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26 Poemas Editados

- Às vezes penso

- Cárcere dos sentidos

- Cheiros

- Desertos

- Grafias

- Ilha

- Insana

- Insaciável

- Jaula de luz

- Medusa

- Não mais

- Não sabem

- Nova espécie

- Oblíquos cristais

- Palavras

- Para além das colinas

- Percursos

- Permeios

- Pólene

- Por vezes

- Posse

- Queda do anjo

- Saturado

- Soro

- Teu rosto

- Torre de Vigia


Liberdade

Fotografia de José Soares

 

     

 

 

Cárcere dos sentidos
Cárcere dos sentidos

Cárcere dos sentidos
as paredes choram
e dou-lhes nome. mudo-lhes o nome
e pinto-lhes novas, ténues, escamas em forma de coração
escorre, decorre, lenta a seiva da sua dor, sibilante lamento 
pós passagem dos ventos que de longe murmuram 
encantamento, esplendor breve do
amor
encostada ouço o rumor da sua passagem, abaixo da minha 
pele
sulco com as unhas o medo de perder... de esquecer... de 
perecer... de esgotar... de devassar a noite do corpo lunar, 
desenho a quente a paisagem no interior seguro das flores, ou 
no centro polposo (denso, doce) dos frutos, desvendando o 
cárcere dos sentidos, espalhando com a saliva a admissão da 
insana abstracção da lucidez
e nasce o grito, na queda dos corações, e as paredes feridas 
de morte esvaziam-se de sangue... mel terno com que lavo o 
rosto, para disfarçar as lágrimas
e ofereço-me sem ter quem me receba, assim, louca

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Grafias
Grafias

No lugar onde ficam todas as palavras
pernoito
eu sei
o espelho incita-me à descoberta 
da grafia das águas sobre a pele
o silêncio transforma o tempo num desastre
no torpor do voo
rasga-se
quebra-se
e quando quase fissura
os dedos rompem o poente
(contenho o respirar...)
rebentam a pele em constelações de seiva incandescente 
eclodem conchas no crepuscular percurso das mãos
 

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Medusa
Medusa

é tarde
chega-me inquieta a medusa
assolaram as paredes os sustos disformes trazidos pelos 
cíclicos ventos, e os seus cabelos de voraz solicitude 
ondulam agonizantes à mercê do deserto que meu corpo lhes 
oferece
estendo-lhe devagar os degraus repletos da cinza em que se 
transformou a ave translúcida do meu querer que sussurrante 
continua ferida e em queda, no abismo da nocturnez e da 
limpidez dos corais venenosos mas apetecíveis... e que 
morre... morre aos bocadinhos, em filamentos de papel 
queimado que se gasta por entre os dedos e os deixa 
cruelmente... marcados, com desenhos de penas de diáfanos 
cristais
é tarde
a medusa permanece
e eu pernoito no invisível espaço que decorre entre meus 
dedos, quarto de magnificentes fragilidades, onde ouço o 
ciciar dos lilases dentro do sonho e adivinho da medusa o 
caminhar, procurando meu cintilar no interior das pedras 
esquecidas à beira mar... ou a paisagem irreconhecível do 
meu rosto, pela noite nebulada, na serena areia da praia

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Por vezes
Por vezes

por vezes quase diria
que são cilíndricos os ócios
e que resvalam sem rumo
ateando fogos 
pela encosta simulada dos ventos
que nos cânticos nocturnos
esgotam os termos
e os sinais, exactos,
e fendem o querer com lápis por afiar
bailarinas sinuosas as pontas de cinza
suspensas em asas de alvas folhas
numa imaginária ponte 
– esboço da abstracção -
que sustêm os precipícios
no manso voo dos gansos

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Posse
Posse

a madrugada chega inesperadamente,
mesmo antes do sono, aquietando os 
lumes bravios que consomem os quilómetros
alvos onde repousa o corpo e o sereno respirar, inaudível
os tempos observam, espantam-se, num continuo 
quebrar do negro costume que desnivela a textura da pele, imóvel e afável
a vulnerável seda dos cabelos cede aos espasmos do sonho e
na fuga precipita-se sobre a almofada, colina irregular, e solvem-se as correntes,
nasce a vontade de invadir o quadro
pintar o gesto
cobri-lo com a luminosidade do fresco numa qualquer cor desconhecida
e ensaiar a posse

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Queda do Anjo
Queda do Anjo

hoje são nulas as circunferências da vontade, electrizadas pelo voo do pássaro nocturno, 
morto por espasmos de ansiedade e inocência
jaz a meus pés
sepultei-o no sulco dos meus vindouros passos
 
observo agora a solidão que se evade do seu espírito derramado 
e se pronuncia muda cúmplice do destino, 
fulguração ténue dos meus sonhos
e murmuro em surdina à húmida terra e ao musgo, 
acompanhando ainda a queda do anjo, a balada do regresso da 
crisálida, que em casulo de orgânicos pensamentos repousa, 
nua
metamorfose

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Ás vezes penso
Às vezes penso

 
os dedos hirtos e as palavras, 
apressadas
inacabadas
solventes
rasgando o poente
ou o horizonte
riscando na face negra da ardósia
a teia encenada nos bancos dos passeios
pelas águas fluidas dos bebedouros
 
largo em bandos todos os pensamentos
e eles sombreiam a cidade inóspita
e vazia
despida de mim
objecto disforme que se apaga ao primeiro raio de sol
 
poderiam os hirtos dedos (agora trémulos)
povoar os desertos
que atravesso flutuando
fundindo a paisagem inacessível,
quase perfeita pela paixão,
na habituação da desolação
que no sucinto silêncio vislumbro
 
às vezes penso trinta e uma vezes
na quantidade de vezes em que não te vi
nos meus sonhos
nas trinta e uma vezes
em que confidenciei aos astros
o estremecer dos corpos invisíveis e inodoros
construídos no instante de incomensurável solidão
em que recebo a primeira estação, ou a primeira glicínia
sempre que morrem cedo os dias
sempre que no esquecimento da alba
me rendo, indefesa, à insónia
transitando pelos minúsculos pólos e pelos estames
frágil fio de orvalho suspenso na luz
que nenhum grito detém
 
 

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Insana
Insana
 
no fechar dos olhos... consinto
a longevidade dos exíguos corpos, tatuados a frio pela 
fuligem das ensaiadas fugas na alvez das paredes, rugosas 
como as planícies, que repletas pelos fragmentados silvos da 
falta - largados aos molhos como se sementes fossem - 
oferecem a espasmódica paisagem, que me sufoca... e me traz 
de volta ao esquecimento da fina areia, segundo a segundo, 
crescendo no suicídio ou no tempo, mergulhando na ausência 
dos lírios púrpura com que decoro as fotografias da memória, 
os instantes...
aqueles...
em que não te tenho
ou em que sinto não me ter
no fechar dos olhos... procuro
o consolo da maresia, que roçando as frestas das janelas as 
cobre com o iodo das areias e extingue, poro a poro, as 
inundadas visões do imenso querer... iluminando no seu 
percurso as difusas artérias, dando-lhes fogosidade e ardor, 
num adocicado e submisso tocar, subtilmente indiciando, a 
melodia rumorosa e lenta das abelhas, ou as quebras dos 
reflexos das suas asas. a queda.
no fechar dos olhos... depois...
simulo o longo e imperturbável sono da pele, numa simulada 
tranquilidade do espírito na berma da flor, espreitando a 
solicitude e o pleno voo do sonho, num leito feito de costume 
e de hábito, por fazer na manhã e desfeito ao deitar, 
reinventado em cada toque, pulsar ou olhar e com o cheiro de, 
apenas... teu, meu, sei lá...
lar
(elixir possível!.. ou grito!)
àquele único lugar...
a que só queria regressar
continuamente, cumprindo os porquês do tudo que me faz 
rumar, em círculos, numa ignorada loucura
insana... jangada, que me sustêm... ainda assim, livre.

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Não mais
Não mais

 
não quero mais 
receber do musgo
a humidade porosa que sacia os meus dedos
esconder-me no centro das melancolias rosadas
pelo ocaso
não quero mais 
delapidar o ardor dos corpos
esconder o aroma espesso das estações
e mascarar os dias com as tintas difusas das flores, 
odores...
não quero mais 
apaziguar os fogos 
sem que se evaporem as cinzas
sem que da chama fosforosa
nada mais reste do que o inacessível
e suspenso
suspiro
 

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    Palavras

Palavras

 

... são as palavras o epicentro organico dos lirios,

nascidas como sendo obras primeiras da alma

e

ocorre-me que na esquina vertiginosa de cada uma delas, silaba a silaba, se fundem os gestos e os laços, num bailado inacessivel ao toque, ou ao sabor...

e é só por isso que se chamam escadas à sucessão de degraus que destinam ao horizonte vazio o olhar repleto de deslumbramento, irreprimível dádiva de ocasos e crespusculos.

hoje escrevo... o luto dos fumos que aquiescem ao chamamento infinito do silencio.

 

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    Torre de Vigia

Torre de Vigia

"Sete degraus da altura das lombadas descartáveis dos livros que amontoou na cabeceira da cama. Eram pacíficos e não lidos e ainda assim continham todo um enredo, histórias dos dias e dos sonhos, novelos serenos construídos pela observação e conluio. A vida que rasava o seu conhecimento era a de A. E alguns até suportavam mágoas ou as sombras das velas, incensos ardidos pelas madrugadas, enquanto se cristalizavam as imagens das decepções ou fantasias goradas. E não existem complexidades no anonimato das identidades disfarçadas de pastas de folhas coladas ou papiros silenciosos e úteis, nivelando o tique-taque do relógio, absorvendo o brilho nodoso das pedras dos anéis – jóias raras como os seus olhos – as pétalas secas e ainda perfumadas das flores sem nome mas já largadas na paisagem de Monet tatuada na capa do livro primeiro. Paralelos à cabeceira da cama. Sombranceando com irregularidades o tapete de lã bege a seus pés rendido, esboços da luz que roubada ao dia ou à noite de lua, pela janela se atreve a compor uma qualquer presença. Mais uma. Vizinhos de um telefone qualquer, com que nunca travaram conhecimento. Insuportável pelo rumor continuo e imperceptível dos invasores – também eles anónimos – do espaço emocional dela. E lá mais ao largo, o espelho. O único e verdadeiro rival naquela tarefa incessante de observar e reter movimentos e até de os conter, pela memória. Os acontecimentos nasciam e pereciam, simulando-se e concretizando-se, ao ritmo das poeiras solares e lunares, deixando sobre a torre de vigia impressões ocasionais sinalizadas com letras maiúsculas no início de uma frase – não escrita e sim riscada pela pressa ou urgência num papel qualquer (e leia-se qualquer como não tendo carácter ou personalidade e nem sequer forma física pela ausência de similaridade e identificação com alguns demais – leia-se só um papel – sem razão de ser e sem destino), ou com reflexos raiados de cores indefinidas e difusas, o beijo para experimentar a consistência do batom na gélida mistura de si mesma, no espelho. Brilhos, só brilho, para atenuar o exercício da expressão ou aligeirar o pouco sono e demais sonho. E se ela saía também lá ficava, imperceptível, a sua forma na cama. Contando histórias. Todas elas protagonizadas por suspiros e respirares compulsivos, peles sedosas amarrotadas pelo sentar cómodo do consolo e, algumas vezes, do prazer. Esporadicamente ficava abandonado, ao lado das formas sinuosas de um peito, ou de uma perna ou de uma mão aberta, um segredo usado, que vivera horas, dias ou mesmo meses acorrentado ao receio, ao medo – provocara urticária no início e depois uma alergia aos filmes de amor com finais felizes que a esgotavam. Ter um segredo ou vários segredos podia ser uma tortura física mais que psicológica e isso implicava um estranho estado de aceitação do castigo que a transportava com frequência à idade média onde se via convertida em cinzas pela falta de identificação e de fé. Um segredo é um nó. Um nó é uma obra de perícia, muitas vezes artística. Também se aprende a dar nós. Dos nós podem-se passar aos laços, na ausência da verdade podem-se consegui-los elaborados."  

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Permeios
Permeios

 
decorrem em fiada
os gumes de açúcar e mel
novo revestimento de sensibilidade
associado ao morno contorno
dos lábios
limites lunares
que desenfreio libertando os novelos
soltando ares em unidades
- de fios de luz -
que congelo e degelo
em cachos de suspiros
em permeios
de desejos
em arrepios
e moldo
as arestas das marés

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    Para além das colinas

Para além das colinas

 

olho-te

para além das colinas vazias de sombras

descobertas e nuas

raiando gritos e libertando os gemidos possíveis ao querer

para além do desejo

e

penetro

 

nos ocasos redundantes dos teus gestos

ensaios que desenfreio como se só cometas fossem

silvando na passagem

e queimando, chamuscando...

 

soletro que só, e somente...

para além do desejo

 

te quero

 

e que antes,

no prenúncio das pálpebras, só te amo.

 

olho-te

para além das colinas repletas de saudade

 

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    Soro

Soro

 

inanimado o oceano

que irrompe nas cores quentes vindas de oriente

difícil trabalho das migrantes vertigens

que se espantam pela cal - pós

e que suspensas no abismo

das manhãs

pressentem o susto

crescem tatuagens do doce soro

na combustão dos anseios pela saliva

quando na chegada das tonalidades

do açúcar ao rubro

desprende-se dos lábios um beijo

espio o suspiro...

 

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    Teu rosto

Teu rosto

 

penso no quero

no sou e desejo

no solstício de Inverno

em arrumar e desordenar o mundo

ou nas questões das violetas

e nos segredos dos tectos

que espiam a queima das ilusões

penso o voo orgânico do orvalho

no desassossego dos corações

e nas palavras que escrevo

no caule improvisado das amoreiras

penso que não se esgote a tremeluzente sanidade

dos gestos que em descuido abandonei ao tempo

e saturaram as raízes de contido mel e azuláceo rigor

ao largo julguei pernoitar paredes

instruindo alicerces e causando ecos

persigo-me

sobre os despojos e as ameias

pela exactidão da construção

tacteando a paisagem de que é feita o teu rosto

 

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Insaciável
Insaciável
 
ouço no desenlace do cata-vento
o migrar dos murmúrios
em fragmentos
feitos poeira, aves que definham
e no último sopro de alento
tingem de lucidez a paisagem
preparo soros
recolho das raízes do céu
o fio de sangue que me dá corpo
teço anonimatos no isolamento
fugaz
e nas mãos de cristais e jade
condenso a lágrima, na espera
sou,
na exaustão do silencio
insaciável


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    Jaula de luz

Jaula de luz

 

 

 

nada estremece

ou nada se move

apenas a luz permanece, em dança inconstante, percorrendo o corpo das velas e perscrutando a sombra turva da seiva aquosa, quase óleo de tela, que encerro em meus olhos

vejo através das fulgurações celestes a leveza rubra do lume, derramando o sangue do pássaro ferido no marulho alba da minha alma e construindo a idade pelas veias e nós da madeira clara da porta, encalhada como um barco nos confins da madrugada

nada estremece e nada se move

a noite emudeceu na folha em branco onde desenho o meu corpo e transformou-se numa

jaula de luz fechada

e na lágrima subtraio a respiração do universo

 

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Pólene
Pólene
 
 
apenas os véus do silêncio rodeiam os estames inacabados dos narcisos
colam-se à nudez dos dedos, raiada a púrpura
veludo aquecido pelo medo, oscilando entre as formas das nuvens
e o seu cheiro
segredando o poema recortado no verde da folha 
e abandonado no primeiro voo do viajante
ao vento

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Saturado
Saturado
 
 
adivinho a insondável bruma, 
inacessível à cintilação dos lugares comuns às aves
perscruto no lume seco o espólio de cinza e instantes de agitação, 
descobrindo o vazio onde o corpo e as penas assombram, 
perturbam, 
a crepuscular luz da noite, que renasce... 
e se funde com o reflexo, eco.

floresce na sua ausência o aroma do sangue
e cobre a minha pele a desolação da paisagem de areia tingida a silencio,
e na precariedade dos sentidos o medo desperta 
e aos guardadores do fogo, 
meus olhos, 
por paixão se entrega


dilui-se assim a loucura, 
no pulsar do poema, 
ou do amor saturado de voláteis entregas
 

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Cheiros
Cheiros
 
E fossem as pétalas difusas redes
por onde se evadem consensos 
e seriam as flores plenas fontes de emoção, 
conluios de adjectivação, no resfolego desabrochar...
 
ou no quebrar dos pólenes, 
extinguindo a fértil locomoção dos cheiros.

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Desertos
Desertos
 
O silêncio invade agora os destroços do dia 
dormentes 
e
indolentemente
dispostos nas fulvas praias
 
Em breve, com a chegada dos espectros,
resumir-se-ão à poeira 
com que darei os retoques finais na densidade da húmida areia.
 
Desertos
onde pulsam estames de incerta imortalidade.

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Ilha
Ilha
 
Há muito que o eclodir das pétalas
não soltava tão intenso perfume sobre a minha cama.
 
É no vácuo do alvo que renuncio à protecção dos lençóis
e me entrego, vaga e nua, 
à composição das vozes que se arremessam em queda livre 
e jazem a meus pés, 
inspirando e expirando carência... clemência. 
 
É no cauteloso rumar dos meus dedos, 
caminhando ao lado de meu corpo
(ilha)
que me concebo, núcleo da extensa fogueira de sal e mel, 
jasmim e pólen, 
que em elaborado conluio de desejos e chamas explode 
e me consome a alma de quase mortal fascínio
por ti... reflexo
que nada és, além de mim.
 
E adormeço por fim
fragmento de lava apaziguada, 
que me torna 
ilha 
crescente
no céu nocturno da casa.

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Não sabem
Não sabem
 
Filtro a extensão da luz que antecede a minha passagem 
e elevo-a ao infinito por nunca a alcançar, 
enquanto no pensamento simulo vozes de abstracção
conto os quilómetros;
 
Conto numa balada silenciosa as pedras, 
que colocadas na minha frente se afastam agora 
e espectadoras se erguem e sinalizam as minhas marcas, 
mapa de pele, 
esperando a queda no precipício que na esquina, 
pacientemente, aguarda.
 
Não sabem as pedras que este é apenas um caminho mais 
e que elas nada mais são do que pó no tempo, 
um tempo por cada pedra, 
e que chegada ao abismal precipício soltarei as minhas longas asas 
sobre o mundo e a paisagem 
e não deixarei assim, jamais, de rumar ao infinito.
 
... mesmo que se apaguem do céu as estrelas 
e da noite nada mais reste do que a cumplicidade das sombras.


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Nova espécie
Nova espécie
 
 
As palavras nascem agora como se instigassem à melodia
e o compasso não é mais do meu batimento cardíaco 
mas de uma qualquer insinuação da noite.
 
Vejo pois quando deveria ler, 
não as letras com que ergues o pensar 
mas as notas com que desenfreias os acordes, 
e não as sílabas e sim os sinais.
 
Não são construções de sentidos e sim, 
tudo o que vejo,
é o silencio que precede a orquestra, 
numa sinfonia inaudível de estremunhado conteúdo gestual.
 
Por vezes não preciso de ler, 
é o meu pensamento mais veloz na apreensão da harmonia 
Não preciso de ver, 
é a minha percepção mais sagaz pela captura que faz do que não precisa de ser para o simplesmente, ser. 
Num instante ou noutro.
 
E falo da fracção de segundo em se comuta o interruptor 
e da noite se faz lume ou chama lacrimejante 
com sabor a sangue agridoce 
pois não existe noite densa em que não nasça uma nova espécie
de sentir.
 
Tudo porque me apeteceu sorrir
e não me apeteceu conter o riso
e nem mesmo me ocorreu desligar 
a frequência por onde circulam hoje as minhas ondas cerebrais
e as minhas sensibilidades, 
a minha pele;
 
E porque poderia até assim escapar ao desequilíbrio, 
fugir ao medo numa qualquer bola de sabão 
surripiada ao sonho mais próximo;
 
E poderia até assim
cair na teia de seda, 
sede, 
que a aranha me oferece, 
leito em que será meu destino perecer 
num sereno e sussurrante abraço.
 
Hoje tudo me inspira intenso prazer.

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Oblíquos cristais
Oblíquos cristais
 
 
Tudo em mim emudeceu no confronto com os oblíquos cristais, 
vidro quebrado pelo suspenso respirar 
que em meu peito acende fogueiras 
de voraz duplicidade.
 
Rogo, imploro, 
no canto inaudível das sombras
o adormecer eterno deste meu exultante peito 
e rasgando as chamas me deito sobre as cinzas, 
aquietadas notas melancólicas que me cobrem de nocturnas 
e insuspeitas poeiras.
 
Balbucio rendição ao passante vento
e ao meu corpo peço perdão por dele ter perdido o rumo 
pois não sei onde, nem em que tempo, 
me esqueci de lhe dar nome e dele, 
no cru espelho,
procurar o secreto reflexo.

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Percursos
Percursos
 
 
Hoje sinto-me vazia de mim 
e
no afago da espera adivinho o percurso da sereia 
no oceano de rumores que de meus sonhos,
flutuantes, se erguem.
 
Liberto desenhos, sinais,
expulso a voz do peito
e espero que sigas meu corpo e o alcances 
já que eu o não consigo.
 
De mim a vontade desfaz-se num último lume, 
precária respiração
 
Tornei-me nómada
e pergunto-me se não estarei agora em ti.

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