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a. gil |
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Página inaugurada em 09/01/2006 |
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6 Poemas Editados - Porque hoje fiz bolas de sabão Contos |
a. gil
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a.gil nasceu em Luanda, Angola, a 15 de Abril de 1972. Veio para Lisboa, apenas com três anos, e hoje não se imagina a viver em qualquer outra cidade. Formada em Ciências da Comunicação, é actualmente redactora do GameOver, portal de videojogos do Sapo. É viciada na escrita, na leitura, na fotografia e não passa sem os amigos, a família e o gato Leo.
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Esta noite
Por instantes Há noites
assim |
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nas manhãs remelosas. nas noites de insónia. nos discos em auto-repeat. nas imagens que invento. nas palavras que junto sem sentido. nos filmes de amor trágico. nos livros que falam de coisas sérias. nas manchetes sangrentas dos tablóides. na chávena de leite achocolatado. no ronronar do gato que se deita a meu lado. no relato da partida de futebol no canal codificado. em mais um cigarro que sorvo. e ainda no fastio a que me obrigo. no chão da sala polvilhado de sapatos. nas folhas de papel riscadas. foda-se. estás em tudo. em todas as coisas. em todos os sentidos que confundo. em cada sonho. em cada pesadelo com a morte. nas fugas. nas corridas infundadas contra o tempo. em mim. apenas em mim insistes em estar. longe.
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Miragem doce não quero
acordar
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porque hoje fiz bolas de sabão
bolas de sabão
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O olhar dele fixou o decote generoso do vestido dela. E não tardou a que as mãos e a boca sedentas se lhes juntassem, na esteira, num delírio quente e suado que só as madrugadas de África entendem. Quando a fome se diluía, ele suspirava, cansado. Butterfly, minha Butterfly. Então, ela enroscava-se nele e, sem perceber aquele sussurro de homem branco, adormecia para despertar assim que os primeiros raios de sol visitavam a aldeia e ele já partira. Pretendentes não lhe faltavam, a ela que era a rapariga mais bonita do lugar. Os homens solteiros prometiam-lhe casa e filhos em troca do corpo, roupa lavada e comida na mesa. Os casados faziam-lhe juras de amor escondido, mas feliz. E ela desdenhava todas as promessas, baixando os olhos e levantando a ponta da única saia rodada que se lhe conhecia. Todos falavam da solidão daquela mulata. Como saciaria ela aquele fogo de coxas grossas e seios arrebitados, que punham a cabeça dos homens numa tempestade constante e aumentavam, de dia para dia, a cobiça de cobra venenosa das mulheres. Mas a rapariga sabia bem como, quando noite após noite, ele abria a porta e ela as pernas para receber aquele amor vindo do lado de lá do mar, com cheiro a papeis velhos e pólvora. Nunca ninguém o vira chegar, de livros debaixo dos braços cansados de empunhar armas. Era só dela esse homem que lhe prometia, de quando em vez, levá-la dali assim que as gentes da metrópole achassem por bem acabar com a guerra. E ela, entre aguardente e lágrimas de prazer, ia acreditando, recebendo-o sempre como a um filho que se julga morto e um dia regressa sem aviso prévio. Uma noite, o único candeeiro da aldeia acendeu-se e ele tardou. Ela abrira as coxas de par em par, mas a porta continuava fechada. E as horas passaram e do cheiro a papéis velhos e a pólvora restava apenas a memória da noite anterior. Butterfly, minha Butterfly. Recordava ela, num inglês feito quimbundo, já a madrugada ia longa, tentando em vão perceber aquelas palavras que agora lhe faltavam. Os dias passaram iguais às noites. E ele não chegava. O sono dela também se ausentara com o homem branco. Cada vez mais triste, mas com o vestido a apertar-lhe as formas que se mantinham imunes à dor da espera, a mulata não saia de casa. Arrumava a mesa, enchia a garrafa de aguardente todos os fins de tarde, tomava banho em essência de acácia e destrancava a porta. Até que uma manhã, a aldeia acordou em alvoroço. E desde então nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Dizem, porém, os pescadores, que a viram entrar no mar, de barriga empinada e sorriso nos lábios carnudos. Foi no dia em que a guerra acabou, ainda se conta hoje na venda. Naquele lugar sujo que, pouco depois, foi comprado por um branco meio louco que ouve ópera e sonha escrever um romance sobre uma tal de Butterfly.
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que o sangue escorra pelo meu corpo cansado e o corte não deixe cicatrizes que eu adormeça de súbito com um sorriso irónico no olhar cinzento que me embrulhem me queimem e atirem ao vento
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Troco as lágrimas Pelo sangue No frio da noite Unhas cravadas Na sombra O meu monstro Anda à solta Na escuridão Embalado no tic-tac Do relógio
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dor consentida em dia de chuva. escada de prédio velho às escuras. mulher a dias não entende minimalismo. paredes brancas em sala vazia propícias a sonhos de morte. sopro de clarinetista ecoa de pedras de calçada. consciência talvez deste lado de espelho.
há noites de sombra em que todas as metamorfoses sabem a morte de tarot. ao som de um silêncio improvável. no fear is allowed in this side of the barricade. inspirar é preciso. as flores de plástico cheiram a laranjas. falta magia às palavras. run as fast as you can.
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