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Lia Afonso

acpsm2@hotmail.com

Página inaugurada em 16/04/2006

Ultima actualização 14/06/2006

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17 Poemas Editados

- A Ericeira

- Aceito e fico

- Arco íris

- Caminhando

- Contra a vida

- Coragem

- Escrever

- Este combóio p'ra Aveiro

- Fim de um tempo

- O meu maior desejo

- Menina

- Menina das tranças...

- Não há caminho

- Porque vieste?

- Proximidade

- Sintonia

- Uma tarde à beira mar

 

Outros textos

 

- A "Voz do povo é Voz de Deus"

Palavras

Quadro de Lucy Berenguer

 

 

 

 

 

      
A Ericeira
 
A Ericeira...
Que teimosa feiticeira
tanto me chama e seduz !

...é um calor tão intenso, 
um céu de uma outra luz...

Uma casinha na encosta
Toda branca, a alvejar...
Por uma janela o sol,
Por outra janela o mar...

Um dia o amanhecer
Outro dia o sol a pôr...

Uma revista p´ra ler
Um gesto do coração,
e toda a alegria ali
Na concha da nossa mão...

Que feitiço, feiticeira!

Por este sonho se ama
Por este  sonho se vive.
O sonho me dá saudade
Da casinha  na Ericeira
que não tive.

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Aceito e fico

Venho de longe,
Venho da terra do Amor.
Trago comigo a luz 
De mil sóis que me iluminam.

Venho nua
Contrafeita,
Sem vontade de nascer.
Sem vontade de outro ser.
Sem vontade de perder
O Amor de que sou feita.

Choro  e tremo:
São os escolhos
Que meus olhos
Já adivinham.

Sinto frio,
E um desamor tão profundo.!
Sinto a negrura deste mundo
Onde nasci.
Mas aceito: fico aqui.

A luz deste  altar
Dentro de mim, no peito,
Ilumina o caminho
Por onde vou
Sem jeito,
cumprir meu tempo.
Por ele me arrasto, 
caio e me levanto.
Por ele me faço, 
Me nego.
Me defino, 
Sou!


2003

Ouça este poema declamado por João Moutinho
 

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Escrever

 
Escrever,
Chamando as  coisas com palavras outras,
Em símbolos e metáforas
Da emoção,
não é  evasão pura.

Escrever é redenção:
é construir um tempo novo 
feito de bocados de mim,
projectados,
sentidos,
mas transmutados 
na sucessão dos minutos
deste fluir que persigo.

Não sei de formas.
Não quero estilos,
Nem métricas.

O que eu quero, 
É o domínio do  tempo:
Prendê-lo na rede das ideias,
Para lhe roubar 
A alma do possível.
Dirigi-lo,
para me construir mais ser

Porque se a existência me ancora,
Só a criação me liberta!

Ouça este poema declamado por João Moutinho
 

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Este comboio p´ra Aveiro!

Já se avista, já se vê
E mal o dia amanhece,
Dos poucos que a gente tem
É o primeiro. Vem não vem,
É as sete e vinte e sete
este comboio prá Aveiro

Vai lento, vai devagar
Aqui e ali a  parar,
É estação, é apeadeiro.
-Vou subir. Há aí lugar?
-Não tem?  Isso  é vulgar
neste comboio p´ra Aveiro.

Tão pequeno e tão cheiinho
De gente que bem madruga
P´ra ganhar o seu dinheiro.
-Bom dia!  Olá,  Bom dia!
Toda a gente se conhece
Neste comboio p´ra Aveiro.

A grande algaraviada
A lembrar a chilreada
De pássaros em fim de dia - 
São os putos de Cacia
Que entram em debandada
Neste comboio prá Aveiro..

Olha a curva! Está a chegar!
- Já apita, vai parar.!
Quem  irá saltar primeiro?,
Ser mais rápido, ir à vida
Que começa cada dia
Neste comboio p´ra Aveiro.

Aveiro/ 1986

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Menina
 
Menina,
Mulher criada, crescida
De sonhos ao vento
Nascendo em segredo…

       Que bom tranças de oiro
       Com laços de céu!

Percorre caminhos
Em  passos de  dança!
E olha p´ro alto,
Sem medo do escuro.

       Distribui sorrisos,
       Planta flores.

Quando a vida rouba
O que quer p´ra si,
Seus olhos  molhados,
São  tristes, magoados,
Mas sempre  sorri.

Abre as mãos para a vida
Não é dona de nada.
Os sonhos  bonitos,
pelos  dedos  rotos
escoaram.

Olha  o céu de mil estrelas
Que  a cobrem de  luz
em  feixes de  esperança.

E faz-se teimosa de continuar sendo,
Mulher  feliz  por  sonhos crescendo.

Menina   sempre, 
Mulher na luta, 
Ferida,
Labuta  sem arredar pé.

Faz da vida  uma estrada
Com pedras e  estorvos 
Que ela  percorre
em passos enormes, 
de abandono e fé.

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Menina de tranças...
 
 
Menina de tranças loiras te sonhei.
Com a fé que a gente tem aos quinze anos,
Julgando toda a vida sem enganos,
Enamorei-me do sonho que  criei.

Nos silêncios das noites estreladas
Fazia-te mil perguntas ansiosas.
Lia o teu nome nas pétalas das rosas,
Ouvia-te, fim de tarde, de mãos dadas.

Busquei-te sempre. Nesta ânsia desmedida
E louca, de ter sempre amor na vida,
Fiz dela um longo correr vazio e tonto.

Dividi-me para matar meu sonho vão.
E quando julgo desfeita a ilusão,
E já não me possuo, é que te encontro

18-03-1962 

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Sintonia

Ah se eu pudesse como outrora,
Dizer em  sonetos loucos minha voz
Tão cheia de lembranças, tão plena
De sentires diversos mas tão sós.

Sou tua irmã na  mesma  luz matriz,
na ânsia desmedida com que  imploras.
Sou tua irmã na saudade de infinito,
sou tua irmã na cor das nossas horas.

Quem dera, minha irmã, ser na beleza
Que teus olhos viram aqui e em tudo,
Que sonhavam toda a paz do além, aqui.

Mas deixa-me seguir-te, ó minha estrela
E fugindo ao concreto que me cega,
Comungar da beleza que há em ti.

Janeiro/ 2006

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Porque vieste?

Julgava eu,  minha irmã, que  as lágrimas
Que ao tecer um poema, sem querer, vertia,
Eram   expressão de tristezas não contadas,
De que a  minha história  de menina se fazia.

Nunca te vi. Tão pouco te senti alguma vez  
Na luz  que sempre foste . Quando agora,
A meu lado te sei ,  vibrante e com mais paz
Fico sem saber o que  buscas nesta  hora.

Amei-te , é certo. Amei a poesia que tu eras
Na força dos versos  magoados  que  escrevias
Na ânsia  dum  infinito  confuso de quimeras.

Fui nessa mágoa tua irmã, porém, irmã menor
Na  arte e no verbo;  porque  as nossas sintonias
Eram, apenas, a busca de um Amor maior.

Ouça este poema declamado por João Moutinho
 

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Caminhando

 

Dona de um tempo

Que não me pertence

caminho…

Dentro do tempo

Faço longo meu caminho…

Tão longo

meu caminho tão pequeno…

Passo a passo,

Olho aquela meta

Ou eu não estou ainda…

Passo a passo,

Fujo de mim,

Para me encontrar

No sentido

Que retiro

desses passos…

Sempre longe e sempre perto.!

Sempre a caminhar!

 

2001

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Contra a vida

 

Contra a vida, nasci.

Contra os ventos, caminho.

Não há horizontes,

Nem sombras

Nem fontes

Na rua que sigo.

Não há camaradas.

Não há almas-gêmeas

Na rua vazia tão cheia de gente.

A seiva da erva

Em dias de Abril

É a minha força,

Que o verão só mais tarde vem.

Não me doem os pés

De afeitos à dor;

Mas não quero ficar

A olhar na distancia

Asas de sonhos voando no azul…

 

Contra o vento…mas vou.

Contra a vida….eu sou.

 

Ouça este poema declamado por João Moutinho

 

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O meu maior desejo

 

O meu maior desejo,

O único,

Era aquele diálogo

De palavras verdadeiras

Olhos nos olhos.

Rosto em epifania,

Desnudando,

Abrindo,

Dando,

O ser

na verdade de cada um.

Não importa o quê;

Não importa quem;

Não importa quando;

Não importa como;

Porque

Só desse mergulho na profundidade

Onde a autenticidade se esconde,

Emerge

O respeito,

A empatia

Com que se constrói

A relação interlocutiva

A que a gente

chama amor.

 

Março 1991

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Uma tarde à beira-mar
 
 
Era uma  tarde luminosa de domingo de Junho.
Deitei-me na relva  a sentir o sol,
sob a folhagem verde da magnólia do meu jardim.
Meu pensamento voou sem mim
Para a praia distante de  branco areal
De cheiro a maresia:
Iodo e sal.
Imaginei-te, absorto, a olhar.
E vi-te, olhos fechados, sonhando,
Sob o azul imenso do Céu                  
Sobre o azul imenso do Mar,! 
Vi-te  à aventura de um mundo novo que desejas.
Porque tens nas asas do teu sonho
A força que rasga todos os ventos  e tormentas.
Conheço a fé do teu olhar pró alto;
Conheço a certeza dos teus passos firmes
E o desafio desta liberdade que te dás,
Conheço a cor da esperança 
Com que tinges os teus  anseios mais  longínquos
Ou sonhas com  os pequenos  momentos  de paz..
Experimentas  na tua evasão todas as vertigens
No  espaço em branco da  tua ilusão .  
E voas cada vez mais alto,
Cada vez mais longe
E cada vez mais livre...
Longe, longe,  do Mar...
Mas  cada vez mais  perto do Céu..
Não desças as asas, não te ponhas  limites,
Plana  tranquilo  entre  tanto azul,,
Mas  não voes sozinho, leva-me contigo,
a par.
Não quero a tua mão, quero a tua força.
Se fores na dianteira, corta meu vento,
Mostra-me  o  norte,
E  com  teu carinho
ensina-me a voar…

Junho 2005
Ouça este poema declamado por João Moutinho
 

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Coragem

O susto da minha integridade em perigo,
Abala-me.
Cana frágil, 
eu sou. 
Ao vento da vida
Me exponho,
O enfrento,
E o afronto.
Me desiquilibro,
me assusto,
tremo.
Mas no entendimento
De que a vida 
É risco constante,
É tensão permanente de não-ser em perspectiva,
Respiro fundo
O ar que me dará mais alma.
Acredito na força de dentro de mim,
Que me faz 
capaz de  caminhar
em passo firme.
E continuo ao vento,
Porque ter coragem 
é seguir em frente
apesar de ter  medo.
Abril /2004

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Fim de um tempo

Naquela madrugada  fria de Janeiro,
Vieste, assustado beijo, de mim te despedir.
Era o fim do teu tempo, eu sei, mas desistias
De todos os nossos sonhos por cumprir.
Tanta saudade chorada no silêncio,
Tanto grito abafado de dor em solidão,
Tanta falta da tua ternura  carinhosa,
Tanto meu esforço de dolorosa aceitação.
Não sei se soube caminhar, depois, sem ti,
Ou se, sem a tua amiga compreensão,
Segui sempre o rumo do devido norte.
Na solidão, porém ,que foi a nossa vida,
Deste-me esta certeza com que  vivo,
De que o amor é  maior além da morte.

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NÃO HÁ CAMINHO
 
Quando a gente  começa
inda em criança,
da vida,
a caminhada 
sem apoios ,
sem  arrimos,
só com  a esperança da chegada;

quando a gente sobe
há  muito tempo,
por veredas perigosas;

quando a bruma  nos envolve
na brancura de vazios
e o norte de sentido,
se esconde …

quando já muitas vezes
se caíu,
e de joelhos em sangue
e as mãos feridas, 
se subiu pela encosta íngreme 
sem desfalecer,

não há  escalada,
nem atalho,
nem senda,
que tu, oh caminheiro!
não possas percorrer.

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Proximidade

A crescer , cheia de esperança, para a vida,
Fui tecendo sonhos ao longo dos meus anos, 
sem saber que ao nascer vinham comigo,
Dificuldades, tristezas, desenganos!

Sem desistir alguma vez de olhar em frente,
Sem nunca deixar que a fé se fosse embora,
Tentei construir cada dia um mundo novo,
Certa de que se pode melhorar a cada hora.

Se meus erros deram  mais  peso à minha cruz,
Ou se uma ou outra vez, saí do certo trilho
Que deveria  ser a minha rota já marcada,

Ó Pai eterno, neste meu percurso tão sofrido,
a cruel  injustiça  me aproxima agora de teu Filho,
porque como Ele, me sinto também, crucificada.

Maio /2000

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A "Voz do povo, é voz de Deus"

 

A "Voz do povo, é voz de Deus"

E será mesmo?

Quem não conhece provérbios e máximas como forma de expressão popular? Cá por mim, comecei a ouvi-los nos serões da minha Bairrada natal, quando, fazendo "contas à vida", a família reunia, noite dentro, tudo explicando através deles.

Se a noite ia alta, não fazia mal, porque "quem muito dorme, pouco aprende"; se se decidia o recolher cedo tal se justificava com o "deitar cedo e cedo erguer, dá saúde de faz crescer".

Nesse meu tempo de criança, o ritmo e a evidência dos provérbios como " branco é, galinha o põe" conquistavam-me; hoje, talvez porque se " o berço o dá, a tumba o leva", encantam-me estas ingénuas sentenças do povo sem deixar de me fazerem pensar nas suas implicações morais.

Acríticas, são por isso de tal modo atrevidas que até se chega a julgar que "a voz do povo, é a voz de Deus", sem se reparar que logo a contradição surge quando se afirma que " só fala quem tem que se lhe diga"e ainda que " quem desdenha quer comprar"

E como " quem muito fala pouco acerta" e " clama por honra quem a não tem", logo se vê, que estas coisas de falas e palavras, andam muito arredadas de interesses divinos. Estes não são tão mesquinhos que nos recomendem coisas como estas

" olha p´ró que eu digo, não olhes p´ro que eu faço".

Deus não precisaria destes mecanismos de defesa, nem de outros como este "chama-me antes que eu te chame a ti", pois só são precisos devido às tendências vesgas dos. Homens, visto que " vê-se melhor um argueiro no olho do vizinho do que a trave no nosso". Daí, o dever ter-se cuidado: " não digas mal do vizinho, que o teu vem a caminho".

Aliás, não são poucas as advertências populares:

" quem tem telhados de vidro não pode atirar pedradas" e " não faças aos outros, o que não queres que te façam a ti" . Mas apesar de tanto aconselhar que " não cuspas para o ar que ele pode cair-te em cima", há sempre gente convencida a quem tem de se avisar: " não digas desta água não beberei"

Tanta recomendação afinal, não consegue impedir os maus juízos dos homens e é por isso que, perante tanta maldade, se reconhece que " mais vale andar no mar alto que andar nas bocas do mundo". Porque nem quando se anuncia a justiça imanente à vida neste

" pela boca morre o peixe", se atenta nas palavras de Salomão: " o que abre a cova, cairá nela".

Em vão este saber moralista ensina que " é necessário afiar a língua na bigorna da verdade", porque " a mentira só dura, enquanto a verdade não chega" . Quer dizer que "a mentira tem perna curta" devendo ser por isso que " mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo".

No entanto, também acontece muitas vezes que " com a verdade me enganas", mas é só esperar que " atrás de tempo, tempo vem".

Quando, por acaso, são muitas as vozes e os ditos,

" mais as vozes do que as nozes", o saber popular depressa reconhece a inutilidade de tal falario, porque proclama que " para muita parra pouca uva" e logo nos manda desprezar tais vozes insensatas já que

" vozes de burro não chegam ao céu".

Mas para esta lógica mental e empírica, que é a sabedoria popular, para "grandes males, grandes remédios"; porém - consolo nosso! - " o que não tem remédio, remediado está". Claro que isto não significa desesperança, ou não se saiba que " Deus escreve direito por linhas tortas".

Esta certeza garantiria que o bem superaria sempre o mal, devendo ser por isso que " vale mais quem Deus ajuda que quem muito madruga". Mas afinal, não garantirá assim muito, e por conseguinte, nada de confiar de mais: " é preciso confiar como se Deus fizesse tudo, mas trabalhar como se Deus não fizesse nada".

È preciso trabalhar, mas não só, já que " no poupar é que vai o ganho e não no casar cedo". Nestas coisas de ganhos, este saber denuncia a ambição e logo a critica " quem tudo quer tudo perde", e denuncia o valor do risco, pois "quem não arrisca não petisca". No entanto, à cautela, sempre vai aconselhando que

" vale mais um pássaro na mão do que dois a voar".

Não parece que se interesse muito pela forma de agarrar o pássaro, ou seja, os meios - e tal me parece merecer reflexão, porque diz que " os fins justificam os meios"

E ele há por aí tanta justificação, que até " ladrão que rouba a ladrão, tem cem anos de perdão". Tudo depende, pois, dos fins, das intenções. Mas atenção, se o meio de obter a coisa, for a oferta, nada de indelicadezas, porque " a cavalo dado, não se olha o dente", embora seja conveniente que a oferta tenha valor, senão " um dado ruim suja duas mãos".

Não parece muito positiva a experiência popular em termos de dádivas, porque é sabido que " se a esmola é grande , o pobre desconfia". Nestas circunstâncias, o pobre já foi, ou está para ser, enganado. Uma das hipóteses de saída é o pobre saber que " se não puderes ser rico, sê amigo de um rico" . Pode subir de pobre a rico. Mas esta filosofia é impiedosa: mal acaba de aconselhar a colagem e logo vem ameaçar que " quanto mais alto se sobe, maior é o tombo".

Sendo assim, não vale a pena alguém colar-se, até porque nestas coisas, " quem bem fizer a cama, bem se deita nela" e por outro lado o cuidado nos tombos é para todos, porque só " ao menino e ao borracho, lhe põe Deus a mão por baixo".

Os adultos não têm qualquer protecção, isto é, " quem vai à guerra dá e leva". As guerras dos adultos são assim " olho por olho, dente por dente". São vingativas e sobretudo sádicas, porque " quem com ferros mata, com ferros morre".

Os homens têm, portanto de se prevenir, primeiro, porque " homem prevenido vale por dois" e segundo, porque sempre " mais vale prevenir do que remediar".

Não há nada a fazer: os homens são assim e são-no desde que nascem, porque " quem nasce torto, tarde ou nunca, se endireita".

Visão pessimista, apesar de na sua pedagogia acreditar na educação, pois " de pequenino se torce o pepino".

Onde eu não sei mesmo se a filosofia popular tem toda a razão, é quando afirma, de forma muito céptica e categórica, que os homens não têm recuperação possível, visto que em sentido figurado embora, diz que " burro velho não aprende línguas" ou o que é o mesmo" burro velho não vai a caminho" ou como dizia o meu avô: " não se pode lavar a cara a burros negros".

Será que é de acreditar em tais sentenças?

Será de acreditar também que " filho de peixe sabe nadar" e que " diz-me com quem andas dir-te-ei quem és"?’

Fico sem saber, se o peixe nada, porque tem guelras, ou se nada porque vive na água. Tanto poderá ser por uma razão ou por outra. Ou pelas duas. E quando tudo pode ser, sabemos que tudo pode não ser.

Onde reconheço muito forte a filosofia popular é nas evidencias ingénuas:" quem de novo não vai, de velho não escapa", porque para as decisões que preciso tomar, de pouco me vale.

Se eu me cansasse, mas " quem corre por gosto não cansa" a analisar provérbios, iria sempre esbarrar com múltiplas ambiguidades e contradições como as que encontro em " a mulher e a sardinha quer-se da mais maneirinha" e " a mulher e pescada quer-se da mais encorpada".

Sem ensinar que escolher, tão pouco me dá critérios, até me manda que não hesite, pois me avisa que " quem muito escolhe pouco acerta" . Mas eu poderia escolher muitos outros, que não sairia das minhas preocupações de verdade.

O melhor mesmo é achar-lhes graça e encontrar a ironia em máximas deste tipo: " é mais fácil transportar uma galinha que traze-la à trela" ou descobrir a poesia " no perfume das mãos que oferecem rosas ". Isto mesmo admitindo alguma verdade no que adverte que " o nosso maior inimigo é o oficial do mesmo ofício", pois que na competição só " quem tem unhas toca guitarra"…

Mas parece que para meu governo – ó serões da minha infância, onde se deitava contas á vida! -será que esta voz do povo que todos os dias me chega, é de facto uma voz de Deus? Será?

Ou não passam estas sentenças em que tanto se justificam atitudes, de " letras tortas" tão tortas que não valem mais do que "letras mortas"?

 

"Escrever na Areia

Por Adosinda Marques

In O Povo de Cortegaça Nº 124 - 01-08-1987"

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Arco-íris


Reflexo cristalino da luz rosa amor

Na pureza oblativa de uma ajuda irmã;
 

Energia de mar de mil ondas dissolvidas,

Cor de sons vibrantes de Elgar em sinfonia;
 

Luz de força de verdes árvores serenas

Nas colinas douradas do sol ao entardecer.
 

Brilho argênteo de justiça subtraído ao céu

Amarelo de ouro entendimento, doce e claro.
 

Do anil que se expande no ar, o tom luminoso

que tinge de calma a sabedoria e a prudência.
 

Longe no espaço, nesta lonjura sem distância

Existes em luz. Sem cuidar saber de ti,
 

És o espectro do arco- íris que vem beijar-me

Se me dizes sem palavras: irmã, estou aqui…

 

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