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Armando Diorio

Ultima actualização

08/03/2005

Agenda  As esquinas da lua  Contos  Crónicas da Net  Entrevista Galeria de arte  Livro de visitas  Ecos do Ressoa

  Os poetas do canal  Página Inicial Poemar na escola  Poemas ditos  Ressoa Página pessoal

25 Contos Editados

- A moto cinza em alta velocidade

- Agonia

- Água, água, água

- Ajudem-me a enterrar o Lucas

- Alvos Perfeitos

- Cemitério de abortos

- Coelhos

- Desculpe foi engano

- Esqueci

- Fragmentos

- Imitação barata de um diário

- Manual do jeitinho brasileiro

- Natal improvisado

- O apartamento tomado

- O bolo de aniversário da tia Tereza

- O colecionador de lágrimas

- O dia em que bati com as botas

- O dia em que Dona Matilde viu o Presidente

- O sofrimento mora ao lado

- Parquinho de diversão

- Profissão repórter

- Quer dar uma olhadinha no cardápio?

- Recado do menino rico para o menino pobre

- Retrato sem retoques de um pai NOVO

- Solidão NOVO

- Trechos do diário de um homofóbico

- Trens lotados

- Última visita

- Uma diversão no mínimo estranha

- Uma palavrinha sobre...

Foto de: Sete Sois

Lagoa Azul

 

 

 

  A moto cinza em alta velocidade.

 

Murilo tentando chegar a tempo para a prova na faculdade. Um bêbado, um caminhão e uma fechada brusca. O corpo inerte de Murilo, sem capacete, arremessado ao lado oposto da calçada. Assim se despediu deste mundo o único filho do meu melhor amigo. Sandro era apaixonado pelo filho. A mãe, numa manhã de carnaval, fez as malas, escreveu uma carta cheia de erros e desapareceu.

Agora Sandro terá de condenar ao esquecimento todos os sonhos e projetos lançados sobre o filho. Quem bem os conheceu, jamais intuiria a tragédia.

Reconhecer um filho de 21 anos, gelado ate não mais poder, deitado quieto numa maca e sendo puxado por um funcionário estressado de dentro de um freezer é um dos testes mais difíceis aplicados pela vida.

Interessante observar que Sandro, poucas semanas antes, esteve comigo no cine Belas Artes assistindo ao estupendo O Quarto do Filho. E ao assistir ao lacramento do caixão, viu-se mergulhado no sofrimento daquele pai na tela.

Não tive coragem de deixar Sandro sozinho no velório. A pequena e abafada sala ficou repleta de jovens, amigos da faculdade. A namorada de Murilo rezou um mantra debruçada no caixão. Sandro permaneceu calado, olhando fixamente um ponto no espaço e segurando firme uma foto 3x4 do filho, tirada para a matricula num clube. Faltavam 5 minutos para as 23h quando Sandro me fez um pedido:

- Armando, por favor, me acompanhe ate o apartamento amanhã após o enterro.

Quando o vidro do caixão embaçou, Sandro não disfarçou a emoção, disse-me que a partir daquele momento o filho começava a desaparecer.

Eram 17h45 quando os coveiros terminaram o serviço. Chovia. Cheguei ao apartamento de Sandro, fechado desde o trágico acidente, as 19h15. No elevador, Sandro respirou fundo e enxugou o suor da testa. Quando girei 3 vezes a chave na fechadura, vi meu amigo sentado no chão do hall, esfregando a cabeça com as mãos. Acendi a luz da sala e o cheiro de mofo bateu forte no meu nariz. Sobre a cómoda, vários porta-retratos com pai e filho em diferentes momentos de felicidade. Carregamos uma maquina fotográfica para registrar cada traço do filho no apartamento: a camiseta suada sobre o banco de supino; os cds de blues num local de fácil acesso; uma tela com um esboço de paisagem; um frasco de perfume aberto; a guitarra sobre a cama; uma carta inacabada; um pedaço de unha sobre o tapete, etc...

- Armando, da ainda para sentir a presença dele?

- Sim.

- Armando, para onde foi o meu filho? Por que fui obrigado a deixá-lo naquela sepultura suja e escura? Vê este sofá, repare no lugar em que ele sempre sentava, esta mais baixo.

Sandro reformou duas vezes o apartamento. O quarto do filho continua intocável, principalmente os ténis, enfileirados. Quanto as fotos nos porta-retratos, com o auxilio de um programa de computador, faz alterações nas feições do filho a medida em que o tempo passa.

armando diorio/9h55

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  O SOFRIMENTO MORA AO LADO

As vezes me pego pensando sobre a proximidade do sofrimento. Descobri, sem querer, na semana passada, que a moradora do 83, ao lado do meu, esta com cancer em fase terminal. Ela já foi várias vezes para o hospital, mas agora acho que eles desistiram. Os gritos dela estão difíceis de abafar: as paredes dos apartamentos modernos são muito finas.

O filho único deixa as chaves do apartamento comigo e me pede para lembrá-la de tomar os remédios na hora certa. O nome dela é Elza, tem 68 anos, mas apesar da doença, não aparenta ter mais de 50.

Numa noite gelada de um sábado, nervosa com a ausência do filho, ela me chamou com apenas dois toques de dedo na parede. Quando entrei no quarto, ela estava em prantos, com as mãos levantadas em direcão a um quadro com um anjo tocando lira. Ao notar minha presença, segurou e apertou forte a minha mão, durante quase 5 minutos. Senti que este gesto deu a ela mais energia e esperança.

Leitor amigo, de uma olhada ao seu redor. Percebe quantos falsos silêncios estão adiando gritos de desespero e angustia? As vezes basta um toque, apenas um toque para que toda a tragédia aflore.

Há duas dores físicas que não consigo disfarçar: a de dente e a de ouvido. As do coração já não me perturbam.. As lágrimas são bons indicadores, mas podem enganar e expressar felicidade. O olhar e mais seguro: quem sofre não mira nos olhos? Ou então uma placa com os dizeres: ESTOU SOFRENDO!, ficaria impossível caminhar entre elas neste país...

Minha vizinha disfarçou muito bem, ate perfume usou 7 semanas atrás. Agora esta lá, pele e osso, naquele quarto fechado há meses, cheirando a mofo, escancarando toda a dor. O filho ainda a penteia e passa um pouco de batom nos lábios machucados.

A morte arranca nossas mascaras e nos convoca para um tango com a verdade.

Uma parede, apenas uma fina parede separa o sofrimento da minha vizinha da minha vida. E essa proximidade que me deixa inquieto, ansioso e com dificuldade para compor o cenário do meu cotidiano. Quem sabe, nesta linda noite de luar, ela se cale e tudo volte, nem se for por alguns segundos, a uma aparente normalidade.

armando diorio/13h25/penha/sao paulo

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DESCULPE, FOI ENGANO...

 

 

- Alo, com quem quer falar?

(Silencio irreparável do outro lado da linha)

- Alo, se não quer falar, vou desligar.

- Espere, quem esta falando?

- Pra que numero o senhor ligou?

- Não pode ser verdade, a dose de uisque que bebi há pouco não seria capaz disso.

- Disso o que? Fale mais claramente.

- Ninguém deveria atender, entende? Deixei a sua casa as 2h46 desta madrugada. Não deixei nada vivo dentro dela, tudo morreu obedecendo a um plano que ocupou quase dois meses da minha vida. Vi sangue e miolos espirrarem na parede mal pintada. Compulsivo que sou atirei demais nos corpos, encontrei todos num profundo sono, a televisão da sala estava ligada e a geladeira aberta, a cópia das chaves que um de seus empregados me providenciou funcionou perfeitamente, seu filho mais velho quis reagir e acho que exagerei decepando a linda cabeça com olhos azuis, e antes de sair certifiquei-me de que nada escapara ao plano.

- Quem contratou o senhor?

- Foi seu filho que mora nos EUA. A situação dele não esta boa e quis garantir uma volta tranquila para o Brasil. Pagou-me muito bem, mas me pediu uma prova dos assassinatos: duas orelhas e duas mãos. A senhora deveria estar sem a orelha direita e em processo de decomposição.

- Pois saiba que estou inteiraça, acabei de aplicar botox e fazer uma lipo. Repita, por favor, o numero para o qual o senhor ligou.

(Repetiu pausadamente a série de oito números)

- O ultimo numero não confere, lamento informa-lo que se trata de um engano.

- Obrigado, agora estou aliviado.

- De nada.

 

Armando Diorio/22h23

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  NATAL IMPROVISADO

E Natal, tempo de encontro, tempo de dar as boas-vindas ao filho do Criador. Aqui em casa, na exata medida do possível, esta quase tudo preparado. Acabei de retirar, com muito cuidado, de uma caixa de papelão guardada embaixo da cama, a nossa querida e aguardada arvore de Natal. Ela tem apenas 56 cm, 9 anos de idade e esta cheia de fita crepe e durex. Tenho 6 filhos, que ficam saltitando de felicidade enquanto coloco os origames de jornal que minha filha Solange aprendeu a fazer nas aulas de educação artística, cada pagina de jornal da para 3 enfeites, mas so ha um probleminha: ela so aprendeu a fazer sapo e borboleta. O pisca-pisca fica por conta dos vagalumes que aparecem por aqui nesta época do ano. O difícil e mantê-los piscando ao redor da arvore: disseram para a minha mulher que merda de gato resolve o problema (o nosso encarquilhado e doente Filomeno esta garantindo a diversão). O presépio esta desfalcado, até o Natal passado tínhamos 8 pecas: na Penha há um pontilhão onde morre muita gente, as famílias colocam cruzes e imagens no local, meu filho Jonas repete 20 vezes uma oração antes de pegar cada peca. Felizmente, ainda temos um Jesus sem bracinhos e com um olho vazado.

Pedro, o filho que conseguiu repetir menos de 7 vezes a quinta série, pediu-me o jogo do milhao: ele tem certeza de que vai aprender o que ainda nao aprendeu na escola.

Torço para que o filhinho da minha Arlete nascer no dia 25, mas acho que não vai dar, se pelo menos ela tivesse guardado o rosto do pai naquele baile funk.

Antes ficávamos acordados até à meia-noite, mas agora a policia apita as 23h12 e não deixa ninguém sair pra rua, o ultimo que ousou sair para abraçar a mãe no outro lado da rua, acabou com duas 21 na testa.

A nossa lider comunitária prometeu-nos uma cestinha com frutas e o famoso panetone, quem sabe o cabeça-dura do Pedro sirva para quebrar algumas nozes?

A meia-noite, a gente se abraça, vira o menino Jesus de bruços na manjedoura e chora um pouquinho.

No sei se teremos muitos Natais pela frente, mas este parece prometer. Filomeno precisa engordar: não teríamos coragem de come-lo assim tão magro e doente. Nosso Natal inesquecível foi o de 1995, eu ainda trabalhava e recebia a visita do Sr. Futuro.

Adoramos ficar na entrada de shoppings vendo as pessoas passarem com pacotes e sacolas. Certa vez, vimos uma senhora tentando carregar 15 sacolas, de repente ela deixou cair tudo e Pedro foi ajuda-la. Nossa filha caçula sempre coloca as mãos na cintura e adverte o Papai-noel do shopping: - O Senhor nunca vai lá em casa? Quer o endereço? Vê se desta vez aparece, colocarei uma fitinha vermelha na porta pro senhor não errar.

Também temos o habito de rezar a meia-noite do dia 25 para que a vida continue a nos aceitar. Feliz Natal a todos!!!

armando diorio/00h47

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  AGONIA

Hoje o dia começou desabando nas minhas costas. Trouxe minha amiga Laura para morrer no meu apartamento. Laura e lésbica e foi expulsa pelos pais, há 2 anos, do interior do Paraná. Morava numa quitinete na Vila Madalena. Descobriu que está com câncer no cerébro quando milhares de Dorflex que tomava não fizeram mais efeito. Cedi minha cama a Laura e estou dormindo no sofá. Instalei uma extensao ao lado da cabeceira da cama. Aprendi, com o rapaz da farmácia, a aplicar morfina e tentar manter, por algum tempo, o sorriso condenado de Laura. Nunca fiquei perto de um ser humano se despedindo da vida. Fica difícil imaginar o lindo e jovem corpo de Laura sendo tomado por enlouquecidas células. Sua cabeça, a medida que a doença avança, adquire contornos surrealistas. A dor e lancinante, mas a morfina ainda consegue adiar os gritos. Sobre o criado-mudo, dois livros de Clarice Lispector. A vida em Laura era transbordante. Dona de um ótimo humor e de uma sensibilidade temperada com fina ironia , encantava quem estivesse no seu raio de acao. Há dias, seu corpo fica inerte, com apenas as lágrimas em movimento na sua delicada e alva face. As inevitáveis escaras ja tomam 70% das suas costas. Nos dias de Sol, permito que o astro se esbalde no quarto. Laura se aquece , ate sorri e, por alguns segundos, se esquecesse que um polvo enfurecido lança seus tentáculos além de seu cérebro. Odiaria se Laura partisse enquanto me estresso no escritório. De repente, a pergunta: - Por que Laura? Tanta gente saudável promovendo o ódio, a intolerãncia, a exploracão do mais fraco e o inferno na Terra! Visão e audicão começam a falhar. Os cds de Sarah Vaughan não saem da gaveta. Laura me pede, com voz entrecortada, para que eu leia trechos de A Hora da Estrela. Dobrei a dose de morfina e troquei o travesseiro por um mais baixo. O porteiro fica com a chave e interfone a cada duas horas quando não estou. Como gostaria de levar Laura para morrer num lugar mais aprazível: meu apartamento, além de muito pequeno, está entulhado de quinquilharias. Pensei no Parque Ibirapuera , perto do lago ou no Horto Florestal. A única vez em que a morte rondou o meu apartamento foi quando o meu cão de 13 anos nao resistiu a uma ascite. O coitadinho morreu encostado na porta do meu quarto. Leitor, para não aumentar ainda mais toda a tragédia deste texto, recuso-me a revelar a idade de Laura. Laura e cinéfila e me pede para assistir a um vídeo sobre os últimos momentos de um cineasta: uma camera nervosa perambula por um quarto cheio de equipamentos cirúrgicos. O filme termina com um demorado close numa boca aberta e já sem ar.  Infelizmente, a morfina deixou de funcionar. Laura começou a gritar, e consegue rasgar os lencóis. E um grito desesperado, grave, primal. Sem saber o que fazer, começo a massagear sua enorme cabeça no meu colo.

Aconteceu. O porteiro me ligou durante meu horário de almoço: Laura partiu com Sarah cantando Send In The Clowns.

armando diorio   

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  AJUDEM-ME A ENTERRAR O LUCAS

O mercadinho da minha rua estava lotado na véspera de Natal quando a mulher alta se aproximou do casal de adolescentes na fila que escolhi para pagar um pacote de bolacha e 2 saquinhos de chá. O rapaz encarou a mulher após ela ter lhe pedido: - Por favor, ajude-me a enterrar o Lucas., e disparou: - Você e louca, mulher? Ta achando que temos cara de bobos?

A mulher voltou a olhar para o chão e veio na minha direção: - O senhor pode me ajudar a enterrar o Lucas? – Quem e o Lucas, minha senhora? – E o meu filhinho, meu único filhinho. – E onde ele está? – No prédio.

Confesso que não aprovei a reação dos jovens, mas quis comprovar.

Entramos no meu carro e rumamos para a região norte de São Paulo. A mulher alta parecia uma modelo famosa de tão magra, seu hálito azedo inundou meu carro.

-         Com foi que o Lucas morreu? – Morreu quietinho na manhã de sexta-feira. – Mas hoje é segunda! – E aqui, por favor não repare a tragédia.

O prédio abandonado no terceiro andar, estava todo pichado e cheio de entulho, um cheiro de merda e urina bateu forte no meu nariz. – Ele está no segundo andar.

Afastei alguns caibros e ripas que estavam no meio da escada inacabada. Atrás de um guarda-roupa devorado por cupins e cheio de ratos estava uma criança de uns 4 anos, seu esqueleto, preso a um tijolo, jazia dentro de um balde com formol. – A moca do posto me arrumou o formol e a cordinha. Este era o meu Lucas, felizmente nenhum animal o encontrou. – Você deve ser muito moça , não? – Sim, tenho só 16 anos. – Eu enterro o Lucas pra você, tire-o do balde, vamos enrolá-lo na minha blusa que esta no carro. – O senhor jura que vai enterrar ele pra mim, devolvê-lo pro lugar de onde nunca ele deveria ter saído? – Juro, ele terá um caixãozinho decente, além de delicadas flores, ele irá feliz para o céu, pode acreditar. Mas antes passaremos numa padaria para você comer um lanche. – Obrigada.

Exumei meu filho seqüestrado e morto há 5 anos e coloquei Lucas no lugar. A mãe pediu-me que rezasse com ela enquanto a chuva fina virava lágrima no seu rosto.

Armando diorio

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  ALVOS PERFEITOS

Matriculei-me numa academia de musculaçao. Meu pitbull e anabolizantes chegarão daqui a 3 semanas.

Para ir à escola de tiro, sou obrigado a passar em frente  ao prédio que abrigou a minha loja, assaltada 5 vezes.

Não percebi quando comecei a substituir alguns dos meus valores.

Sempre fui exageradamente avesso à violência . Houve um tempo em que pisava de leve nas pedras. Estabanado, sempre corto meu rosto durante as barbas, e ver meu queixo sangrando sem parar, me apavorava.

Mas agora com namorada assassinada e loja perdida , blindei meu coração . O seu sorriso, leitor, passou a ser suspeito. Vingança é meu ideal.

Pago caro para aprender a atirar bem. Nunca tive arma, mas não vejo a hora de colocar uma embaixo do travesseiro. Meu molho de chaves está cada vez maior e o sol às vezes faz os cadeados de minha casa brilharem: levo horas para fechá-los. O muro agora está bem mais alto e só me permite o ruído da rua. De vez em quando, um par de olhos assustados espreita numa das frestas do portão principal.

A primeira aula foi complicada. O professor estranhou a minha falta de intimidade com as armas. Mostrou-me um verdadeiro arsenal. Através de slides, revelou-me as entranhas e o funcionamento de cada aparelho. Quando dei o primeiro tiro,quase caí de costas.

- Como é duro este gatilho!

- Você precisa puxá-lo com força e determinação . Mentalize que o alvo e merecedor de suas balas e que cada segundo é decisivo.

- Você ja atirou em alguém?

- Só matei um cachorro que ameaçou o meu filho de 5 anos.

- Deu muitos tiros nele?

- Descarreguei a arma.

- E difícil saber a quantidade ideal de balas?

- Às vezes um tiro nao basta. E preferível não deixar a Morte nos trair.

-Estes seus alvos são tão perfeitos!

- E justamente neste aspecto que nossa escola faz a diferença.

- Não entendi.

- Feche a porta que lhe explico melhor.

- Ok.

- Aproxime-se de um dos alvos, toque nele, por favor.

- São perfeitos, parecem corpos de verdade...

- E são! São cadáveres, enterrados há poucos dias. Alvos artificiais não exemplificam com perfeição os estragos de uma bala.

- Como os consegue?

- Em cemitérios semi-bandonados. Alguns IMLs nos vendem indigentes. E alguns alunos nos pedem , nos pagam por alvos menores, de crianças, mas e difícil conseguí-los.Conseguimos uma vez um garoto de 3 anos que acabou estraçalhado por um aluno estressado. As aulas ficam mais emocionantes com este tipo de alvo. Interrompemos muito as aulas para recolher miolos, pois a cabeça é a parte preferida.

- Quando os alvos são abandonados?

- Todos são banhados em formol. Quando começam a ficar verdes, trocamos. Não pegamos cadáveres de idosos, são muito frágeis. Os gordos são utilizados em treinos com bazuca: voa carne pra todo lado.

- Nunca tiveram problema com a polícia?

- A polícia também treina aqui...

 

No quinto dia de aula, tomei coragem e treinei num rapaz morto num assalto. Quando as balas deixaram a arma, tive, por segundos, a sensação de vê-lo gritar. Acertei um tiro no pulso e outro no nariz. O professor elogiou  minha destreza e me ofereceu 10 por cento de desconto na mensalidade.

armando diorio/11h02

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  O APARTAMENTO  TOMADO

Foi depois que uma borboleta invadiu o meu apartamento que as cobras começaram a aparecer. No início, pequenas e em pouca quantidade. Capturá-las para o Instituto Butantan era tarefa fácil. Logo eu que sempre tive medo de cobras: quando visitava zoológicos, passava ao largo da casa dos répteis.

Hoje não consigo contá-las, são centenas espalhadas por 98m quadrados. Sob a minha cama ficam 15 em estado de hibernação. De vez em quando, meu colchão levanta quando alguma se movimenta.

Entram pelo ralinho do banheiro, da área de serviço e pela pia. A grandes se machucam e chegam a sangrar ao passarem pelo ralo.

Meu televisor e videocassete estão seriamente danificados: 2 jibóias e 3 corais resolveram fazer ninho dentro deles.

Para tomar banho sossegado, sou obrigado a colocar uma placa de ferro sobre o ralo, quando deixo a água entrar, elas se assustam e retornam.

Felizmente até hoje nenhuma conseguiu abrir a porta da minha geladeira.

Tinha muita planta no apartamento, em xaxins, mas tive de me desfazer de todas: as cobras derrubavam os xaxins e ficavam enrodilhadas nos suportes.

Tento, quase sempre sem sucesso, disfarçar o terrível fedor com bom-ar.

Cobras são animais espertos, ágeis, conseguem se infiltrar em qualquer lugar.

O som dos guizos de algumas delas agravaram a minha insônia.

Também pedi ao zelador do meu prédio para chumbar, pela terceira vez, o lustre da sala: as cobras adoram ficar dependuradas. O balanço do lustre serve de calmante para as mais agitadas,

Minha amiga Janaína, professora de zoologia, visita-me com certa frequência, pois adora ficar examinando as cobras, classificando-as.

No verão, a quantidade de cobras triplica, e chegam a ficar empilhadas sobre o sofá e a pia. Às vezes, algumas morrem e apodrecem.

No quarto que era do meu irmão ficam as cobras prenhes. Quando entro neste quarto, sou obrigado a andar com dificuldade sobre elas: formam uma espécie de colchão d'água.

Antes das cobras surgirem, tencionava trocar o piso do apartamento, mas desisti quando passei a não enxergá-lo mais. Talvez eu seja o único homem no mundo dono de um tapete de cobras vivas.

Apavora-me a idéia de, numa bela manha, acordar sem os braços e pernas, com escamas pelo corpo, um guizo no rabo e dois dentes de veneno. Sinto que esta convivência forcada com cobras poderá me trazer sérios problemas.

PRECISO URGENTEMENTE COMPRAR UM ESPELHO...

Armando diorio

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  O COLECIONADOR DE LÁGRIMAS

 

Chovia, quando o Boeing decolou de Nova York faltando poucos minutos para as 23h. A vontade de rever o avô gerou em Carlos uma ansiedade difícil de tratar. O breve e rico tempo que experienciou com avô, transformara sua tenra existência num torvelinho de incríveis emocões e descobertas.

Com certeza ainda poderia encontrar no porão do amplo e aconchegante casarão, as paredes forradas com papel pardo, sustentando as centenas de frascos de diferentes cores e tamanhos. A repentina visão do delicado funil de acrílico dentro da terceira gaveta, trar-lhe-ia distantes e caras recordações.

- Como vai, vovô?

- Agora estou melhor com você ao meu lado. Obrigado por atender logo ao meu pedido.

- Não vim antes por causa dos compromissos da mamãe.

- A viagem foi boa? Você ainda tem mêdo de avião?

- Um pouco, principalmente durante a decolagem: fecho os ouvidos, os olhos e levanto os pés.

- Admiro a sua coragem. O que me traz de novidade?

- Vô, o senhor ainda coleciona lágrimas?

- Parei quando você resolveu ir para os EUA: perdi a motivação.

- O senhor ainda conserva os frascos e o funil?

- Sim, está tudo como você deixou.

- O senhor que recomeçar?

- Mentiria se dissesse que não...

- Então precisamos colocar algumas coisas em ordem.

- Concordo.

Começaram tirando o pó das prateleiras, após espalharem os frascos sobre a grande mesa de fórmica.

- Vô, o senhor andou jogando lágrimas fora?

- Apenas as mais antigas.

- Vô, o senhor por acaso ainda tem as lágrimas de Sofia?

- Tenho, estas nem sua avó teria coragem de jogar fora.

- Ela já conhece toda a história?

- Sim, contei-lhe na última noite de Natal.

- E ela?

- Ficou muito emocionada e colocou o frasco em destaque.

- Vô, Sofia foi mesmo o seu primeiro amor?

- Guarda segredo? Jamais amei tanto uma mulher.

- Conte-me como o senhor colheu as lágrimas.

- Sofia estava no seu leito de morte. As dores já provocavam alucinaçoes, mesmo assim ela me reconheceu. Encostou a frágil cabeça no meu peito, libertou as lágrimas e partiu, serena.

 

Carlos sabia que não teria dificuldade em aumentar a coleção, bastaria pisar na calcada e andar alguns quarteirões.

- Vô, satisfaça a minha curiosidade.

- Diga.

- Que lágrimas o senhor gostaria de ter colhido?

- Pergunta interessante esta. Em certa noite de insônia, fiquei pensando nesta questão. Por exemplo: Cristo deve ter chorado naquela cruz, Judas também, ao se arrepender; Kennedy com todas aquelas balas nao deve ter tido tempo; Pasolini, barbaramente assassinado naquela maldita praia daquele maldito dia; JIm Morrison deve ter deixado lágrimas naquela banheira; Janis Joplin, ao ser expulsa do Copacabana Palace por nadar nua na piscina, deve ter ido chorar na praia; Hitler e Eva Braun, na hora h, choraram?

- Nao saberia responder. Agora, vô, por que aquele frasco no canto direito da terceira prateleira tem um tom avermelhado?

- Porque são lágrimas vertidas num momento de extrema violência.

- Conte-me mais.

- São as lágrimas de um grande amigo meu. Foi um extraordinário professor de filosofia, barbaramente assassinado.

- O senhor estava lá?

- Sim , e vi tudo... Quando aproveitei a ausência dos carrascos e decidi colher as lágrimas, percebi que o corpo do meu amigo estava quebrado ao meio e sem o olho direito.

 

Sergio amava demais aquele neto, filho de sua unica filha, empresaria de sucesso. Vê-lo ali ao lado e poder lê-lo com carinho e admiração! Com gostaria de merecer um tempo mais justo!

- Vô, tive uma idéia genial!

- Qual?

- Por que não misturamos as lágrimas e colocamos  tudo num único frasco com uma etiqueta: HUMANIDADE?

- Nao seria uma má idéia e economizaríamos espaço.

- Vô, quando o senhor colhera as minhas lágrimas?

- Ainda é muito cedo, você tem muita vida pela frente...

- E as suas, será que posso colhê-las agora?

- Como? As minhas?

- Sim, vô, o senhor está chorando...

 

armando diorio/10h02

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  PROFISSÃO   REPÓRTER

O hospital estava lotado de repórteres, mas Eduardo contava com a ajuda do irmão, enfermeiro há 10 anos, para realizar a entrevista. Com sorte, conseguiu reunir, num dos consultórios, pai, mãe, médico, vítima e diretor do hospital.

- Como o senhor explica o que aconteceu à pequena Ângela?

- Foi, com certeza, uma fatalidade.

- Por que o senhor tem esta certeza?

- Ângela, uma garotinha encantadora, entrou no hospital com forte anemia, diarréia e desnutrida.

- O soro aplicado no bracinho dela estava bom?

- Sim, perfeito.

- Por que então o bracinho inchou e escureceu?

- Provavelmente o metabolismo do frágil corpinho de Ângela, devido ao quadro que ja descrevi, foi a causa do incidente.

- Mas a mãe da garota percebeu o problema, e a enfermeira nao a ouviu.

- A mãe estava muito nervosa e quase prejudicou os procedimentos.

- De quem foi a decisão de amputar o bracinho de Ângela?

- Foi minha. Ou amputávamos ou teríamos uma bela e simpática criança morta. Veja como ela agora esta saudável no colo da mãe, até consegue sorrir.

- Mas ela está sem o braço direito! O pai dela afirma que será praticamente impossível colocar uma prótese, cortaram muito além do ponto ideal, muito rente ao tórax.

- Fomos obrigados, o comprometimento era grande. Com o trabalho de um bom especialista ela ficará perfeita de novo.

- O senhor é o pai de Ângela?

- Sim, e estou muito abalado com tudo o que aconteceu, perdi o meu emprego há 3 semanas, pois precisei faltar muito para tratar da minha filhinha.

- Sua esposa nao diz nada?

- Ela está calada há horas e fixou o olhar nalgum ponto do espaço. O senhor não imagina como queríamos este bebê. No momento em que o concebíamos, uma borboleta entrou no nosso quarto. Moramos de favor e conseguimos o enxovalzinho com um deputado. Vi o bracinho da minha filha dentro de um vidro com formol. Cortaram demais. A mãozinha ficou fechada, nem os médicos conseguiram abrir. Sei que Ângela ainda nao entende o que aconteceu, mas há pouco ocorreu algo que me deixou muito arrasado.

- O que foi?

- Ângela ria muito e adorava bater palmas. O bracinho que sobrou ainda se levanta no ar num gesto infelizmente inútil.

- Obrigado pela entrevista.

  Armando Diorio

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  RECADO DO MENINO RICO PARA O MENINO POBRE

 

Menino pobre, será que mereço um minutinho de sua atenção? Cancelei o meu mergulho matinal na piscina para oferecer-lhe algumas palavras.

Por que esta sua surpreendente insistência em enfear a paisagem com esta sua maldita herança genética, ocupando as entranhas das favelas, os becos fétidos da cidade ou os pichados viadutos cheirando a urina e cocô? Qual o sentido destas roupas podres, desta boca pestilenta com poucos dentes e esta infinita dificuldade em assimilar conhecimentos?

Conforme-se, você não está sozinho nessa, são 49 milhões iguais ou piores do que você. Bem que você poderia se mudar para Serra Leoa, Republica Centro-africana ou Suazilândia.

Infelizmente, sinto que você jamais visitará 3 vezes a Disneylândia, pisará no museu do Louvre ou sentará no banco de uma universidade. Mas, acredite, milagres acontecem, os políticos querem ajudá-lo... Economize no leite E, no pãozinho amanhecido ou compre umas revistas do Show do Milhão.

Às vezes, estremeço ao imaginar você dançando com a violência, a prostituição , drogas e doenças . Mas há um consolo, um jeito de você se aproximar um pouco da minha riqueza: tente me assaltar ou sequestrar meu pai.

Você tem 49 milhões para lhe fazerem companhia, eu posso contar com apenas 89 mil, mas saiba que não tenho inveja de você.

Fique com a esperança enquanto realizo meus sonhos, assista bastante televisão e não falte às aulas.

Ah!, menino pobre, de que útero nojento e doente você foi vomitado? Acredite nos seus governantes, eles estão fazendo de tudo para melhorar a sua situação.

Poderia convidá-lo para passar uma tarde na minha mansão de 2.000 metros quadrados, mas a sua felicidade duraria bem pouco e você deixaria rastros impossíveis de limpar.

Agora, peço-lhe, encarecidamente, que fique no seu cantinho, quieto, sem pensar em "loucuras", pois certamente um lindo e aconchegante céu estará esperando-o.

Fique em paz, menino pobre, e até em qualquer farol deste país.

armando diorio

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  UMA PALAVRINHA SOBRE A VELHICE:

A BRINCADEIRA SEM GRAÇA QUE A MÃE NATUREZA FAZ COM A GENTE

 

Não vou revelar minha idade, pois temo ser tachado de exagerado ou digno de compreensão. Mas será difícil esquecer a voz daquela mulher, no vagão lotado do metrô. Com cabelos parecendo flocos de neve e corpo um mapa hidrográfico, ela ergueu as 3 sacolas repletas e perguntou-me: - O senhor não quer sentar?   

Interessante e que ninguém discordou dela, ficaram olhando, esperando a minha reação. Menti, afirmando ter de descer na próxima estação. Acho que foi o genial criador de "Os 7 samurais" que, numa memorável entrevista, falando sobre o envelhecer, usou a palavra "imoral".

Costumo visitar, quinzenalmente, um lugar onde vivem pessoas avançadas na idade. Fiz amizade com duas delas: Nicanor e Alaor. A primeira e prisioneira do Mal de Alzheimer há 4 anos. Pensa que é o presidente do Brasil e faz inflamados discursos. A segunda não vê o filho há 12 anos. A foto de um rapaz forte e sorridente está toda amarelada e com as pontas gastas.

Justamente quando passamos a ser culturalmente seletivos, nossos admiráveis instrumentos começam a falhar: já troquei 4 vezes a lente dos óculos; o som dos meus discos de jazz incomoda todo mundo menos eu; a urina, que antes saia num jato firme e certeiro, agora parece conta-gotas...

Na única vez que fiz um favor a minha sogra, indo ao banco com ela, o caixa quis saber:

- Sua filha quer mais alguma coisa?...

Nas festas de aniversário de ex-alunos( sou professor) sou assediado pelas crianças:

- Tio, conta uma estória. Fale-nos sobre tudo o que o senhor ja viveu...

Fazia ginástica com meu filho, mas parei há 3 meses: as dores na região lombar ficaram insuportáveis.

Porem , leitor, percebo, com alívio, que a tragédia ainda não está completa: ainda consigo ouvir a musiquinha do gás; trocar uma lâmpada; dançar um tango; lembrar dos 4 primeiros números do CPF; errar e ser severamente repreendido; FALAR COM UM JOVEM OLHANDO NOS OLHOS; pegar uma criança no colo sem fazê-la choras; não ter de ficar espremido na parte da frente de um ônibus, no ultrajante espaço entre a catraca e o pára-brisa; contar um filme sem esquecer o final; transar com minha esposa quando ela me pede; conversar durante horas com um representante de plano de saúde; correr e saltar sem soltar peidos; olhar, SEM PRESSA, um pôr-do-sol; comprar remédio em farmácia sem ouvir do farmacêutico: - O senhor quer dar uma olhadinha nas novidades?...

Tenho um amigo, 94, que quando me vê, profetiza:

- Ainda irei ao seu velório...

Quem o conhece, sabe perfeitamente que isso pode acontecer.

 

(armando diorio)

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  ESQUECI

Para um ator premiado foi realmente uma tragédia esquecer o que dizer no leito de morte. Sua memória era fantástica, conseguia decorar CPF de amigos e dizer falas inteiras de personagens dos filmes agraciados com o Oscar. Quando os médicos o mandaram, pela quinta vez, para casa, sabia que tudo acabaria naquela noite. Fizera os netos voltarem da Disneylândia, queria todos à beira da cama prometendo que teriam um belo futuro pela frente. Sua mania de viver sem roupa, teve naqueles últimos dias uma trégua: vestira as roupas do cunhado, esquelético após uma cirurgia de estômago. As dores com certeza não voltariam: seu filho mais velho, renomado químico, o presenteara com uma mistura de drogas aplicada em elefantes cancerosos. Seu médico postou-se ao seu lado com alguns aparelhos que o avisariam quando o fim estivesse próximo: - Fique tranqüilo, avisarei quando faltarem cinco minutinhos. Detestava balanços e balancetes, era responsável por eles na empresa, e não suportaria fazer um histórico de vida, preferia deixar esta tarefa para os amigos e alguns sinceros parentes. Chamou a esposa para junto de si, e pediu-lhe para uma vez na vida retirar a maquilagem, queria vê-la de rosto limpo. Pediu aos filhos para desligarem os celulares e , se possível , olharem, pelo menos uma vez, nos olhos cansados do pai: – Estou morrendo, e vocês até agora nada fizeram a não ser falarem nestes malditos celulares, que monte de merda fiz sua mãe trazer ao mundo! Doutor, pode chamá-los ao quarto. – Mas ainda faltam 8 minutinhos. – Não importa, quero todos aqui se masturbando com o meu fim. Perdão, meu netos, por tirá-los de um maravilhoso passeio. Vou embora, mas não pensem que rezarei por vocês de lá, e não se atrevam a rezar por mim, pois suas vidas criminosas não lhes dão este direito. Onde está Maria, nossa empregada? – Ela está doente, querido. – Agora faltam 4 minutos. – Obrigado , doutor. – Mesmo que alguém aqui esteja rezando, saiba que não conseguirá me segurar aqui, quero escapar logo deste inferno, e onde estiver farei o possível para tornar as suas vidas mais desastrosas do que já são. Minha fortuna, já posso adiantar, pertence a jovem que me atende diariamente na padaria da esquina, e não tentem nenhuma maldade, pois ela já foi devidamente instruída. – Querido, segundo o doutor Drauzio, faltam dois minutinhos, não queremos que você parta sem uma palavrinha de algum texto famoso. – Querida, infelizmente, ESQUECI...

Armando diorio/20h46

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  CEMITÉRIO DE ABORTOS

Devido a um problema com a coleta de lixo no meu bairro, descobri uma prática muito comum nele. O mau cheiro que os sacos exalavam vinha de vias interrompidas. Investigando a área onde os sacos fediam, pude localizar 4 clínicas clandestinas de aborto, todas instaladas em boas casas com jardim na frente.

Sem paciência para cultivar uma horta, resolvi dar um destino diferente ao meu espaçoso quintal: transformei-o num cemitério de abortos. Com a ajuda de um primo, comecei com 30 pequenas covas. Em cada uma colocamos uma placa com um nome e data do enterro.

Durante a madrugada, usávamos uma Kombi para recolher os restos humanos. Às vezes, chegávamos muito tarde e nos deparávamos com uma cena dantesca: gatos, ratos e cães devorando cabeças e bracinhos. O cheiro era insuportável e o sangue escorria dos sacos para a calçada. Os fetos não ficavam sozinhos dentro dos sacos mas misturados a restos de comida, etc...

No lixo da clínica mais modesta, chegamos a encontrar 7 fetos num único saco. Trabalhoso era separar cabeças, vísceras e cordões umbilicais. Alguns fetos surgiam com a pulseira de hospital e um corte no tórax lembrando uma autópsia, certamente feito pela mesma pessoa que provocou as mortes.

Comprei um amplo freezer para conservar os fetos ou o que restava deles, ate o momento do enterro, geralmente aos sábados entre 13 e 17h. Caixas acústicas do meu som eram colocados no quintal e ao som de Bach, os fetos eram depositados nas covas.

Além de lavados e embebidos em água sanitária e formol, cada feto era classificado de acordo com o tipo de aborto: a sucção e o esquartejamento deixavam o feto despedaçado; o sufocamento ou “parto parcial”deixava quase perfeito, mas sem massa cerebral e os que morriam pela troca do líquido amniótico por sal eram sim os mais perfeitos. Um feto chamou minha atenção num sábado de verão: seu corpinho estava perfeito, mas exibia no rosto uma expressão de dor.

Ao redor das covas, fizemos um belo canteiro de flores: É COMO SE AS VIDAS PROSSEGUISSEM NELE.

Hoje moro neste apartamento. A casa ainda existe, mas o quintal virou um depósito de ferro velho.

Armando diorio/00h54

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  COELHOS

O fato não alcançou a mídia. Começou numa tarde fria de sábado, em junho de 1989. De repente, sem uma explicação plausível, crianças da cidade começaram a vomitar coelhos.

As mães, desesperadas, lotaram as igrejas.

-         Senhor bom Deus, por favor, devolva nossas pobres criancinhas à normalidade. Não suportaremos por muito mais tempo vê-los vomitando aqueles animais.

A primeira criança a vomitar foi o garoto da padaria. No momento em que colocava pãezinhos franceses dentro de um saco, sentiu-se tonto e desabou sobre o balcão, com a cara virada para o lado esquerdo. Um coelho gordo e úmido saiu empurrando pães, doces e bengalas para o chão.

Para conseguir vomitar, as crianças se ajoelhavam e comprimiam fortemente o abdômem com as duas mãos. . Geralmente, as orelhas dos animais apareciam primeiro.

A garota do coral da igreja vomitou 4 coelhos durante uma missa de sétimo dia, e necessitou de uma urgentíssima cirurgia na boca.

Nenhum coelho, pelo menos até o momento em que escrevo este conto, morreu de morte natural. Todos abandonaram lépidos os corpos e saíram em disparada pelas ruas da cidade.

Doutor Sandro, clínico geral, chegou a tirar chapas de algumas crianças e descobriu que os coelhos ficavam na entrada do estômago, com as perninhas traseiras na base do esôfago.

Um pequeno e curioso detalhe chamava a atenção de todos: nenhum coelho era vomitado à noite, mas sempre entre 13h47 e 18h12.

Fábio foi a única criança que veio a falecer quando se preparava para vomitar 6!!! coelhos. Os cinco primeiros saíram sem problemas, mas o sexto retornou irado para o estômago do pobre menino e saiu pelo ânus, arrebentando todo o intestino.

Tristemente, alguns coelhos acabavam sendo atropelados. Nos finais de semana prolongados, ocorriam longos congestionamentos nas estradas que levam ao litoral. As crianças, impacientes, colocavam a cabeça para fora dos carros e soltavam os coelhos que eram imediatamente colhidos por motos, carros e ônibus. As vísceras e o sangue, sob forte efeito do Sol, gravavam um odor desagradável no asfalto.

As mulheres grávidas correram fazer ultra-som, com medo que seus fetos se transformassem em coelhos.

Os mágicos do velho circo aposentaram suas cartolas.

Os coelhos vomitados eram diferentes de quaisquer outros: pele macia, carne mais saborosa, orelhas maiores e muito, muito gordos.

Cada residência, de acordo com o Projeto da Prefeitura, passou a contar práticas e funcionais vomitadeiras. Ao menor sinal de coelho dentro de um frágil corpinho, elas eram presas por presilhas na altura do queixo. Assim, os coelhos não caíam no chão e nem os maxilares das crianças deslocados.

Na Páscoa, um shopping center criou o concurso da criança que conseguisse vomitar mais coelhos em 4 horas. Como prêmio, a criança teria direito a assistir à gravação de um famoso programa infantil ou a um show de ídolo infantil. Talita, melhor aluna de uma escola pública, ganhou vomitando 9 coelhos em 3h56. Antes de abandonar o palco, exausta e com os lábios sangrando, tentou vomitar o décimo coelho, mas foi nervosamente impedida pela mãe.

Cientistas de todo mundo hospedaram-se no único hotel do bairro. O primeiro andar transformou-se num complexo laboratório. Os coelhos chegavam em imensas gaiolas e eram logo lavados com uma solução de álcool e cânfora. Todos traziam no pescoço uma correntinha com o nome, idade e endereço das crianças que os vomitavam. O muro do hotel chegou a ser pichado por Ongs que questionaram a lentidão das pesquisas e a grande quantidade de dinheiro aplicada...

Enquanto isso, os coelhos passaram a disputar espaço com a população. Alguns entravam nas casas pelos ralos , muitos apareciam boiando na água de piscinas, lagos e rios. Famílias miseráveis tiveram sérios problemas digestivos ao comerem carne de coelho cinco vezes ao dia. Restaurantes criativos contrataram crianças para vomitarem coelhos à vista dos fregueses.

E para evitar a desagradável cena de coelhos se decompondo nas ruas e calçadas, foi criado o Exterminador de Coelhos, através de um concurso promovido pela prefeita. Desempregados e aposentados enfrentaram, por dias, imensas filas para preencher os formulários de adesão à função.

-         O senhor é aposentado?

-         Sou.

-         Idade?

-         46.

-         Lamento, para ser Exterminador de Coelhos é necessário ter entre 26 e 37 anos.

-         Mas sempre odiei coelhos, a Páscoa, o desenho do Pernalonga, e acho que daria um ótimo exterminador.

-         Lamento, mas regra é regra...

-         Posso inscrever meu filho?

-         Pode.

-         O fenômeno ocorre até hoje. Presidentes, senadores e reis já visitaram a cidade. As crianças já não vomitam com tanta freqüência, vacinas foram descobertas para impedir a formação dos coelhos nos corpos das crianças. Os professores receitam aos alunos práticos e eficientes exercícios bucais. O turismo cresceu bastante e trouxe progresso para a cidade que faz parte do livro dos recordes.

Armando diorio/00h14

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  FRAGMENTOS

“Saudade é fome, só passa quando se come a presença”, esta bela frase de Clarice Lispector expressa bem a necessidade que temos da presença. Por mais que nossas mentes tentem racionalizar a ausência de um ser adorado, sempre lamentaremos a insuficiente leitura dos sentidos. Acariciar uma blusa de quem já partiu pode, no mínimo, estimular a nossa imaginação.

Acho que foi um filme francês que me levou à mania de colecionar fragmentos de pessoas que, de certa forma, marcaram a minha existência. Criei, doando livros a uma biblioteca pública, um espaço na minha estante para colocá-los por ordem de tamanho e importância.

Primeiro foi o útero de minha incansável mãe, extirpado em 1991. Não foi nada fácil convencer os médicos que a operaram a me entregar a “casa” em que vivi os melhores e mais confortáveis meses de minha vida. O órgão ainda está vistoso, num vidro de maionese, submerso em formol.

Outra inusitada empreitada, foi capturar o olho direito de minha tia. O acidente foi horrível. Quando cheguei ao local, minha tia ainda pulsava, mas já estava com o olho pendurado. Curioso é que nunca consigo virar o olho, dentro de um copo de requeijão, na minha direção : quando viva, minha tia nunca olhava nos meus olhos...

Dentro de uma velha caixa de chapéu , guardo os cabelos castanhos da mulher que foi o maior amor da minha vida. Enquanto Anita ia perdendo os cabelos por conta de infindáveis sessões de quimioterapia, eu ia recolhendo e colocando-os dentro do meu travesseiro.

Ao lado de cds de jazz, guardo 12 fitas com sons muito especiais: o grito indescritível do meu vizinho ao ganhar na loteria; os gemidos e sussurros de minha mãe fazendo o meu irmão; as últimas palavras do meu amigo, ainda vivo na calçada e apertando a cabeça crivada de balas; os engraçados puns de meu irmão, etc...

Não sei, leitor, se deveria colocar tudo no seguro. Que valor teria a tentativa de perpetuar fragmentos de algumas vidas? Talvez devesse jogar tudo no lixo e deixar a saudade seguir completa, sem inúteis artifícios.

Lamentavelmente, as lentes de contato e a dentadura de minha avó Ângela sumiram do lindo porta-jóias forrado com veludo azul. Minha avó foi um extraordinário ser humano que soube desenvolver, através da criação de estórias fantásticas, a minha imaginação, salvando-a da “formatação” objetivada pelos professores das escolas por que passei. Provavelmente, estes fragmentos estragar-se-ão , devido à má conservação. Porém, enquanto estiverem na estante, minha fome de presença estará, em parte, saciada.

ARMANDO DIORIO

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  UMA DIVERSÃO NO MÍNIMO ESTRANHA

 

Das dezenas de casas de aluguel por que passei antes de quitar este apartamento, uma jamais se retirou da minha “caixinha de ressonância”, a casa amarela com o abacateiro no fundo do quintal.

Não sei por que cargas d’ água começaram a aparecer “estranhos frutos” na árvore, frutos gordos, magros, altos, baixos que ficavam balançando e girando, geralmente nas tardes quentes de sábado.

Por curiosidade, resolvi pesquisar na internet sobre a melhor árvore para se morrer enforcado. O abacateiro apareceu em segundo lugar (não me perguntem qual foi a primeira): galhos fortes, capazes de suportar qualquer “peso”.

Sempre gostei de jazz, e quando via algum corpo sob a árvore, corria colocar Nina Simone na faixa STRANGE FRUIT. A voz marcante de Nina, o ruído da criançada curiosa ao redor da árvore e o choro desesperado dos parentes transformavam meu quintal numa ópera de terror.

Às vezes, as frutas sangravam, encharcando as raízes. O vento, de repente mais afoito, fazia dos corpos uma bússola enlouquecida. Os olhos esbugalhados e as bocas retorcidas em contraste com os robustos abacates. O cheiro de carne se despedindo da vida e chamando as aves negras.

Conheci um dos enforcados, Samuel, que não mais suportou a condição de desempregado, já não abria as janelas de sua casa e, segundo a vizinha “bem informada, saía cedo com uma página de jornal embaixo do braço, fingindo boa expectativa. Morreu com roupa de domingo: adorava levar a esposa e a filha ao Parque Ibirapuera. No chão, bem perto do tronco, espalhou jornais com inúmeras “propostas de emprego” a velha e surrada carteira de trabalho, rg, cic e fotos da família.

Quando a polícia civil demorava para aparecer, alguns corpos caíam como marionetes sem controle. Os cachorros não paravam de rodear, latindo bastante.

Dona Margarida (esta cena marcou a minha vida) chegou bem cedinho ao pé da árvore. Seu filho ainda estava quente e não havia parado de balançar. Ela calmamente pegou um lenço e limpou, a tempo, o sangue, antes que manchasse a alegre camisa que ela tinha dado ao filho. Do meu quarto, ouvi os gritos de dor e desespero. Nalguns momentos, Margarida agarrava o corpo do filho e iniciava uma espécie de balé macabro.

Curioso é que ninguém pegava abacate daquela árvore, nem colocava corda para um gostoso balanço.

Garotos vinham de longe confirmar a informação de que os enforcados ficam, após o traumatismo cervical, “excitados”.

Dava pena quando começava a chover forte. A chuva castigava os corpos e os raios deixavam-nos chamuscados. O sangue misturado com a água parecia groselha. A roupa molhada tornava os corpos mais pesados, envergando os galhos.

Moro neste apartamento há 15 anos. Ontem, pedi ao meu irmão para passar defronte à casa com abacateiro. Desci do carro e no quintal não encontrei a árvore. A casa estava fechada, com muito mato na frente.

ARMANDO DIORIO

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  TRECHOS DO DIÁRIO DE UM HOMOFÓBICO

 

29/12/01 – Graças a Deus morreu Cássia Eller! Mas ainda falta muita gente. O sofrimento de Cazuza me proporcionou momentos de intenso prazer. Bendita, Aids! Que a vacina jamais seja descoberta! Sem nenhum viado pisando a superfície do Planeta, o mundo com certeza será bem melhor.

04/01/02 – 7h10 - Meu vizinho gay jogou-se do nono andar. O desgraçado ficou parecendo um quebra-cabeça. Esta é, sem dúvida, uma das manhãs mais felizes da minha vida.

07/01/02 – 22h10 – Meu filho mais velho, Cláudio, acaba de me revelar que é gay. Antes de expulsá-lo de casa, espanquei-o como se estivesse tirando o pó de um tapete. O maldito conseguiu me enganar durante 21 anos! Nunca pensei ser capaz de gerar uma aberração. Torço para que ele tenha logo um encontro com os vermes.

11/02/02 – 13h – Hoje foi o dia mais feliz da minha vida: fiz meu primeiro exame de próstata. O médico com pinta de halterofilista acabou machucando o meu ânus. Não consigo entender como os gays conseguem sentir prazer em dar o fiofó. Não senti absolutamente nada durante os 49 minutos de exame. Na volta, passei na farmácia e comprei uma pomada esperta.

15/02/02 – 17h – Soquei um rapaz na academia que me endereçou um sorriso suspeito. Quebrei dois dentes e cortei o lábio inferior do doente. Como tem viado em academia de ginástica! Deveriam fazer uma triagem rigorosa.

21/03/02 – 10h – Meu ânus está em ordem de novo. Chegou minha encomenda de anabolizantes, não quero perder esta belíssima forma física. Ainda consigo ficar horas diante do espelho, admirando meus incríveis músculos.

05/04/02 – 14h – Mandei colocar moldura na foto do monstro do Parque Trianon: que belo serviço este rapaz prestou à sociedade! Matar, trucidar um homossexual deve dar um prazer indescritível. Vê-lo morrer de Aids então deve ser extasiante.

06/04/02 – 18h – Meu filho, segundo minha Bina, está tentando se comunicar comigo. Quando atendo, ele fica quieto. Queimei todos os seus pertences, inclusive o carrinho que dei a ele no seu quinto aniversário. Não quero rastros desse lamentável cochilo da Natureza na minha casa.

15/04/02 – 9h – Obriguei minha mulher a fazer sexo oral comigo. Ela chorou muito, mas deixou-me muito satisfeito.

20/05/02 – 21h – Informaram-me que a professora de minha filha é lésbica. Tentarei plantar um assédio. Ela, apesar de excelente professora, não pisará na escola a partir do segundo semestre.

01/06/02 – 8h20 – Participei, como presidente, da primeira reunião da Associação de Machos da Vila Esperança. Criamos um estatuto e 10 mandamentos do Macho. Adoro me relacionar com homens de verdade, que conhecem o verdadeiro significado da palavra MASCULINO. Nos finais de semana, jogamos truco, bebemos muita cerveja, disputamos braço-de-ferro e, às vezes, que ninguém é de ferro, traímos nossas esposas. Na parede do meu quarto tem a foto de todos os integrantes da Associação.

04/06/02 – 21h – A mãe do rapaz que se suicidou quis falar comigo: ela está muito deprimida e sente muita falta do filho. Tentei explicar a ela que o suicídio do filho foi uma Providência divina e que Deus agora deve estar mais tranqüilo... Falei sobre a desgraçada vida de alguns gays famosos. Mostrei-lhe fotos da internet sobre suas nojentas e sacrílegas práticas. Ela pareceu que compreendeu e esta mais conformada.

15/07/02 – 10h20 – Tive um sonho horrível: estava numa sauna gay, rodeado de gays musculosos, ajoelhados, me fazendo um boquete!!! Acordei suando, com calafrios e febre. Ultimamente, tenho tido este tipo de sonho. Acho que vou procurar um profissional da mente.

21/07/02- 15h35 – A polícia está rondando meu prédio: querem pegar quem matou barbaramente Sandro, um garoto de programa...

 

armando diorio/00h09

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  TRENS LOTADOS

A miséria de Klaus não tinha para onde crescer. O ritmo da tragédia só era quebrado pela parada dos trens. O primeiro parava impreterivelmente as 10h45. Os soldados desciam com enormes garrafões. A grande bica chegava a deformar a delicada montanha. Klaus enfileirava os garrafões e colocava-os sobre um fundo buraco para que enchessem mais depressa.

Quando as rodas dos trens paravam por completo, podiam se ouvir as vozes do inferno.

As portas encardidas dos vagões eram abertas e um cheiro nauseabundo de miséria inundava o ar. Merda, mijo, suor, vômito nunca deram boa mistura para perfume

Klaus se assustava ao ver tanta gente espremida. Crianças berravam , tentando desamassar seus corpinhos. Impossível entender ou distinguir um diálogo. O calor fazia os corpos brilharem de suor. O som das vozes atormentadas espantava os pássaros que teimavam em cantar.

-         Para onde vocês vão?

-         Disseram que vamos para um lugar tranqüilo onde poderemos continuar nossas vidas.

-         Dentro do trem deve ser sufocante...

-         É terrível. Muita gente para pouco espaço. Vim tão colado numa mulher que cheguei a gozar.

-         Deve cheirar mal lá dentro.

-         Muito. Eu mesmo fiz na calça. Deveria ter esperado mais um pouquinho. Você é judeu?

-         Não, alemão.

-         Os alemães sempre se abastecem aqui?

-         Sim, inclusive na volta.

-         Os trens voltam vazios?

-         Sim, e retornam umas três vezes ao dia.

-         Nunca ficou um judeu na sua casa?

-         Sim, mas se matou com a corda do meu poço.

Apenas um garrafão era colocado em cada vagão. O trem apitava várias vezes. Algumas crianças esqueciam da vida e começavam a brincar de roda, amarelinha, etc... Alguns pássaros, após o susto, voltavam a cantar, Certa vez, choveu durante uma parada e a chuva lavou os corpos e disfarçou as lágrimas.

Klaus tinha um enorme urso de pelúcia. Assim que os trens paravam, ele o colocava ao alcance das crianças . Elas cantavam e faziam uma enorme roda. Klaus se emocionava ao vê-las abraçadas ao animal. O urso ficava fedendo e cheio de piolhos. Klaus era magro, mas não compreendia como aqueles homens, crianças e mulheres se mantinham em pé. Alguns caíam e levavam horas para se levantar. Trapos eram oferecidos ao Sol. Homens tiravam a dentadura e lavavam-na com cuspe. Um gravetinho era utilizado para retirar um resto antigo e nojento de comida. Mulheres grávidas e desesperadas escondiam-se atrás da casa de Klaus para abortar. Soldados impacientes obrigavam algumas delas a subirem nos trens com seus filhos ainda presos ao cordão umbilical. Eram apenas três apitos. Os rascunhos de corpos começavam a se mover . Mãos esqueléticas se movimentavam em direção ao Sol. Velhos eram arremessados para dentro dos vagões por não alcançarem a porta. Todas as portas eram fechadas com um estrondo, abafando as vozes. Os trens partiam deixando Klaus pensativo.

Na mão direita do urso, um pedaço de livro com um poema seguido da palavra OBRIGADO escrita com lágrimas.

Armando diorio/23h23

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  O DIA EM QUE BATI COM AS BOTAS

Caro leitor, são 16h42, segunda-feira, e acabei de morrer. Agora estou incrivelmente leve, livre daquela carcaça cheia de problemas. Posso voar pelo quarto, tocar no teto e rodopiar no ar. Que sensação gostosa! Eu achava que a morte era um ponto final: a “coisa” continua, embora um pouco diferente. Ainda não vi o túnel com a luz no fundo, nem os meus parentes mortos apareceram: espero nunca rever alguns. Não mais fila de banco, andropausa, cheque especial no vermelho e quase uma hora no ponto de ônibus. Deixei três prestações , uma vencida, de um televisor 14 polegadas. Daqui de cima, no canto esquerdo do quarto, vejo tudo com qualidade de Dvd. Os médicos agora estão retirando o enorme tubo da minha boca , soltando os fios e desligando os aparelhos. Minha mãe e meu irmão entram no quarto: debruçam-se sobre o corpo que usei. Enquanto isso, a enfermeira, disfarçadamente, abre a gaveta do criado-mudo e me rouba um Henry Miller. Entram mais parentes e amigos, de alguns nem me lembrava que ainda existiam. Os médicos agora pedem para que todos saíam do quarto. Drauzio Varella, num interessante artigo, afirmou que é muito difícil registrar o momento exato da morte. O coração pode bater mesmo com o cérebro parado. Estou nu e uma enfermeira passa uma esponja no corpo, e não esconde o riso quando toca o meu brinquedinho de carne. Levam-me para o necrotério. Que sala fria! Não estou sozinho, há uma senhora perto da janela: deve ter morrido há algum tempo, pois começou a ficar verde. Quem vai vestir o corpo? Minha mãe entra e retira a roupa de dentro de uma mala. Ela demonstra dificuldade, pois começo a enrijecer. Ela chama um enfermeiro e pede para ele quebrar as minhas pernas. Deveria estar alguém com ela. Pronto, fiquei lindo. Só usei o terno uma vez, quando fui padrinho no terceiro casamento de meu irmão. Estão me colocando no caixão. Puxa, meu irmão me prometeu que não ia gastar dinheiro com caixão de primeira! Que caixão lindo! Todo forrado de cetim branco. O travesseiro é fofinho, muito macio. São 18h46. Vamos ao velório. No momento, tem pouca gente. O pessoal ainda está deixando o trabalho. Puseram o corpo na sala 5 e erraram o meu nome na plaquinha ao lado da porta. O enterro será às 16h30. Nossa, vejo Jonas, meu melhor amigo, se aproximar do caixão! Ele viajou 280 Km para ver a minha gaiola. Conversou com minha mãe que está sentada ao lado de minha tia. Está muito quente. Até que estou bem naquele caixão, pareço estar dormindo e meu rosto está bem maquiado. Esqueceram de colocar algodão nos meus ouvidos e nariz. Meu tio Carlos, para quem devia 3.500,00, passa a mão na minha testa(posso imaginar o que está passando pela cabeça dele...rs). Minha tia Josefa e suas indefectíveis garrafas com café, e os deliciosos bolinhos de chuva, tudo arrumadinho no canto direito da sala. Tânia, minha vizinha fofoqueira de mão cheia, fingida, abraçando minha mãe. Estou preocupado: será que haverá lugar pra mim na sepultura? Minha prima Itamar e meu tio Leonardo ainda não foram exumados. Quem é essa loura? Nossa, é minha ex-esposa! Quem a vê pensa que a maldita me amava: encheu minha testa de cornos...Olha, fingindo que vai desmaiar! Jonas, sempre gentil e cavalheiro, levanta-se para ampará-la e aproveita para cumprir o que me prometeu: colocar o recorte de jornal com a notícia da morte de Sarah Vaughan dentro do meu caixão. Acho que vou dar uma espiada nas outras salas, meu velório está muito chato. Se pelo menos contassem alguma piada ou tocassem um jazz. Se tivesse um piano na sala, certamente Jonas tocaria um prelúdio. Torço para que o corpo não comece a cheirar e vazar, pois não gostaria de incomodar essas pessoas depois de morto. Pedi para que acendessem poucas velas. Quantas coroas! Devem custar um absurdo. A do canto direito é de um mal gosto inacreditável. São 16h01. Minha mãe está cedada. Meu irmão recomeça a chorar. Jonas tira um lenço do bolso. Chegou a hora de fechar o caixão. Espero que não derrubem o caixão com todo esse escândalo. Que gritaria! Pára, gente! Será que fui tão importante assim? Olha, cuidado com o caixão!!! Conseguiram fechar. Adoram rezar. Gente, pare de rezar, quem precisa de reza são vocês: rezarei por todos daqui. Estou dentro da perua. Começa a chover e três coveiros bem humorados começam o serviço. A terra parece fofa. Tem início uma pequena discussão sobre a herança que deixei: um velho aparelho de som. Meu irmão grita um sonoro CALEM A BOCA! e exige mais respeito. Começam a jogar terra sobre o caixão. Ninguém para fazer um discurso. A noite desce. Meu corpo finalmente vira um banquete para vermes famintos. Dou um vôo rasante sobre o cemitério e aguardo o sinal para subir...ou descer.

Armando diorio/19h57

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  PARQUINHO DE DIVERSÃO

Ontem, fui, com a escola na qual estou vice-diretor, ao Playcenter. Todo ano letivo, os alunos com melhores condições financeiras, aguardam ansiosos a excursão ao famoso parque.

Estava diante da montanha-russa, quase surdo com a incrível gritaria, quando me senti transportado para a realidade de um passado distante.

Morei, durante boa parte da minha infância e adolescência, defronte a um terreno baldio. Primeiro vieram os circos, mas depois do quase trágico acidente com um elefante, a prefeitura os proibiu. Depois foi a época gloriosa dos parques. Os caminhões descarregavam as grandes armações de ferro e aço que aos poucos iam se transformando em instrumentos de prazer. A majestosa roda-gigante era o primeiro a se erguer. O Chapéu Mexicano, mais conhecido por Dangle, exigia uma montagem cuidadosa, além de revisões constantes. Aos fundos do Parque ficava a jaula de Monga, sensacional performance que conseguia abalar meu sono.

No centro do Parque, não muito distante do carrinho de pipoca, ficava o poste com alto-falante. Sempre entre 15 e 15h30, nos finais de semana, ele começava a cantar indicando que já era hora de escolher uma roupa(eu só tinha uma calça e uma camisa para esse momento) e ligar o chuveiro, Beatles e Stones tinham presença cativa. Durante o banho, dancei muito ao som de Satisfaction e She Loves You. O Parque para mim era uma oportunidade para fortes emoções.

No dia do meu décimo quarto aniversário, faltou luz no Parque. Fiquei meia hora no topo da roda-gigante. O tempo mudou de repente, e trouxe forte vento que por pouco não me arrancou da cadeira.

Mas o mais difícil, leitor, era aceitar que a jovem que ajudava, duas vezes por semana, minha mãe na faxina, às terças e quintas-feiras transformava-se numa assustadora gorila. Numa pequena e quase sempre suja jaula forrada de papel crepom preto, Elaine ficava em posição fetal sob um improvisado canhão de luz. De repente, o canhão enlouquecia e começava a girar freneticamente enquanto Elaine começava a se levantar, emitindo um assustador som gutural. Nesta hora, todas as atrações eram paralisadas, pois uma multidão se formava diante da jaula. A faxineira de minha mãe levava oito minutos para se transformar. Às vezes, alguém mais deseducado atirava objetos que eram imediatamente devolvidos com fúria por Monga.

Havia Rudin, o espetacular mágico, que dizia que seu enorme talento era fruto de um acordo com o diabo. Num feriado, foi linchado e preso após fazer desaparecer a sogra de um funcionário do Parque: dona Marta esta com um vistoso vestido azul quando sumiu de dentro de uma caixa.

Nunca tive coragem de ver a “família-renda-mínima”. Num cenário reproduzindo uma cômodo de uma casa com a plaquinha “LAR DOCE LAR” na parede, cinco pessoas (um homem, uma mulher e três crianças) encenavam a “vida” de uma família com renda de 120,00. Quem criou coragem e viu, jamais se esqueceu das cenas de violência explícita.

Voltei à realidade quando uma professora me cutucou, preocupada com o aluno que passou mal num brinquedo. Deixamos o Playcenter às 21h34.

Armando diorio

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O BOLO DE ANIVERSÁRIO DA TIA TEREZA
 
  
 
-         Filho, ainda é cedo, volte a dormir.
-         Não, mãe, só consigo pensar no meu aniversário. O tempo às vezes custa a passar.
-         Dorme, que ele passa rápido.
-         Mãe, será que a tia Tereza vai fazer o bolo?
-         Ela sempre faz.
-         Qual será o formato desta vez?
-         Não consigo imaginar, o último foi de coelho.
-         Mãe, bem que o pai podia aparecer na festa. A senhora levou o celular pra ele?
-         Ta louco, menino, quer ver sua mãe também atrás das grades?
-         Mãe, a senhora viu a mancha na janela?
-         Não reparei.
-         Parece uma santa ou um polegar gordo.
-         Larga de bobagem, passa álcool.
-         Já passei e não quer sair.
-         Pedro, como se sente completando dezenove primaveras?
-         Quer mesmo saber, mãe?
-         Quero.
-         Não sinto nada. Olho ao meu redor e só enxergo o bolo da tia ao lado dos brigadeiros. Até quando o bolo da tia Tereza será o fato mais feliz de nossas vidas? E se ela tiver um derrame e o bolo não chegar?
-         Não pense bobagem. Veja se seu irmão já acordou e cuidado para não errar o coquetel desta vez.
-         São 15 comprimidos?
-         Sim, na mesinha do criado-mudo.
-         Bom dia, mano!
-         Oi, vem me dar um abraço, parabéns!
-         Obrigado mano, mas agora vamos engolir os comprimidos.
-         A tia já chegou?
-         Ainda não, e estou ansioso.
-         A mãe já comprou o seu presente?
-         De que jeito? Se não fosse aquele programa de televisão, você estaria morto sem estes comprimidos.
-         Mano, a mãe anda chorando à noite.
-         E você nem desconfia por quê?
-         Desculpe-me. O choro dela me incomoda. Não queria que a minha tragédia fosse uma extensão da de vocês.
-         Calma, mano, ainda podemos contar com o bolo da tia Tereza.
-         É mesmo, a tia é maravilhosa. Bolo com três camadas! Recheio de coco com chocolate. A tia é nosso anjo.
-         O pai andou aprontando na cadeia.
-         O que ele fez?
-         Encomendou pizza e chop. Fizeram até um churrasco no presídio.
-         Sério?
-         Ele pediu um celular pra mãe.
-         Mano, você já reparou na mancha na janela?
-         O que você acha que é?
-         Parece uma santa.
-         Por que uma santa apareceria aqui?
-         Talvez para retirar esta doenca do meu corpo.
-         Seria bom demais.
-         Crianças, a tia Tereza chegou!
-         Que bom! Ela trouxe o bolo?
-         Trouxe, o maior de todos, com 4 camadas! Formato de uma pomba com raminho no bico.
-         A tia Tereza é uma verdadeira artista. Mãe, liga um pouco a televisão.
-         Ligo já, quer ver algum filme?
-         Espera, deixa aí...
-         Que filme é este?
-         Deve ser de açäo, dois aviões batendo numas torres, da hora. Os americanos são mesmo bons nisso. Que efeitos!
-         Filho, quando o filme acabar, venha ajudar a sua tia. Quero que o bolo fique muito, muito bonito.
 
-         Ele ficará, mãe, ele ficará...
 
 
 
Armando diorio

11/09/01 : 7h25

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IMITAÇÃO BARATA DE UM DIÁRIO
 
Apesar do despertador vagabundo não ter me despertado, acordo bem em cima da hora, maldito condicionamento! Abro um pouco a janela e descubro que tem sol. Minha prima ligando desesperada, preocupada com a camisinha que estourou. No espelho, verifico, com cuidado, como andam minhas velhas hemorróidas. Detesto escovar os dentes com sabonete, mas sou obrigado. Antes visitava o mercadinho um dia sim um dia não. Ontem o dia foi pesado: tive de reconhecer minha tia no IML, morta há 3 dias! Abro todas as janelas (só tem duas) do apartamento e dou uma espiada, com um binóculo, no casal do apartamento da frente: há dias que eles apenas conversam. O interfone toca me perguntando se quero gás. Minhas revistas pornográficas estão todas vencidas. Já cansei de ficar olhando sempre para as mesmas mulheres. Acho que abusei um pouco do aparelho para aumentar o pênis: minha glande está doendo muito. Vou deixar a ginástica para mais tarde. O casal parou de conversar e está transando em cima da mesa de jantar. Meu computador deve estar lotado de e-mails. Não queria transar com minha prima, mas ela forçou muito a barra. O boleto com o rateio do condomínio está muito atrasado. Quando vão começar a pintar este prédio? Encharco meus cabelos com Grecin 2000. A pomada para hemorróidas está na metade. Minha tia ficou imensa, toda verde. A incrível pilha de jornais e revistas sobre a caixa acústica me deixa estressado. Há dias que não leio uma linha sequer sobra a guerra. Estranho, mas tenho notado que meus peidos não fedem. Será por causa da dieta? Estou ouvindo Hurricane, de Dylan. Tentei traduzir a letra, mas desisti: muito comprida e difícil, cheia de gírias. Hoje não vou trabalhar, inventei que vou receber a visita de um velho e quase esquecido amigo. Odeio passar roupa, o colarinho nunca fica perfeito. Minha prima me garantiu que a camisinha não estava vencida. Para não perturbar o vizinho de baixo com música ( ele odeia música e criança), ligo o televisor e encontro Ana Maria Braga driblando um câncer. Já são 9h. O sol começa a queimar o couro do meu sofá. O casal agora goza ao som de Van Halen. Aluguei 5 filmes na sexta, mas consegui assistir a dois e acabei dormindo na metade do terceiro. O funcionário do IML me obrigou a olhar para o rosto de minha tia. Na secretária, um recado ininteligível numa voz cavernosa. Desço pela escada, os dois elevadores estão quebrados. Dinheiro trocado para o metrô e ônibus no bolso. Deixo passarem três trens, pois adoro ficar encostado na porta. Entre Penha e Tatuapé, dois seres despedaçados pedindo de tudo um pouco, enquanto o condutor, numa voz aveludada, desaconselha a esmola. Excito-me com a jovem lendo um livro espírita na minha frente, o perfume barato dela embaralha meus sentidos. De repente, tudo parado e escuro: um corpo nos trilhos. Talvez desta vez tudo acabem bem. Resolvi fazer um teste vocacional, afinal três erros médicos e dois processos nas costas não é nada lisonjeiro. Interessante é que nunca tive medo de sangue. A dor de novo...faz dois m