

Não basta simplesmente amar.

Não basta simplesmente acariciar.

Não basta terminar

Numa qualquer cama

Em jeito de divertimento.

É preciso dizer que se ama

E sempre de uma forma diferente.

É preciso não rodar como um cata-vento.

É preciso estar sempre presente.

Porque se se ama alguém

É preciso amar com sentimento.

Também a poesia para ser poesia

Tem de ser isso tudo,

Sob pena de ser um acto mudo.

Que me interessam as rimas

Se eu sei que homem e mulher rimam com amor?

Que lágrimas podem rimar com alegria

E que criança rima sempre com ternura?

Que me interessam as rimas

Se eu sei que mundo rima com esperança?

Que amizade não rima com brutalidade

E que inocência nunca poderá rimar com violência?

Que me interessam as rimas,

As palavras acorrentadas

Em versos todos certinhos,

Matematicamente ordenados,

Todos do mesmo comprimento

Se deles não brotar sentimento?

Ah! é isso que eu defendo

E por isso aqui escrevo contra esses senhores.

Podem chamar-lhe esses falsos conhecedores,

"Poema...prosa...ou lá o que isso é...",

Comentando tudo com um ar muito divertido,

Que eu continuarei a afirmar com alarido,

Só é poesia

O que é sentido.

Só é poesia

O que é vivido.

Só é poesia

O que vem de dentro.

Só é poesia

Se existir sentimento!

 

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DOIS BEIJOS NA CARA

DOIS BEIJOS NA CARA

 

 

Quando te dei

Dois beijos na cara

Queria ter-te dado na boca.

E tudo soube

A coisa pouca!

tudo soube

a coisa pouca,

porque eu queria ter-te dado na boca

os dois beijos

que te dei na cara!

eu queria ter-te dado na boca

os dois beijos

que te dei na cara

por isso tudo soube

a coisa pouca!

os dois beijos

que te dei na cara

souberam a coisa pouca

porque eu queria

ter-tos dado na boca!

e não consigo

pensar no perigo,

só penso que será

sempre coisa pouca

enquanto não devolver

á tua boca

os dois beijos

que te dei na cara!

 

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Estou a escrever neste papel cor de mel

Estou a escrever neste papel cor de mel

 

 

Estou a escrever neste papel

Cor de mel.

Tão simples

Tão nada

Tão cheio de significado

Tão bocado

De coisa nenhuma

Como qualquer papel.

Mas este papel

Já o tiveste nas tuas mãos

Já o acariciaste

Já o apertaste

Este papel já o tiveste nas tuas mãos...

Vou guardar este papel

Cor de mel

Agora é meu.

Estás cheio de palavras da cor do céu

Está cheio de palavras minhas

A ternura?

Não sei onde pode caber...

Não sei quanto dura...

Talves um dia te ofereça este papel

Pintado de palavras tuas

Será um dia

Com sabor a mel...

 

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EU OLHO O MONUMENTO

EU OLHO O MONUMENTO

 

 

6 de julho de 2000 às 8h55m

Eu olho o monumento

E não consigo ficar chocado!

Vejo atrás um edifício desmoronado

Vejo uma pedra e outra e outra prestes a cair

Tudo ameaça ruir...

Eu olho o monumento

E fico a pensar nos significados

Vejo um regime feito aos bocados

Vejo duas colunas antes majestosas

E agora um pouco menos que andrajosas...

 

Eu olho o monumento

E vejo alguma coisa nova que se levanta

Vejo alguma coisa que espanta e se espanta

Vejo uma força nova a querer nascer

Vejo as bases em esforço a sustenta-la para ela crescer...

 

Eu olho o monumento

E não me apetece entrar na estúpida rixa

Olho e torno a olhar e não consigo ver uma picha!

Não consigo entrar no insulto barato

Porque aquilo que eu vejo é um retrato!

E ouço a água tranquila a correr.

Fecho os olhos... sinto-me estremecer!

Há uma qualquer coisa que me invade.

Não é por acaso que ao fundo...

nasce a avenida da LIBERDADE !!!!

 

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FICA PARA A HISTORIA

FICA PARA A HISTORIA

 

Fica para a historia.

Mas o que é que fica

Para a historia?

Tanta coisa que fica

Para a historia.

Mas que tanta coisa fica

Para a historia?

Mas o quê?

Mas porquê?

Mas para quê?

Ora agora

Vejam lá

Temos cá

Tanta exigência!

Que indecência.

Nada mais te conto.

Fica para a historia e pronto!

Mas o quê?

Mas porquê?

Mas para quê?

Mas o quê?

Tens de precisar.

Tens de ser mais exacto.

Mas porquê?

Tens de te afirmar.

Tens que ter mais tacto.

Mas para quê?

Tens de perguntar

Ao bonito discursar.

Mas o quê?

Mas porquê?

Mas para quê?

Ora agora

Vejam lá

Temos cá

Tanta exigência!

Que indecência.

Nada mais te conto.

Fica para a historia e pronto!

Mas o quê?

Mas porquê?

Mas para quê?

Nada mais te conto.

Fica para a historia e pronto!

Nada mais te conto.

 

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MORREU O PAPA!

MORREU O PAPA!

 

Morte de Paulo VI 29 de Setembro de 1978, as 9.00 horas,

Eleito João Paulo I que morreu 28 dias depois.

Mais tarde eleito João Paulo II.

 

 

 

 

Morreu...

Morreu quem?

Morreu o Papa!

Pois morreu, grande novidade.

Morreu o Papa Paulo!

Claro que morreu, até já há outro...

Morreu o Papa Paulo I!

Era VI, Pá.

Era I que eu sei!

Tu estás mas é com os copos.

Era I, Era João e era Paulo!

Heim?...

Morreu o Papa João Paulo I!

Não me digas...

 

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Nesta comédia há motivos para todos os gostos

Nesta comédia há motivos para todos os gostos

 

 

Nesta comédia há motivos para todos os gostos

Querem o mote?

Já viram uma pessoa comer de um caixote?

Ter um caixote do lixo a servir de bufete?

Eu já vi um ministro a gastar milhares num banquete!

Já viram uma pessoa não ter casa para viver?

Ter apenas a rua, uma caixa de papelão e um tapete?

Eu já vi um presidente a viver sozinho num palacete!

Já viram uma pessoa não ter roupas para vestir?

Ter uns trapos rotos e sujos como unico tesouro?

Eu já vi um papa vestido de ouro!

Já viram uma pessoa morrer por falta de assistência médica?

Ter todo o medicamento de que necessita, ausente?

Eu já vi um administrador ser assistido sem estar doente!

Eu já vi uma pessoa comer do caixote,

Não ter casa para viver,

Não ter roupa para vestir,

Morrer sem assistência médica,

E o ministro, o presidente, o papa, o administrador

Apoiarem o agressor!

 

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O homem do fatinho

O homem do fatinho

 

 

Fatinho

Clarinho,

Camisinha,

Gravatinha....

Chegou apressado.

Mea culpa?

Não Senhor,

Não pediu desculpa.

Instalou o software

Finalmente!

Diz ele de repente.

Parecia que não queria

Mas afinal quer

Começar

A sua apresentação.

Estava a ver que não...

E começou.

Debitou.

Informou.

Desinformou.

Não formou.

E saiu de repente.

Como chegou.

Apressadamente.

Os outros?

Ele quer lá saber dos outros!

 

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O QUE MAIS APRECIO NUMA MULHER

O QUE MAIS APRECIO NUMA MULHER

 

O que mais aprecio numa mulher,

Já to disse uma ocasião,

São as mãos.

Não sei definir como elas devem ser.

Só sei que têm de me despertar a atenção.

Só sei que tenho de sentir uma irresistível vontade

de as olhar mais do que uma vez.

Só sei que têm de ter a grande qualidade

De exercerem sobre mim uma grande, uma enorme atracção.

Para mim

Uma mulher

Tem de ter

Umas mãos assim

 

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PEDISTE-ME UMA ROSA

PEDISTE-ME UMA ROSA

 

 

Um dia, graciosa,

pediste-me uma rosa.

querias a flor mimosa,

que tornasse cheirosa

a nossa noite ansiosa.

Não és uma mulher vaidosa,

mas tinhas uma expressão gulosa,

quase melosa,

quando desejosa

me pediste a tal rosa.

Sei que não és ardilosa.

Nem tão pouco invejosa.

direi antes que és caprichosa

e também amorosa

mas o teu pedido de uma rosa

deixa-me numa situação perigosa.

Se não te der a flor valiosa,

é uma atitude vergonhosa

porque te deixo desgostosa.

Se te dou a flor apetitosa,

é uma situação embaraçosa.

só te a dou, porque zelosa,

me pediste essa oferta carinhosa.

Tomei então uma decisão dolorosa.

dou-te um poema em forma de rosa

e beijo a tua boca gostosa.

e quem sabe mulher sequiosa,

talvez numa qualquer noite saborosa,

ao beijar a tua pele deliciosa,

te faça então a surpresa vaporosa

de te oferecer... uma rosa!

 

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QUEM ME AJUDA A RESPONDER-ME?

QUEM ME AJUDA A RESPONDER-ME?

 

(Duas tentativas de resposta para a loucura dos homens)

 

Abro o jornal,

"A Capital"

De sexta-feira

E não posso senão comover-me

Com o apelo angustiado

Da Maria Rosa Colaço.

"Quem me ajuda a responder-me?".

Também o faço.

Por todo o lado.

Também pergunto porquê.

E não há quem justifique

Porque há Sudão, Somália, Moçambique...

E não se pode parar?

Pelo menos...parar?

é verdade,

"...Dói olhar"!

Amigo?

Conhecemos a palavra.

Compartilhar?

Conhecemos a palavra.

Amor?

Conhecemos a palavra.

Conhecemos as palavras.

Apenas as palavras.

Não lhes damos maior importância.

"A grande mesa da abundância"?

"Para todos"?

Aquelas palavras estão gastas.

Estamos a dar mais valor

As palavras nefastas!

ódio em vez de Amor.

inimigo em vez de Amigo.

roubar em vez de Compartilhar.

Claro que há quem não gosta!

Vamos lembrar que há Amor.

Vamos reaprender o Amor.

Vamos reinventar o Amor.

Primeira resposta!

Claro que há abutres.

E não vão permitir.

E vão sorrir.

E vão rir.

E vão destruir.

é preciso descobrir

Onde estão!

Parecem gente.

Fazem e dizem coisas que parecem boas.

Parecem pessoas.

Quase ninguém pressente

A besta.

Fazem a festa.

Alimentam a festa.

Destrocem a festa.

é preciso descobrir

Onde estão!

Agora!

é preciso deitar fora

O que não presta.

Com força, determinação, alento.

Como quem quer ganhar uma aposta.

Enquanto nos resta

Algum tempo.

Segunda resposta!

Só depois será possível pensar

Em Compartilhar.

Em Viver.

Olhar,

Nunca mais ira doer...

 

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Sua Excelência o senhor ministro da cultura

Sua Excelência o senhor ministro da cultura

Comemorou o dia mundial da poesia.

 

 

Sua Excelência o senhor ministro da cultura

Comemorou o dia mundial da poesia.

Transformou uma alegre tarde de sol numa tarde triste e escura

Sem poetas na rua, sem poetas convidados, sem poetas

A poesia se poesia existia estava solitária nuns tímidos papeis de cor

Sua Excelência o senhor ministro da cultura

Comemorou o dia mundial da poesia.

Atingiu certamente muitas das suas inconfessáveis metas

mas não atingiu a poesia, nem o sentimento, nem o amor

porque não tinha consigo os poetas.

Sua Excelência o senhor ministro da cultura

Comemorou o dia mundial da poesia.

E lamentavelmente esqueceu-se dos poetas

Sua Excelência o senhor ministro da cultura

Comemorou o dia mundial da poesia.

Sem as mulheres e os homens criadores da poesia

E dois dias depois eu estive num encontro de poesia

Onde se pediu "encarecidamente" aos poetas para não dizerem poesia!

Por favor! que mundo é este que fecha as portas à poesia

mesmo quando se fala e age em nome da poesia?

Sua Excelência o senhor ministro da cultura

Comemorou o dia mundial da poesia.

O que é que eu faço com o dia mundial da poesia?

Todos os dias para mim são o dia mundial da poesia!

A mim não me apetece desatar em histéricos prantos.

Não me apetece citar Cristo, nem Deus, nem Anjos, nem Santos.

Não me apetece desatar alegremente em estúpidas gargalhadas

Apetece-me simplesmente falar de nomes de pessoas

mesmo que esses nomes não tenham métrica nem rima

e que portanto as palavras não se possam considerar poeticamente boas

Al Berto, Alexandre O'Neil, Almada Negreiros,

Almeida Garrett, Antero de Quental, António Aleixo,

António Botto, António Gedeão, António Nobre,

Aragon, Bertolt Brecht, Castro Alves,

Cesário Verde, Bernardim Ribeiro, Camilo Pessanha,

Carlos Drumond de Andrade, Eugénio de Andrade, David Mourão Ferreira,

Federico Garcia Lorca, Fernando Pessoa, Florbela Espanca,

Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Herberto Helder,

Joaquim Namorado, Joaquim Pessoa, Jorge de Sena,

Jorge Luís Borges, José Afonso, José Carlos Ary dos Santos,

José Gomes Ferreira, José Régio, Luíz Vaz de Camões,

Machado de Assis, Manuel Alegre, Manuel Maria Barbosa du Bocage,

Mario Cesariny, Mário de Sá Carneiro, Mario Dionísio,

Mário Henrique Leiria, Mia Couto, Miguel Torga,

Natália Correia, Norge, Octávio Paz,

Pablo Neruda, Paul Éluard, Ruy Belo,

Sérgio Godinho, Sophia de Melo Breyner Vinícios de Moraes,

E tantos, tantos mais meu Deus,

E são todos nossos e são todos meus!

 

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A NOITE? AH! A NOITE

A NOITE? AH! A NOITE

 

 

(Parte I)

 

Esta trilogia mais a sua conclusão foi escrita para o programa "Os olhos da lua" de Raul Solando. Foi enviada mas não considerada.

18 de Outubro de 1991

 

A noite?

Ah! a noite.

Não me faças sonhar.

Eu posso não conseguir

Parar

E ir por ai fora

Deslizando de hora em hora

Como quem chora

Sem conseguir

Parar.

A noite?

Ah! a noite.

Faz-me sonhar

Meu amor.

Ajuda-me a atravessar

A rua.

Não me deixes parar.

Ajuda-me

A olhar a lua.

Ajuda-me

A vencer os escolhos

E deixa-me beijar

Os teus olhos.

A noite?

Ah! a noite...

Eu sei lá o que é a noite.

Sair por ai fora?

Deslizar de hora em hora?

Atravessar a rua?

Olhar a lua?

Vencer os escolhos?

Beijar os teus olhos?

A noite?

Ah! a noite...

Eu sei lá o que é a noite.

 

 

EU OLHO NA NOITE E VEJO

 

(Parte II)

 

Eu olho na noite e vejo

Melhor do que de dia.

Vejo o desejo,

Vejo a alegria,

Vejo a verdadeira idade

Da minha Cidade,

Vejo a Liberdade,

Vejo os meus amigos,

Vejo também

Os que não são meus amigos,

Vejo-os a todos muito para além

Do que eles parecem ser

De dia.

De noite,

São todos diferentes.

São todos transparentes.

Eu olho na noite e vejo

Melhor do que de dia,

Quando despejo

O meu olhar sem defesa

Na riqueza

Duma noite de luar.

Quando despejo

O meu olhar sem defesa

Na pobreza

Duma noite sem luar.

Eu olho-me na noite

E vejo-me muito para além

Do que pareço ser

De dia.

De noite,

Também eu sou diferente!

Também eu sou transparente!

Eu olho na noite e vejo

Melhor do que de dia.

E invejo

Os que podem viver a vida nela.

Jantar a luz de uma vela!

Olhar uma mulher bela!

Viver com requinte

Uma aventura louca

E acordar no dia seguinte

Ainda com o seu sabor na boca...

Eu olho a noite

E não paro de a admirar,

Eu olho a noite

Sem coragem de a abandonar,

Eu olho a noite

E penso que estou de passagem,

Mas acabo sempre,

Sempre,

Por voltar.

 

 

 

É MESMO DE NOITE QUE SE SONHA

 

(Parte III)

 

É mesmo de noite

que se sonha,

Mesmo que não se tenha

Aprendido

A sonhar.

Ninguém me venha

Acordar.

Ninguém me venha

Dizer que estou enganado.

Ninguém me venha

Tentar convencer

Que estou perdido.

Digo-o sem vergonha:

É de noite que tenho sonhado

Os meus sonhos mais belos!

É mesmo de noite

Que se sonha.

De olhos fechados,

Mas sempre abertos.

De olhos semi cerrados,

Mas sempre despertos.

De olhos acompanhados

por outros olhos.

No meio doutra gente.

De corpo bem presente.

É mesmo de noite

Que se sonha!

Que se unem os elos

Da amizade,

Do amor, dos encontros,

Da verdade...

Não! não me envergonho.

É de noite que sonho

Os meus sonhos mais belos!

 

 

 

QUANDO ANDO NA NOITE

 

(Conclusão)

 

Quando ando na noite

Sou ainda mais plebeu.

Quando ando na noite

Sinto que sou mais eu

E não um outro qualquer.

Quando ando na noite

Escuro como breu

Sou capaz de esquecer

A farsa do dia.

Quando ando na noite

Vai-se a mesquinharia,

Vai-se a aldrabice,

Vão-se os sensaborões,

São possíveis as discussões.

Quando ando na noite

Ah! quando ando na noite!

Sabem? Sinto que entrar na noite

É atravessar a rua

Para um outro lado da vida,

Por vezes um pouco amarelecida,

E vê-la de uma cor mais garrida.

É olhar a lua...

Quando ando na noite

Ah! quando ando na noite!

Sabem? vejo melhor do que de dia.

Sou capaz de olhar

Haja ou não haja luar,

É indiferente,

E sentir-me transparente

E sentir o meu amigo também transparente.

Por isso acabo sempre,

Sempre, por voltar.

Quando ando na noite

Ah! quando ando na noite!

Sabem? é mesmo de noite

Que se sonha.

Sem querer tentar convencê-los

Afirmo-vos que é de noite

Que tenho sonhado

Os meus sonhos mais belos!

Não, não tenho vergonha

De o dizer.

Esses sonhos são à minha medida.

São a minha vida.

Adeus noite.

Minha querida.

Deixo-te.

Adorei a companhia.

Prometo voltar...

No fim do dia!

 

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A VIDA É FEITA DE COISAS SIMPLES

A VIDA É FEITA DE COISAS SIMPLES

 

 

A vida, é feita de coisas simples.

A vida simples, é feita de coisas.

A vida, de coisas simples é feita.

A vida de coisas feita, é simples.

As coisas simples, fazem a vida.

As coisas simples, são feitas de vida.

As coisas, fazem a vida simples.

As coisas, de vida simples são feitas.

Simples são as coisas de vida feita.

Simples é a vida que é feita de coisas.

Simples são as coisas que fazem a vida.

Simples são as coisas de que a vida é feita.

Portanto,

Feita é a vida de coisas simples.

E enquanto a vida for feita de coisas simples,

A vida é simples.

Nós,

É que tanto andamos, tanto andamos...

Que a complicamos!

 

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CHEGUEI
CHEGUEI
 
Cheguei.
Parei.
Esperei.
Pensei.
Desejei.
Olhei.
Reparei.
Puxei
Dum papel.
Escrevi.
Li.
Reli.
Pensei em ti.
Como quem pinta
Um quadro a pincel.
Parei.
Escrevi
Num papel
Um quadro a pincel.
O quadro?
Não era abstracto.
Quando olhei, 
Imagina,
Era o teu retrato.

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Corpo exposto
Corpo exposto

Corpo exposto
Corpo imposto
Corpo de que gosto 
podia ter sido em agosto
mas foi em antegosto
e foi tudo reposto
na forma de anterrosto
o meu corpo encosto
quase posto
sentir é suposto
quero ver o rosto
é o meu único desgosto
saio do meu posto
a contra gosto
sem ver o que tinha proposto
já não aposto
estou decomposto
estou indisposto
e vinha predisposto
para admirar o sobreposto
e uma vez o obstáculo transposto
não consegui ver o lado oposto...

 

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Deixem-me estar sossegado
Deixem-me estar sossegado
 
Deixem-me estar sossegado.
Estou a pedir-vos para me deixarem estar sossegado.
Porque é que não me deixam estar sossegado ?
Estou farto de vos dizer.
Estou farto de vos pedir
E tremo só de perceber
Que não querem ouvir
Que eu não quero ser um alinhado
Muito bem educado,
Cuidadosamente engravatado
Com uma gravata de ultima moda
Cheia de bonecos e saliências.
Não quero ser alguém que se acomoda
Nessas inúteis aparências
Quero antes ser alguém que se incomoda!
Ouviram bem? Alguém que se incomoda!
Até já me têm criticado 
Por não andar engravatado!
Por favor deixem-se dessas insistências,
Eu não quero ter estampado
Numa cara de ridícula anedota
Um sorriso falso e idiota,
Um daqueles sorrisos que querem parecer verdadeiros
Pretensamente saídos de gentis cavalheiros
Mas que mais se assemelham a tristes esgares
Saídos afinal de falsos cavalheiros.
Deixem-me estar sossegado.
Estou a pedir-vos para me deixarem estar sossegado.
Não, já vos disse que não.
Não quero ir a jantares.
Vão vocês aos jantares.
Comam tudo e divirtam-se bastante
Nesses horríveis e entediantes jantares.
Eu não quero estar presente nem por um breve instante.
Já disse que não quero ir.
Não me obriguem a ir.
Porque é que me querem obrigar a ir?
E ainda por cima com o reles argumento
De que os jantares fazem parte das obrigações profissionais?
Até posso ser considerado um jumento,
Não me importo que me considerem um jumento,
Mas essa é demais...
Não quero ir,
Já disse que não quero ir!
E depois as conversas são sempre muito inteligentes
E eu não gosto de conversas inteligentes
Porque eu não sou inteligente.
Fala-se sempre e inevitavelmente
Com muita importância e muitos ares
De bons e grandes conhecedores,
Do excelente vinho da região tal,
Da marca tal,
Com um sabor tal,
Que acompanha muito bem não sei o quê.
Fala-se sempre e inevitavelmente
Com muita importância e muitos ares
De bons e grandes conhecedores,
De excelentes restaurantes
Onde se come muito bem não sei o quê.
Fala-se sempre e inevitavelmente
Com muita importância e muitos ares
De bons e grandes conhecedores,
De assuntos muito importantes.
De assuntos confidenciais e muito importantes!
Deixem-me estar sossegado.
Estou a pedir-vos para me deixarem estar sossegado.
Eu não quero pertencer à galeria dos importantes.
Porque é que eu hei-de pertencer aos importantes?
Eu não preciso de ser importante.
Ouviram bem?
Eu não quero ser importante.
Porque eu não sou importante.
Eu não quero entrar em surdas lutas de poder
Porque eu não quero ter poder!
Deixem-me estar sossegado.
Estou a pedir-vos para me deixarem estar sossegado.
Eu não preciso de conversas de bastidores.
Sejam vocês sozinhos traidores e estupores.
Sejam vocês sozinhos senhores doutores.
Eu não preciso de intrigas
E até faço figas
Para que se esqueçam de mim
Ouviram bem? Esqueçam-se de mim
Estou a pedir-vos encarecidamente que se esqueçam de mim.
Se vos dá assim tanta satisfação
Serem pessoas importantes
Sejam importantes sozinhos
Sejam elegantes sozinhos
Sejam conhecedores sozinhos
Mas comigo... não!
Eu quero estar de fora dessa relação carniceira
Quero estar sozinho à minha maneira!

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A BESTA I

Fazia parte da manada de incompetentes
Ninguém sabia quem ele era exactamente
A ninguém a besta mostrava os dentes
Porque a besta não se misturava com gente

Um dia foi posto a andar, foi corrido,
Finalmente concluíram, não servia para o lugar
Mas não o deixaram a apodrecer esquecido
Transformaram-no, deram-lhe poder para usar

Passou a pertencer de direito a outra manada
Muito mais selecta muito mais cavalar
Para sem pudor poder tratar os outros à pedrada

Sendo o campeão da ignorância desmedida,
Semeando merda asquerosa ao rastejar,
Assim a besta conseguiu ser promovida.

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A BESTA II


A besta infame exige aos outros agora
O que nunca teve competência para fazer
A besta vai vomitando a toda a hora
Todo o fel que a autorizam a verter

Para cima de quem pela frente lhe aparece
Sem que ninguém tenha poder para se desviar
A besta agora faz o que muito bem lhe apetece
Já tem competência para dar e para vender

Paralisados pelo medo não há quem a faça parar
Nesse seu cego, estúpido e absurdo caminhar
Usa as falsas e eficazes armas da simpatia

E embora os que o rodeiam em nada acreditem
Cobardemente dominados pelo terror tudo admitem
E vão com isso alimentando a besta dia a dia

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A BESTA III


Parece ser um pavão a pavonear-se
Mas o brilho das suas penas não existe
Nem há nada que essa ausência disfarce
Apesar disso pavoneia-se, não desiste

E como tem que lhe diga que tem penas
Grandes, coloridas e  muito bem feitas
Ele continua impunemente a fazer cenas
Que imagina serem cenas perfeitas

Dono de garras horríveis e fedorentas
Emana um mau hálito mais que vergonhoso
Das suas engenhosas e doutorais ventas
  
É o campeão dos campeões da hipocrisia
Até que um dia alguém menos cauteloso
O mande definitivamente para a sua tia.

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A BESTA IV


A sua sede e avidez primária de vingança
Não conhece qualquer espécie de limites
Não pode ser humana a sua intemperança
Tem o cérebro preso com fracos rebites

Em tudo o que diz sente-se o ódio destilar
E é desse processo vil que se alimenta
Põe-se em bicos de patas para brilhar
E é dessa vaidade infame que se sustenta

Aumenta visivelmente, todos os dias, de tamanho
Está cada dia mais imenso, grande, inchado
Transpira pateticamente, banha, suor e ranho

Contamina o ar por onde passa, torna-o viciado
E tem poderes para obrigar todo o rebanho
A ter que respirar o ar por ele impestado 

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A MORTE DE UM AMIGO
14 DE JULHO DE 2002

 
Comecei terrivelmente o dia. 
De novo a morte de um amigo 
Me atirou para esta agonia. 
Já nem sei o que falo ou o que digo 
 
Porque a morte tem de levar um jovem 
Assim desta vida de repente? 
Inocente, feliz, um bom homem 
O meu amigo Carlos Valente. 
 
Eu nunca conseguirei perceber 
Tamanha e tão bruta crueldade. 
Porquê? Qual é a necessidade? 
 
Nunca terei essa capacidade. 
Adeus amigo. Um abraço de amizade. 
Um dia voltar-nos-emos a ver.

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AS CALÚNIAS


Não me digas!
Digo-te sim.
E te dignas?
Digno-me sim.

P’ra que serve?
Isso não sei.
Ainda qu’enerve?
Isso não sei.

É verdade?
Tem bondade?
Tem cuidado

Não deslizes
No que dizes
Está calado!

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ETERNO ENREDO

Os rios da nossa vida
Grandes ou pequenos rios
Suportam desafios
Abrindo amargas feridas.

Nunca sei o que fazer
P’ra aliviar mordaças,
Para suster ameaças
Com muito ou pouco poder.

Vou aprendendo aos poucos
A ouvir todos os loucos
Como se fossem gente sã.

Ouço-os hoje e amanhã.
Será esse o grande segredo
Deste eterno enredo?

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OS SILÊNCIOS

Os silêncios costumam ser de ouro
Toda a vida ouvi isso dizer
Eu não sei se têm sempre de ser
Mas admito que sejam um tesouro.

Os silêncios costumam ser bons 
Porque quando se está calado
Não se pode ser indelicado
Por inconvenientes maus sons...

Mas eu mantenho ainda para mim
Que a vida não será bem assim
Estar calado e não dar opinião

Será fácil ser um paspalhão
Ver a vida ir veloz passando
E não ir por vezes opinando!

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Sei

Ontem
Homem
Mais
Jamais

Ontem
Somem
De vez
Talvez

Sais
Vais
vens

Tens
Sei?
Sei!

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SR DIRECTOR

Olhou de frente o senhor d-i-r-e-c-t-o-r.
Preciso de falar consigo senhor d-i-r-e-c-t-o-r.
Sem hipocrisias senhor d-i-r-e-c-t-o-r.
Acha que é possível senhor d-i-r-e-c-t-o-r ?

Claro que sim disse o senhor d-i-r-e-c-t-o-r.
E quando pode ser senhor d-i-r-e-c-t-o-r ?
Para a semana disse senhor d-i-r-e-c-t-o-r.
Apenas para a semana senhor d-i-r-e-c-t-o-r ?

É importante p’ra mim senhor d-i-r-e-c-t-o-r.
Para a semana repetiu o senhor d-i-r-e-c-t-o-r.
Olhou de frente o senhor d-i-r-e-c-t-o-r.

Avançou para o senhor d-i-r-e-c-t-o-r.
Esticou o pescoço para o senhor d-i-r-e-c-t-o-r.
E escarrou na boca do senhor d-i-r-e-c-t-o-r.

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Tudo morreu

Lembras-te do tempo da inocência? 
Do tempo em que de tudo ríamos? 
Era um tempo de clarividência 
Um tempo em que nada exigíamos. 
 
Lembras-te do amor que sentíamos? 
Era recíproco, era natural, 
Era paixão o que vivíamos 
Nada era capaz de nos fazer mal. 
 
Mas a vida tem espinhos e rosas 
A vida tem ameaças perigosas 
Terrivelmente difíceis de evitar 
 
Prontas a destruir e a matar 
E foi isso que nos aconteceu 
Tudo o que havia de bom… morreu!

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