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9 Poemas editados

- Columbina e Arlequim

- Cumplicidades contigo, josé
- De volta ao meu bairro menino
- Eu mulher
- O teatro abriu as portas
- Outros dias de Natal
- Se não for Abril
- Talvez...
- Viagem
 

Por do Sol

Paris

     

 

 

 

 
Columbina e Arlequim
Columbina e Arlequim
 
Quero perde-me todo em ousadias;
Subir ao palco, correr por instinto,
rodopiando as palavras que sinto
Vestidas de vermelho e melodias.
 
No cenário das minhas fantasias,
Em comédias e dramas que pressinto,
Nas lágrimas, de palhaço me pinto,
Serei Arlequim quando alegrias.
 
Tu, minha Columbina, entras em cena.
Vens beber as gotas do meu olhar
Com lábios de carmim a condizer.
 
Com os corpos envoltos numa pena
Só vai ouvir-se o nosso respirar
Num azul, doce e terno adormecer.
 
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Cumplicidades contigo, josé
Cumplicidades contigo, josé
 
 
Sendo serralheiro e desenhador,
Moldaste as letras com nova pintura,
Os poemas com cerco de ternura.
Na pontuação vestiste outra cor,
 
No evangelho inventaste o amor
Pecado em jangada pouco segura;
E foi com verdade em tanta aventura,
Levantado outro mundo ao teu leitor.
 
Memorial para a nossa cegueira,
Todos,  provavelmente,  na viagem
Interior, descobrimos o centro
 
Da vida; que farei doutra maneira,
Pois li,  na cinta da tua bagagem:
“Cuidado,  leva uma pessoa dentro”
 
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De volta ao meu bairro menino
De volta ao meu bairro menino  
 
 
 
 De volta ao meu bairro menino  
 
 Tempos contentes de menino moço  
 De correr à água à fonte da vila  
 De muito puxar a corda do poço  
 De roubar à tia o doce de gila  
 De cedo armar o costil nas figueiras  
 Eram bem passadas as brincadeiras  
 
 Com burros a trote até mais não dar  
 Com cigarro escondido atrás do muro  
 Com pedras nos bolsos para atirar  
 Na casa grande tudo era puro  
 
 Jogar berlinde picar o pião,  
 Saltar as flores em cada canteiro,  
 Quatro-arroz no papo, eixo na mão;  
 Chegar à escola sempre em primeiro.  
 
 A caixa métrica mais e o tinteiro,  
 O giz, as duas linhas, o ponteiro  
 Os rios, o três vezes nove, o ditado  
 De altas montanhas todo cercado  
 
 Como ria com a menina do lado  
 De Moita e Coina no mapa riscado.  
 Por saber um ninho e ir à cereja  
 Pela primeira vez a régua me beija.  
 
 Como se hoje nada mais houvesse  
 É esta infância que agora me aquece.  
 Noutras vidas que a cidade nos tece.
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Eu, mulher        
Eu, mulher        
 
 
 Eu, mulher        
 
 “De manhãzinha  
 Salto da cama  
 Vou à cozinha  
 Mesmo em pijama”  
 A roupa a estender  
 A cara lavada  
 O leite a ferver  
 A tosta queimada  
 E toca que toca  
 O despertador  
 Já saíu da toca   
 Quem me chama amor  
 Acendo um cigarro  
 Maldito esquecer  
 Nunca mais paro  
 A cama a fazer  
 O café está pronto  
 O puto a berrar  
 Já lá vou, meu tonto  
 ‘stou quase a chegar  
 E gira que gira  
 A vida de fada  
 Parece que vira  
 A cama mijada  
 O emprego a horas  
 Já não lavo o chão  
 Andar sem demoras  
 Ouvir o patrão  
 Imposto a subir  
 A renda a pagar  
 Pr’o carro e vestir  
 Não sei se vai dar  
 Trabalha trabalha  
 Até o sol pôr  
 O corpo não falha  
 Só sinto calor  
 As brancas a vir  
 Cabelo a pintar  
 As rugas a rir  
 Só pr’a disfarçar  
 De volta pr’a casa  
 Fazer o comer  
 Vem de grão na asa  
 O clube a perder  
 E nesta panóplia  
 Estão por fazer  
 As contas e a cópia  
 Do filho a crescer  
 O jantar na mesa   
 O cravo e canela  
 Novela proeza  
 Não vivo sem ela  
 São horas da deita  
 Marido a querer  
 A vida que espreita  
 Rebento a nascer    
 E corre que corre    
 Pela noite dentro    
 A alma não morre    
 No sonho não entro    
 O corpo e a alma    
 Do meu dia-a-dia    
 Não me dão calma    
 Não sei se alegria    
 Mas o meu olhar     
 Venha quem vier    
 Vive do luar    
 Só por ser mulher    
 E quando eu quiser    
 Isto vai mudar    
 Que o nome mulher    
 Ocupa lugar
 
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O teatro abriu as portas
O teatro abriu as portas
 
 
Pancadas de Molière
O pano rodou pr'o lado
Em cena uma mulher
Um palhaço e um soldado.
 
Estranha combinação.
Foi alguém que entrou cedo,
Uma estória de paixão
Ou qualquer outro segredo?
 
Penteava-se o palhaço,
O soldado assobiava,
"Quero dar-te um abraço"
Assim a mulher cantava.
 
Desceu do palco depressa,
Veio sentar-se a meu lado.
Fazia parte da peça
Trocar os passos do fado!
 
Ali ficámos os dois
Sob um foco de desejo.
Só demos conta depois
Que foi o primeiro beijo.
 
Mesmo junto ao nosso friso,
Pôs-se em guarda o soldado,
O palhaço em sorriso,
Todo o público espantado.
 
Foi quando alguém aplaudiu
Que acordei estremunhado:
O teatro que abriu,
Fora um sonho encantado.
 
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 Se não for Abril...
 Se não for Abril...
 
 
 
 Se não for Abril...
 
 Antes, perfiladamente sentados,  
 Meninos, um número com gravata,  
 Meninas de soquetes e de bata  
 São modos de medos assim calados.  
   
 O tinteiro, o ponteiro e os ditados,  
 A régua que nos beija, que nos mata:  
 Escola de manual que nos ata.  
 Se não for Abril, estamos cercados!  
 
 Vieram cravos vivos de vermelho;  
 Abriram-se as portas de par em par.  
 Então, vi nascer outra mocidade,  
   
 Que aprendendo o sabor do canto velho,  
 É bicho-carpinteiro a dar a dar  
 Numa turma chamada liberdade

 

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Talvez...
Talvez...
 
 
Talvez...sonhar, um modo de brincar
Talvez...partir, um modo de ficar
 
Se ficar parado a olhar o nada,
Erguem-se jardins nas minhas vigílias
De violetas, malvas, buganvílias.
Cai uma pétala, surge uma fada.
 
Com  sua varinha cor estrelada,
Embarca-me entre loureiros e tílias.
Marinheiro descubro outras sicílias
Nas vagas de viagem navegada.
 
Ilhas de azul verde mar de partida
Deixo a cidade dormir no convés
Pois ela não sabe ver o luar.
 
Assim trago carícias para a vida
Pintando de sonho as minhas marés,
Sendo o nada que beijo o meu brincar. 
 
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Viagem 
Viagem 
 
           
 
 Pr'a visitar terras por descobrir  
 Ateei o fogo dos meus sentidos:  
 O tacto viu rugas dos tempos idos  
 Nas carícias meigas do meu sorrir;  
 
 o olhar foi pincel a colorir  
 A paisagem de luz de textos lidos;  
 Papoilas com cantos adormecidos  
 Ao ouvido respiraram a rir;  
 
 No gosto beijos voaram à volta  
 Vestidos de amêndoa, gila e saudade;  
 O cheiro veio abraçar-me de mar  
 
 Com lágrimas de rosmaninho à solta.  
 Vejam lá se não é na mesmidade  
 Que o mundo novo se pode bordar?

 

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Outros dias de natal!
Outros dias de natal!      
      
 
No quadro, quantas letras desenhadas,  
Linhas, ângulos, mais hipotenusas!  
Cantos, gritos, algumas semifusas,  
Na sala, quantas palavras jogadas!  
Escrita e oral, em berço embaladas,  
Fazem-se ao rio à procura de musas,  
Tentando, de tantas águas difusas,  
Que nunca cresçam crianças cercadas.  
Nós, professores, josé e maria,  
Na escola feita presépio fraterno,  
Sem tecer um poema tal e qual,  
Meninos aquecemos dia-a-dia.  
Cobrindo de estrelas o seu caderno,  
Contamos nossos contos de natal.  
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